De iudiciis astrorum (Tomás de Aquino)

Pintura do século XVII de um frade dominicano em oração, presumivelmente Tomás de Aquino, do círculo de Peter Paul Rubens.

De iudiciis astrorum (lit. "Sobre o juízo dos astros") é uma breve carta escrita pelo santo católico Tomás de Aquino a seu amigo Reginaldo de Piperno, na qual aborda o tema das especulações astrológicas.

Conteúdo

O texto inicia afirmando seguir o ensinamento dos Padres da Igreja. Citando São Agostinho,[1] Tomás de Aquino começa por reconhecer a influência dos corpos celestes sobre os eventos naturais sublunares. O teólogo sustenta que recorrer aos astros não constitui um mal quando tal investigação se limita aos aspectos físicos da natureza, assim como os agricultores consideram os movimentos celestes ao escolher o momento oportuno para realizar determinados trabalhos, os navegantes fazem o mesmo ao decidir os dias em que devem zarpar, e os médicos os levam em conta no tratamento de seus pacientes.[2] Nesse ponto, Tomás de Aquino afasta-se de Agostinho, que havia condenado o recurso à investigação astral também nesses casos.[3]

O autor adverte, porém, contra o caráter ilícito e falacioso da consulta aos astros com a finalidade de conhecer ou predizer as ações humanas, visto que o livre-arbítrio não se encontra sujeito à influência dos corpos celestes.[2]

Mas uma coisa deve ser absolutamente certa: a vontade humana não está sujeita à necessidade dos astros. Se assim fosse, o livre-arbítrio desapareceria, e, sem ele, não poderíamos atribuir mérito às boas ações nem culpa às más. Por isso, todo cristão deve sustentar com a máxima firmeza que as coisas que dependem da vontade humana—isto é, todas as operações humanas—não estão sujeitas à necessidade dos astros.[2]

Tomás de Aquino prossegue mencionando a possibilidade de que os demônios intervenham nos resultados das investigações astrológicas, o que faria com que tais previsões fossem fruto de um pacto implícito ou explícito com o mal e, portanto, constituíssem uma prática "execrável" e gravemente pecaminosa.[2] Em consonância com o Comentário literal ao Gênesis de Agostinho e com o De doctrina Christiana, Tomás afirma que as predições astrológicas que aparentam exatidão não passam de artifícios demoníacos e devem ser rejeitadas.[4]

Contexto histórico e legado

O De iudiciis astrorum foi redigido entre 1269 e 1272, segundo Bartolomeu de Luca,[5] durante a segunda regência de Tomás de Aquino em Paris, e provavelmente se destinava a Reginaldo de Piperno.[2] Sua composição é contemporânea à da Secunda Secundae da Summa Theologiae, na qual Tomás condena de modo contundente a astrologia e a adivinhação nas questões 92–95.[6]

A obra está estreitamente vinculada ao De sortibus do mesmo autor, já que ambos os textos foram escritos no contexto de um prolongado período de sede vacante papal, coincidente com a recente morte do bispo de Vercelli. O impasse na eleição de seu sucessor, para a qual se propôs recorrer ao sorteio, pode ter servido de estímulo para a redação de ambos os escritos. Os conflitos na Universidade de Paris decorrentes das Condenações de 1210–1277, nas quais os aristotélicos foram acusados de negar a universalidade da Divina Providência e de ensinar o determinismo, também podem ter despertado o interesse de Tomás por tais questões.[7] De fato, uma das proposições condenadas em Paris afirmava que “nossa vontade está sujeita ao poder dos corpos celestes”, e o mestre de Aquino, Alberto Magno, já havia desenvolvido amplamente a tese da influência dos fatores cósmicos sobre as características físicas dos recém-nascidos.[8]

O recurso à astrologia para fins de navegação, medicina e agricultura como motivo legítimo para a consulta dos astros foi incluído na regra IX do Index Librorum Prohibitorum, ainda que não haja menção explícita à obra de Tomás.[6]

Ver também

Referências

Bibliografia

Ligações externas