Gustavo Corção

Gustavo Corção
Nome completoGustavo Corção Braga
Nascimento
Morte
6 de julho de 1978 (81 anos)

NacionalidadeBrasileiro
ProgenitoresMãe: Gracieta Corção
Pai: Francisco Braga
Alma materEscola técnica do Exército (atual IME)
OcupaçãoEngenheiro
Escritor
Jornalista
Professor
PrémiosPrêmio de Literatura (UNESCO) - 1954[1]
Prêmio de Literatura do IBCC - 1953[1]
Condecoração da Ordem do Rio Branco[2]
Magnum opusLições de abismo
ReligiãoCatolicismo

Gustavo Corção Braga (Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1896Rio de Janeiro, 6 de julho de 1978) foi um escritor, cronista, memorialista, romancista, engenheiro, ensaísta e jornalista brasileiro. Autor de diversos livros sobre política e conduta, escreveu também um romance. Foi um dos principais expoentes do pensamento católico integrista, nacionalista e conservador tradicionalista no país.

Escreveu para jornais como Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias e O Estado de S. Paulo.[3] Seu único romance, Lições de abismo, é considerado por muitos críticos literários e, especificamente, pelo poeta Menotti del Picchia, como sendo "[...] maior livro de ficção que já se escreveu no Brasil" e foi premiado pela UNESCO em 1954. A sua obra é influenciada pelo Distributismo e pela apologia católica de Chesterton, como detalhado em seu ensaio Três Alqueires e uma Vaca. Outra influência importante em seu pensamento foi o filósofo Jacques Maritain.[4]

Como escritor, Corção foi amplamente admirado por nomes como Antonio Olinto, Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues e Manuel Bandeira.[5][6][7][8][9]

Biografia

Gustavo Corção foi filho de Francisco Braga, contador, e Gracieta Corção, costureira. A sua mãe ficou viúva com cinco filhos quando ele ainda era criança e se dedicou a criá-los.[10]

Iniciou seus estudos no Colégio Corção, fundado por sua mãe na Tijuca, e posteriormente ingressou no antigo Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), onde completou o ensino secundário Em 1913, matriculou-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (atual Faculdade de Engenharia da UFRJ), formando-se em 1920. Aos 23 anos, trabalhou em Ponta Porã, Mato Grosso, em serviços de Astronomia de Campo, desenvolvendo um método para determinação de latitudes. Posteriormente, atuou em radiocomunicações, indústria eletrônica e telecomunicações.

Seus primeiros destaques ocorreram desde cedo: aos dez anos já lecionava aritmética, cobrando dez mil contos de réis; nos esportes, venceu um concurso de salto e praticava esgrima; nas artes, aprendeu piano, violino e pintura; se dedicou também ao xadrez, somando quinze vitórias consecutivas em campeonatos nacionais, embora tenha precisado abandonar a partida final, quando a vitória era quase certa[11].

Além de sua carreira literária, Corção estudou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro e atuou como professor e jornalista, contribuindo com artigos e ensaios sobre temas culturais, educacionais e religiosos em diversos veículos de comunicação. Como jornalista e analista político, foi um forte opositor da construção de Brasília, a qual classificou como um ato de "demofobia" e uma "Ideia de Faraó" em artigos publicados na Tribuna da Imprensa e no Diário de Notícias.[12] Influenciado por teóricos contrarrevolucionários franceses, como Louis de Bonald, Charles Maurras, Joseph de Maistre e Augustin Barruel, caracterizados pelo anticomunismo e pela crítica a teologia da libertação — tendo Dom Hélder Câmara com alvo frequente — assim como à música popular brasileira, promoveram a defesa de uma reação contrária à Modernidade e do restabelecimento de uma teocracia católica.[13] Gustavo Corção posicionou-se contra o projeto de construção de Brasília, o chamado "escândalo telefônico" e o liberalismo econômico.

Em 1924, casou-se com Diva Cruz Paiva, com quem teve dois filhos: Rogério e Mabel. Após a morte de sua esposa em 1936, iniciou um processo de reconversão ao catolicismo.[14] Mais tarde, casou-se com Hebe Nathanson Ferreira da Silva, com quem teve quatro filhas: Margarida Maria, Maria Luísa, Maria Lúcia e Maria Teresa.[15] Estreou em livro com A Descoberta do Outro (1944), seguido de Três alqueires e uma vaca (1945), Lições de abismo (1950, traduzido para vários idiomas), As fronteiras da técnica (1951), Dez anos (1956) e O século do nada (1973), consolidando sua influência no pensamento católico conservador e no jornalismo literário.[16]

A morte de sua esposa, em 1936, marcou uma profunda crise existencial, durante a qual Corção recebeu de colegas os livros A Esfera e a Cruz, de G. K. Chesterton, e Reflexões sobre a Inteligência e sobre sua Vida Própria, de Jacques Maritain. A leitura dessas obras, somada ao impacto do luto, o levou a uma aproximação crescente do catolicismo, influenciando sua trajetória intelectual e espiritual. Em 1939, conheceu Alceu Amoroso Lima, presidente do Centro Dom Vital fundado por Jackson de Figueiredo, e iniciou estudos em filosofia tomista. Se tornou oblato no Mosteiro de São Bento e passou a escrever para a revista A Ordem[17], período que marcou formalmente o início de sua vocação literária.

Formado engenheiro, Corção só alcançou notoriedade aos 48 anos, ao publicar o livro A Descoberta do Outro, narrativa autobiográfica sobre sua conversão ao catolicismo, influenciado por Alceu Amoroso Lima. Apaixonado por eletrônica, atuou na Escola Técnica do Exército, atual Instituto Militar de Engenharia. Sua dedicação à música sacra o levou a estudar e interpretar o órgão Hammond, instrumento que se tornou uma de suas paixões, tanto pela engenhosidade de sua construção quanto por sua sonoridade.

Ainda jovem, Gustavo Corção perdeu a e se aproximou de ideias comunistas, mantendo amizades com simpatizantes do movimento em sua casa; após a morte de sua esposa Diva Cruz Paiva, a qual exercia forte influência religiosa sobre ele, passou por uma crise espiritual que culminou em sua conversão ao catolicismo, relatada em seu livro A Descoberta do Outro (1944).

Como professor, lecionou Eletrônica Aplicada às Comunicações na Escola Técnica do Exército, na Companhia Telefônica Brasileira e na Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil (atual UFRJ).[18]

Sua produção literária e estilo foi considerado por Oswald de Andrade "à altura de Machado de Assis",[1][19] autor que o inspirou a produzir e publicar uma antologia.[20] Em 1963, seu nome circulou como um dos possíveis indicados ao Prêmio Nobel de Literatura, ao lado de Jorge Amado, Guimarães Rosa e Gilberto Freyre.[12] Em 1965, Manuel Bandeira chegou a propor Corção para o Prêmio Nobel de Literatura.[21]

Sobre Gustavo Corção, Raquel de Queirós afirmou em 1971: “A maioria dos brasileiros conhecem duas faces de Gustavo Corção. Uma, a do escritor exímio, a usar como ninguém a língua portuguesa, o autor que, vivo ainda, graças a Deus, é um indiscutível clássico da literatura nacional. [...] A segunda face é a do anjo combatente, de gládio na mão, a castigar os impostores que vivem a gritar o nome de Deus e da Sua Igreja, não para os louvar, antes para apregoar na feira inocente-útil do ‘progressismo’.[6]

Tristão de Athayde, em depoimento sobre a morte do amigo, disse que Corção "era o único escritor da literatura moderna, na linha de Machado de Assis. Era um límpido machadiano. Tinha o que se chama de 'senso de humor', à inglesa."[22]

Foi líder no Centro Dom Vital até o rompimento com Alceu Amoroso Lima em 1963, quando fundou, em 29 de setembro de 1968, o movimento e a revista Permanência.[23][24]

O pensamento de Gustavo Corção se caracteriza por uma postura política conservadora, crítica ao modernismo católico e favorável ao diálogo com a esquerda da época, representada por figuras como Alceu Amoroso Lima e Sobral Pinto, além da defesa do tradicionalismo litúrgico e doutrinário, o que o colocou em antagonismo com autoridades eclesiásticas após o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII e encerrado pelo Papa Paulo VI.[25][26]

Suas polêmicas com católicos progressistas e com a esquerda ocorreram em jornais de grande circulação, como O Globo, Rio de Janeiro  e O Estado de S. Paulo .[27]

Foi membro da antiga União Democrática Nacional (UDN).

Nos últimos anos de sua vida, Gustavo Corção revisitou e criticou posições antigas, especialmente no livro O Século do Nada (1973), fazendo retratações sobre temas políticos e sociais, reafirmando o seu compromisso com a tradição católica e defendendo ardentemente o franquismo de Francisco Franco e o falangismo de José António Primo de Rivera. Até seu falecimento, continuou escrevendo artigos e ensaios, deixando inacabado um manuscrito em francês intitulado Petit Traité sur l'Amour Propre (Pequeno Tratado sobre o Amor-próprio)[28], demonstrando seu interesse contínuo em refletir sobre a natureza humana, a moral e a crise da civilização moderna.[29]

Apoio ao golpe de 1964

Gustavo Corção apoiou o golpe militar de 1964, pois acreditava que o governo de João Goulart abriria as portas para o comunismo no Brasil, ameaçando a democracia e as liberdades individuais, incluindo a liberdade religiosa.[25] Christiane Jalles de Paula, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e autora de uma tese de doutorado sobre sua obra, afirma: "Ele defendeu posições cada vez mais duras contra aqueles que considerava comunistas. Suas críticas a Alceu Amoroso Lima, a Sobral Pinto e a Carlos Lacerda o afastaram, inclusive, desses aliados ideológicos na segunda metade da década de 1960 e primeiros anos de 1970".[30]

Ainda de acordo com Christiane Jalles de Paula, Corção continuou defendendo a ditadura como um "mal menor", apesar de demonstrar preocupações com o caráter possivelmente "revolucionário" do governo Castelo Branco:[31]

"Devo dizer-lhe que não sou grande admirador desse governo. Disse que os militares salvaram o Brasil de uma invasão comunista, mas não disse que daí por diante governaram bem. A mágoa que tenho é contrária a sua: acho que eles foram tímidos e quiseram entrar depressa demais no terreno da legalidade. Os atos institucionais, que os militares tiveram a má ideia de encomendarem aos mais ilustres juristas, na minha opinião, são ruins. Para mim, o governo atual é provisório e como que intermediário. E procuro julgar seus atos mais pelos proveitos revolucionários do que pelo teor de regularidade jurídica. Pensando assim estou convencido de estar desejando o bem máximo para o Brasil." - Disse Corção[32]

Em 1964, Corção acreditava que a intervenção seria temporária, contudo reconsiderou sua posição e, mais tarde, passou a apoiar até mesmo a corrente chamada linha-dura contra a ditadura.[31]

Obras

  • A Descoberta do Outro (1944)
  • Três Alqueires e Uma Vaca (1946)
  • Lições de Abismo (1950) (Romance)
  • As Fronteiras da Técnica (1954)
  • Dez Anos (1956)
  • Claro Escuro (1958)
  • Machado de Assis (1959)
  • Patriotismo e Nacionalismo (1960)
  • O Desconcerto do Mundo (1965)
  • Dois Amores, Duas Cidades (1967)
  • A Tempo e Contra-tempo (1969)
  • Progresso e Progressismo (1970)
  • O Século do Nada (1973)

Obras Póstumas:

  • Conversa em Sol Menor (1980)
  • As Descontinuidades da Criação (1992)
  • Gustavo Corção Tomista (2012)
  • Uma Teologia da História (2015)
  • A Igreja Católica e a Outra (2018)

Fontes

  • Biografia e bibliografia detalhada, além de vários textos do ilustre escritor católico, BR: Permanência .
  • de Assis, Machado, Corção, Gustavo, ed., Romance, Nossos Clássicos, Rio de Janeiro: Agir .
  • Santos, Ivanaldo, «O Tomismo de Gustavo Corção» (PDF), Aquinate, Estudos, 11 (3) .
  • Braga, Marta (2000), Lições de Abismo: Vida, Obra y Pensamiento de Gustavo Corção, thèse doctorale, Université de Navarre, Pampelune
  • PAULA, C. J. DE. (2012), Conflitos de gerações: Gustavo Corção e a juventude católica (Generation conflict: Gustavo Corção and Catholic Youth). HORIZONTE - Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 10, n. 26, p. 619-637, 3 jul. 2012.
  • PAULA, C. J. DE (2013), A descoberta da “Outra”: Gustavo Corção e a recepção do Concílio Vaticano II

O acervo pessoal de Gustavo Corção, com correspondências e recortes de periódicos, foi doado à Biblioteca Nacional por sua esposa, Hebe Corção, em 26 de outubro de 1992, e encontra-se na seção de Manuscritos.[12]

Referências

  1. a b c O bom combate: Gustavo Corção na imprensa brasileira (1953-1976), p.72, ISBN-10: 8522515530, Editora FGV
  2. 'Permanecer em mim' e no meu 'itinerário': as interfaces do integrismo católico na trajetória dos intelectuais do grupo Permanência na França (1975-1989), USP, p.44
  3. «Gustavo Corção». UOL 
  4. O bom combate: Gustavo Corção na imprensa brasileira (1953-1976), p.42, ISBN-10: 8522515530, Editora FGV
  5. Olinto, Antônio, «O Espaço do Autor» [The Space of the Author], BR: Academia, Tribuna da Imprensa 
  6. a b de Queirós, Raquel (novembro de 1971), «O amigo», Permanência 
  7. Suassuna, Ariano (1971), «Gustavo Corção e Eu» [Gustavo Corção e Eu], Permanência (edição comemorativa do 75° aniversário de Gustavo Corção) .
  8. Skidmore, Thomas E.; Freyre, Gilberto; Horton, Rod W. (outubro de 1971). «Order and Progress: Brazil from Monarchy to Republic». The American Historical Review (4). 1243 páginas. ISSN 0002-8762. doi:10.2307/1849394. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  9. «Prezado amigo Corção | Permanência». permanencia.org.br. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  10. Braga, Marta (2017). Lições de Gustavo Corção. [S.l.]: Quadrante. p. 17 
  11. Valadares, Pedro (27 de janeiro de 2022). «Gustavo Corção – vida e obra». Clube do Português. Consultado em 13 de janeiro de 2026 
  12. a b c Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas BN-Corcao
  13. Compagnon, Olivier (17 de dezembro de 2008). «Le 68 des catholiques latino-américains dans une perspective transatlantique». Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Nouveaux mondes mondes nouveaux - Novo Mundo Mundos Novos - New world New worlds (em francês). ISSN 1626-0252. doi:10.4000/nuevomundo.47243. Consultado em 7 de novembro de 2025 
  14. «Biografia de Gustavo Corção Braga». Consultado em 7 de outubro de 2025 
  15. Melhores crônicas Gustavo Corção. [S.l.]: Global  Parâmetro desconhecido |prefácio= ignorado (ajuda)
  16. «Biografia de Gustavo Corção Braga». Consultado em 7 de outubro de 2025 
  17. «Revista A Ordem, 1949, p. 3» (PDF). Consultado em 7 de outubro de 2025 
  18. Melhores crônicas Gustavo Corção. [S.l.]: Global  Parâmetro desconhecido |prefácio= ignorado (ajuda)
  19. Queirós, A (27 de julho de 2004), «Uma crônica sobre Gustavo Corção ou rompendo a conspiração do silêncio», Oito Colunas .
  20. (de Assis)
  21. O Desconcerto do Mundo, Agir, 1965 Leia a carta de Manuel Bandeira, propondo Corção para Prêmio Nobel por este livro.
  22. Veja, edição 514, de 12 de julho de 1978
  23. «Permanência | "Permanecei em mim e eu permanecerei em vós" (Jo XV)». permanencia.org.br. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  24. «Centro Dom Vital - liderança de Corção.». Consultado em 29 de outubro de 2023 
  25. a b RBH (PDF), 32 (63), BR: Scielo, p. 8 .
  26. Permanência, BR .
  27. «Gustavo Corção e o compromisso com o eterno». Jornal Opção. 25 de julho de 2018. Consultado em 2 de março de 2020 
  28. «Bibliografia comentada | Permanência». permanencia.org.br. Consultado em 7 de novembro de 2025 
  29. «Bibliografia comentada de Gustavo Corção». Consultado em 7 de outubro de 2025 
  30. «Gustavo Corção: o Olavo de Carvalho (sem os palavrões) dos anos 1960». Gazeta do Povo. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  31. a b Revista Brasileira de História, On-line version ISSN 1806-9347, Rev. Bras. Hist. vol.32 no.63 São Paulo  2012, DOSSIÊ: IGREJA E ESTADO
  32. Corção, G. Arquivo Privado. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, seção manuscritos, s.d. Carta endereçada a Sobral, 29 jun. 1966.

Siqueira, J. D. (4 de setembro de 2019). «Intelectuais Brasileiros». Biblioteca Nacional do Brasil. Consultado em 7 de outubro de 2025  Texto " Gustavo Corção, onde tudo é amor" ignorado (ajuda); Parâmetro desconhecido |name= ignorado (ajuda)

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