Paulo Mercadante
| Paulo Mercadante | |
|---|---|
| Nome completo | Paulo de Freitas Mercadante |
| Nascimento | 23 de junho de 1923 |
| Morte | 20 de maio de 2013 (89 anos) |
| Nacionalidade | |
| Magnum opus | A coerência das Incertezas: símbolos e mitos na fenomenologia histórica luso-brasileira |
Paulo de Freitas Mercadante (Carangola, 23 de junho de 1923 – 20 de maio de 2013) foi um filósofo, jurista, sociólogo, historiador e crítico literário brasileiro[1], conhecido sobretudo pelo livro A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira, considerado um clássico da historiografia nacional.[2][3][4]
No livro, o autor investiga as origens, a formação e as particularidades do conservadorismo brasileiro, cujo traço distintivo seria o seu caráter conciliatório.[5]
Juntamente a Miguel Reale, a Djacir Menezes e a Antonio Paim, integrou a chamada Escola Culturalista, que encontrou sua materialização no Instituto Brasileiro de Filosofia.[6]
| Parte da série sobre |
| Conservadorismo no Brasil |
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Biografia
Oriundo de uma família de humanistas italianos, da qual também proveio o músico Saverio Mercadante[7], concluiu em sua cidade natal o curso ginasiano, durante o qual iniciou suas atividades jornalísticas com o semanário O Ariel, fundado e mantido em colaboração com seus colegas de classe. Terminado o serviço militar, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde matriculou-se na Faculdade Nacional de Direito. Ao longo de sua vida acadêmica, associou-se ao Partido Comunista Brasileiro e participou intensamente do movimento estudantil, tendo chegado a presidir o Cento Acadêmico Luís Carpenter.
Diplomado em ciências jurídicas e licenciado em história e geografia[8], dedicou-se ao magistério até 1951, lecionando diversas disciplinas, em especial filosofia e latim[9]. À procura de novos rumos profissionais, passou a exercer a advocacia nos ramos civil e comercial e a escrever a vários jornais, entre os quais o Correio da Manhã, O Globo e a Folha de S.Paulo.
Nos anos sessenta, organizou, revisou e publicou, junto a Antonio Paim e em edição oficial do Ministério da Educação e do Instituto Nacional do Livro, os Estudos de Filosofia, de Tobias Barreto[10]. É nesta década em que publica seu primeiro e mais célebre livro, A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira, que Antonio Olinto recebeu como ''um aferimento denso e tranquilo da situação brasileira de ontem e, até certo ponto, de hoje”.[11] A tese fundamental do livro é a de que o conservadorismo brasileiro, longe de uma tradição intelectual, seria, na verdade, uma atitude pragmatista frente a circunstâncias históricas variáveis, que exigiriam a harmonização de fenômenos aparentemente contraditórios.
Visando ao aperfeiçoamento de sua formação científica, empenhou-se, da década de 60 em diante, em estudar as ciências naturais, com enfoque na física, concentrando-se sobretudo na reflexão em torno do princípio da incerteza de Heisenberg, que norteará a formulação da problemática de sua obra subsequente.
No início dos anos setenta, reassume o curso de suas pesquisas - iniciadas na adolescência - sobre a Mata Mineira, o que resultará no livro Os Sertões do Leste, uma tentativa de traçar o perfil histórico-cultural da região. Dois anos após a publicação de seu terceiro livro, Mercadante, então correspondente internacional em Portugal, publicará Portugal: Ano Zero, um relato jornalístico da Revolução dos Cravos.[12]
Na década de noventa, atuou como organizador do livro A Constituição de 88: o Avanço do Retrocesso, coleção de ensaios críticos à Carta Magna, escritos por intelectuais conservadores e liberais, como José Guilherme Merquior e Ives Gandra Martins[13]. Em 1993, Mercadante voltou-se para a crítica literária com o ensaio Graciliano Ramos: o Manifesto do Trágico, em que, a partir dos diários deixados pelo escritor alagoano, tentou estabelecer paralelos entre a biografia e a obra do autor de Vidas Secas, enquadrando-o numa análise conjuntural da influência comunista sobre a cultura brasileira.[14]
A criação intelectual de Mercadante atingirá um ponto alto com o livro A Coerência das Incertezas, no qual, de uma perspectiva mais filosófica e pessoal, aprofunda e refina teses anteriormente desenvolvidas, numa tentativa de apreender o fenômeno histórico luso-brasileiro transposto ao seu plano simbólico.[15]
Foi membro-fundador da Academia Brasileira de Filosofia[16] e colaborador da Revista Brasileira de Filosofia.
Influência e recepção
Não obstante pouco estudada no mundo acadêmico, a obra de Mercadante, principalmente o ensaio A Consciência Conservadora no Brasil, dito ''modelar em seu gênero'' por Luís Washington Vita[17], influenciou alguns dos mais importantes intelectuais brasileiros dos fins do século XX. O economista Roberto Campos afirmou que as lições do autor abriram-lhe ''novos caminhos''[18], e o escritor Olavo de Carvalho, admirador da obra do sociólogo mineiro[19], admitiu ter Mercadante moldado sua trajetória pessoal.
O acadêmico Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves argumenta, no entanto, que a obra de Mercadante carece de ''rigor científico'', e que por esta razão se trata, antes, de uma ''elaborada construção ideológica que até busca o argumento histórico, mas que se confrontada com a realidade se mostra sem respaldo histórico'', pois fracassa em explicar as contradições sociais imanentes da história brasileira.[2][20]
Obras
- A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira. Rio de Janeiro: Saga. 1965.
- Tobias Barreto na Cultura Brasileira, uma reavaliação (em colaboração com Antônio Paim). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 1972.
- Os Sertões do Leste, Estudo de uma região: A Mata Mineira. Rio de Janeiro: Zahar. 1973.
- Portugal, Ano Zero. Rio de Janeiro: Arte-Nova. 1975.
- Militares e Civis: a Ética e o Compromisso. Rio de Janeiro: Zahar. 1977.
- Crônica de uma Comunidade Cafeeira, Carangola: O Vale e o Rio. Belo Horizonte: Itatiaia. 1990.
- A Constituição de 1988, o Avanço do Retrocesso (como coordenador). Rio de Janeiro: Fundo. 1990.
- Graciliano Ramos, o Manifesto do Trágico. Rio de Janeiro: Topbooks. 1993.
- A Coerência das Incertezas: Símbolos e Mitos na Fenomenologia Histórica Luso-Brasileira. São Paulo: É Realizações. 2001.
- Da Aventura Pioneira ao Destemor à Travessia. Belo Horizonte: Itatiaia. 2003.
- Das Casernas à Redação: A Era de Turbulências. Rio de Janeiro: UniverCidade. 2004.
- Tobias Barreto: O Feiticeiro da Tribo. Rio de Janeiro: UniverCidade. 2006.
Ver também
Referências
- ↑ Coutinho, Afrânio; Sousa, José Galante de; Coutinho, Graça; Botelho, Rita Moutinho (2001). Enciclopédia de literatura brasileira 2a edição revista, ampliada, atualizada e ilustrada sob a coordenação de Graça Coutinho e Rita Moutinho ed. São Paulo: Global editora Fundação Biblioteca nacional
- ↑ a b Agnes Silva Pereira (2019). «CONCILIAÇÃO E CONSERVADORISMO: UMA ANALISE DE CONSCIÊNCIA CONSERVADORA NO BRASIL» (PDF). Universidade Federal de Juiz de Fora - Instituo de Ciências Humanas. Consultado em 19 de agosto de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 19 de agosto de 2025
- ↑ Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves, Rodrigo (setembro de 2013). «A Consciência conservadora no Brasil, de Paulo Mercadante, uma obra clássica do conservadorismo brasileiro» (PDF). Revista História e Luta de Classes. Consultado em 19 de agosto de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 2013
- ↑ Ribeiro, Cláudio (3 de junho de 2017). «"Em política, até a raiva é combinada": Paulo Mercadante e nossa tradição conciliatória – Parte 1». Jornal Opção. Consultado em 28 de agosto de 2025
- ↑ Queiroz, Suely Robles Reis de (29 de junho de 1970). «Resenha de: A consciência conservadora no Brasil». Revista de História (82): 474–474. ISSN 2316-9141. doi:10.11606/issn.2316-9141.rh.1970.129009. Consultado em 20 de agosto de 2025
- ↑ «Wayback Machine» (PDF). cbpfindex.cbpf.br. Consultado em 20 de agosto de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 28 de junho de 2023
- ↑ «Paulo Mercadante». www.asminasgerais.com.br. Consultado em 20 de agosto de 2025
- ↑ «Membros Fundadores». Academia. Consultado em 20 de agosto de 2025
- ↑ Paim, Antonio (1991). Logos: Enciclopédia de Filosofia Luso-Brasileira. Lisboa: Verbo. p. Vol III, verbete Paulo Mercadante
- ↑ Barreto, Tobias (1966). Obras completas: Estudos de filosofia. [S.l.]: Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura. Consultado em 21 de agosto de 2025
- ↑ Mercadante, Paulo (2004). Das casernas à redação: a era de turbulências. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora. p. Contra-capa
- ↑ Silva, Flamarion (2013). «Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. vol 1.» (PDF). Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ «Paulo Mercadante, Coordenador ; Antonio Paim ... et al. --, Constituição de 1988, Livro». www.lexml.gov.br. Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Mercadante analisa o trágico em Graciliano Ramos - 8/4/1994». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ «Folha de S.Paulo - Livros: A certeza das incoerências - 16/03/2002». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ Francisco Caruso (Outubro de 2013). «DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOSOFIA» (PDF). Researchgate. Consultado em 20 de agosto de 2025
- ↑ Mercadante, Paulo (2003). A Consciência Conservadora no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks. p. Contra-capa
- ↑ Mercadante, Paulo (1993). Graciliano Ramos: o manifesto do trágico. Rio de Janeiro: Topbooks. p. Contra-capa
- ↑ Mercadante, Paulo (2001). A coerência das incertezas: símbolos e mitos na fenomenologia histórica luso-brasileira. São Paulo: É Realizações. p. Prefácio escrito por Olavo de Carvalho: Paulo Mercadante e a alma brasileira.
- ↑ Gonçalves, Rodrigo Jurucê Mattos (2007). «Política, conciliação e revolução passiva no Brasil: as concepções de Paulo Mercadante e José Honório Rodrigues» (PDF). Associação Nacional de História – ANPUH XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA. Consultado em 8 de setembro de 2025 line feed character character in
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