De aeternitate mundi, contra murmurantes

De aeternitate mundi, contra murmurantes (lit. "Sobre a eternidade do mundo, contra os murmuradores") é um tratado do Doutor da Igreja Católica, São Tomás de Aquino, dedicado à questão da possibilidade de um universo existente desde sempre.
A obra costuma ser datada por volta de 1270 e caracteriza-se por sua notável brevidade. Tomás de Aquino adota a definição medieval de mundo, entendida como "a totalidade das criaturas". Embora reconheça que a doutrina católica nega a eternidade do universo, o autor procura examinar a coerência lógica dessa hipótese a partir de um ponto de vista estritamente filosófico.[1]
Contexto
De aeternitate mundi foi redigido no contexto de um embate filosófico entre platonistas e aristotélicos cristãos. Os primeiros, que viam no sistema de Platão o quadro mais adequado para a interpretação teológica, criticavam a concepção aristotélica de um universo eterno, continuamente sustentado pelo Motor Imóvel, por julgarem-na incompatível com a doutrina católica da Criação. Após séculos de hegemonia platônica, a progressiva difusão das obras de Aristóteles, favorecida pelas traduções árabes, desencadeou uma controvérsia intensa, na medida em que o aristotelismo implicava uma mudança profunda de cosmovisão, apresentada como mais científica, e percebida como potencialmente conflitante com o dogma estabelecido.[2]
O conflito foi ainda intensificado pela ampla circulação dos comentários averroístas sobre o tema, que enfatizavam de modo particular o caráter eterno do universo e, consequentemente, sua aparente incompatibilidade com a doutrina cristã. Um ponto crítico foi finalmente alcançado quando uma lista de 219 proposições, entre elas a eternidade do mundo, foi condenada em 1277, três anos após a morte de Tomás de Aquino, pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, e proibida de ser ensinada nas universidades.[3]
Doutrina

Além do tema central da obra, Tomás de Aquino revisita um antigo debate acerca da possibilidade de se afirmar que o tempo existia e fluía antes da Criação. Questão já tratada por Orígenes de Alexandria e por São Agostinho de Hipona, o filósofo segue este último ao sustentar que o tempo é uma propriedade atribuível às coisas criadas e, portanto, não pode ser aplicado à preexistência divina em relação ao universo. Não houve, assim, uma inatividade de Deus antes do ato criador, mas um modo de existência eterno, que só pode ser propriamente atribuído à divindade.[4]
O teólogo aprofunda essa posição recorrendo à noção aristotélica de tempo, entendido como medida da mudança. Desse modo, antes da Criação não havia matéria sujeita à mudança e, consequentemente, não se pode falar de tempo, em sentido próprio, anterior ao ato criador.[5]
No que diz respeito à possibilidade de um universo eterno, o raciocínio de Aquino parte do reconhecimento de que, segundo a fé católica, o mundo teve início em um momento determinado. Ainda assim, permanecia em aberto a questão da possibilidade lógica de um universo criado e, ao mesmo tempo, eterno. O autor passa então a investigar se as premissas da Criação e da existência eterna implicam ou não uma contradição, tomando essa análise como um possível caminho para refutar, ou ao menos esclarecer, a tese da eternidade do mundo.[6]
Tomás recorre à metafísica aristotélica ao afirmar que a Criação implica a "produção da substância inteira de uma coisa". A partir dessa definição, ele passa a examinar se há, de fato, incompatibilidade entre ser criado por Deus em sua totalidade substancial e não possuir um começo no tempo.[6]
Nenhuma causa que produza instantaneamente o seu efeito o precede necessariamente no tempo. Ora, Deus é uma causa que produz seus efeitos não por meio do movimento, mas de modo instantâneo. Portanto, não é necessário que Ele preceda seus efeitos no tempo. (…) Além disso, se, estando dada uma causa, o seu efeito não existe imediatamente, isso só pode ocorrer porque falta algo complementar a essa causa: a causa completa e o efeito existem simultaneamente. Deus, porém, nunca carece de qualquer causa complementar para produzir um efeito. Portanto, em qualquer instante em que Deus exista, também podem existir seus efeitos, e assim Deus não precisa precedê-los no tempo. (…) Deste modo, torna-se claro que não há contradição em afirmar que algo feito por Deus tenha existido desde sempre.[7]
Tomás de Aquino distingue a Criação do começo ao sustentar que este último é uma categoria temporal, aplicável exclusivamente aos entes que existem no tempo, ao passo que a Criação implica uma relação entre Criador e criatura fundada numa dependência metafísica e ontológica. O ato criador, portanto, não deve ser concebido como um acontecimento pontual no tempo; antes, é preciso afirmar que "Deus cria continuamente o mundo", na medida em que a Criação se estende por todo o período em que um ente existe, de tal modo que o mundo "não poderia subsistir sequer por um instante sem o seu Criador". Como a relação entre o Criador e o mundo não depende do tempo, dado que Deus não precisa preceder temporalmente os seus efeitos, não se vislumbra contradição intrínseca na noção de um universo ao mesmo tempo criado e existente desde sempre, ainda que tal doutrina seja negada pela Revelação e, por isso, não deva ser adotada no âmbito da fé.[8]
A obra conclui-se com uma série de citações de autoridade que corroboram a posição do autor, incluindo passagens de Agostinho de Hipona, João Damasceno, Hugo de São Vítor e Severino Boécio. Tomás de Aquino examina ainda uma última objeção, relativa à existência de um número infinito de almas em um universo eterno, e encerra o tratado rejeitando outros argumentos, seja por considerá-los insuficientemente sólidos, seja por julgá-los já devidamente refutados.[9]
Legado
Tem sido destacado que a intervenção de Tomás de Aquino desempenhou um papel fundamental para pôr fim à crise e para a formação de um consenso que orientaria os teólogos cristãos posteriores.[4] Ainda assim, seu raciocínio encontrou forte resistência nos anos seguintes, a ponto de as condenações de 1277, que incluíam a tese de que a questão da eternidade do mundo não poderia ser resolvida no plano filosófico, posição defendida por Aquino, terem sido promulgadas após sua morte e somente revogadas por ocasião de sua canonização, em 1323.[10]
Ver também
- Argumento cosmológico
- Quinque viae
- A Incoerência dos Filósofos, de Al-Ghazali.
Referências
- ↑ Cavallazzi Sánchez 2012, p. 115.
- ↑ Pabjan 2020, pp. 6–8.
- ↑ Pabjan 2020, p. 8.
- ↑ a b Pabjan 2020, p. 9.
- ↑ Pabjan 2020, pp. 9–10.
- ↑ a b Pabjan 2020, p. 10.
- ↑ Pabjan 2020, pp. 10–11.
- ↑ Pabjan 2020, p. 11.
- ↑ Cavallazzi Sánchez 2012, pp. 139–140.
- ↑ Pabjan 2020, p. 12.
Bibliografia
- Cavallazzi Sánchez, Alejandro (2012). «Un comentario a la estructura lógica del opúsculo De aeternitate mundi contra murmurantes de Tomás de Aquino» (PDF). Revista de Filosofía Open Insight (em espanhol). 3 (4): 113–141. ISSN 2007-2406. doi:10.23924/oi.v3i4.54
- Pabjan, Tadeusz (30 de junho de 2020). «The Problem of the Beginning of the World in the Interpretation of Saint Thomas Aquinas». The Person and the Challenges. The Journal of Theology, Education, Canon Law and Social Studies Inspired by Pope John Paul II. 10 (1): 5–15. ISSN 2391-6559. doi:10.15633/pch.3608

Outras leituras
- Grijs, F. J. A. de (1 de janeiro de 1990), «The Theological Character of Aquinas' De Aeternitate Mundi», ISBN 978-90-04-45265-7, Brill, The Eternity of the World in the Thought of Thomas Aquinas and his Contemporaries (em inglês): 1–8, consultado em 14 de dezembro de 2024
- Owens, J. (1962). «Aquinas on Infinite Regress»
. Mind. 71 (282): 244–246. ISSN 0026-4423. JSTOR 2252121. doi:10.1093/mind/LXXI.282.244 - Weisheipl, James A. (1 de janeiro de 1983), «The Date and Context of Aquinas' De aeternitate mundi», ISBN 978-90-04-61279-2, Brill, Graceful reason (em inglês): 239–271, consultado em 14 de dezembro de 2024
Ligações externas
- Sobre a Eternidade do Mundo (texto em latim e inglês).