De aeternitate mundi, contra murmurantes

Retrato de Tomás de Aquino por Fra Bartolommeo (1472–1517).

De aeternitate mundi, contra murmurantes (lit. "Sobre a eternidade do mundo, contra os murmuradores") é um tratado do Doutor da Igreja Católica, São Tomás de Aquino, dedicado à questão da possibilidade de um universo existente desde sempre.

A obra costuma ser datada por volta de 1270 e caracteriza-se por sua notável brevidade. Tomás de Aquino adota a definição medieval de mundo, entendida como "a totalidade das criaturas". Embora reconheça que a doutrina católica nega a eternidade do universo, o autor procura examinar a coerência lógica dessa hipótese a partir de um ponto de vista estritamente filosófico.[1]

Contexto

De aeternitate mundi foi redigido no contexto de um embate filosófico entre platonistas e aristotélicos cristãos. Os primeiros, que viam no sistema de Platão o quadro mais adequado para a interpretação teológica, criticavam a concepção aristotélica de um universo eterno, continuamente sustentado pelo Motor Imóvel, por julgarem-na incompatível com a doutrina católica da Criação. Após séculos de hegemonia platônica, a progressiva difusão das obras de Aristóteles, favorecida pelas traduções árabes, desencadeou uma controvérsia intensa, na medida em que o aristotelismo implicava uma mudança profunda de cosmovisão, apresentada como mais científica, e percebida como potencialmente conflitante com o dogma estabelecido.[2]

O conflito foi ainda intensificado pela ampla circulação dos comentários averroístas sobre o tema, que enfatizavam de modo particular o caráter eterno do universo e, consequentemente, sua aparente incompatibilidade com a doutrina cristã. Um ponto crítico foi finalmente alcançado quando uma lista de 219 proposições, entre elas a eternidade do mundo, foi condenada em 1277, três anos após a morte de Tomás de Aquino, pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, e proibida de ser ensinada nas universidades.[3]

Doutrina

Triunfo de Tomás de Aquino, de Benozzo Gozzoli (c. 1470). Aristóteles e Platão são representados à esquerda e à direita de Tomás de Aquino, enquanto Averróis é mostrado derrotado no chão.

Além do tema central da obra, Tomás de Aquino revisita um antigo debate acerca da possibilidade de se afirmar que o tempo existia e fluía antes da Criação. Questão já tratada por Orígenes de Alexandria e por São Agostinho de Hipona, o filósofo segue este último ao sustentar que o tempo é uma propriedade atribuível às coisas criadas e, portanto, não pode ser aplicado à preexistência divina em relação ao universo. Não houve, assim, uma inatividade de Deus antes do ato criador, mas um modo de existência eterno, que só pode ser propriamente atribuído à divindade.[4]

O teólogo aprofunda essa posição recorrendo à noção aristotélica de tempo, entendido como medida da mudança. Desse modo, antes da Criação não havia matéria sujeita à mudança e, consequentemente, não se pode falar de tempo, em sentido próprio, anterior ao ato criador.[5]

No que diz respeito à possibilidade de um universo eterno, o raciocínio de Aquino parte do reconhecimento de que, segundo a fé católica, o mundo teve início em um momento determinado. Ainda assim, permanecia em aberto a questão da possibilidade lógica de um universo criado e, ao mesmo tempo, eterno. O autor passa então a investigar se as premissas da Criação e da existência eterna implicam ou não uma contradição, tomando essa análise como um possível caminho para refutar, ou ao menos esclarecer, a tese da eternidade do mundo.[6]

Tomás recorre à metafísica aristotélica ao afirmar que a Criação implica a "produção da substância inteira de uma coisa". A partir dessa definição, ele passa a examinar se há, de fato, incompatibilidade entre ser criado por Deus em sua totalidade substancial e não possuir um começo no tempo.[6]

Nenhuma causa que produza instantaneamente o seu efeito o precede necessariamente no tempo. Ora, Deus é uma causa que produz seus efeitos não por meio do movimento, mas de modo instantâneo. Portanto, não é necessário que Ele preceda seus efeitos no tempo. (…) Além disso, se, estando dada uma causa, o seu efeito não existe imediatamente, isso só pode ocorrer porque falta algo complementar a essa causa: a causa completa e o efeito existem simultaneamente. Deus, porém, nunca carece de qualquer causa complementar para produzir um efeito. Portanto, em qualquer instante em que Deus exista, também podem existir seus efeitos, e assim Deus não precisa precedê-los no tempo. (…) Deste modo, torna-se claro que não há contradição em afirmar que algo feito por Deus tenha existido desde sempre.[7]

Tomás de Aquino distingue a Criação do começo ao sustentar que este último é uma categoria temporal, aplicável exclusivamente aos entes que existem no tempo, ao passo que a Criação implica uma relação entre Criador e criatura fundada numa dependência metafísica e ontológica. O ato criador, portanto, não deve ser concebido como um acontecimento pontual no tempo; antes, é preciso afirmar que "Deus cria continuamente o mundo", na medida em que a Criação se estende por todo o período em que um ente existe, de tal modo que o mundo "não poderia subsistir sequer por um instante sem o seu Criador". Como a relação entre o Criador e o mundo não depende do tempo, dado que Deus não precisa preceder temporalmente os seus efeitos, não se vislumbra contradição intrínseca na noção de um universo ao mesmo tempo criado e existente desde sempre, ainda que tal doutrina seja negada pela Revelação e, por isso, não deva ser adotada no âmbito da fé.[8]

A obra conclui-se com uma série de citações de autoridade que corroboram a posição do autor, incluindo passagens de Agostinho de Hipona, João Damasceno, Hugo de São Vítor e Severino Boécio. Tomás de Aquino examina ainda uma última objeção, relativa à existência de um número infinito de almas em um universo eterno, e encerra o tratado rejeitando outros argumentos, seja por considerá-los insuficientemente sólidos, seja por julgá-los já devidamente refutados.[9]

Legado

Tem sido destacado que a intervenção de Tomás de Aquino desempenhou um papel fundamental para pôr fim à crise e para a formação de um consenso que orientaria os teólogos cristãos posteriores.[4] Ainda assim, seu raciocínio encontrou forte resistência nos anos seguintes, a ponto de as condenações de 1277, que incluíam a tese de que a questão da eternidade do mundo não poderia ser resolvida no plano filosófico, posição defendida por Aquino, terem sido promulgadas após sua morte e somente revogadas por ocasião de sua canonização, em 1323.[10]

Ver também

Referências

  1. Cavallazzi Sánchez 2012, p. 115.
  2. Pabjan 2020, pp. 6–8.
  3. Pabjan 2020, p. 8.
  4. a b Pabjan 2020, p. 9.
  5. Pabjan 2020, pp. 9–10.
  6. a b Pabjan 2020, p. 10.
  7. Pabjan 2020, pp. 10–11.
  8. Pabjan 2020, p. 11.
  9. Cavallazzi Sánchez 2012, pp. 139–140.
  10. Pabjan 2020, p. 12.

Bibliografia

Outras leituras

Ligações externas