Batalha de Oxacã (336)

Batalha de Oxacã

Data336
LocalCercanias da fortaleza de Oxacã
DesfechoVitória armênia
Beligerantes
Império Sassânida

Tribos nômades

Reino da Armênia
Comandantes
Sanatruces Gareguim I

Mirabandaces I
Pancrácio I
Vaanes I
Vache I

Varazes
Forças
20 mil (?)
30 mil (?)
Incertas
Baixas
Maior parte Incertas

A Batalha de Oxacã foi travada no final de 336, nas cercanias da fortaleza de Oxacã, no Reino da Armênia. A batalha é mencionada por Fausto, o Bizantino, Moisés de Corene e Moisés de Dascurã, mas os cronistas divergem a respeito dos comandantes militares armênios e o contingente invasor, bem como sua composição e circunstância de sua investida. Para Fausto, trata-se da batalha que encerrou a invasão de Sanatruces, um pretenso dinasta arsácida que queria tomar o trono de Cosroes III (r. 330–339). Moisés de Dascurã também afirmou isso, mas incluiu que os invasores foram repelidos e fugiram ao Império Sassânida, de onde retornaram com uma força de 30 mil soldados e foram derrotados. Moisés de Corene, por sua vez, alegou que a batalha foi decorrente de uma invasão nômade ao reino, inspirada pelas ações de Sanatruces, mas na qual não teve envolvimento. Todos os crônicas concordam que os armênios foram vitoriosos e expulsaram seus inimigos, enquanto Fausto acrescenta que Sanatruces foi morto e sua cabeça foi levada perante o rei Cosroes.

Contexto

Em 330, o rei Tiridates IV (r. 298–330) faleceu e legou o trono a seu filho Cosroes III (r. 330–339). Os cronistas armênios afirmam que, ao tomar ciência de sua morte, certo Sanatruces (Sanesano segundo Fausto), rei dos mascutes, decidiu rebelar-se contra a autoridade da Armênia.[1][2] O jovem católico Gregoris, que havia sido enviado para evangelizar o Reino da Albânia, foi executado sob ordens de Sanatruces, que se instalou na cidade de Fatacarana e reivindicou o título régio.[3] Fausto, o Bizantino, acrescentou que Sanatruces nutria forte ressentimento contra Cosroes III, o que motivou suas ações,[4] enquanto Moisés de Dascurã afirmou que quem o orientou foi o xainxá Sapor II (r. 309–379).[5]

Moisés de Dascurã afirmou que após matar os discípulos de Gregoris em 9 de Navassarde (19 de agosto), Sanatruces alcançou a Armênia com suas forças,[6] onde foi derrotado por um exército armênio em vingança pelas ações contra os cristãos.[7] Em outro ponto, o cronista coloca que o rei Cosroes III convocou o general romano Antíoco, o nobre armênio Pancrácio I e o "governador" (vitaxa) Mirranes (na verdade, uma confusão com o rei Meribanes III)[a] da Ibéria para auxiliá-lo em sua marcha contra a Albânia. Os aliados deixaram uma grande força na cidade de Fatacarana e Sanatruces fugiu às pressas ao xainxá Sapor II, com o exército albanês. Quando Antíoco retornou ao imperador Constâncio II (r. 337–361), depois de ter tomado grande quantidade de despojos e tributos reais, Sanatruces aproveitou a ocasião e reuniu um exército de 30 mil albaneses e lançou um ataque.[5]

Moisés de Corene afirmou que, na mesma época, o vitaxa de Arzanena Bacúrio, inspirado na rebelião de Sanatruces, rebelou-se contra Cosroes III e pretendia tornar-se independente. Quando tomaram conhecimento desses fatos, os nobres armênios reuniram-se junto do católico Vertanes I, que enviou Mar de Sofanena e Dátis Caminacano a Constantinopla com uma carta a Constâncio II pedindo ajuda.[8] O imperador respondeu enviando seu general Antíoco.[9] Cosroes foi deixado em segurança e Antíoco reuniu-se com os nobres Pancrácio I e Mirranes (Meribanes III) e marchou contra Sanatruces, que deixou uma forte guarnição persa em Fatacarana antes de fugir para a corte de Sapor II. A Albânia foi pilhada e Antíoco retornou ao Império Romano com muito butim.[10] Moisés não afirma o destino de Sanatruces depois disso, e não atribui a ele a batalha de Oxacã.[11] Pelo contrário, afirmou que um exército de 20 mil soldados nômades, inspirados por Sanatruces, invadiu o reino e derrotou parte do exército régio antes de se dirigir para Valarsapate, que foi sitiada. Vaanes I, apoiado por Pancrácio I, atacou os nômades de surpresa e os repeliu para Oxacã, onde se reagruparam e formaram suas linhas de defesa.[12]

Segundo Fausto, o exército de Sanatruces era uma grande hoste formada por hunos e outros povos caucasianos (foques, tavaspares, hechemataques, ismaques, gátios, gluários, gargareus, silbianos, balaschis e suanocolcos). Cruzando o rio Cura, adentrou o Reino da Armênia. Diz Fausto que o exército era inumerável e os próprios invasores eram incapazes de calcular seus números. Para causar pânico entre os armênios, a cada encruzilhada os soldados lançavam pedras em pontos específicos para formar grandes montanhas que pressagiavam sua vinda e a dimensão de sua força. Por onde passaram, deixaram devastação e destruição, que se estendeu até Satala e Ganzaca, na fronteira com Atropatena. Dali, reuniram-se em Airarate, onde havia um grande acampamento.[4] O rei Cosroes e o patriarca Vertanes refugiaram-se na fortaleza de Terua (atual Castelo de Doubaiazete, na Turquia), em Cogovita. Enquanto isso, Sanatruces perambulou por todo o reino, submetendo-o a seus ataques por um ano. Nesse tempo, o asparapetes (comandante-em-chefe) Vache I retornou do Império Romano após uma longa jornada. Ao saber da situação, reuniu os nacarares mais valentes no monte Selu Gluque (Cabeça de Touro), onde matou muitos dos soldados inimigos. Dali, carregando butim, partiu à planície de Airarate. Ao chegar, avistou Sanatruces sitiando a cidade de Valarsapate.[13] Liderando suas tropas, atacou de surpresa o contingente invasor, que foi obrigado a recuar à fortaleza de Oxacã.[14]

Batalha

Moisés de Dascurã não faz uma menção direta ao envolvimento de Sanatruces na batalha. Ele muda o foco da narrativa para o comandante dos lanceiros do exército dele, cujo nome não foi registrado, que alegadamente era um enorme gigante vestido de feltro. O gigante investiu no terreno acidentado de Avexacã (Oxacã) contra os armênios, que eram incapazes de feri-lo. Supostamente Vaanes I após pedir intercessão divina, foi capaz de derrubá-lo com sua lança, o que desmoralizou os invasores, que fugiram e foram massacrados.[15] Moisés de Corene também afirma que os invasores eram liderados por um gigante muito bem armado que disparou contra o centro do exército armênio, provocando muitas baixas. Vaanes I teria orado para Deus perante uma catedral, pedindo que lhe permitisse derrotar o gigante do mesmo modo que Davi derrotou Golias. Seu pedido foi atendido e Vaanes I atingiu o gigante pelas costas, que caiu morto, causando pânico nas tropas inimigas, que fugiram.[16]

De acordo com Fausto, Vache I estava acompanhado de Pancrácio I, Mirabandaces I, Gareguim I, Vaanes I e Varazes e o exército armênio massacrou o contingente invasor, cujos corpos encheram a planície pedregosa circundantes e seu sangue se avolumou como a corrente de um rio. Os poucos sobreviventes foram perseguidos até o país dos balaschis e a cabeça de Sanatruces foi levada perante Cosroes III, que supostamente chorou e exclamou: "Era era meu irmão, do clã dos arsácidas". Então o rei foi ao campo de batalha juntamente com Vertanes I, e viram a carnificina do exército massacrado. Eles ordenaram que forças irregulares fossem recrutadas no território e que os mortos fossem cobertos com uma pilha de pedras, para que a terra não fosse poluída por seu fedor putrefato.[14]

Rescaldo

Segundo Fausto, o reino permaneceu em paz por muitos anos.[17] Moisés de Corene afirmou que Cosroes III entregou Oxarcã aos Amatúnios de Vaanes I como recompensa por suas ações.[18][19] Essa concessão não foi mencionada por Fausto, mas é corroborada por Lázaro de Farpe, que atesta que os Amatúnios detinham controle sobre ela no século V.[20]

Notas

[a] ^ Uma das fontes para o relato de Moisés de Dascurã foi Moisés de Corene. Moisés de Corene informou que o exército da Armênia subdividia-se em quatro porções, cada uma delas protegendo uma porção da fronteira do reino. Segundo Nina Garsoïan, essa divisão inexiste em outras fontes e aparenta ser uma confusão de Moisés a respeito das quatro "portas", inspiradas nos quatro pontos cardeais, como registrado na Lista Militar (Զորնամակ, Zōrnamak), o documento que indica a quantidade de cavaleiros que cada uma das famílias nobres devia ceder ao exército real em caso de convocação.[21] Por conseguinte, de acordo com Cyril Toumanoff, há uma confusão generalizada nas fontes armênias, dentre elas Moisés de Corene, entre a dinastia reinante mirrânida de Gogarena (uma província, bem como vitaxado, historicamente disputada entre armênios e iberos) e o ramo da mesma dinastia que à época reinava na Ibéria. Moisés de Corene, admitindo que Gogarena estava sujeita a Tiridates IV, confundiu o governante mirrânida local com ocupante à época do trono ibero, ou seja, Meribanes III (r. 284–361).[22]

Referências

Bibliografia

  • Ciríaco de Ganzaca (2021). Kirakos Ganjakec'i (Xiiie Siecle). Histoire d'Armenie: Traduction, Introduction Et Notes par Patricia Boisson. Lovaina: Aedibus Peeters 
  • Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachusetts: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvard 
  • João V de Drascanacerta (2004). Boisson, Patricia, ed. Histoire d'Arménie: Introduction, traduction et notes. Lovaina: Aedibus Peeters 
  • Moisés de Corene (2006). Thomson, Robert W., ed. History of the Armenians. Cambrígia, Massachusetts; Londres: Harvard University Press 
  • Moisés de Dascurã (1961). Charles Dowsett (tradutor), ed. The History of the Caucasian Albanians by Movses Dasxuranci. Londres: Oxford University Press 
  • Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press 
  • Toumanoff, Cyril (1989). «Amatuni». Enciclopédia Irânica Vol. I Fasc. 9. Nova Iorque: Columbia University Press