Fatacarana

Fatacarana (em grego: Φατακαρανή, Phatakaranḗ), Faitacarã ou Faitacarão (em armênio: Փայտակարան, P'aytakaran) era a principal cidade da província mais oriental do Reino da Armênia, Caspiana, que eventualmente tornar-se-ia conhecida como Fatacarana em referência à sua capital. Sua localização exata é desconhecida e ainda suscita muito debate entre os historiadores.

Nome

A etimologia do nome é desconhecida. Heinrich Hübschmann sugeriu que talvez não tenha uma origem armênia. Bagrat Ulubabyan propôs que significa "cidade capital" ou "grande cidade". Segundo Ulubabyan, pʿayt (փայտ) significa "madeira", e pʿaytak (փայտակ) sugere uma forma diminutiva com o sufixo locativo -aran (-արան), o que geraria o significado de "lugar arborizado". Robert H. Hewsen discorda dessa etimologia e propôs que deriva de pʿayt ("madeira") e do persa garan (գարան, “montanhas”), isto é, "montanhas arborizadas" ou "montanhas florestadas", o que se ajusta à cadeia subtropical de Talixe.[1]

Localização

A província de Caspiana era conhecida pelos autores clássicos, que não fazem quaisquer menções à cidade de Fatacarana. A inexistência de menções clássicas sugere que a cidade possa ter sido fundada tardiamente, haja vista ser mencionada pela primeira vez apenas no século IV. A região onde estava localizada estava sobremaneira submersa, ou pelo menos coberta por pântanos, ao longo do Período Clássico. A primeira fonte a mencionar a cidade é a História dos Armênios de Agatângelo, em cuja obra o nome é registrado como Faitacarã/Faitacarão na versão armênia e Fatacarana na versão grega.[1] É possível, portanto, que a cidade tenha sido fundada nesse período sob patrocínio da dinastia arsácida reinante.[2] Ela localizava-se na foz do rio Aras, na costa do mar Cáspio, mas mesmo sobre essa questão há controvérsia. Suren Eremyan a localizou ao norte do curso inferior do Aras, enquanto Tadevos Hakobyan ao sul do mesmo rio. Agatângelo afirmou que tratava-se de uma cidade armênia, que marcava a fronteira do Reino da Armênia em Caspiana, enquanto Lázaro de Farpe e Eliseu, o Armênio afirmaram que estava na fronteira, mas do lado do Azerbaijão.[3] Cronistas tardios identificaram erroneamente a cidade de Fatacarana ora com Tiblíssi, ora com Partava. Carecem igualmente de fundamento as tentativas de identificar Fatacarana com Beilagã.[2]

História

Sabe-se que Fatacarana possuía um cárcere real, onde eram presos os criminosos políticos mais perigosos. No período da cristianização da Armênia, o príncipe de Ingilena lançou na prisão de Fatacarana 438 sacerdotes, que não renunciaram ao paganismo.[2] No reinado de Tiridates IV (r. 298–330), com o objetivo de difundir o cristianismo no Reino da Albânia, foi enviado às regiões setentrionais e orientais o bispo Gregoris, neto de Gregório, o Iluminador. De acordo com João V e Ciríaco de Ganzaca, ele foi acompanhado por Sanatruces, que foi nomeado como governador de Fatacarana e auxiliar de Gregoris;[4][5] Moisés de Dascurã afirmou apenas que Sanatruces governava Fatacarana, sem indicar sua nomeação por Tiridates.[6] Em algum ponto do fim do reinado de Tiridates, ou logo após sua morte, Gregoris foi morto sob ordens de Sanatruces, que em algumas versões é descrito sob o nome de Sanesano e rei dos mascutes. Sanatruces rebelar-se-ia contra os armênios e se declararia rei. Ciríaco de Ganzaca afirmou que ele se deslocou até Ctesifonte, capital do Império Sassânida, onde recebeu as insígnias régias do xainxá Sapor II (r. 309–379);[5] Moisés de Corene afirmou que Sanatruces tomou Fatacarana nesse período e coroou-se rei.[7] Essa ocupação de Fatacarana, bem como de parte dos territórios da Albânia, foi datada em 334.[8]

Cosroes III (r. 330–339) convocou o general romano Antíoco, o nobre armênio Pancrácio I e o "governador" (vitaxa) Mirranes (na verdade, uma confusão com o rei Meribanes III)[a] da Ibéria para auxiliá-lo em sua marcha contra a Albânia. Os aliados deixaram uma grande força na cidade de Fatacarana e Sanatruces fugiu às pressas ao xainxá Sapor II, com o exército albanês.[9] Quando Antíoco retornou ao imperador Constantino I (r. 306–337) (confundido com Constâncio II),[b] depois de ter tomado grande quantidade de despojos e tributos reais, Sanatruces aproveitou a ocasião e reuniu um exército de 30 mil albaneses e lançou um ataque contra os armênios, sob orientação de Sapor II.[6] Os invasores eventualmente foram derrotados nas cercanias da fortaleza de Oxacã.[10][11] Anos depois, sob os termos da Paz de Nísibis de 363 firmada entre Sapor II e Joviano (r. 363–364), a província de Caspiana, com Fatacarana, foi incorporada na Albânia, mas ela foi brevemente reconquistada pelo asparapetes (comandante-em-chefe) Musel I, sob ordens de Papa (r. 370–374).[3]

Em 387, sob os termos da Paz de Acilisena firmada entre Teodósio I (r. 378–395) e Sapor III (r. 383–388), Caspiana foi incorporada no Azerbaijão (a Enciclopédia Soviética Armênia assume que permaneceu uma dependência armênia até 428, quando teria sido incorporada pelo Azerbaijão[2]).[3] Desde meados do século III, a Albânia tornar-se-ia uma província do Império Sassânida, comandada por um marzobã (governador). Apesar disso, a dinastia reinante continuou a governar como vassala dos iranianos. Sabe-se que a capital do reino era originalmente Gabala, que desde 387 foi ocupada pelo governador (quando seria conhecida como Ostan-i-Marzpan, ou seja, "corte do marzobã"). Robert H. Hewsen propôs que, em decorrência desse rearranjo, os reis locais utilizariam Fatacarana como sua nova capital até eventualmente transferirem-na para Partava em meados do século V.[12][13]

O território de Fatacarana foi evangelizado por Mesrobes Mastósio, segundo Corium.[3] Em 450–451, durante a revolta de Vardanes II contra a autoridade do xainxá Isdigerdes II (r. 438–457), a cidade de Fatacarana transformou-se em base das tropas persas;[2] Eliseu, o Armênio, afirma que ela foi ocupada pelo azarapates Mir-Narses, em preparação à eventual investida contra os rebeldes.[14] Em 571, o príncipe Vaanes I solicitou a transferência do divã (nesse contexto, o centro administrativo) ao qual Siúnia estava sujeita de Dúbio para Fatacarana (Nina Garsoïan propôs que esse evento ocorreu em 591[3]).[2][15] Na década de 620, no contexto da Guerra bizantino-sassânida de 602–628, a região de Fatacarana foi devastada por tropas bizantinas lideradas pelo imperador Heráclio (r. 610–641). Nos séculos VI–VII, em consequência de uma acentuada regressão do nível do Cáspio, as águas afastaram-se da cidade, que, segundo o Mghonach‘apk‘, já se encontrava a 60 milhas do mar. Gradualmente secou-se o braço do Aras que alimentava a cidade e desaguava no Cáspio e, como resultado, a cidade empobreceu e, pouco depois, desapareceu.[2] É igualmente possível que a cidade possa ter sido destruída pela invasão cazar relatada por Leôncio, o Vardapetes no século VIII.[16]

Notas

[a] ^ Uma das fontes para o relato de Moisés de Dascurã foi Moisés de Corene. Moisés de Corene informou que o exército da Armênia subdividia-se em quatro porções, cada uma delas protegendo uma porção da fronteira do reino. Segundo Nina Garsoïan, essa divisão inexiste em outras fontes e aparenta ser uma confusão de Moisés a respeito das quatro "portas", inspiradas nos quatro pontos cardeais, como registrado na Lista Militar (Զորնամակ, Zōrnamak), o documento que indica a quantidade de cavaleiros que cada uma das famílias nobres devia ceder ao exército real em caso de convocação.[17] Por conseguinte, de acordo com Cyril Toumanoff, há uma confusão generalizada nas fontes armênias, dentre elas Moisés de Corene, entre a dinastia reinante mirrânida de Gogarena (uma província, bem como vitaxado, historicamente disputada entre armênios e iberos) e o ramo da mesma dinastia que à época reinava na Ibéria. Moisés de Corene, admitindo que Gogarena estava sujeita a Tiridates IV, confundiu o governante mirrânida local com ocupante à época do trono ibero, ou seja, Meribanes III (r. 284–361).[18]
[b] ^ Nesse ponto, Moisés de Dascurã, presumidamente seguindo Moisés de Corene novamente, mencionou o imperador reinante como Constâncio II (r. 337–361), que ascenderia apenas em 337, sete anos após a ascensão de Cosroes III (r. 330–339). Quem governava o Império Romano no momento da sucessão armênia era o pai de Constâncio II, Constantino I (r. 306–337).[19]

Referências

Bibliografia

  • Ciríaco de Ganzaca (2021). Kirakos Ganjakec'i (Xiiie Siecle). Histoire d'Armenie: Traduction, Introduction Et Notes par Patricia Boisson. Lovaina: Aedibus Peeters 
  • Eliseu, o Armênio (1982). Thomson, Robert W., ed. History of Vardan and the Armenian War. Cambridge, Massachussetes: Harvard University Press 
  • «Տղմուտ». Haykakan sovetakan hanragitaran [Հայկական սովետական հանրագիտարան] [Enciclopédia Soviética Armênia]. 3. Erevã: Academia de Ciência da Armênia. 1977 
  • Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachusetts: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvard 
  • Gippert, Jost (2008–2010). The Caucasian Albanian palimpsests of Mt. Sinai. Turnhout: Brepols. ISBN 978-2-503-53116-8 
  • Hakobyan, Tadevos X.; Melik-Baxšyan, Stepan T.; Barsełyan, Hovhannes X. (1988–2001). «Փայտակարան». Hayastani ev harakitsʻ šrjanneri tełanunneri baṛaran [Հայաստանի և հարակից շրջանների տեղանունների բառարան] [Dicionário de Toponímia da Armênia e Territórios Adjacentes]. 3. Erevã: Yerevan State University Publishing House 
  • Hewsen, Robert H. (1992). The Geography of Ananias of Širak. The Long and Short Recensions. Introduction, Translation and Commentary. Wiesbaden: Dr. Ludwig Reichert Verlag 
  • João V de Drascanacerta (2004). Boisson, Patricia, ed. Histoire d'Arménie: Introduction, traduction et notes. Lovaina: Aedibus Peeters 
  • Moisés de Corene (2006). Thomson, Robert W., ed. History of the Armenians. Cambrígia, Massachusetts; Londres: Harvard University Press 
  • Moisés de Dascurã (1961). Charles Dowsett (tradutor), ed. The History of the Caucasian Albanians by Movses Dasxuranci. Londres: Oxford University Press 
  • Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press