Gargareus
Os gargareus (em grego: Γαργαρείς; romaniz.: gargareís; em armênio: Գարգարք; romaniz.: gargark) ou gargarases (em armênio: Գարգարացիք; romaniz.: Gargarac‘ikʿ), erroneamente chamados gugares (Գուգարք, gugarkʿ) por Fausto, o Bizantino, em referência à província de Gogarena,[1] foram uma tribo indo-iraniana, registrada em fontes da Antiguidade.
Localização e identidade
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Os gargareus são virtualmente desconhecidos, salvo as menções em fontes armênias.[2] Os armênios associaram-nos com os mascutes, que foram presumidos como hunos nas fontes primárias, apesar da forte controvérsia a respeito dessa identificação. Otto J. Maenchen-Helfen discorda dessa relação e assume que, por conseguinte, os gargareus e as demais tribos associadas a eles não apresentam nomes presumivelmente hunos, o que permite descartas a hipótese.[3] Stepʻan Malkhasyantsʻ propôs que fossem tribos citas nômades que habitavam a planície norte do Cáucaso, em direção ao mar Cáspio.[3] Os gargareus habitavam a chamada planície dos gargareus (դաշտն Գարգարացոց, daštn Gargarac‘owc‘), a nordeste do lago Sevã, na porção central do rio Cura, no Reino da Albânia.[4] Segundo Estrabão (XI.5.1), eram originários das encostas setentrionais do Cáucaso. Plínio, o Velho também localizou-os ao norte das montanhas do Cáucaso, mas os chamou de gagares.[5] Alguns estudiosos identificam-nos com os rutules,[6][7] enquanto outros os identificam com os galgais.[8][9] Segundo E. Krupnov, a precisão da localização dos gargareus de Estrabão em Galgachuve (Inguxétia) é confirmada por dados arqueológicos, antropológicos e etnográficos.[10]
História

Estrabão afirma que tratava-se de um povo exclusivamente masculino, que copulava com as amazonas para manter ambas as tribos reprodutivas. As amazonas ficavam com as meninas, criando-as como guerreiras, e entregavam os meninos aos gargareus. De acordo com K. V. Trever, é possível que as "amazonas" mencionadas pelos autores antigos sejam um termo étnico distorcido, alazões, que significa os habitantes da área ao longo do Alazani, entre os quais vestígios de matriarcado podem ter persistido por um período um pouco mais longo do que entre outros povos caucasianos.[11] No século II a.C., os gargareus habitavam a margem direita do Cura, na época em que o rei Artaxias I (r. 189–160 a.C.) incorporou a área ao Reino da Armênia. Os gargareus, juntamente com as tribos ali estabelecidas dos xaquis e dos útios, estando politicamente fragmentados, foram incapazes de resistir à tomada de suas terras. No século III, relata-se que os gargareus desceram das encostas do Cáucaso à região de planície (a área correspondente à atual estepe de Carabaque); segundo Kamilla Trever, alguns deles podem ter permanecido ali em definitivo.[11]
Muito provavelmente, os gargareus que aparecem habitando a leste da província albanesa de Otena, desempenharam papel crucial na administração da Albânia, pelo menos à época da conversão à fé cristã.[12] No final do reinado de Tiridates IV (r. 298–330) do Reino da Armênia, o rei invadiu a planície dos gargareus e destruiu uma coalizão de tribos invasoras.[4] Em 335, fizeram parte da confederação de povos liderados pelo rei Sanatruces dos mascutes contra o rei Cosroes III (r. 330–339). Diz Fausto, o Bizantino, que o exército era inumerável e os próprios invasores eram incapazes de calcular seus números. Para causar pânico entre os armênios, a cada encruzilhada os soldados lançavam pedras em pontos específicos para formar grandes montanhas que pressagiavam sua vinda e a dimensão de sua força. Por onde passaram, deixaram devastação e destruição, que se estendeu até Satala e Ganzaca, na fronteira com Atropatena. Dali, reuniram-se em Airarate, onde havia um grande acampamento.[13]
Um ano depois, o asparapetes (comandante-em-chefe) Vache I retornou do Império Romano, reuniu os nacarares mais valentes no monte Selu Gluque (Cabeça de Touro), onde matou muitos dos invasores. Dali, carregando butim, partiu à planície de Airarate. Ao chegar, avistou Sanatruces sitiando a cidade de Valarsapate.[14] Liderando suas tropas, atacou de surpresa o contingente invasor, que foi obrigado a recuar à fortaleza de Oxacã, onde outra batalha foi travada. Vache estava acompanhado de Pancrácio I, Mirabandaces I, Gareguim I, Vaanes I e Varazes e o exército armênio massacrou o contingente invasor. Os poucos sobreviventes foram perseguidos até o país dos balaschis (Balasagena) e a cabeça de Sanatruces foi levada perante Cosroes III.[15] Anos depois, nos anos 410, Mesrobes Mastósio foi responsável pela criação do alfabeto para os gargarases, cuja língua foi descrita como "gutural, áspera, bárbara e muito rude".[16]
Referências
- ↑ Fausto, o Bizantino 1989, p. 377.
- ↑ Fausto, o Bizantino 1989, p. 379.
- ↑ a b Fausto, o Bizantino 1989, p. 390.
- ↑ a b Moisés de Corene 2006, p. 233.
- ↑ Krupnov 1971, p. 25.
- ↑ Musaev 2009, p. 33.
- ↑ Ibragimov 1980, p. 67.
- ↑ Robakidze 1968, p. 15, 27, 204.
- ↑ Mayor 2016, p. 361.
- ↑ Krupnov 1971, p. 26.
- ↑ a b Trever 1959, p. 48, 58.
- ↑ Schulze 2007, p. 1.
- ↑ Fausto, o Bizantino 1989, p. 73-74.
- ↑ Fausto, o Bizantino 1989, p. 74.
- ↑ Fausto, o Bizantino 1989, p. 74-75.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 317.
Bibliografia
- Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachusetts: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvard
- Ibragimov, Garun Khalilovich (1980). «Historical Characteristics of the Tsakhur Self-Name Yikhby». Onomastika Kavkaza (Ономастика Кавказа) [Onomástica do Cáucaso] (em russo). Ordejoniquize: Universidade Estadual da Ossétia do Norte nomeada em homenagem a K. L. Khetagurov. 67 páginas
- Krupnov, E. I. (1971). Srednevekovaia Ingushetia (Средневековая Ингушетия) [Inguxétia Medieval]. Moscou: Nauka
- Mayor, Adrienne (2016). The Amazons: Lives and Legends of Warrior Women across the Ancient World. Princeton: Princeton University Press. ISBN 9780691170275
- Moisés de Corene (2006). Thomson, Robert W., ed. History of the Armenians. Cambrígia, Massachusetts; Londres: Harvard University Press
- Musaev, G. M. (2009). S. A. Luguyev, ed. Tsakhury. Istoriko-etnograficheskoe issledovanie XVIII–XIX vv. (Цахуры. Историко-этнографическое исследование XVIII-XIX вв.) [Tsacures: Um Estudo Histórico e Etnográfico dos séculos XVIII-XIX] (em russo). [S.l.]: Epoch Publishing House. 33 páginas
- Robakidze, A. I. (1968). Kavkazskii etnograficheskii sbornik, II. Ocherki etnografii Gornoi Ingusheti (Кавказский этнографический сборник, II. Очерки этнографии Горной Ингушетии) [Coleção etnográfica caucasiana, II: notas sobre a etnografia da Inguxétia montanhosa]. Tiblíssi: Metsniereba
- Schulze, Wolfgang (2007). «Old Udi» (PDF). Conferência sobre as Línguas do Cáucaso
- Tishkov, Valeri Alexandrovich (2007). VII Kongress etnografov i antropologov Rossii, Saransk, 9--14 ijulia 2007 (VII Конгресс этнографов и антропологов России, Саранск, 9--14 июля 2007) [VII Congresso de Etnógrafos e Antropólogos da Rússia, Saransk, 9 a 14 de julho de 2007] (em russo). [S.l.]: Instituto de Pesquisa em Ciências Humanas do Governo da República da Mordóvia. 124 páginas. ISBN 9785900029344
- Trever, K. V. (1959). Ocherki po istorii i kulture Kavkazskoi Albanii IV v. do n. e. – VII v. n. e. [Очерки по истории и культуре Кавказской Албании IV в. до н. э.−VII в. н. э.] [Ensaios sobre a História e Cultura da Albânia Caucasiana, século IV a.C.-século VII d.C.]. Moscou-Leningrado: Editora da Academia de Ciências da URSS