Batalha de Naravã

Batalha de Naravã
Data17 de julho de 658
LocalNaravã, Iraque
DesfechoVitória para Ali
Beligerantes
Califado Ortodoxo Carijitas
Comandantes
Forças
14 mil 2 800
Baixas
Sete mortos 2 400 mortos

A Batalha de Naravã (em árabe: مَعْرَكَة النَّهْرَوَان; romaniz.: Maʿrakat an-Nahrawān) foi travada entre o exército do quarto califa ortodoxo, Ali, e o grupo rebelde dos carijitas em julho de 658 (Sáfar de 38 A.H.). As políticas controversas do terceiro califa, Otomão (r. 644–656), levaram a uma rebelião que resultou em seu assassinato em 656. Em seguida, Ali foi eleito califa em Medina, mas sua legitimidade foi contestada por Aixa e por alguns companheiros de Maomé, entre eles Zobair ibne Alauame e Tala ibne Ubaide Alá, bem como por Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Síria e parente de Otomão. Ali derrotou os rebeldes na Batalha do Camelo, mas o confronto com Moáuia terminou em impasse na Batalha de Sifim, quando a pressão interna de seu exército o levou a aceitar um processo de arbitragem para resolver a disputa.

O retorno de Ali a Cufa expôs profundas divisões entre seus seguidores. Parte do exército passou a condenar a arbitragem, afirmando que o julgamento caberia apenas a Deus, e abandonou o califa, formando um grupo inicialmente conhecido como haruraítas (em referência a seu local de encontro em Harura). Embora Ali tenha conseguido temporariamente reconciliar alguns deles, recusou-se a cancelar a arbitragem e enviou uma delegação chefiada por Abu Muça Alaxari. Em consequência, os dissidentes romperam definitivamente, deslocaram-se para a região do Canal de Naravã e passaram a ser chamados de carijitas, consolidando sua separação política e religiosa.

Os carijitas denunciaram Ali como califa, elegeram Abedalá ibne Uabe Arracibi como líder e passaram a justificar a violência contra seus adversários, enquanto o colapso da arbitragem reacendeu o conflito geral. Diante de assassinatos cometidos pelo grupo, Ali marchou contra eles e enfrentou-os na Batalha de Naravã, na qual a maioria dos carijitas foi derrotada e morta. Apesar da vitória, o episódio enfraqueceu seriamente a posição de Ali, que abandonou a campanha contra a Síria e acabou assassinado em 661. Embora esmagados militarmente, os carijitas continuaram ativos por décadas, mantendo revoltas e focos de instabilidade no mundo islâmico até serem gradualmente subjugados.

Antecedentes

As políticas controversas do terceiro califa, Otomão ibne Afane, provocaram uma rebelião que culminou em seu assassinato em 656. Após sua morte, Ali ibne Abi Talibe, primo e genro de Maomé, foi eleito califa pela população de Medina. Sua eleição, contudo, foi contestada pela viúva de Maomé, Aixa, e por alguns de seus companheiros, entre eles Zobair ibne Alauame e Tala ibne Ubaide Alá. Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Síria e parente de Otomão, também rejeitou a legitimidade do governo de Ali e exigiu punição para os responsáveis pelo assassinato do antigo califa. Embora Ali tenha derrotado a rebelião liderada por Tala e Zobair na Batalha do Camelo em 656, o conflito contra Moáuia terminou em um impasse na Batalha de Sifim (julho de 657), quando Moáuia propôs a interrupção dos combates.[1] Apesar da relutância de Ali em suspender a batalha, parte de seu exército recusou-se a continuar lutando, forçando-o a aceitar negociações. Um comitê de arbitragem foi então formado, com representantes dos lados de Ali e de Moáuia, encarregado de resolver a disputa de acordo com o espírito do Alcorão.[2][3]

Durante o retorno de Ali a Cufa, sua capital, surgiram profundas divisões em seu exército. Um grupo de soldados passou a condenar a arbitragem, acusando Ali de blasfêmia por ter confiado a decisão a dois homens em vez de seguir exclusivamente o Livro de Deus. Muitos desses dissidentes haviam anteriormente pressionado Ali a aceitar a arbitragem, mas posteriormente passaram a proclamar que o julgamento pertence somente a Deus. Cerca de doze mil homens abandonaram o exército e se estabeleceram em uma localidade próxima a Cufa chamada Harura, passando a ser conhecidos como haruraítas.[4] Após algum tempo, Ali visitou o acampamento de Harura e convenceu os desertores a abandonarem o protesto e retornarem a Cufa.[5] Segundo alguns relatos, eles concordaram em voltar sob a condição de que a guerra contra Moáuia fosse retomada após seis meses e de que Ali reconhecesse seu erro — o que ele fez de maneira geral e ambígua.[6] Ainda assim, Ali recusou-se a renunciar à arbitragem, e o processo teve continuidade. Em março de 658, ele enviou sua delegação de arbitragem, chefiada por Abu Muça Alaxari, para conduzir as negociações.[7] Em consequência disso, os dissidentes decidiram romper definitivamente com ele. Para evitar serem detectados, partiram em pequenos grupos e dirigiram-se a um local junto ao Canal de Naravã, na margem oriental do rio Tigre. Cerca de quinhentos de seus companheiros de Baçorá foram informados e também se juntaram a eles em Naravã.[5][8] Após esse êxodo, passaram a ser conhecidos como carijitas, termo que significa “aqueles que se separam” ou “os que saem”.[9]

Prelúdio

O Canal de Naravã corria paralelamente à margem oriental do rio Tigre

Os carijitas denunciaram Ali como califa, declararam-no, assim como seus seguidores e os sírios, como infiéis e, em seu lugar, elegeram Abedalá ibne Uabe Arracibi como seu califa. Declararam lícito (حلال, halal) o derramamento de sangue desses infiéis.[10][11] Enquanto isso, os dois árbitros anunciaram que Otomão havia sido morto injustamente pelos rebeldes.[12] Após esse veredicto, que fortaleceu o apoio sírio a Moáuia o processo de arbitragem entrou em colapso.[13][14] Nesse momento, Ali denunciou os árbitros como contrários ao Alcorão e mobilizou seus apoiadores para retomar a guerra contra Moáuia.[10][14][15] Ali convocou os carijitas a se juntarem a ele, mas eles se recusaram, a menos que ele reconhecesse que havia se desviado e se arrependesse.[16] Diante disso, Ali decidiu partir para a Síria sem eles.[16] Quando as forças de Ali manifestaram preocupação com a ameaça representada pelos carijitas, Ali os convenceu, por meio de um discurso, de que a guerra contra Moáuia era mais importante, e ordenou que suas tropas marchassem em direção à Síria.[10][17]

Segundo Wilferd Madelung, por volta desse período os carijitas passaram a praticar a interrogação de civis sobre suas opiniões a respeito de Otomão e de Ali, executando aqueles que não compartilhavam de suas posições.[11][18] Alega-se que eles tenham estripado a esposa grávida de um agricultor, extraído e matado o feto, antes de decapitarem o próprio agricultor.[19] Ali recebeu a notícia da violência praticada pelos carijitas enquanto marchava em direção à Síria e enviou um de seus homens para investigar os acontecimentos, mas este também foi morto pelos carijitas. Diante disso, seus soldados passaram a implorar que ele neutralizasse a ameaça carijita, temendo pela segurança de suas famílias e propriedades em Cufa. Ali então deslocou-se com seu exército para Naravã, cuja força é estimada em cerca de 14 mil homens.[20]

Batalha

Fotografia do canal, tirada em 1909

Ali solicitou que os carijitas entregassem os responsáveis pelos assassinatos e aceitassem a paz. Caso o fizessem, ele os deixaria em paz e seguiria para combater os sírios.[21] Os carijitas responderam de forma desafiadora, afirmando que todos eram responsáveis pelos assassinatos, pois consideravam lícito matar os seguidores de Ali.[21] Após novas trocas de palavras, os líderes carijitas instruíram seus seguidores a não se engajarem em mais discussões e, em vez disso, a se prepararem para o martírio e para encontrar seu Senhor no paraíso. Ambos os lados organizaram-se em ordem de batalha, e Ali anunciou uma anistia para qualquer carijita que se juntasse a ele ou retornasse a Cufa, declarando que apenas os assassinos seriam punidos.[22] Cerca de 1.200 carijitas aceitaram sua oferta: alguns se uniram ao exército de Ali, enquanto outros retornaram a Cufa ou abandonaram o campo de batalha em busca de refúgio nas montanhas. Em consequência disso, Ibne Uabe permaneceu com cerca de 2.800 combatentes.[23]

A maioria dos carijitas era composta por soldados de infantaria, enquanto o exército de Ali incluía arqueiros, cavalaria e infantaria. Ele posicionou a cavalaria à frente da infantaria, que foi dividida em duas fileiras, e colocou os arqueiros entre a primeira fileira e a cavalaria. Ali ordenou que suas tropas permitissem que o lado adversário iniciasse as hostilidades. Os carijitas atacaram as forças de Ali com grande ímpeto e conseguiram romper a linha de cavalaria. Em resposta, os arqueiros lançaram uma chuva de flechas sobre eles, a cavalaria atacou pela retaguarda e a infantaria avançou com espadas e lanças. Em clara desvantagem numérica e cercados, a maioria dos carijitas — incluindo seu califa, Ibne Uabe — foi rapidamente massacrada.[24] Cerca de 2 400 carijitas foram mortos,[25] e aproximadamente 400 feridos foram enviados de volta às suas famílias em Cufa após a batalha.[23] Do lado de Ali, estima-se que entre sete e treze homens tenham morrido.[22]

Consequências

Após a batalha, Ali ordenou que seu exército marchasse com ele em direção à Síria. As tropas, porém, recusaram-se a prosseguir devido ao cansaço, desejando recuperar suas forças em Cufa antes de iniciar a campanha síria. Ali concordou e deslocou-se para Nucaila, um ponto de concentração militar nos arredores de Cufa, permitindo que seus soldados descansassem e, ocasionalmente, visitassem suas casas. Apesar disso, seus homens mostraram-se relutantes em retomar a campanha e, nos dias seguintes, o acampamento ficou quase completamente abandonado. Em consequência, Ali foi obrigado a abandonar seus planos militares.[26] O massacre de antigos aliados de Ali, conhecidos por sua piedade e por serem recitadores do Alcorão, enfraqueceu significativamente sua posição como califa.[27] Ali acabou sendo assassinado pelo dissidente carijita Ibne Muljame em janeiro de 661.[23]

Embora os carijitas tenham sido esmagados, sua insurgência continuou por vários anos, e a Batalha de Naravã consolidou sua ruptura definitiva com a comunidade muçulmana.[23] Muitos deles abandonaram a vida urbana e passaram a se dedicar ao banditismo, ao roubo, ao saque de áreas povoadas e a outras atividades antiestatais ao longo do governo de Ali e, posteriormente, durante o de Moáuia (r. 661–680), que se tornou califa poucos meses após o assassinato de Ali. Durante a Segunda Guerra Civil Muçulmana, os carijitas controlaram grandes partes da Arábia e da Pérsia, mas acabaram sendo subjugados pelo governador omíada do Iraque, Alhajaje ibne Iúçufe.[28][29] No entanto, o movimento não foi completamente eliminado até o século X.[30]

Referências

  1. Kennedy 2001, pp. 7–8.
  2. Madelung 1997, p. 238.
  3. McHugo 2018, 2.III.
  4. Wellhausen 1901, pp. 3–4.
  5. a b Wellhausen 1901, p. 17.
  6. Madelung 1997, pp. 248–249.
  7. Levi Della Vida 1978, p. 1074.
  8. Madelung 1997, pp. 251–252.
  9. Levi Della Vida 1978, pp. 1074–1075.
  10. a b c Donner 2010, p. 163.
  11. a b Wellhausen 1901, pp. 17–18.
  12. Madelung 1997, p. 256.
  13. Madelung 1997, p. 257.
  14. a b Glassé 2001, p. 40.
  15. Madelung 1997, pp. 255, 257.
  16. a b Madelung 1997, p. 258.
  17. Madelung 1997, pp. 258–259.
  18. Madelung 1997, p. 254.
  19. Madelung 1997, pp. 254, 259.
  20. Madelung 1997, pp. 259–260.
  21. a b Madelung 1997, p. 259.
  22. a b Madelung 1997, p. 260.
  23. a b c d Wellhausen 1901, p. 18.
  24. Kennedy 2001, p. 10.
  25. Morony 1993, p. 912.
  26. Madelung 1997, p. 262.
  27. Donner 2010, p. 164.
  28. Kennedy 2004, pp. 79, 97.
  29. Lewis 2002, p. 76.
  30. Kennedy 2004, p. 79.

Bibliografia

  • Kennedy, Hugh N. (2001). The armies of the caliphs: military and society in the early Islamic state. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-25093-5 
  • Kennedy, Hugh (2004). The Prophet and the Age of the Caliphates: The Islamic Near East from the Sixth to the Eleventh Century. Londres: Routledge 
  • Levi Della Vida, G. (1978). «Khāridjites». In: van Donzel, E.; Lewis, B.; Pellat, Ch.; Bosworth, C. E. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume IV: Iran–Kha. Leida: E. J. Brill. pp. 1074–1077. OCLC 758278456. doi:10.1163/1573-3912_islam_COM_0497 
  • Madelung, Wilferd (1997). The Succession to Muhammad: A Study of the Early Caliphate. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-64696-0 
  • McHugo, John (2018). A Concise History of Sunnis and Shi'is. Washington: Georgetown University Press. ISBN 9781626165885 
  • Morony, Michael (1993). «Al-Nahrawān». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. pp. 912–913. ISBN 978-90-04-09419-2. doi:10.1163/1573-3912_islam_SIM_5760