Hurcus ibne Zuair Açadi

Hurcus ibne Zuair Açadi (em árabe: حرقوص بن زهير السعدي; romaniz.: Ḥurqūṣ ibn Zuhayr al-Saʿdī) foi um dos primeiros carijitas.

Vida

Hurcus pertencia ao ramo sadita dos tamimitas. Não se sabe ao certo quando se converteu ao Islã, mas se for aceita como correta a notícia de que esteve presente em Hudaibia (Ibne Hajar, I.320), pode-se dizer que se converteu antes de 6 A.H. (628). Durante a conquista da Pérsia, após o comandante iraniano Hormuzã, encarregado da defesa de Avaz — cidade que havia firmado um tratado de paz com os muçulmanos —, ameaçar romper os termos do acordo, o governador de Baçorá, Oteba ibne Gazuane, comunicou a situação ao califa Omar (r. 634–644) e solicitou auxílio. Por ordem de Omar, Hurcus foi nomeado comandante e enviado a Avaz. Ele derrotou o exército iraniano, tomou a cidade e conquistou a região que se estendia até os arredores de Tustar, enviando ao califa o tributo (jizia) arrecadado. Posteriormente, na campanha contra Hormuzã, desempenhou diversas funções sob o comando de chefes militares de Baçorá e Cufa (Atabari, IV.76–79). Hurcus liderou mais de seiscentos habitantes de Baçorá que, no ano 35 (655–656), dirigiram-se a Medina para reclamar da administração do califa Otomão (Atabari, IV.349).[1]

Após a ascensão de Ali (r. 656–661) ao califado, chefiou a unidade militar que defendia Baçorá contra Aixa, Tala e Zobair. Quando Baçorá caiu nas mãos das forças de Tala e Zobair e parte dos envolvidos no assassinato de Otomão foi morta, colocou-se sob a proteção dos tamimitas. Na Batalha de Sifim, por influência do chefe tribal Anafe ibne Cais, tomou o partido de Ali. Durante o conflito, esteve entre os que insistiram junto a Ali para que a questão do califado fosse submetida à arbitragem; mais tarde, porém, acusou-o de pecado por ter aceitado essa solução. Em discussões acaloradas com Ali, afirmou que sua oposição não visava senão à complacência divina e defendeu que o julgamento cabia a Deus, não aos árbitros (Ibne Catir, VII.285). Ali respondeu que havia sido firmado um acordo escrito com Moáuia e que, conforme a ordem divina (Alcorão, an-Nahl, 16:91), os pactos deveriam ser cumpridos, sustentando que o verdadeiro pecado era rompê-los; ainda assim, Hurcus manteve sua posição. Quando Abu Muça Alaxari foi enviado por Ali a Dumate Aljandal, os carijitas reunidos na casa de Abedalá ibne Uabe Arracibi decidiram abandonar Cufa. Nessa assembleia, Hurcus proferiu um sermão exortando à renúncia aos bens mundanos e à oposição à injustiça. O grupo propôs inicialmente Zaide ibne Hisne Atai como líder; diante da recusa deste, ofereceram o comando a Hurcus, que igualmente recusou (Atabari, VII.285). Ele participou da Batalha de Naravã contra Ali como comandante da infantaria e foi morto juntamente com Abedalá ibne Uabe Arracibi (38/658).[2]

Há relatos que identificam-no com Du Alcuaicira Atamimi, considerado o primeiro dos carijitas, que acusou Maomé de injustiça ao distribuir os despojos das campanhas de Hunaine ou Caibar (Adamiri, I.330; Ibne Hajar, I.320). Outros relatos afirmam que seria Du Atudaia, assim chamado por possuir uma excrescência semelhante a um seio feminino em um dos braços, cuja morte junto aos carijitas em Naravã foi previamente anunciada por Maomé e reconhecida por Ali no campo de batalha (Albaguedadi, p. 76, 80–81; Axarastani, I.115). Entretanto, nas fontes, o indivíduo que protestou contra Maomé é chamado Abedalá Du Alcuaicira, Ibne Du Alcuaicira, Du Alcuaicira ou ainda "um homem" (Musnade, I, 380, 411; II, 219; III, 56, 65; Albucari, Adab, 95; Muslim, Zakāt, 140–142, 148). Nessas tradições, após mencionar certas características dos carijitas, afirma-se que seu líder era um homem negro com uma excrescência no braço. Abuçaíde Alcudri, que declarou ter visto em Naravã o indivíduo com as características descritas por Maomé, não mencionou seu nome (Muslim, Zakāt, 143). Segundo Haitame ibne Adi, o Du Atudaia morto em Naravã era um homem muito negro, de odor desagradável entre os soldados, pertencente ao ramo urainaíta da tribo dos bajilaítas (Ibne Catir, VII, 290). Considerando esses dados, conclui-se que Du Alcuaicira e Du Atudaia não eram a mesma pessoa, e que Hurcus não se identifica com nenhum deles.[3]

A tradição segundo a qual todos os que participaram de Hudaibia — com exceção de Hurcus — entrariam no Paraíso (Ibe Hajar, I, 320), assim como outra, encontrada em algumas fontes carijitas, que afirma que Hurcus estaria entre os bem-aventurados (Xamaqui, p. 49), parecem ter sido forjadas por grupos com posições políticas divergentes. Com efeito, a primeira tradição, transmitida por opositores dos carijitas, não figura nas coleções canônicas de hádice; o relato autêntico afirma que todos os participantes de Hudaibia, sem exceção, entrarão no Paraíso (Mutaqui Alhindi, I, 102; XII, 40). A segunda tradição tampouco aparece nas coleções confiáveis. Há, ademais, quem sustente que Hurcus não foi companheiro de Maomé. Por esse motivo, ibne Abede Albar não o incluir em seu al-Istīʿāb. As fontes que o consideram companheiro baseiam-se numa única tradição de Atabari (Tārīkh, IV.76). Admite-se que a seita carijita sufrita tenha sido influenciada por Hurcus.[3]

Referências

  1. Öz 1998, p. 390.
  2. Öz 1998, p. 390-391.
  3. a b Öz 1998, p. 391.

Bibliografia

  • Öz, Mustafa (1998). «Hurkūs b. Züheyr». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 18. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 1 de janeiro de 2026