Tala ibne Ubaide Alá
Tala ibne Ubaide Alá Ataimi (em árabe: طَلْحَة بن عُبَيْد اللّه التَّيمي; romaniz.: Ṭalḥa ibn ʿUbayd Allāh al-Taymī; 594 - 8 de dezembro de 656) foi um companheiro do profeta islâmico Maomé. No Islã sunita, é sobretudo conhecido por figurar entre os al-ʿashara al-mubashshara (“os dez a quem foi prometido o Paraíso”). Desempenhou um papel importante na Batalha de Uude e na Batalha do Camelo, onde faleceu.
Vida
Tala nasceu em 594 e era filho e Assaba, filha de Abedalá ibne Imade Alhadrami, o aliado de Harbe ibne Omaia.[1] Em data incerta após 625, se casou com Hamna binte Jaxe, a viúva de Muçabe ibne Omeir.[2] Pertencia ao clã taimita dos coraixitas e era aparentado de Abacar. Ele e Abacar eram próximos e foram conhecidos como "os dois companheiros" (karīnān). Segundo a explicação mais difundida, receberam esse nome porque, durante as primeiras perseguições aos muçulmanos, certa vez foram amarrados juntos por uma única corda. De acordo com outra explicação, o pai de Tala o aproximou de Abacar. Segundo o relato de Tala, um monge de Bostra, na atual Jordânia, lhe falou da vinda do "último dos profetas". Após retornar apressadamente a Meca, foi apresentado por Abacar a Maomé e aceitou o Islã. Continuou a exercer o comércio de caravanas na Síria e não se juntou à migração para a Abissínia (615). No momento da Hégira de Maomé e Abacar (622), encontrou-os no caminho em Alcarrar, quando regressava da Síria. Forneceu-lhes roupas vindas da Síria e informações sobre os muçulmanos em Medina. Em seguida, seguiu para Meca e, mais tarde, escoltou a família de Abacar, incluindo Aixa, até Medina. Pouco antes da Batalha de Badre (624), Maomé enviou Tala, juntamente com Saíde ibne Zaide, para espionar a caravana mequense. Assim, os dois não estiveram presentes na batalha, mas receberam sua parte do butim.[3]
Em Uude, Tala distinguiu-se ao proteger pessoalmente o profeta. Matou dois mequenses e recebeu numerosos ferimentos, um dos quais deixou um ou dois de seus dedos paralisados. Foi por sua bravura nessa ocasião que Maomé lhe prometeu o Paraíso. Participou de todas as campanhas e batalhas posteriores do profeta. Após a morte de Maomé, Tala apoiou seu parente Abacar. Relatos isolados de Ibne Isaque e de outros, segundo os quais ele inicialmente teria permanecido com Ali e se recusado a prestar juramento de fidelidade a Abacar, não são confiáveis. Desempenhou papel destacado na Batalha de Du Alcassa, que deu início às Guerras Rida. Antes da morte de Abacar, diz-se que Tala protestou em vão contra a escolha de Omar como sucessor do califa, queixando-se do tratamento rude dispensado por este aos muçulmanos mesmo durante o reinado de Abacar. Não é impossível que já então aspirasse ele próprio ao califado. Omar o nomeou um dos seis eleitores e candidatos à sucessão. No momento da morte de Omar, porém, Tala não se encontrava em Medina e, assim, não participou da eleição de Otomão. Ao retornar a Medina, manifestou sua insatisfação com a exclusão da eleição, observando que não era alguém cujas opiniões pudessem ser ignoradas. Diz-se que Otomão lhe ofereceu renunciar para permitir uma nova eleição, mas Tala, tendo afirmado sua posição, prestou-lhe juramento de fidelidade.[4]
No início, Otomão fez esforços especiais para conquistar seu apoio por meio de generosos presentes. Segundo Muça, filho de Tala, os dons do califa a Tala somaram 200 mil dinares. Otomão também lhe permitiu trocar sua parte no oásis de Caibar pela altamente lucrativa propriedade de Anastastaje, perto de Cufa. Tala, contudo, logo se voltou contra ele e acabou tornando-se seu crítico mais severo entre os grandes Companheiros. Escreveu cartas às cidades-guarnição provinciais conclamando-as a se revoltarem contra o califa. Durante o cerco ao palácio de Otomão em Medina, tomou posse das chaves do tesouro e manteve estreito contato com os rebeldes egípcios sitiantes. Como isso, compartilhava do objetivo deles de forçar Otomão a deixar o cargo e esperava, com forte apoio de Aixa, ser escolhido como seu sucessor. Após o assassinato de Otomão, Tala inicialmente contou com algum apoio entre os rebeldes egípcios e os coraixitas presentes em Medina. Os rebeldes de Cufa favoráveis a Ali, contudo, logo ganharam a vantagem, apoiados pela grande maioria dos ançares. Tala foi arrastado pelo líder cufano Maleque Alastar até a mesquita para prestar juramento de fidelidade a Ali contra sua vontade, embora nenhuma força física ou ameaças tenham sido usadas na presença de Ali. Ele e Zobair, que também prestara juramento contra a própria vontade, fugiram poucos dias depois para Meca, onde se uniram a Aixa na reivindicação de vingança pelo sangue de Otomão e na declaração de Ali como responsável pelo assassinato. Juntos, lideraram um exército mequense até Baçorá em busca de apoio, prometendo uma nova eleição após a destituição de Ali.[4]
Havia intensa rivalidade entre Tala e Zobair, pois este último, tendo apoiado lealmente Otomão até o fim, considerava-se mais legitimado à sucessão. Tala foi traiçoeiramente morto por Maruane ibne Aláqueme, primo de Otomão, na Batalha do Camelo (15 de Jumada I de 36 / 8 de dezembro de 656), quando Ali e os cufanos ganhavam vantagem. Maruane, combatendo no exército mequense, atingiu o joelho de Tala com uma flecha, causando sangramento profuso do qual ele morreu. Os relatos de que Tala foi morto por Maruane foram rejeitados por L. Caetani e outros estudiosos modernos como ficção antiomíada. São corroborados, porém, pelo fato de que a propaganda maruânida na Síria durante a Segunda Guerra Civil Muçulmana proclamou orgulhosamente Maruane como o primeiro vingador do califa Otomão em razão desse feito. O filho mais velho de Tala, Maomé, também foi morto na Batalha do Camelo. Muça, que sobreviveu à batalha, foi perdoado por Ali e autorizado a tomar posse da vasta fortuna de Tala — incluindo propriedades fundiárias no Iraque e no Sarate, na Arábia — para sua família. A riqueza de Tala parece ter sido superada apenas pela de Otomão entre os primeiros companheiros. Assim como Otomão, ele é descrito como um generoso benfeitor da primeira comunidade muçulmana.[4]
Referências
- ↑ Madelung 2000, p. 161.
- ↑ Lings 1983, p. 246.
- ↑ Madelung 2000, p. 161-162.
- ↑ a b c Madelung 2000, p. 161-162.
Bibliografia
- Lings, Martin. Muhammad: His Life Based on the Earliest Sources. Rochester: Inner Traditions International
- Madelung, W. (2000). «Ṭalḥa ibn ʿUbayd Allāh». In: Bearman, P.J.; Bianquis, Thierry; Bosworth, C. E.; Donzel, E. van; Heinrichs, W. P. The Encyclopaedia of Islam Vol. X T-U. Leida e Nova Iorque: Brill