Abu Muça Alaxari

Abu Muça Abedalá ibne Cais ibne Sulaime Alaxari (em árabe: أبو موسى عبد الله بن قيس بن سليم الأشعري; romaniz.: Abū Mūsā ʿAbd Allāh b. Qays b. Sulaym al-Ashʿarī; m. 662/3) foi um dos companheiros de Maomé e uma figura importante no começo da história islâmica.

Vida

Abu Muça Alaxari nasceu no Iêmem por volta de 614[1] e residia em Zabide. Sua mãe, Zabia (ou Tufia) binte Uabe, era uma companheira de Maomé que emigrou para Medina, onde faleceu. Ao tomar ciência de que Maomé convidava os povos ao Islã, Abu Muça e dois de seus irmãos integraram uma delegação de 52 pessoas de sua tribo (os axaritas) que embarcou num navio para encontrá-lo. Algumas fontes (por exemplo, Ibne Hajar, Tahdhīb, II.1265) alegam que, devido a más condições climáticas, a embarcação foi desviada para a Abissínia (Habaxa), onde encontraram Jafar ibne Abi Talibe e seus companheiros e decidiram permanecer no país por algum tempo.[2] L. Veccia Vaglieri contesta essa tradição. No ano 7/628, por ocasião da famosa expedição contra os judeus em Caibar, juntaram-se a Maomé e prestaram-lhe juramento de fidelidade.[1] A tradição que fala da Abissínia afirma que eles primeiro foram a Medina antes de se deslocarem para Caibar. O profeta, então os concedeu parte do espólio e felicitou-os, afirmando que, por terem emigrado tanto para a Abissínia quanto para Medina, haviam recebido a recompensa de duas Hégiras (Albucari, Farḍ al-khums, 15; Maghāzī, 38, 55; Muslim, Faḍāʾil al-ṣaḥāba, 169).[2]

Outra tradição, registrada em outra fontes, relatam que Abu Muça teria aceitado o Islã em Meca, retornado à sua terra natal e, posteriormente, viajado a Medina juntamente com os axaritas convertidos, na ocasião em que Jafar ibne Abi Talibe regressou da Abissínia. Em 8/630, participou da Batalha de Hunaine (Atabari, I.1667). Nela, integrou a unidade comandada por seu tio Abu Amir Alaxari, encarregada de perseguir os inimigos derrotados. Quando Abu Amir caiu como mártir, confiou-lhe o comando. Ao regressarem a Medina, Maomé fez súplicas por ambos os comandantes. Antes da Peregrinação de Despedida (632), Maomé encarregou Abu Muça da coleta do zacate nas regiões de Zabide, Adem, Maribe e das zonas costeiras do Iêmem.[2] Nessa expedição, foi auxiliado por Muade ibne Jabal com a intenção de difundir o islamismo na região, e atuou como representante (lugar-tenente) de Maomé.[1] Durante o califado de Abacar (r. 632–634), permaneceu ali e combateu Alaçuade Alanci durante as Guerras Rida. Posteriormente, regressou a Medina e participou das conquistas da Síria.[2]

Omar (r. 634–644) nomeou-o governador e juiz de Baçorá quando destituiu Almuguira ibne Xuba desse cargo em 17/638 (Atabari, I.2529 e 2388).[1] Além dessas funções, ensinou o Alcorão aos habitantes de Baçorá. Como governador, organizou e conduziu a ocupação de Cuzistão (17–21/638–642), devendo ser considerado o conquistador dessa região. A capital Suque Alavaz (ou simplesmente Avaz) caiu em suas mãos já em 17/638, mas a campanha prosseguiu e apresentou muitas dificuldades, pois as numerosas cidades fortemente fortificadas da região tiveram de ser subjugadas uma a uma, algumas delas tendo de ser reconquistadas após 21/642. Abu Muça também participou da conquista da Mesopotâmia (fim de 18–20/639–641), unindo suas forças às de Iade ibne Ganme, bem como da campanha no planalto iraniano, onde é mencionado como presente na Batalha de Niavende;[1] a ocupação de várias cidades lhe é atribuída (Nísibis, Dinavar, Qom, Caxã, Ispaã). Em 642, Tustar (Xustar), sitiou o exército persa, capturou o general Hormuzã e enviou-o ao califa. Mais tarde, a pedido dos habitantes de Cufa, Omar o nomeou governador dessa cidade em 22/642–643, em substituição de Amar ibne Iacir.[3]

Em 23/643–644, numa batalha sangrenta, mas indecisa, derrotou numerosas tribos curdas que se haviam reunido com intenções hostis em Bairude (na província de Avaz) e que haviam atraído muitos habitantes da região para suas fileiras. Cercou a cidade onde os sobreviventes dos insurgentes haviam encontrado refúgio e tomou-a depois de submeter o restante do território. Foi em razão da distribuição do butim obtido nessa ocasião que uma acusação foi apresentada contra ele ao califa, perante o qual teve de justificar sua conduta (Atabari, I.2708–2713). Após esse êxito, avançou para Pérsis (fim de 23/644) e, em várias expedições, deu apoio a Otomão ibne Abi Alas, que havia iniciado a conquista dessa província a partir do Barém e de Omã (Albaladuri, Futūḥ, 387).[1] No período de Otomão (r. 644–656), Abu Muça exerceu novamente os governos de Baçorá e Cufa. Em 26/646–647, surgem sinais de descontentamento quanto ao governo de Abu Muça (Atabari, I, 2829, relata um movimento de insubordinação entre suas tropas sob o ano 29, que na realidade ocorreu em 26). O protesto mais sério contra os abusos que lhe foram imputados foi levado a Medina por uma delegação de habitantes de Baçorá em 29/649–650 (Atabari, I, 2830), após o que Otomão decidiu substituí-lo em Baçorá por Abedalá ibne Amir.[1]

Após ser destituído, Abu Muça permaneceu em Cufa ensinando Alcorão e jurisprudência islâmica; por vezes, seus alunos chegavam a trezentos.[3] Abu Muça havia conquistado o respeito dos habitantes de Cufa a tal ponto que estes exigiram sua recondução quando expulsaram o governador Saíde ibne Alas em 34/654–655 (Atabari, I.2930; Alisfaani, al-Aghānī, XI.31), e ele era governador da cidade no momento do assassinato de Otomão (656). Com a eleição de Ali (r. 656–661), Abu Muça prestou-lhe juramento de fidelidade em nome dos cufanos (Atabari, I, 3089; Almaçudi, Murūj, 296 etc.), conservando o cargo quando os demais governadores de Otomão foram destituídos (Iacubi, II.208). Quando eclodiu a guerra entre Ali e Aixa, Tala e Zobair, ele exortou seus súditos à neutralidade (Atabari, I, 3139; Adinavari, 153 ss., etc.) e, apesar das pressões, não abandonou essa posição. Como resultado, os partidários de Ali expulsaram-no da cidade na primeira oportunidade (Atabari, I, 3145–3149, 3152–3154), e o califa enviou-lhe uma carta de destituição redigida nos termos mais severos (Atabari, I, 3173; Almaçudi, Murūj, IV, 338). Ainda assim, alguns meses depois, concedeu-lhe amã (garantia de segurança) (Nácer ibne Muzaim Almincari, Waqʿat Ṣiffīn, p. 572; Atabari, I, 3333*).[1] Abu Muça, então, retirou-se para o isolamento numa aldeia da região de Damasco.[3]

Antes do início da Batalha de Sifim (657), apesar de sofrer insultos de alguns partidários de Ali, Abu Muça exortou os habitantes de Cufa à neutralidade, citando tradições proféticas relativas às discórdias (fitã). Quando se decidiu resolver o conflito por meio de arbitragem, Moáuia nomeou Anre ibne Alas, enquanto Ali, pressionado por seus seguidores, escolheu Abu Muça;[4] Ibne Abas foi um dos correligionários de Ali que protestaram essa escolha.[5] Os árbitros reuniram-se em Udru e decidiram depor tanto Ali quanto Moáuia, remetendo a escolha do califa a um conselho (xura). Abu Muça anunciou primeiro essa decisão; porém, quando chegou a vez de Anre, este declarou a deposição de Ali e a investidura de Moáuia. Apesar do protesto de Abu Muça, a decisão prevaleceu, conduzindo o conflito a um impasse.[4] e foi viver em Meca. Após o encontro em Udru, Abu Muça retirou-se para Meca. Quando Moáuia enviou Busre ibne Abi Artate para ocupar as cidades santas (40/660), Abu Muça temeu sua vingança. Segundo algumas fontes, chegou mesmo a fugir, mas Busre o tranquilizou. Depois disso, Abu Muça não voltou a participar da política e há incerteza a respeito da data de sua morte.[6] Faleceu provavelmente em 42/662-63, embora existam tradições que mencionem os anos 43, 44, 53 ou 54. Diverge-se também quanto ao local de sua morte, que pode ter sido Cufa ou Meca.[4]

Abu Muça teve cinco filhos: Ibraim, Abu Burda, Abu Becre, Muça e Maomé. O primogênito, Ibraim, recebeu seu nome do profeta, que também orou por ele. Foi um dos poucos companheiros que aprenderam e memorizaram o Alcorão diretamente de Maomé. Sua bela recitação era amplamente admirada (Ibne Sade, Ṭabaqāt, II/2.106). Diz-se que, em certa noite, o profeta ouviu-o recitar e disse-lhe que havia sido dotado de uma voz semelhante à de Daúde (Davi) (Albucari, Faḍāʾil al-Qurʾān, 31). Haçane de Baçorá afirmou que ninguém trouxe mais benefício a Baçorá do que Abu Muça. O erudito Amir Axabi incluía-o entre os seis grandes sábios da comunidade, ao lado de Omar, Ali, Abedalá ibne Maçude, Zaide ibne Tabite e Ubai ibne Cabe. Durante a vida de Maomé, aqueles que emitiam pareceres jurídicos (fátuas) eram Omar, Ali, Muade ibne Jabal e Abu Muça Alaxari. As decisões jurídicas emitidas por Abu Muça ocupavam apenas um pequeno caderno (juz), e diz-se que ele afirmava: "Não é correto que um juiz emita um julgamento antes que a verdade se torne tão clara quanto a luz do dia." Conhecido por sua ascese (zuhd) e piedade, manteve vida simples apesar de longos anos no governo. Destacava-se também por sua modéstia (ḥayāʾ) e por exortar seus discípulos à brandura de coração e ao temor de Deus.[7]

Atribui-se a ele um papel na fixação do calendário islâmico, ao alertar Omar de que as cartas oficiais não traziam datas, o que levou o califa a estabelecer a Hégira como marco inicial da era islâmica.[7] Seu nome permanece ligado aos estudos corânicos, uma vez que ele estabeleceu um muxafe próprio, que localmente continuou em uso mesmo após a redação da vulgata de Otomão.[8] Abu Muça transmitiu hádices de Maomé, bem como dos quatro califas, e de companheiros como Muade ibne Jabal, Abedalá ibne Maçude, Ubai ibne Cabe e Amar ibne Iacir. Transmitiram dele seus filhos Muça, Ibraim, Abu Burda e Abu Becre, bem como Abu Saíde Alcudri, Anas ibne Maleque, Cais ibne Abi Hazim, Saide ibne Almuçaibe, Zir ibne Hubaixe, Abu Otomão Anadi e Haçane de Baçorá. Existe na Biblioteca da Mesquita de Solimão um manuscrito contendo um caderno de quarenta hádices transmitidos por Abu Muça, posteriormente conhecido como Musnade de Buraide, preservado pelo neto de Abu Burda, Abu Burda Buraide ibne Abedalá (Xaíde Ali Paxá, n.º 541, fólios 136a–174a). Dos 360 hádices que ele transmitiu, 49 constam nos dois Ṣaḥīḥs; destes, quatro são exclusivos de Albucari e quinze, exclusivos de Muslim.[7]

A carta enviada por Omar a Abu Muça sobre o direito processual ocupa lugar de destaque na história do direito islâmico. Nela, Omar afirma que a função jurisdicional é uma obrigação sólida e uma prática consagrada, e aborda princípios fundamentais como a imparcialidade do juiz, o ônus da prova, a conciliação, e a possibilidade de o juiz rever uma decisão equivocada. Trata também do recurso ao raciocínio analógico (qiyās) em casos não previstos explicitamente no Alcorão e na Suna, e do princípio segundo o qual todos os muçulmanos são considerados testemunhas idôneas, salvo prova de falsidade. Por valorizar a imparcialidade, eliminar provas arbitrárias comuns a sistemas jurídicos antigos e estabelecer critérios racionais e ético-religiosos, essa carta é considerada uma manifestação avançada do pensamento jurídico. Posteriormente, tornou-se uma fonte fundamental para os juristas muçulmanos. Ibne Alcaim escreveu um comentário detalhado sobre ela (Iʿlām al-muwaqqiʿīn, I, 85 ss.).[7]

Alguns estudiosos modernos, como David Samuel Margoliouth, Émile Tyan e Joseph Schacht — questionaram a autenticidade da carta, alegando que Abu Muça era governador, e não juiz, em Baçorá, que Albucari e Muslim não a mencionam, e que Abu Iúçufe teria atribuído carta semelhante a Abu Ubaida ibne Aljarrá. Contudo, com exceção de poucos casos, as fontes islâmicas aceitam amplamente a autenticidade do documento. O historiador turco Mehmet Yaşar Kandemir discorda dessas objeções. Segundo ele, O fato de Abu Muça ser governador não invalida a carta, pois, nos primórdios do Islã, funções administrativas e judiciais frequentemente se acumulavam. Ele foi nomeado governador de Baçorá em 17/638, e o envio de Cabe ibne Sur como juiz ocorreu apenas em 18/639, o que torna provável que a carta tenha sido escrita antes dessa separação de funções. A ausência do texto nos Ṣaḥīḥs também não é decisiva, pois o documento foi transmitido, total ou parcialmente, por numerosas autoridades confiáveis — entre elas Mamar ibne Raxide, Maleque ibne Anas, Abu Iúçufe, Maomé Axaibani, Abede Arrazaque Assanani, Axafii, Albaiaqui, Adaracutni e Albaladuri — por meio de três cadeias de transmissão distintas. Além disso, cartas de conteúdo semelhante foram enviadas a outros magistrados, como Xurai Alcadi e Moáuia.[7]

Referências

  1. a b c d e f g h Vaglieri 1960, p. 695.
  2. a b c d Kandemir 1994, p. 190.
  3. a b c Kandemir 1994, p. 191.
  4. a b c Kandemir 1994, p. 191-192.
  5. Çakan & Eroğlu 1988, p. 77.
  6. Vaglieri 1960, p. 695-696.
  7. a b c d e Kandemir 1994, p. 192.
  8. Vaglieri 1960, p. 696.

Bibliografia

  • Çakan, İsmail Lütfi; Eroğlu, Muhammed (1988). «Abdullah b. Abbas». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 1. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 1 de janeiro de 2026 
  • Kandemir, Mehmet Yaşar (1994). «Ebû Mûsâ el-Eş'arî». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 10. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 1 de janeiro de 2026 
  • Vaglieri, L. Veccia (1960). «al-Ashʿarī Abū Mūsā». In: Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Lévi-Provençal, E.; Schacht, J.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume I: A–B. 1. Leida: Brill