Saíde ibne Alas
Saíde ibne Alas ibne Abi Uaia (em árabe: سعيد بن العاص بن أبي أحيحة; romaniz.: Saʿīd ibn al-ʿĀs ibn Abī Uḥayḥa; m. 678/9) foi o governador califal de Cufa sob o califa Otomão (r. 644–656) e governador de Medina sob o califa Moáuia I (r. 661–680). Assim como os califas supracitados, Saíde pertencia ao clã omíada dos coraixitas.
Durante seu governo em Cufa, Saíde liderou ´campanhas militares no Azerbaijão e nas proximidades do mar Cáspio. Contudo, teve de enfrentar a dissidência de parte da elite cufana, liderada por Maleque ibne Alharite. A dissidência foi em grande medida motivada pela política de Saíde e de Otomão de concentrar a posse das produtivas terras do Sauade do Iraque nas mãos dos coraixitas e de veteranos muçulmanos provenientes de Medina. Saíde mandou exilar os dissidentes, mas, durante uma visita a Medina, rebeldes em Cufa liderados por Iázide ibne Cais Alarabi tomaram o controle da cidade.
Após sua deposição em Cufa, Saíde auxiliou na defesa da casa de Otomão contra ataques de rebeldes egípcios, mas Otomão acabou morto e Saíde ficou ferido. Ele recusou-se a lutar ao lado dos Banu Omaia e de Aixa contra o califa Ali (r. 656–661) durante a Primeira Guerra Civil Islâmica, atitude pela qual foi lembrado de forma favorável na historiografia islâmica. Foi nomeado governador de Medina pelo califa omíada Moáuia I em 669, mas substituído por Maruane ibne Aláqueme em 674. Saíde então retirou-se para sua propriedade nos arredores da cidade, onde morreu. Um de seus filhos, Alasdaque, sucedeu-lhe como chefe de seu clã.
Origens, vida inicial e família
Saíde foi o único filho de seu pai, Alas ibne Saíde ibne ALas ibne Omaia, um guerreiro pagão dos coraixitas morto pelos primeiros muçulmanos na Batalha de Badre em 624. Eles pertenciam ao agrupamento Aias dentro dos Banu Omaia (omíadas), um subclã dos coraixitas. Saíde provavelmente era ainda um bebê quando seu pai foi morto.[1] Seu avô Abu Uaia Saíde ibne Alas (m. 622/3)[2] foi um governante em Meca e, em deferência ao seu status entre os coraixitas, era chamado de du altaje (dhū al-tāj; dono da coroa), e nenhum mequense usava um turbante da mesma cor que o seu, embora ele não fosse um rei formal.[3] A mãe de Saíde, Ume Cultume binte Anre, também era coraixita, e sua avó materna Ume Habibe binte Alas era irmã de Abu Uaia.[4]
Segundo o historiador Clifford Edmund Bosworth, Saíde "rapidamente alcançou grande prestígio no Islã não apenas como líder de um grupo familiar aristocrático, mas também por sua liberalidade, eloquência e erudição". Ele obteve particular favor sob seu parente, o califa Otomão (r. 644–656). Provavelmente por volta de 652–654, Otomão nomeou Saíde para ajudar a canonizar o atual Alcorão, tarefa que compartilhou com Abedalá ibne Zobair, Abderramão ibne Alharite e Zaíde ibne Tabite. Saíde casou-se com duas filhas de Otomão, Mariã Açugra e Ume Anre.[1] De Ume Anre, teve Daúde, Solimão Alaquebar, Otomão Alasgar, Moáuia e Amina,[5] enquanto de Mariã teve Saíde.[6] Ele também se casou com Ume Albanine Binte Aláqueme, irmã de Maruane ibne Aláqueme, outro membro dos Banu Omaia,[1] que lhe deu o filho mais velho, Otomão Alaquebar,[6] e os filhos Alasdaque,[7][8] Maomé, Omar, Abedalá Alaquebar e Aláqueme.[6]
De sua esposa Ume Habibe binte Jubair ibne Mutim teve Abedalá Alasgar; de Alalia binte Salama teve Iáia e Aiube; de Juairia binte Sufiane teve Abane, Calide e Zobair; de Aixa, filha de Jarir ibne Abedalá Albajali, teve Jarir e Ume Saíde; de Omaima binte Amir Albajalia teve Ramla, Ume Otomão e Omaima; de uma certa Binte Salama ibne Cais teve Ibraim; de Ume Habibe binte Buair teve Aixa Açaguira; e de Ume Salama binte Habibe teve Solimão Alasgar.[6] De várias escravas (ume ualade), não nomeadas nas fontes, teve os filhos Ambaça e Oteba, e as filhas Háfesa, Aixa Alcabira, Ume Anre, Ume Iáia, Fatica, Ume Habibe Alcabira, Ume Habibe Açaguira, Ume Culthum, Sara, Ume Daúde, Ume Solimão, Ume Ibraim e Humaida.[6]
Governador de Cufa
Em 649/650, Saíde foi nomeado governador de Cufa, substituindo Alualide ibne Uqueba. Durante seu mandato, sua reputação militar foi reforçada por campanhas no Azerbaijão e nas proximidades do mar Cáspio.[1] Contudo, desde o início, enfrentou problemas com a elite cufana, composta por colonos tribais árabes, veteranos muçulmanos da Batalha de Cadésia e os qurra (recitadores do Alcorão).[9] Muitos entre a elite ficaram indignados com a apropriação, por Otomão, das terras conquistadas dos reis e da nobreza do Império Sassânida no Iraque, que ele planejava distribuir aos membros da tribo dos coraixitas e a certos homens de Medina, em troca de suas propriedades na península Arábica.[10] Esses dois grupos compunham os primeiros colonos de Cufa, que haviam participado da conquista muçulmana do Iraque.[11] No tempo de Otomão, um grande influxo de recém-chegados da Arábia mudou-se para Cufa e o Sauade, reduzindo os lucros coletivos dos primeiros colonos e levando Saíde a enviar uma queixa sobre a crise a Otomão em 651.[12] A política de Otomão pretendia ser uma solução para essa situação e contrastava fortemente com a do califa Omar (r. 634–644), sob o qual as terras do Sauade eram detidas coletivamente pela comunidade muçulmana.[10] Os recém-chegados não conseguiam se beneficiar da troca de terras proposta, pois a maioria não possuía propriedades em outras regiões.[13]
Saíde levou adiante a política de Otomão e teria declarado que “o Sauade [do Iraque] é o jardim dos coraixitas”,[10] isto é, que a terra deveria pertencer à sua tribo.[1] Segundo o historiador do século VIII Ceife ibne Omar, os problemas chegaram ao auge quando um certo jovem dos assaditas, Abderramão ibne Hubaixe, comentou na presença de Saíde e da elite cufana que Saíde deveria tomar posse das terras do Sauade.[14] Isso despertou a ira de Maleque ibne Alharite e dos qurra. O pai do jovem insistiu que a observação fora inocente, mas Maleque acreditava que Saíde encenara o episódio para justificar as iminentes confiscações de propriedades.[15] Ibne Hubaixe e seu pai foram severamente espancados, levando os assaditas a cercarem a residência de Saíde exigindo reparação.[16] Saíde acalmou os membros da tribo e condenou energicamente as ações dos qurra.[16] Com a sanção de Otomão, os dez principais dissidentes de Cufa, incluindo Maleque, foram exilados para a Síria.[17] Otomão convocou Saíde a Medina para consultas sobre o estado do califado em 655.[18] Durante sua ausência, os qurra e outros dissidentes, liderados por Iázide ibne Cais Alarabi e Maleque, tomaram o controle de Cufa, impedindo Saíde de retornar ao final do ano. Forçado a voltar para Medina, ele foi substituído por Abu Muça Alaxari, favorecido pelos rebeldes.[1]
Vida posterior
Saíde participou da defesa da casa de Otomão quando esta foi sitiada por rebeldes egípcios em 656. O califa acabou sendo morto e Saíde ficou ferido no ataque. No rescaldo, ele estava prestes a juntar-se a Aixa, Tala ibne Ubaide Alá e Zobair ibne Alauame na busca por vingança pela morte de Otomão. Contudo, recusou-se a lutar ao lado deles contra o sucessor de Otomão, o califa Ali (r. 656–661), na Batalha do Camelo. Em vez disso, estabeleceu-se em Meca. Apesar de não ter participado da guerra contra Ali, o califa Moáuia I (r. 661–680), um dos principais opositores de Ali, nomeou Saíde governador de Medina em 669. Ele substituiu Maruane ibne Aláqueme até que este último fosse reconduzido ao cargo em 674.[1] Posteriormente, Saíde retornou às suas propriedades em Uádi Alaquique, perto de Medina. Ele morreu ali, na propriedade de Alarsa, em 678/9. Apesar de ser membro dos Banu Omaia, suas boas relações com os haxemitas (a família de Maomé e Ali) e sua recusa em lutar contra Ali contribuíram para sua imagem positiva na historiografia islâmica posterior.[1]
Cerca de 14 dos seus filhos viveram mais do que ele, incluindo Alasdaque, que se tornou o chefe de sua família até ser executado em 689 por se rebelar contra o califa omíada Abedal Maleque (r. 685–705).[1] Nada se sabe sobre seus filhos das filhas do califa Otomão, exceto que os descendentes de Otomão Alagar viviam em Cufa.[5] Amina foi posteriormente casada e divorciada do príncipe omíada Calide ibne Iázide.[5] Os filhos de Saíde, Iáia e Ambaça, estiveram envolvidos na rebelião de Alasdaque contra Abedal Maleque, mas ambos foram perdoados após a intercessão do irmão do califa, Abdalazize.[19][20] Ambaça mais tarde tornou-se um colaborador próximo do vice-rei prático do Iraque, Alhajaje ibne Iúçufe.[21] Uma das filhas de Saíde, Ume Otomão, casou-se sucessivamente com Saíde ibne Calide ibne Anre, um bisneto do califa Otomão, e com o príncipe omíada Abedalá ibne Iázide.[22]

Referências
- ↑ a b c d e f g h i Bosworth 1995, p. 853.
- ↑ Faris 1952, p. 20.
- ↑ Athamina 1998, p. 22–23.
- ↑ Bewley 2000, p. 15.
- ↑ a b c Ahmed 2010, p. 114.
- ↑ a b c d e Bewley 2000, p. 16.
- ↑ Zetterstéen 1960, p. 453.
- ↑ Bewley 2000, p. 154.
- ↑ Anthony 2012, pp. 26–27.
- ↑ a b c Anthony 2012, pp. 28–29.
- ↑ Anthony 2012, p. 30.
- ↑ Anthony 2012, pp. 29–30.
- ↑ Anthony 2012, p. 31.
- ↑ Anthony 2012, p. 27.
- ↑ Anthony 2012, pp. 27–28.
- ↑ a b Anthony 2012, p. 28.
- ↑ Anthony 2012, p. 32.
- ↑ Anthony 2012, p. 38.
- ↑ Howard 1990, p. 70, nota 236.
- ↑ Fishbein 1990, p. 163.
- ↑ Rowson 1989, p. 19, nota 88.
- ↑ Ahmed 2010, pp. 118–119.
Bibliografia
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