Assaditas
Os assaditas ou Banu Assade (em árabe: بَنُو أَسَدْ; romaniz.: Banu Asad) são uma tribo árabe.
Genealogia
De acordo com os genealogistas árabes, a linhagem dos assaditas, que deu seu nome à tribo, remonta a Assade ibne Cuzaima ibne Mudrica ibne Ilias ibne Mudar ibne Nizar, chegando até o profeta Ibraim. Dos outros filhos de Cuzaima, Quinana e Hune, também surgiram tribos irmãs. A descendência de Assade se dividiu e se multiplicou a partir de cinco de seus filhos: Dudane, Sabe, Culma, Cail e Anre; o mais forte deles é o ramo de Dudane.[1]
História
Período pré-islâmico
Os territórios dos assaditas eram ricos em vales e nascentes, e na montanha Cussas havia uma mina de ferro, da qual se originava o nome das espadas chamadas cussassi (quṣāṣī). Como Calide ibne Anre ibne Assade é considerado o primeiro árabe a aprender a profissão de ferreiro, os assaditas receberam o apelido de Alcuiune (al-Quyūn; "os ferreiros").[1] Originalmente os assaditas habitavam o norte da Arábia, ao pé das montanhas outrora habitadas pelos taitas (outras reconstruções colocam que o taitas teriam chegado em territórios já ocupados pelos assaditas e os tomaram[1]). Em contraste com estes últimos, os assaditas levavam uma vida majoritariamente nômade. Seus pastos se estendiam ao sul e sudeste do Nefude, desde as montanhas Xamar até o Uádi Arruma, ao sul, e além dele, nas cercanias das duas montanhas Abã (Alamar e Alasmar), na direção de Arras, avançando mais para leste até Sir. Seu território se sobrepunha ao dos abcitas, enquanto ao norte tocava o dos iarbuítas, dos tamimitas, pois ali os assaditas possuíam a fonte de Line, para lá do Dana, assim como a faixa adjacente de Hasne (Hejera), ao norte.[2] Outras tribos vizinhas conhecidas eram os quinanaítas, dabaítas, Rabia ibne Maleque (Rabīʿa ibn Mālik), soleimitas e fazaraítas.[1]
Durante o período da Jailia, produziram poetas como Abide ibne Abras e Cumaite Alaquebar.[3] Destacaram-se por guerras como as batalhas de Har (Yawmu Ḥar), Nissar (Yawmu’n-Nisār) e Hujer (Yawmu Ḥujr). Envolveram-se numa revolta contra Hujer ibne Alharite, filho do rei quidáida Alharite ibne Anre e pai de Inru Alcais, que havia sido designado o emir deles. Hujer reprimiu a revolta de modo sangrento. Como naquela ocasião alguns deles foram mortos a pauladas, os assaditas receberam desde então o apelido de Abide Alaça (ʿabīd al-ʿaṣā; "os escravos da vara"). Durante esses conflitos posteriores, Hujer e Inru Alcais perderam a vida. Os assaditas participaram ainda das guerras Dais e de sua continuação, batalha de Xibe Jabala, e na quarta guerra Fijar tomaram lado com os coraixitas.[1] As relações dos assaditas tanto com seus vizinhos imediatos quanto com os mais distantes — os tamimitas e as tribos além do Uádi — variaram. Em contraste, ao final da década de 560 e início da década de 570 da era cristã, desenvolveu-se uma aliança permanente com os taitas e os gatafanitas, à qual se uniram os dubianitas e os abcitas. Algumas décadas depois, porém, surgiu uma ruptura entre os aliados, da qual resultaram choques, sobretudo entre os assaditas e os taitas, até que o Islã restabeleceu a paz entre as tribos. Uma família assadita, os Ganme, estabelecida havia muito tempo em Meca, pertencia ao círculo íntimo dos companheiros de Maomé.[2]
Período islâmico inicial
No início do ano 4/625, Maomé enviou uma expedição de ataque aos poços dos assaditas em Catã, onde se encontrava o subgrupo facasitas, com seu chefe Tulaia ibne Cuailide (Tala), os quais, segundo a tradição, planejavam atacar Medina, já enfraquecida pela Batalha de Uude.[2] Nessa expedição, a força de 150 muçulmanos capturaram muito espólio. Depois, um grupo de taitas aproveitou-se da situação e saqueou todos os bens assaditas. No mesmo ano, Maomé enviou uma expedição contra eles, mas, avisados com antecedência, fugiram. É concebível que Tulaia tenha participado do cerco de Medina, a chamada Batalha da Trincheira (6/627). Segundo Jawād ʿAlī, embora Assade ibne Cuzaima estivesse na religião do profeta Xuaibe, os assaditas adoravam Du Alcabate e Utaride.[1]
Depois de novos insucessos contra Maomé, irrompeu fome entre os assaditas, e Tulaia apareceu com outros chefes em Medina no começo do 9/630, para abraçar o Islã e pediram permissão para recolherem e distribuírem o zacate entre si devido à seca. Embora seja incerto que a sura XLIX:14-17, se refira a seus emissários, conforme sustenta a tradição, tais versículos refletem sua atitude rude em relação ao Islã. Seja como for, Maomé também lhes entregou uma ordem proibindo que entrassem sem permissão nas terras dos taitas. Há relatos de que o califa Omar (r. 634–644) incluiu os assaditas entre as sete tribos cuja pronúncia explicaria o hádice sobre o Alcorão ter sido revelado em "sete dialetos". No ano 11 H (632), ainda durante a vida de Maomé, Tulaia declarou-se profeta. Após a morte de Maomé, Tulaia conseguiu afastar parte dos assaditas do Islã e, obtendo o apoio de grupos de gatafanitas, fazaraítas, abcitas, zubianitas e taitas, ergueu-se contra o califa Abacar (r. 632–634) durante as Guerras Rida.[4] Abandonado pelo líder dos fazaraítas na batalha de Buzaca contra Calide ibne Ualide, ele fugiu (11/632). Essa vitória dos muçulmanos quebrou a resistência dos insurgentes no norte da Arábia, que então se converteram ao Islã pela primeira vez — os assaditas entre eles.[2]
Nas guerras de conquista subsequentes, os assaditas envolveram-se no fronte iraquiano. Tulaia, tendo retornado ao Islã nesse meio-tempo, combateu no Iraque e na Pérsia. A maior parte dos assaditas foi absorvida como parte da população no entreposto de Cufa. Ali, com o tempo, dedicaram-se ao saber, produzindo sábios – entre eles Amade ibne Ali Alnaxaji, autor do famoso Kitāb al-Rijāl, destacado contribuinte da literatura xiita; como resultado, muitos dos que transmitiram a tradição xiita eram assaditas de Cufa. Outros grupos assaditas foram integrados perto de Alepo e perto de Raca, em Mudaibir e Maziim, pelo governador da Síria e Jazira Moáuia ibne Abi Sufiane, que os incorporou no exército sírio. Nos períodos posteriores, serviram nos exércitos de Ali, Huceine, Almoquetar Atacafi, Almoalabe ibne Abi Sufra e Iázide ibne Almoalabe.[4] Quando a retirada dos bacritas e tamimitas lhes abriu o caminho para o norte, na segunda metade do século IX, estenderam seus pastos ao longo da rota de peregrinação de Cufa, desde Albitane (Bitane) em Dana até Uaquissa. Mais tarde, tal extensão avançou ainda mais ao norte, até Cadésia, na fronteira do Sauade. A leste, estenderam-se até Baçorá, e a oeste até Aine Atanre.[2] Abzeme informa que, no século XI, alguns assaditas viviam em Xaém, no Alandalus, provavelmente descendentes dos que participaram da conquista. Sabe-se da presença de alguns grupos deles na região de Setife, próxima a Cairuão, na África.[5]
Entre as personalidades muçulmanas do clã contam-se: Zainabe ibne Jaxe, esposa de Maomé, e seus irmãos Hamna binte Jaxe, Abedalá ibne Jaxe e Abu Amade ibne Jaxe; o poeta-companheiro Anre ibne Xace; o poeta e guerreiro Dirar ibne Alazuar e sua irmã Haula binte Alazuar; a companheira Ume Maquil; os companheiros Uquecaxa ibne Missane e Huraime ibne Fatique (Arame); o grande muadiz (erudito do hádice) Abu Huceine; o especialista em leitura corânica Zir ibne Hubaixe; o poeta tâbiʿī Aimane ibne Huraime; e Xaquique ibne Salama.[3]
Emirado Maziádida e história moderna
Na segunda metade do século X, os assaditas penetraram nas terras povoadas. O xeique Maziade, da subtribo naxiraíta, instalou-se no canal Nil em Hila, enquanto outro chefe, Dubais, atravessou o Tigre e armou seu acampamento nas proximidades da futura Huveize (Cuzistão). Os distúrbios internos sob os buídas favoreceram a ascensão dos maziádidas. Ali ibne Maziade (ca. 961–1017) foi confirmado em seu ofício como vassalo dos buídas em 403/1012–3. Seu filho Dubais (r. 1018–1082) e o filho deste, Mançor (r. 1082–1086), eram considerados o tipo ideal de aristocrata árabe. Ambos foram superados por Sadaca ibne Mançor (r. 1086–1108), em nobreza pessoal e importância política. Na luta entre o sultão Barquiaruque e seu irmão Maomé I Tapar, ele tomou partido deste último e ocupou Cufa (1101), Hite, Uacite, Baçorá e Ticrite, trazendo várias tribos beduínas do Iraque sob sua influência; assim, estava plenamente justificado ao chamar-se Maleque Alárabe (“Príncipe dos Beduínos”). Contudo, mais tarde entrou em conflito com seu suserano, o sultão Maomé, que o derrotou em Almadaim em 501/1108, batalha na qual caiu.[6]
Sadaca reunia em sua pessoa as virtudes de um guerreiro árabe e as de um príncipe islâmico. Ele se encontrava no limiar da transição do modo de vida beduíno para o da civilização urbana. Embora de início ainda vivesse em tendas, em 495 (1101/2) instalou sua residência em Hila. Os filhos de seu filho e sucessor Dubais II (r. 1108–1135), que levou uma vida inquieta e aventureira e foi assassinado na corte, em Maraga, pelo sultão seljúcida Maçude ibne Maomé em 529/1135, governaram em Hila até 545/1150. Os assaditas haviam seguido os maziádidas para Hila e permaneceram lá depois de extinta sua família principesca. Pelo fato de terem apoiado o sultão Maomé II no último feito militar seljúcida no Iraque — o malsucedido Cerco de Baguedade (551/1157) —, o califa Almostanjide I (r. 1160–1170) determinou expulsá-los de Hila (558/1163). Eles se entrincheiraram na vizinhança e foram, com ajuda dos muntafiquitas, finalmente compelidos a submeter-se. Quatro mil deles foram massacrados e o restante banido para sempre de Hila. Os vencedores talvez tenham sido levados a adotar esse procedimento impiedoso porque os assaditas pertenciam ao xiismo.[6]
Os assaditas então se dispersaram, mas devem ter-se reunido novamente mais tarde. Em todo caso, nos séculos XIV e XV viviam a sudeste de Uacite. Com o passar do tempo, encontraram um novo lar em Aljazair. Os assaditas, ou seditas como são chamados no dialeto, aparentemente já se encontram ali no século XVI. No século XIX, acharam seu território ao redor de Alchibaixe demasiado restrito. Na década de 1840, diz-se que avançaram sob o xeque Jinaque até a região a leste de Amara e, mais tarde, sob o filho deste, Caiune, para Pequena Almadair. Em 1894-5, foram punidos por tropas turcas por terem incendiado Medina (abaixo de Alchibaixe no Eufrates) sob Haçane Alauiune. Haçane foi expulso de Alchibaixe e pereceu miseravelmente em Hor Aljazair (c. 1903). Seu filho Salim, graças à influência da família de Seíde Jalibe, foi nomeado ao cargo de xeque dos assaditas em 1906. Após a Primeira Guerra Mundial, permaneceu fiel a Seíde Jalibe e declarou-se contrário à escolha de Faiçal como rei do Iraque. Em 1924/5, rebelou-se contra o governo, foi capturado e condenado a três anos de prisão, sendo depois obrigado a residir em Moçul Segundo ʿAbd al-Jalīl al-Ṭāhir,[6] os assaditas desta região somavam cinco mil pessoas; Muḥammad Labīb al-Batanūnī calcula que o ramo subaita dos assaditas no Négede era de cerca de seis mil pessoas em 1909, enquanto Barakātī estimou 60 mil aproximadamente no mesmo período.[7]
Referências
- ↑ a b c d e f Kallek 1995, p. 363.
- ↑ a b c d e Kindermann 1960, p. 683.
- ↑ a b Kindermann 1960, p. 685.
- ↑ a b Kallek 1995, p. 364.
- ↑ Kallek 1995, p. 363-364.
- ↑ a b c Kindermann 1960, p. 684.
- ↑ Kindermann 1960, p. 684-685.
Bibliografia
- Kallek, Cengiz (1995). «Mezhic (Benî Mezhic)». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 11. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 7 de janeiro de 2026
- Kindermann, H. (1960). «Asad». In: Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Lévi-Provençal, E.; Schacht, J.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume I: A–B. 1. Leida: E. J. Brill