Bacritas

Os bacritas ou Banu Becre ibne Uail (em árabe: بنو بكر بن وائل; romaniz.: Banū Bakr ibn Wā'il) foram uma tribo árabe que pertenceu ao grupo dos rebiaítas, um ramo dos adenanitas.

Genealogia

Os bacritas eram aparentados aos abuceus e pertenciam ao agrupamento tribal maior dos rebiaítas. De acordo com os genealogistas árabes medievais, seu ancestral, Becre ibne Uail, descendia de Adenã. Seus filhos Ali, Iascur e Badane, deram origem aos ramos da tribo.[1] Na genealogia tribal, seu lugar está três níveis abaixo dos abuceus. Os talabaítas (Thaʿlaba), filhos de Oqueba (ʿUkba), devem ser considerados como parte deles. A Crônica de Zuquenim (§ 57) menciona-os no ano 503 como a tribo líder do Reino de Quinda da Arábia do Norte, e pouco depois eles aparecem numa inscrição sul-arábica. Na genealogia dos bacritas, os talabaítas se encontram no mesmo plano que as tribos ijelitas e hanifaítas, com os iascuritas três graus acima deles. Os talabaítas estavam subdivididos em: xaibanitas, dulitas (Dhuḥl), taimalatitas (Taym al-Lat) e caicitas (Qays).[2]

História

Período pré-islâmico

Os bacritas habitavam a região de Iamama. Naquele tempo, esta compreendia: Uádi Hanifa (antiga Alirde), seus afluentes Lua (Xaibe Ha), Nissa e Assulai, o distrito de Alcarje, ao sul, e o distrito de Aluitre, com seus afluentes, ao norte do divisor de águas. Hajar, capital de Iamama (perto da atual Riade), estava originalmente sob os hanifaítas. Mais tarde, membros de outras tribos bacritas instalaram-se ali. A segunda maior cidade, Jau (depois Alquidrima), ao sudeste de Hajar, era igualmente habitada em grande parte pelos hanifaítas, que possuíam os oásis Currã e Malame, além do divisor de águas. Colonizações dos hanifaítas podiam ser encontradas mais ao noroeste, nas regiões de Aluasme e Assudair. Os dulitas viviam em (Cariate Bani) Sadus, nomeada por um de seus sub-ramos, num vale que corre para o Uitre. Os caicitas viviam, entre outros lugares, em Manfua, ao sul de Riade. Há também evidências de aldeias dos iascuritas, ijelitas e xaibanitas. Jau e Hajar eram locais de uma cultura antiga, associada nas lendas e épicos posteriores às tribos desaparecidas dos tasmitas e jadicitas. Existiam bétilos (obeliscos cultuais) em Hajar nos primórdios islâmicos, mas em Jau haviam sido destruídos durante uma incursão de um membro da dinastia sul-arábica de Haçane (Alaxa, nº 13, 16-21). Tâmaras eram cultivadas em todos os oásis, mas nos vales do Irde e de Alcarje também se cultivavam cereais. Em anos bons, enviavam trigo para Meca, mas em anos ruins nem havia o suficiente para consumo próprio (Alaxa, nº 19, 24; 23, 22-23; Ibne Hixame, 997s.). Como as aldeias bacritas eram próximas umas das outras, às vezes eclodiam guerras internas, durante as quais os palmeirais eram incendiados (Alaxa nº 15, 56-57; 38, 9-11; Iacute, Almuarraca, abaixo de Sadus). Alguns bacritas escaparam dessa situação tornando-se mercenários (Auce ibne Hajar, ed. Geyer, nº 14; Mufaḍḍaliyyāt, ed. Lyall, nº 119).[3]

Historicamente, os bacritas são registrada pela primeira vez no século IV. Conhecida por seu caráter guerreiro, entrou em conflito com estados vizinhos, tribos limítrofes e, às vezes, com seus grupos irmãos, obtendo ocasionalmente importantes conquistas, mas também sofrendo derrotas. Aliando-se às tribos tamimitas e abuceus, os bacritas realizaram incursões no território do Império Sassânida, mas por volta de 325 sofreram pesadas perdas quando o xainxá Sapor II (r. 309–379) respondeu a esses ataques.[1] Eventualmente, muitos bacritas assumiram o nomadismo — que posteriormente passou a caracterizar consideráveis segmentos da tribo. É possível que esse movimento tenha começado com o aparecimento dos quindaítas. Não há informação precisa sobre as rotas que os bacritas nômades seguiram naquele tempo, embora fontes posteriores (Mufaḍḍaliyyāt, 430, 13) indiquem que se dirigiram para o oeste e talvez leste de Iamama.[3] No século V, foram obrigados a reconhecer a autoridade iamanita, e, por volta da metade do século, através da mediação de Hujer Aquil Almurar, rei do Reino de Quinda, firmaram acordos com tribos da Arábia Central, especialmente com a tribo irmã dos taglibitas. Contudo, a aliança não durou, e iniciou-se a sangrenta Guerra de Bassus, com intervalos, que perdurou por cerca de quarenta anos entre bacritas e taglibitas. Para evitar a destruição mútua, essas tribos aceitaram temporariamente a administração dos quindaítas, fortalecendo-se e conquistando junto a ela a região de Hira. No reinado do xainxá Cosroes I (r. 531–579), o rei lácmida Alamúndaro III (r. 503/5–554) atacou os quindaítas e seus aliados, garantindo uma vitória decisiva e retomando o controle da região. Nesse período, a hostilidade entre bacritas e taglibitas ressurgiu, retomando a Guerra de Bassus. Após uma derrota, os bacritas recorreram a Alamúndaro III para intermediar a paz, encerrando a guerra (por volta de 525).[1] Pouco tempo depois, os combates foram retomados e a Batalha de Culabe I (travada entre dois herdeiros do Reino de Quinda, por volta de 530, em Talane, sudoeste de Dauademi) é um episódio dessa disputa. Um acordo de paz definitivo foi concluído sob o patrocínio de Meca, em Du Almajaz, fora do Harame (Alharite ibne Hiliza Aliascuri, Muʿallaqa, ed. Arnold, 66).[3]

Pouco depois, os taglibitas — cuja zona de migração então se estendia de Sajir, no alto do Sir, até Natate, perto do Golfo Pérsico (Mufaḍḍaliyyāt, 430, 13; Alharite, Muʿallaqa, 79) — deixaram a Arábia Central e se estabeleceram nas estepes do lado próximo do baixo Eufrates, onde possivelmente alguns já tinham se fixado antes. Os bacritas os seguiram, mas pararam antes do vale de Falaje. A região que mais tarde foi deixada pelos taglibitas e bacritas no lado próximo da curva da Tuaique estava provavelmente, antes de 530, intercalada por tamimitas, cujo lar se estendia pelos dois lados do Tassir. Depois de 530, eles se espalharam através de Tuaique rumo à Arábia Oriental. Como as rotas nômades de ambos os grupos se cruzavam, era preciso manter a paz, e de fato nas décadas seguintes há pouca menção de lutas entre os bacritas e os tamimitas. Surgiu nesse período uma série de famílias de xeques proeminentes, à medida que as relações mutáveis entre os bacritas e os taglibitas, os tamimitas, e os reis de Quinda e de Hira exigiam líderes de experiência política. Uma dessas famílias foi a dos Dul Aljadaine (Dhū ’l-Jaddayn). Ligações com Hira foram responsáveis por um desenvolvimento precoce da poesia, especialmente entre os caicitas, como testemunham as obras de Almuraquixe (a lenda sobre ele aparece pela primeira vez em Tarafa, Seis Poetas, nº 13, 14-19), as obras de Anre ibne Rabia, que jamais viajou ao Império Bizantino com Inru Alcais, as de Tarafa, e as de Alaxa, que viveu até o século VII. A poesia também floresceu entre os iascuritas, a quem pertencia Alharite ibne Hiliza. Quando os taglibitas desocuparam as estepes do baixo Eufrates, migrando rio acima, após seu chefe, Anre ibne Cultume, matar o rei de Hira, Anre ibne Hinde (m. 569), os bacritas estenderam ainda mais sua área de ocupação. Uns dez anos depois, os tamimitas — especialmente os iarbuítas — começaram a avançar, a fim de montar suas tendas em Alasne durante a primavera. Isso deu origem a ataques mútuos, alguns dos quais, ocorridos entre 605 e 615.[3]

Sabe-se bastante sobre as tribos bacritas nômades nesse período e algo também sobre a área que ocupavam. As tribos envolvidas eram os xaibanitas, ijelitas, caicitas e taimalatitas. Os ijelitas iam até o que mais tarde se tornou a rota dos peregrinos cufanos no oeste, e até Tucaia no leste; os xaibanitas montavam suas tendas ao norte e ao sul da linha Alcazima (perto da baía do Cuaite) — Ras Alaine (talvez Albussaia — Salmã; os caicitas, ao sudeste destes, entre Almusana (em Iacute, erroneamente Almutana) e Ras Alaine (Alaxa, n.º 14, v. 20; 29, v. 24). Os taimalatitas, caicitas e ijelitas formaram a confederação dos laazimitas (Lahāzim), para não serem subjugados pelos xaibanitas. Não se sabe exatamente onde os bacritas setentrionais passavam o inverno, mas os caicitas parecem ter alternado — ao menos nos anos 580 — entre Iamama e o norte (Alaxa, n.º 32, um poema antigo, especialmente v. 48). Os xaibanitas iam ocasionalmente até os oásis do Barém, enquanto os ijelitas parecem ter permanecido no norte. No verão, as tribos se reuniam onde havia água, deste lado do Tafe, entre Aine Sade e Abu Gar. Foi nessa região que se travou a famosa Batalha de Di Car, na qual as tribos bacritas derrotadas um exército do Império Sassânida (604/11).[4] Diz a tradução que o último governante lácmida, Numane III (r. 580–602), deixou seu tesouro e armas ao ramo xaibanita dos bacritas antes de ser assassinado por Cosroes II (r. 590–628) e quando Ias, designado por Cosroes II para governar Hira, requisitou tesouros, os bacritas recusaram, o que culminou na batalha..[5] Apesar disso, os bacritas logo voltaram a cair sob influência persa. Ao mesmo tempo, a hostilidade entre bacritas e tamimitas no norte se espalhou para a Arábia Central, onde o príncipe de Jau, Hauda ibne Ali, dos hanifaítas e vassalo dos persas, foi duramente pressionado pelos tamimitas, até que o governador persa do Barém o esmagou com violência (Alaxa, n.º 13, vv. 62–69).[4]

Período islâmico

O cristianismo foi adotado por alguns dos bacritas tanto no norte quanto no sul, especialmente entre os ijelitas e, dentro dos xaibanitas, pelos Du Aljadaine. Alaxa e Hauda ibne Ali também professavam essa fé. A adesão de Iamama à pregação do alegado profeta Muçailima mostra que o cristianismo não se firmara na região, ao passo que a situação no norte era bem diferente: o caso do antigo líder dos gazus, Abejar ibne Diabir, que morreu cristão em Cufa em 641, não aparenta ser o único entre os ijelitas. O paganismo — tema de uma passagem em Anre ibne Canla, nº 2, vv. 9–15 — é raramente mencionado pelos poetas posteriores, a menos que se conte Alaxa, nº 39, v. 47.[6] Sabe-se entretanto, que os bacritas veneravam os ídolos de Zulcabaine, Ual e Almuarraque.[7] Particularmente Almuarraque, que era cultuado em Salmã (Iacute iv, verbete Mu‘arrik), não aparece no Kitāb al-Aṣnām de Ibne Alcalbi. Maomé tentou se corresponder com Hauda ibne Ali mesmo antes da Conquista de Meca (630), mas sua mensagem foi recebida de forma fria e altiva. Em Hajar, o líder que o sucedeu foi Muçailima. Tumama ibne Utal, conhecido na sīra (biografia do profeta) e no episódio das Guerras Rida, não figura na genealogia de Ibne Alcalbi, que, neste ponto, se apoia em uma autoridade bacrita.[6]

Após a morte de Maomé a eclosão das Guerras Rida, o califa Abacar (r. 632–634) enviou um exército sob Ala ibne Hadrami contra os contingentes árabes que declararam guerra aos muçulmanos, e apoiado por contingentes bacritas e tamimitas que converteram-se ao islamismo, derrotou os revoltosos.[7] Enquanto isso, os bacritas do norte aproveitaram-se da disputa sucessória em Ctesifonte (628–632) para atacar as terras cultivadas. Um líder dos dulitas, Almutana ibne Harita, destacou-se nessas incursões e, ao saber da derrota das Rida, converteu-se ao Islã, consolidando seu papel de comandante. Ao lado de Calide ibne Ualide, criou as condições que acabariam levando à rendição de Hira (633). Após a transferência de Calide para a Síria no início de 634, e com os muçulmanos na defensiva, Almutana comandou a cobertura da retirada na Batalha da Ponte, no outono de 634. Seu último grande feito ocorreu cerca de um ano depois, na Buaibe (635), após a qual sucumbiu aos ferimentos. Os bacritas — e possivelmente os tamimitas — prepararam então o terreno para a conquista do território que mais tarde seria organizado como a província de Baçorá. Ijelitas e hanifaítas combateram na Batalha de Niavande em 642.[6]

Na Batalha do Camelo (656), os bacritas apoiaram Ali (r. 656–661) contra Aixa e seus aliados, enquanto Sifim (657) mantiveram seu apoio a Ali contra o governador da Síria Moáuia. Em 684, Abedalá ibne Hazim tomou Marve em revolta contra os omíadas, forçando os bacritas a se deslocarem para Herate, onde um de seus membros era governador. Mais tarde, lutaram ao lado de Almoalabe ibne Abi Sufra contra os carijitas sob Abedalá ibne Zobair e em 67/686 sob Muçabe ibne Zobair contra Almoquetar Atacafi. Também colaboraram com Maomé ibne Alaxate Alcuzai contra o governador omíada Alhajaje ibne Iúçufe. Em 96/715, apoiaram o califa na rebelião de Cutaiba ibne Muslim. Durante a revolta em Baçorá (101/720), novamente apoiaram o califa, embora tenham sido derrotados. No período abássida, os bacritas que participaram das revoltas contra Almançor (r. 754–775) foram derrotados por Abu Muslim e subjugados, mantendo-se depois ativos, porém sem envolvimento em eventos importantes.[7]

A partir de Baçorá, os bacritas avançaram para o Coração e, em 715, já havia ali cerca de sete mil deles (Atabari ii, 1291). Em ambas as regiões, estiveram parcialmente envolvidos na reativação de antigas rivalidades tribais, que se desenrolaram ali em escala ainda maior. Junto com os abuceus, os bacritas formaram o grupo rebiaíta em Baçorá e, mais tarde, uniram-se aos azeditas do Omã, que imigraram por volta de 680. Como os tamimitas em Baçorá estavam associados ao grupo caicitas (dos modaritas), surgiu um novo conflito. A hostilidade, porém, diminuiu após alguns combates entre as duas facções por ocasião da morte do califa Iázide I em 684. Quando Maleque ibne Misra, membro da família dirigente dos caicitas talabaítas, declarou apoio ao califa Abedal Maleque em 690, os bacritas mantiveram a paz. A situação foi diferente no Coração, onde uma sangrenta disputa eclodiu em 684 entre bacritas e tamimitas, seguida por tensões permanentes entre rebiaítas-azeditas e caicitas-tamimitas. Esse estado de conflito persistiu até que os bacritas produziram o líder moderado Iáia ibne Nuaime. Sua última personalidade notável foi o general e estadista Mane ibne Zaida, dos dulitas.[6]

Enquanto os bacritas desapareceram cedo das estepes de Baçorá, permaneceram por mais tempo nas proximidades de Cufa. Os ijelitas conservaram sua área nômade e, posteriormente, a estenderam para o nordeste; os xaibanitas, por sua vez, migraram para o noroeste, até as águas de Lassafe, não longe de Cufa, e depois se estabeleceram em grande parte na região de Moçul, no norte, ocupando ambas as margens do Tigre. Três versos no divã de Anre ibne Canla (nº 16) retratam a saudade de uma jovem durante essa migração para terras estrangeiras, rumo ao Xadidama (possivelmente o Monte Maclube, defronte da cidade). Relatos de ABu Miquenafe (Atabari, ii) sobre o nobre líder dos carijitas, Xabibe ibne Iázide Axaibani (dos dulitas, morto em 697), descrevem a curiosa alternância entre a vida beduína e a civilização urbana nesse período. Os bacritas se difundiram dali para o norte, até Diar Baquir (nome tardio) e Azerbaijão. Os xaibanitas voltaram a desenvolver-se como grande tribo nômade: na primavera e no verão armavam tendas entre o Alto Zabe e o Baixo Zabe; no inverno, deslocavam-se até a região abaixo de Cufa. Durante o século IX, realizaram ataques frequentes à planície de Moçul, o que motivou uma campanha contra eles em 893, liderada pelo califa Almutadide (r. 892–902). No século XI, avançaram para as terras cultivadas da Jazira, mas desapareceram no início do século seguinte. O nome rebiaíta começou a suplantar os nomes tribais bacrita e abuceu em Baçorá e no Coração, assim como os nomes bacrita e taglibita no leste da Jazira (Diar Rebia). Esse mesmo processo ocorreu na Arábia. A família real saudita traça sua genealogia até os rebiaítas.[6]

Referências

  1. a b c Önkal 1992, p. 362.
  2. Caskel 1960, p. 962-963.
  3. a b c d Caskel 1960, p. 963.
  4. a b Caskel 1960, p. 963-964.
  5. Önkal 1992, p. 362-363.
  6. a b c d e Caskel 1960, p. 964.
  7. a b c Önkal 1992, p. 363.

Bibliografia

  • Caskel, W. (1960). «Bakr ibn Wā'il». In: Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Lévi-Provençal, E.; Schacht, J.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume I: A–B. 1. Leida: E. J. Brill 
  • Önkal, Ahmet (1992). «Bekir b. Vâil (Benî Bekir b. Vâil)». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 5. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 7 de janeiro de 2026