Numane III ibne Almondir
| Numane III | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| Rei do Reino Lácmida | |||||
| Reinado | c. 580–602 | ||||
| Antecessor(a) | Alamúndaro IV | ||||
| Sucessor(a) | Ias (governador) Naquiragã (governador) | ||||
| Dados pessoais | |||||
| Nascimento | c. 552 | ||||
| Morte | ca. 602 Ctesifonte | ||||
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| Dinastia | lácmida | ||||
| Pai | Alamúndaro IV | ||||
| Mãe | Salma | ||||
| Religião | Igreja do Oriente | ||||
Numane[1] III ibne Almondir (em árabe: النعمان بن المنذر; romaniz.: An-Nu'man III ibn al-Mundhir), também transcrito como Naamane (Na'aman), Nuamane (Nu'aman) e Nomane (Noman) e muitas vezes conhecido pela cúnia Abu Cabus (أبو قابوس; Abū Qābūs), foi o último rei lácmida de Hira (582–602) e um árabe cristão nestoriano. Ele é considerado um dos mais importantes governantes lácmidas.
Biografia
Infância e irmãos
Numane era filho de Alamúndaro IV (r. 575–580) e Salma, a filha de um ourives judeu, Uail ibne Atia de Fadaque, e foi escrava de Alharite ibne Hisne, da tribo dos calbitas.[2][3] A origem básica e até servil de sua mãe costumava ser usada para zombar de Numane pelos poetas contemporâneos.[4][5] Além disso, as fontes árabes retratam por unanimidade Numane como um indivíduo particularmente feio, e comentam sobre seus cabelos ruivos, sua baixa estatura e sua pele manchada.[3][6] Segundo Atabari, ele foi criado na infância pelo poeta cristão Adi ibne Zaíde, que com seus irmãos serviu como secretário de assuntos árabes para o senhor dos lácmidas, o xainxá sassânida.[7][8] Ele tinha numerosos irmãos — 11 ou 12, segundo as fontes.[7][9]
Reinado


A sucessão de Numane em 580 não esteve imune à oposição, pois o clã dos marinaítas apoiou seu irmão Alaçuade. O xainxá Hormisda IV (r. 579–590) nomeou Ias ibne Cabiçá Atai como governador interino, enquanto um candidato adequado foi procurado na dinastia lácmida. As fontes árabes informam que a intervenção de Adi ibne Ziade foi decisiva: Adi fez os outros filhos de Almondir se apresentarem primeiro a Hormisda, que perguntou se eles poderiam cumprir os deveres do cargo. A isso, todos responderam, instruídos por Adi: "Podemos controlar os árabes para você, exceto Numane". Quando Numane veio pela última vez, ele prometeu com confiança não apenas controlar os árabes, mas também seus irmãos, dizendo: "Se eu não posso lidar com eles, então não posso lidar com ninguém!". Satisfeito com sua resposta, Hormisda o nomeou rei e lhe deu uma coroa incrustada em ouro e pérola no valor de 60 mil dirrãs para confirmar sua posição.[10][11]
Numane era um governante forte e enérgico,[2] mas pouco se sabe sobre seu reinado.[12] Ele foi confrontado com divisões entre as tribos e clãs sujeitos a ele. Assim, quando tentou remover o direito de liderar uma divisão em batalha (o chamado ridafa) dos iarbuítas, uma subtribo dos tamimitas, e entregá-lo aos darimitas, outra subtribo, isso provocou um choque violento entre as duas em Tiquefa. Apesar do apoio dado por Numane aos darimitas, os iarbuítas venceram e aprisionaram o filho e um dos irmãos de Numane, que foram resgatados pelo preço de mil camelos.[2][13] Ao contrário de seus antecessores, Numane mal se preocupava com os tradicionais rivais árabes dos lácmidas, os gassânidas, pois estes haviam brigado com seus senhores bizantinos em c. 580 e foram eliminado como potências regionais.[2] A única atividade militar registrada de Numane é um ataque à fortaleza bizantina de Circésio durante a guerra bizantina-sassânida de 572-591.[2][14] Segundo relatos árabes, Numane deu refúgio ao filho de Hormisda, Cosroes II (r. 591–628), durante sua fuga do usurpador Vararanes VI em 590, e lutou ao lado dele numa batalha no Canal de Naravã contra as forças do usurpador.[2][15]
Queda, morte e consequências

Apesar da assistência prestada a Cosroes, depois que este foi restaurado ao seu trono, os dois querelaram. As fontes não fornecem uma razão clara para isso, atribuindo sua disputa à recusa de Numane em dar seu cavalo a Cosroes ou em casar uma de suas filhas, Hinde, com um dos parentes de Cosroes.[15] É mais provável que isso tenha a ver com a briga anterior entre Numane e seu conselheiro principal, Adi ibne Zaíde, que ficou sob suspeita de conspirar contra Numane e foi executado. O filho de Adi, que tinha o ouvido de Cosroes, conseguiu virar o governante persa contra Numane.[2] A conversão deste último ao cristianismo nestoriano também pode ter sido um fator, pois Cosroes desconfiava da crescente influência dos cristãos em sua própria corte.[15] Por outro lado, o ramo nestoriano do cristianismo era geralmente visto com menos hostilidade pelos governantes sassânidas, e o próprio Cosroes era casado com uma cristã, Sirém.[2]
Depois que tomou conhecimento da hostilidade de Cosroes, Numane fugiu de sua capital e procurou refúgio entre os bacritas, mas acabou sendo forçado a se render e foi executado sendo esmagado por elefantes.[15][16] No entanto, de acordo com uma crônica siríaca, Cosroes convidou Numane para um banquete onde foi desonrado e preso;[17] outra crônica siríaca afirma que Cosroes capturou Numane junto com seus filhos, que então foram envenenados.[18] O fim do reinado de Numane é geralmente colocado em c. 602 por estudiosos modernos.[19][20] Após sua prisão, Cosroes removeu completamente os lácmidas do poder e confiou o governo de Hira a Ias ibne Cabiçá Atai.[15] Isso marcou o fim da dinastia lácmida, que havia efetivamente protegido a Pérsia contra as tribos árabes por quase três séculos.[15][21] Muito rapidamente, os efeitos nocivos disso se fizeram sentir, quando os bacrtias, insatisfeitos com Ias, se revoltaram e derrotaram uma força persa na Batalha de Di Car. Juntamente com o aumento da instabilidade na Pérsia, após a queda de Cosroes em 628, esses eventos anunciaram a decisiva Batalha de Cadésia em 636 e a conquista muçulmana da Pérsia.[21][22]
Legado
Segundo Irfan Shahîd, nas histórias posteriores, o reinado de Numane "foi o mais memorável depois do de seu avô, Alamúndaro III".[2] A capital lácmida, Hira, continuou a ser o principal centro cultural árabe de seu tempo, particularmente através do patrocínio de poetas de Anumane, principalmente Adi ibne Zaíde e o panegirista Anibaga.[2] Numane também foi o primeiro a se converter abertamente ao cristianismo, provavelmente após a conclusão da paz com Império Bizantino em 591. Isso aumentou a importância de Hira como um centro cristão nestoriano, particularmente para atividades missionárias no Golfo Pérsico e na Arábia Oriental.[2]
Referências
- ↑ Serra 1967, p. 12, 45.
- ↑ a b c d e f g h i j k Shahîd 1995, p. 119.
- ↑ a b Atabari 1999, p. 341.
- ↑ Atabari 1999, p. 341 (note 807).
- ↑ Rothstein 1899, pp. 108–109.
- ↑ Rothstein 1899, p. 108.
- ↑ a b Rothstein 1899, pp. 109–110.
- ↑ Atabari 1999, p. 340.
- ↑ Atabari 1999, pp. 340–341.
- ↑ Atabari 1999, pp. 340–344.
- ↑ Rothstein 1899, pp. 110–111.
- ↑ Rothstein 1899, p. 111.
- ↑ Rothstein 1899, pp. 112–113.
- ↑ Rothstein 1899, pp. 111–112.
- ↑ a b c d e f Bosworth 1983, p. 3.
- ↑ Shahîd 1995, pp. 119–120.
- ↑ de Souza & France 2008, p. 139.
- ↑ Alajmi 2012, p. 4.
- ↑ Rothstein 1899, p. 71.
- ↑ Bosworth 1983, p. 4.
- ↑ a b Shahîd 1995, p. 120.
- ↑ Bosworth 1983, pp. 3–4.
Bibliografia
- Alajmi, Hamad (2012). Pre-Islamic Poetry and Speech Act Theory: Al-A`sha, Bishr ibn Abi Khazim, e al-Ḥujayjah. Bloomington: Universidade de Indiana
- Atabari (1999). Bosworth, C.E., ed. The History of al-Tabari Vol. V - The Sasanids, The Byzantines, the Lakhmids and Yemen. Nova Iorque: Imprensa da Universidade Estadual de Nova Iorque
- Bosworth, C. E. (1983). «Iran and the Arabs Before Islam». In: Yarshater, Ehsan. The Cambridge History of Iran. Vol. 3(1): The Seleucid, Parthian and Sasanian Periods. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-20092-X
- de Souza, Philip; France, John (2008). War and peace in ancient and medieval history. Cambrígia: Cambridge University Press
- Rothstein, Gustav (1899). Die Dynastie der Lahmiden in al-Hîra. Ein Versuch zur arabisch-persichen Geschichte zur Zeit der Sasaniden (em alemão). Berlim: Reuther & Reichard
- Serra, Pedro Cunha (1967). Contribuição topo-antroponímica para o estudo do povoamento do noroeste peninsular. Lisboa: Livraria Sá da Costa
- Shahîd, Irfan (1995). «al-Nuʿman (III) b. al-Mund̲h̲ir». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Lecomte, G. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VIII: Ned–Sam. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09834-3