Batalha de Di Car
| Batalha de Di Car | |||
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| Data | 604/11 | ||
| Local | Di Car, Sauade (Império Sassânida) | ||
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A Batalha de Di Car (em árabe: يوم ذي قار; romaniz.: Yawm Dhī Qār) foi uma batalha pré-islâmica travada entre um conjunto de tribos árabes e o Império Sassânida no sul do Iraque. Em 602, o xainxá Cosroes II (r. 590–628) depôs e executou Anumane III (r. 580–602), e anexou o Reino Lácmida, desencadeando uma revolta de seus aliados árabes no Négede. A desordem subsequente entre rebeldes antipersas e lealistas pró-persas no reino culminou nessa batalha, que resultou numa derrota do exército sassânida e seus aliados, pondo fim à hegemonia persa sobre a Arábia Oriental. O êxito da rebelião e a vitória contra os persas em Di Car despertaram confiança política, entusiasmo e uma nova autoconsciência entre os árabes. Somada à crescente instabilidade na própria Pérsia após a queda de Cosroes em 628, essa sucessão de eventos prenunciou a decisiva Batalha de Cadésia em 636 e a conquista muçulmana da Pérsia.
Contexto
O Reino Lácmida foi fundado e governado pela dinastia lácmida de c. 268 a 602. Estendendo-se pela Arábia Oriental e pela Mesopotâmia Meridional, existiu como dependência do Império Sassânida, embora os lácmidas mantivessem Hira como sua capital e dali governassem de forma independente.[1][2] Por séculos, o Império Sassânida confiou aos lácmidas a defesa da fronteira sudoeste incursões de tribos árabes. Apesar disso, ocasionalmente os lácmidas eram derrotados por outras tribos e caravanas persas eram atacadas.[3] Em 602, o xainxá Cosroes II (r. 590–628) depôs e executou Anumane III (r. 580–602), e anexou o Reino Lácmida. Em seu lugar, nomeou Ias ibne Cabiçá, um árabe da tribo dos taitas, como governador.[4]
Batalha
Algum tempo após a nomeação de Ias, eclodiu uma revolta de aliados árabes do rei deposto no Négede. A desordem subsequente entre rebeldes antipersas e lealistas pró-persas no Reino Lácmida culminou na confrontação de Du Car, um local de abastecimento de água perto de Cufa, no Iraque. A data da batalha é indeterminada. Segundo certas tradições muçulmanas, a batalha ocorreu no ano 623/4. ibne Habibe a datou entre 606 e 622, mas estudiosos modernos reduziram esse intervalo para 604–11. As tribos atacantes foram lideradas pelos bacritas, uma grande confederação tribal cujo território se estendia do sudoeste do Iraque até o leste da Península Arábica. A tribo mais proeminente da confederação eram os xaibanitas, seguidos dos ijelitas, dulitas, caicitas e iascuritas. Aparentemente, não houve coordenação nos esforços em campo e não havia um comandante supremo das tropas rebeldes, com a liderança passando entre vários guerreiros. Mesmo assim, os bacritas derrotaram o exército árabo-persa.[3] Hani e Hanzala são alguns desses comandantes, como descrito pelas fontes árabes.[5]
Abu Ubaida (m. 824) justificou anedoticamente que Cosroes havia se irritado com o rei Numane por ele recusar-se a dar sua filha em casamento e por insultar mulheres persas, o que culminou em seu aprisionamento. Em seguida, Cosroes enviou tropas contra o líder xaibanita Hani ibne Cabiçá, que se recusou a entregar-lhe a família e armas de Numane, o que desencadearia a confrontação em Di Car. Em outra descrição mais plausível, oferecida por ibne Alcalbi (m. 819), após a deposição de Numane, tribos bacritas atacaram o território persa no Iraque. O xaibanita Cais ibne Maçude propôs um acordo a Cosroes, segundo o qual protegeria o território persa de novas incursões em troca de terras. Rivais de Cais em sua tribo continuaram os ataques para frustrá-lo, o que enfureceu Cosroes. O xainxá aprisionou Cais e exigiu reféns bacritas como condição para sua liberação, o que não foi atendido. Os bacritas não atenderam às exigências e Cosroes enviou contra eles tropas, que foram derrotadas em Du Car.[3]
Rescaldo
Sentimentos religiosos, além de árabes, devem ter desempenhado um papel na conformação dos relatos sobre Du Car, haja vista a tradição muçulmana associar ao profeta Maomé uma fala segundo a qual: "Esta é a primeira batalha em que os árabes obtiveram vingança equitativa contra os persas — e eles alcançaram essa vitória por meu intermédio". Alguns estudiosos, aparentemente influenciados pela tradição muçulmana, interpretaram-na como parte de uma prolongada rebelião árabe contra os persas, pois teria despertado confiança política, entusiasmo e uma nova autoconsciência entre os árabes.[6] No entanto, os clãs envolvidos em Di Car mantiveram-se voláteis a respeito de sua fidelidade, ora apoiando os persas, ora apoiando os árabes muçulmanos, de modo que não se verifica uma linearidade ideológico-identitária. A batalha, pelo número reduzido de combatentes e por tratar-se de uma derrota iraniana, não foi mencionada nas fontes persas. Parece que, com o tempo, adquiriu significado ideológico e simbólico para os árabes muito além de sua importância militar e política.[3] Além disso, essa confrontação e a subsequente instabilidade fronteiriça, somada à crescente instabilidade na própria Pérsia após a queda de Cosroes em 628, prenunciou a decisiva Batalha de Cadésia em 636 e a conquista muçulmana da Pérsia.[7][8]
Referências
- ↑ Editores da Britânica 1998.
- ↑ Conrad 2000, p. 692.
- ↑ a b c d Landau-Tasseron 1996, p. 574-575.
- ↑ Sauer 2017, p. 275.
- ↑ Dixon 1971, p. 69.
- ↑ Power 1913.
- ↑ Shahîd 1995, p. 120.
- ↑ Bosworth 1983, pp. 3–4.
Bibliografia
- Bosworth, C. E. (1983). «Iran and the Arabs Before Islam». In: Yarshater, Ehsan. The Cambridge History of Iran. Vol. 3(1): The Seleucid, Parthian and Sasanian Periods. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-20092-X
- Conrad, Lawrence I. (2000). «The Arabs». In: Cameron, Averil; Ward-Perkins, Bryan; Whitny, Michael. The Cambridge Ancient History. XIV Late Antiquity: Empire and Successors A.D. 425-600. Cambridge: Cambridge University Press
- Dixon, ʹAbd al-Ameer ʹAbd (1971). The Umayyad caliphate, 65-86/684-705: (a political study). Londres: Luzac
- Editores da Britânica (1998). «Lakhmid dynasty». Enciclopédia Britânica. Chicago: Encyclopædia Britannica Inc.
- Fisher, Greg (2011). «Kingdoms or Dynasties? Arabs, History, and Identity before Islam». Journal of Late Antiquity. 4 (2): 245–267. doi:10.1353/jla.2011.0024
- Landau-Tasseron, Ella (1996). «Ḏū Qār». Encyclopædia Iranica. Vol. VII, Fascículo 6. Nova Iorque: Universidade de Colúmbia
- Power, Edmond (1913). «The Prehistory of Islam». Messenger Publications. Studies: An Irish Quarterly Review. 2 (7): 204–221. JSTOR 30082945
- Sauer, Eberhard (2017). Sasanian Persia: Between Rome and the Steppes of Eurasia. Londres e Nova Iorque: Edinburgh University Press. ISBN 978-1474401012
- Shahîd, Irfan (1995). «al-Nuʿman (III) b. al-Mund̲h̲ir». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Lecomte, G. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VIII: Ned–Sam. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09834-3