Circésio
Circésio
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| Localização atual | |
![]() Circésio |
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| Coordenadas | 🌍 |
| País | Síria |
| Dados históricos | |
| Fundação | Império Romano |
| Abandono | Incerto |
Circésio (em latim: Circesium; em siríaco: ܩܪܩܣܝܢ; romaniz.: Qerqesīn[1], em grego: Κιρκήσιον; romaniz.: Kirkḗsion), conhecida em árabe como Carquísia (القرقيسيا, al-Qarqīsiyā), foi uma cidade-fortaleza romana situada próxima à confluência dos rios Eufrates e Cabur, localizada na fronteira oriental do Império Romano com o Império Sassânida. Procópio de Cesareia chama-a de a "fortaleza mais distante" (φρούριον ἔσχατον, phroúrion éxchaton) dos romanos. Posteriormente, foi conquistada pelos árabes muçulmanos no século VII e frequentemente constituiu um ponto de disputa entre diversos Estados muçulmanos devido à sua localização estratégica entre a Síria e o Iraque. A cidade moderna de Bussaira corresponde ao sítio de Circésio.
Etimologia e localização
O nome Circésio ou Castro Circense é de origem greco-romana e traduz-se como "o castelo com o circo".[2] Quercúsio (Qarqūsyōn) e Carquísia (al-Qarqīsiyā) são, respectivamente, as versões siríaca e árabe do nome latino. A transliteração parta, atestada na inscrição trilíngue do xainxá Sapor I (r. 240–270) no Cubo de Zaratustra, é Querquísia (Krksyʾ).[3] A etimologia do nome era conhecida pelo geógrafo muçulmano medieval Hâmeza de Ispaã, que escreveu que Carquísia derivava de qirqīs, a forma arabizada de “circo”. O sítio antigo situava-se na margem oriental do Rio Eufrates, adjacente à confluência com o rio Cabur.[2] Amiano Marcelino a descreveu como uma ilha. Procópio de Cesareia chamou-a de a "fortaleza mais distante" (φρούριον ἔσχατον, phroúrion éxchaton), o que indica que o Império Romano não possuía nenhuma localidade fortificada além do Cabur a leste.[4]
História
Antiguidade
M. Streck sugeriu que já pudesse ser habitada antes do período romano e assumiu que possa ser a Nabagate mencionada por Isidoro de Cárax. Outro possível nome foi Cabora, isto é, a cidade no Cabur. Nas inscrições dos reis assírios do século IX a.C. (Tuculti-Ninurta II, Assurnasirpal II) há a menção a certo lugar chamado Sircu (Sirqui) que, segundo o itinerário de Tuculti-Ninurta, era a última etapa ocidental ao longo do Eufrates no caminho para a foz do Cabur. Seguindo Gaston Maspero, esse Sircu foi relacionado a Circésio, o que implicaria que o último nome derivou do assírio, mas essa identificação já foi refutada. Apenas por semelhança de nomes, Circésio costumava ser identificada com a cidade hitita de Carquemis, como nos comentários bíblicos de Benjamim de Tudela.[5] É provável que uma estação militar romana já existisse nesse local por volta de 256, uma vez que o lugar é listado na inscrição de Sapor entre as cidades tomadas aos romanos em 256 durante sua segunda campanha romana. Posteriormente, tendo retornado ao controle romano, o imperador Diocleciano (r. 284–305) reforçou ainda mais Circésio como um posto fortificado na longínqua fronteira oriental do império, a fim de melhorar as capacidades defensivas contra o sassânida.[2][3] Circésio foi cedida aos sassânidas pelo imperador Joviano (r. 363–364) em um tratado assinado em 363.[5]
No início de 363, durante sua malfadada campanha sassânida, o imperador Juliano (r. 361–363) passou por Circésio e atravessou o Cabur utilizando uma ponte flutuante. Segundo fontes contemporâneas, o cenotáfio do imperador Gordiano III (que fora morto durante a sua própria campanha sassânida de 244) ainda era visível em Zaita (localizada nas cercanias de Circésio) quando Juliano e seu exército atravessaram a região. A cidade foi novamente devolvida aos romanos e, de acordo com a Notitia Dignitatum, Circésio foi o quartel-general da IV Legião Pártica até o século V. Foi restaurada e ampliada pelo imperador Justiniano I (r. 527–565) durante seus esforços “para reorganizar o sistema de proteção das fronteiras no início de seu reinado”. Joseph Wiesehöfer / Encyclopædia Iranica observa que esse pode ter sido um dos motivos pelos quais o xainxá Cosroes I (r. 531–579), durante sua ofensiva de 540, decidiu invadir o Império Bizantino mais ao norte, “ao longo da margem ocidental do Eufrates”. Em decorrência dessas reorganizações promovidas por Justiniano I, Circésio acabou tornando-se o local de guarnição de um duque.[3]
Em 573, durante a ofensiva de Cosroes I na Guerra Bizantino–Sassânida de 572–591, o xainxá ordenou ao general Adarmanes que atravessasse o Eufrates próximo a Circésio a fim de atacar, a partir daí, as províncias orientais bizantinas. Em 580, Circésio foi transformada em base de guarnição para a ofensiva do imperador Maurício (r. 582–602) durante a Guerra Bizantino–Sassânida de 572–591. Durante a fuga de Cosroes II (r. 590–628) em 590, a partir do território sassânida durante a rebelião de Barã Chobim, ele foi brevemente acolhido pelo comandante da guarnição bizantina, Probo, antes de seguir para Hierápolis.[3]
Idade Média
Durante as conquistas muçulmanas, Circésio foi tomada dos bizantinos sem resistência por um exército muçulmano comandado por Habibe ibne Maslama Alfiri, enviado pelo governador muçulmano da Jazira (Alta Mesopotâmia), Iade ibne Ganme. Embora muitas fontes muçulmanas afirmem que isso ocorreu em 637, é mais provável que tenha ocorrido em 640.[2] Segundo Joseph Wiesehöfer / Encyclopædia Iranica, com toda a probabilidade foi recapturada pouco depois pelos bizantinos. Contudo, em 690–691, durante o reinado do califa Abedal Maleque ibne Maruane (r. 685–705), tornou-se definitivamente parte do Califado Omíada.[3] A cidade tornou-se então a capital do distrito do Cabur, na província da Jazira.[2] Durante a Segunda Guerra Civil Muçulmana, converteu-se no quartel-general do líder tribal caicita Zufar ibne Alharite Alquilabi, que reconhecia o califado de Abedalá ibne Zobair em rebelião contra os omíadas.[6] Abedal Maleque foi forçado a enfrentar Zufar antes de poder iniciar sua conquista do Iraque aos zubaíridas.[7] Para esse fim, cercou Circésio por volta de 690 e, após vários meses, Zufar acabou por render-se e desertar para os omíadas.[6]
No final do século IX, o governador autônomo do Egito, Amade ibne Tulune (r. 868–884), estendeu seus domínios até Circésio, mas os abássidas, sob Almuafaque, a reconquistaram em 881. A cidade, juntamente com a vizinha Arraba, desempenhou um papel importante nas lutas envolvendo a dinastia hamadânida, que governou a Jazira de forma autônoma durante o século X.[6] Segundo Istacri e Ibne Haucal, ainda era uma cidade florescente no século X.[3] Em 1265, o sultão mameluco Baibars (r. 1257–1277) capturou-a dos mongóis, massacrando sua guarnição mongol e georgiana. Contudo, voltou a estar em mãos mongóis em 1281.[8] Em razão de sua localização estratégica, os geógrafos muçulmanos ao longo de toda a era islâmica mencionaram-na, mas não forneceram relatos detalhados da cidade em suas descrições da região. Isso pode indicar que Circésio não se tornou uma cidade de grande porte sob as diversas dinastias muçulmanas que a governaram.[6] A elevada proporção de judeus (500 famílias) encontrada por Benjamim de Tudela na segunda metade do século XII é notável.[5]
Modernidade
O sítio de Circésio é hoje ocupado pela cidade de Bussaira. Escrevendo no início do século XX, o historiador M. Streck observou que Bussaira era uma aldeia de trinta a quarenta casas de barro, adjacente a um extenso sítio de ruínas.[6] O plano da antiga fortaleza ainda pode ser facilmente reconhecido; forma um retângulo, cujo lado mais longo corre ao longo do Cabur, enquanto o mais curto se volta para o Eufrates, do qual agora se encontra a cerca de mil jardas de distância. Quatro torres mais ou menos bem preservadas e um edifício de tipo fortificado (pretório, serai) ainda podem ser vistos, a partir dos quais Ernst Moritz Arndt sugere que o nome moderno Abu Serai (Bussaira) possa derivar. A cidade relativamente extensa situava-se a nordeste da fortaleza e ainda é assinalada por numerosas muralhas de terra. O papel importante outrora desempenhado por Circésio como centro comercial, em virtude das importantes rotas que aqui se encontram — da Síria para a Babilônia, de Moçul para a Síria — foi, nos tempos modernos, em grande medida retomado pela cidade de Deir Zor no Eufrates, situada algumas horas de viagem acima da foz do Cabur.[9]
Sé titular
Circésio foi sede um bispado sufragâneo de Edessa, capital de Osroena. A data da fundação do bispado é indeterminada. Conhece-se, porém, um certo número de titulares ortodoxos e monofisitas. Segundo Michel Le Quien (II, 977), Jonas teria assistido ao Primeiro Concílio de Niceia (325), mas esse nome não figura na lista autêntica. Abraão tomou parte no Concílio da Calcedônia de 451 e também assinou, em 458, a carta dos bispos da província ao imperador Leão I, o Trácio (r. 457–474) sobre o assassinato de Protério de Alexandria. Davitas foi um dos membros do concílio reunido em 536 pelo patriarca Menas de Constantinopla (r. 536–552) e Tomás participou do Segundo Concílio de Constantinopla de 553.[10]
Eventualmente Circésio tornar-se-ia um centro monofisita. Já em 518, Nono foi expulso de sua sé pelo imperador Justino I (r. 518–527); foi também representante de sua Igreja numa conferência entre monofisitas e ortodoxos, em Constantinopla, em 532. Miguel, o Sírio, fornece os nomes de cerca de quinze outros bispos monofisitas: João assinou uma carta coletiva dos bispos ao metropolita João de Mar Matai em 684; Estêvão assinou a resposta do episcopado ao patriarca intruso Atanásio Sandalaia (752); Tiago, no início do século IX; Maquim, após Tiago; Constantino, c. 830; Joanão, c. 850; Aarão, c. 860; Basílio I, c. 870; Abraão, c. 880; Jorge, c. 890; Tomás, c. 895; Timóteo I, c. 905; Basílio II, c. 920; Severo, c. 940; Timóteo II, c. 960; e Ivânio, c. 1050. Circésio possuía um mosteiro jacobita ou monofisita.[11]
Foi somente no fim do século XIX que a Igreja Católica começou a conferir o título de Circésio: Jean-Baptiste Simon, 22 de junho de 1899 – † 10 de agosto de 1899, vigário apostólico de Nanquim; Philémon Cabanillas, 14 de novembro de 1899 – † 25 de junho de 1931, auxiliar em Córdova; Jean Cuvelier, redentorista, 23 de julho de 1931, vigário apostólico de Matadi.[12]
Referências
- ↑ Carlson 2014.
- ↑ a b c d e Streck 1978, p. 654.
- ↑ a b c d e f Wiesehöfer 1991, p. 595-596.
- ↑ Vaux 1870, p. 627.
- ↑ a b c Streck 1987, p. 765.
- ↑ a b c d e Streck 1978, p. 655.
- ↑ Streck 1978, p. 654–655.
- ↑ Amitai-Preiss 1995, p. 115.
- ↑ Streck 1987, p. 766.
- ↑ Janin 1953, p. 836.
- ↑ Janin 1953, p. 836-837.
- ↑ Janin 1953, p. 837.
Bibliografia
- Amitai-Preiss, Reuven (1995). Mongols and Mamluks: The Mamluk-Ilkhanid War, 1260-1281. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-46226-6
- Carlson, Thomas A. (30 de junho de 2014). «Circesium — ܩܪܩܝܣܝܘܢ». The Syriac Gazetteer. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- Janin, Raymond (1953). «Circesium». Dictionnaire d'Histoire et de Géographie ecclésiastiques. XII. Paris: Librairie Letouzey et Ané
- Streck, M. (1987). «Karkisiyā». In: Houtsma, Martijn Theodoor. E.J. Brill's First Encyclopaedia of Islam, 1913–1936, Volume IV: 'Itk–Kwaṭṭa. Leida: Brill. ISBN 978-90-04-08265-6
- Streck, M. (1978). «Karkisiya». In: van Donzel, E.; Lewis, B.; Pellat, Ch. & Bosworth, C. E. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume IV: ITḲ–KWAṬṬA. Leida: E. J. Brill. OCLC 758278456
- Vaux, W. S. W. (1870). «Circesium». In: Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology Vol. 1. Boston: Little, brown and Company
- Wiesehöfer, Joseph (1991). «Circesium». In: Yarshater, Ehsan. Encyclopaedia Iranica, Vol. V, Fasc. 6. Nova Iorque: Encyclopaedia Iranica Foundation, Inc.
