Azeditas
Os azeditas (em árabe: أَزْد; romaniz.: Azd) foram uma tribo árabe que pertenceu ao grupo dos catanitas.
Genealogia
Nas obras genealógicas árabes medievais, fala-se de Alasde ibne Algaute ibne Nabete ibne Maleque ibne Zaide ibne Calane ibne Saba ibne Iasjube ibne Iarube ibne Catane, onde Alasde é a alcunha do ancestral tribal Dira/Dirra ibne Algaute. Nessa classificação, aponta uma relação entre os azeditas e Catã, o ancestral epônimo das tribo ao sul da Arábia, o que sugeriria uma origem no Iêmem. Além disso, há uma fusão dos azeditas de Sarate (Azd Sarāt), em Assir, e os e azeditas do Omã (Azd ʿUmān), com os gassanitas, cuzaítas, alaucitas e cazerajitas, que aparecem como parte dos azeditas. Para Franz Rosenthal, o nome azedita só pode ser aplicado às tribos que descendem de Nácer ibne Alasde (em Assir e no Omã), aos bariquitas e xacritas (no Assir), descendentes de Adi ibne Harita ibne Anre Muzaiquia, aos alatiquitas e alajuritas (no Omã), descendentes de Inrã ibne Anre Muzaiquia, e às tribos de Alinu ibne Alasde (al-Hinw b. al-Azd), Carne ibne Abedalá ibne Alasde (Karn b. ʿAbd Allāh b. al-Azd), armanitas, almaítas, e Hiduna ibne Anre ibne Alasde (Hidūna b. ʿAmr b. al-Azd), no Assir.[1] Hüseyin Algül, por sua vez, discorda dessa posição e admite que a genealogia apresentada pelas fontes está correta.[2]
O termo frequente Xanua (Shanūʾa), que aparece como grito de guerra num poema do poeta Hajiz ibne Aufe, deve ter conotação genealógica, mas é indeterminado quais grupos podiam pertencem a Xanua.[1] Algül propôs que os azeditas Xanua vivessem no Iêmem e nas montanhas do Sarate. As fontes árabes explicam que originalmente os azeditas viviam apenas no Iêmem, mas dispersaram para várias regiões após o rompimento da represa de Maribe: os alaucitas e cazerajitas para Iatrebe (atual Medina); os cuzaítas para Meca e Tiama; os uadiaítas, iamaditas, hizamitas e alatiquitas para o Omã; os macicaítas, maidanitas, libitas, gamiditas e bariquitas para o Sarate; os Maleque ibne Otomão e Jazima ibne Uada para o Iraque; os jafenaítas (gassanitas), os Almuarrique ibne Anre ibne Amir (Āl Muḥarriq b. ʿAmr b. ʿĀmir) e cudaítas para a Síria.[2] Novamente Franz Rosenthal refuta essa hipótese, considerando que, salvo as parcas alusões nas fontes genealógicas, não há elementos suficientes que corroborem essa origem comum iemenita dessas tribos. Além disso, colocam que os dois maiores grupos de azeditas, no Sarate e no Omã, se uniram em Baçorá e no Coração em tempos islâmicos, e foram tratadas indistintamente nas fontes desde então. Dessa fusão, surgiram relatos posteriores segundo os quais os azeditas eram uma tribo iemenita única.[1]
História
Período pré-islâmico
Os azeditas do Sarate, conhecidos como tecelões, eram em grande parte sedentários; por isso suas casas permaneceram essencialmente fixas. As tribos daucitas (Soleime ibne Fame, Jarife ibne Fame, Munjibe ibne Daus) e os macicaítas eram os grupos mais ao norte, partes deles alcançando o nordeste de Jaife, a maioria no alto Uádi Dauca. A leste e sudeste estavam as tribos zaranitas (salamanitas, cadadaítas, Ubaide ibne Ubra); mais a leste, no Sarate Gamidita, estavam Namir ibne Otomão, algataribitas, zaraítas, atebabitas, libitas, tumalaítas, gamiditas, Canre ibne Ajanite e outros. Sua área ia do alto Uádi Canauna para o leste. Essas tribos eram separadas de seus parentes mais a leste pelos catamitas. A leste dos catamitas estavam os albucumitas (de Hauala ibne Alinu) em Turaba; os xacritas (Banu Ualane) ao noroeste e os Cara ibne Abedalá ao sul de Tabala. Mais ao sul, ainda no Sarate Alajur, estavam os numerosos ramos de Alajur ibne Alinu (os mais importantes eram os xaritas com os balasmaritas), centrados em torno de Halaba ao norte e alcançando áreas ao sul do Uádi Tanuma. Seus principais centros eram: Halaba, Alcadra, Nimas e Tanuma. Alguns grupos viviam ainda mais ao sul, em direção ao Uádi Ible, vizinhos dos anzitas. Os bariquitas viviam na região do Uádi Barique, a oeste, envolvendo o enclave dos catamitas pelo sul. No geral, viviam nos vales, enquanto os catamitas habitavam as partes altas. Alguns grupos azeditas (almaítas, Iarfa ibne Alinu e partes de Alajur ibne Alinu) estavam instalados como vizinhos dos quinanaítas na costa em torno de Ḥall. Originalmente, os azeditas do Sarate estavam muito mais ao sul e só em tempos relativamente recentes penetraram em sua região posterior, após contínuas guerras contra os catamitas. Remanescentes ainda viviam sob os mafiritas em tempos islâmicos, no sudoeste de Taiz, e sob os auditas em Datina.[3]
Os azeditas de Omã consistiam daquelas tribos que descendiam genealogicamente de Maleque ibne Fame (hunaítas, faraídas, diadimitas, nauaítas, caradicitas, Diar Maliz, ucalitas, cassamilitas, sulaimitas, axaquiritas), algumas descendentes de Nácer ibne Zarane (iamaditas, hudanitas, mauilitas) e as que descendiam de Inrã ibne Anre Muzaiquia, isto é, os alatiquitas e os Alajer ibne Inrã (é provável que o vínculo com Inrã, que os tornava tribos irmãs dos ançares, tenha sido postulado em honra aos moalábidas; o vínculo verdadeiro foi preservado na genealogia Alatique ibne Alasde ibne Inrã). Há pouca informação acerca dos locais onde viviam as tribos individualmente. Os maulitas estavam em torno de e ao redor de Soar; os iamaditas e os hunaítas nas áreas costeiras vizinhas. Os humaimitas (de Mane ibne Maleque ibne Fame) estavam em Nazua; osA alatiquitas em Daba e os Alajer nas proximidades; os hudanitas ficavam no interior da Costa dos Piratas. Entre eles havia algumas tribos não azeditas, especialmente os Sama ibne Luai, que mais tarde ficaram coletivamente conhecidos como nizaritas. Os judaiditas (dos axaquitas) avançaram em tempos islâmicos para oeste até Dófar/Hadramaute, onde capturaram o porto marítimo de Raiçute após batalhas contra os maraítas. Ainda em tempos pré-islâmicos, partes dos azeditas de Omã — como os Salima ibne Maleque ibne Fame — migraram para ilhas no golfo Pérsico e para a Carmânia. Como pescadores, navegadores e comerciantes, os azeditas de Omã não gozavam de boa reputação entre os demais árabes. O termo Muzune, ocasionalmente aplicado a eles, parece ter sido um apelido. Pode-se supor que eles imigraram do norte e se impuseram sobre os habitantes pré-existentes não árabes.[4]
Pouco se sabe sobre os azeditas em tempos pré-islâmicos. Admitindo a relação deles com os gassanitas, tiveram envolvimento com a fundação de Hira, futura capital do Reino Lácmida, que a tradição afirma ser uma fundação dessa tribo.[2] Acerca dos azeditas do Sarate, praticamente não há escritos poéticos; o único poeta bem conhecido foi Hajiz ibne Aufe. Há menção a batalhas contra catamitas e quinanaítas, e a combates de algumas tribos contra o clã dos Algatarife (no Uádi Canauna) no início do século VII. Diz-se que membros desse clã eram os guardiões do santuário de Manate em Cudaide e é possível que o nome Algatarife nas listas genealógicas de Medina tenha vindo dessa região. Dizem as fontes que os azeditas do Sarate cultuavam os deuses Duxara (santuário em Tabala), Du Alcafaine e Ácime. Sobre os azeditas do Omã, sabe-se menos. À parte das lutas míticas contra persas e maraítas, há referência a um combate contra os abuceus. Menciona-se que Bajar/Najir era sua divindade.[4]
Conversão e Guerras Rida
No tempo de Maomé, o Omã estava sobremaneira sob controle dos azeditas. Em 8 A.H. (629), Maomé enviou Abu Zaíde Alançari, da tribo cazerajita, e Anre ibne Alas aos dois filhos de Julanda ibne Maçude, Abede e Jaifar — chefes da casa governante Aljulanda (dos mauilitas em Soar), que haviam se colocado frente aos alatiquitas e outras tribos do interior sob liderança de Laquite ibne Maleque Alatiqui. Caso os azeditas aceitassem o islamismo, Anre seria emir, e Abu Zaíde lideraria a oração e ensinaria a nova fé. Ambos aceitaram a conversão e sabe-se que Anre e Abu Zaíde permaneceram no Omã até a morte de Maomé (632); segundo outra tradição, Abu Zaíde retornou antes à Medina. Uma delegação de dez a quinze homens liderada por Surade ibne Abedalá Alazedi veio à Medina em 10 A.H. (631). Foram hospedados na casa de Furua ibne Anre, onde encontraram Maomé e permaneceram dez dias aprendendo e participando de suas assembleias. Maomé apreciou sua conduta e a fala deles e nomeou Surade como seu líder, instruindo-o a tratar bem os muçulmanos e combater os politeístas. Surade convidou primeiro o povo de Juraxe ao Islã. Diante da recusa, cercou a cidade por cerca de um mês. Sem sucesso, retirou-se para o monte Xacar. Pensando que os muçulmanos se retiravam, os habitantes de Juraxe saíram no seu encalço; os muçulmanos voltaram e os derrotaram. Juraxe finalmente aceitou o Islã e Surade assumiu o governo da cidade antes de Maomé falecer.[5]
Além deles, vários ramos dos azeditas chegaram à Medina em diferentes épocas e aceitaram o Islã. Entre eles estava o famoso adivinho e médico Dimade Alazedi, que encontrou Maomé ainda em Meca e se converteu após ouvir o Alcorão. Daqueles que chegaram à Medina havia também uma delegação gamidita, que veio no Ramadã de 10 A.H. e ficou perto do cemitério de Albaqui, onde Ubai ibne Cabe lhes ensinou o Alcorão. Depois juraram fidelidade ao profeta e partiram. A tribo bariquita também enviou uma delegação e recebeu uma carta com as regras do zacate. Os azeditas do Omã, liderados por Assade ibne Iabra, também vieram e Maomé designou Maraba Alabedi para administrar seus assuntos. Outro grupo, liderado por Salama ibne Aiaz, aprendeu a doutrina islâmica e os ritos. Os azeditas em Daba vieram sob Abu Sufra Alatiqui, e os minalicitas sob Mera ibne ibne Abiade, e aceitaram o Islã. Ibne Saíde Almagribi registra que Maomé escreveu uma carta a Calide ibne Dimade, dos azeditas. Após a morte de Maomé, no contexto das Guerras Rida, os alatiquitas de Laquite apostataram e rebelaram-se. Icrima ibne Abi Jal, Hudaifa ibne Misane Albarqui e Arfaga ibne Harsema foram enviados contra eles. Com a cooperação de Abede e Jaifar, que não haviam apostatado, a rebelião foi sufocada. De modo semelhante, pequenas revoltas em Assir foram reprimidas por Otomão ibne Alas, governador de Jaife.[5]
Período califal
Tão cedo quanto 13/634, havia alguns azeditas no contingente que Omar (r. 634–644) enviou ao Eufrates. Alguns azeditas do Sarate figuraram entre os primeiros colonos de Baçorá e Cufa, e alguns foram para o Egito. No geral, porém, houve pouca emigração.[4] Os azeditas lutaram no lado de Aixa na Batalha do Camelo (656), onde estima-se que dois mil deles tenham morrido ali. Na Batalha de Sifim, parte dos azeditas apoiou Ali, parte Moáuia. Durante o governo de Abedalá ibne Zobair (r. 683–692), parecem ter-lhe prestado juramento.[6] No Omã, por conseguinte, os Banu Aljulanda permaneceram, na prática, governantes completos durante muitos anos. Abade ibne Abede ibne Aljulanda assumiu o governo no tempo de Otomão (r. 644–656); ele foi morto em batalha contra os carijitas da Iamama em 67/686. Seus filhos Saíde e Solimão sucederam-no. Só no tempo de Alhajaje ibne Iúçufe os dois irmãos foram expulsos do Omã e o território reincorporado.[7]
Um grande número de azeditas do Omã emigrou para Baçorá em 60–61/679–680. Nesse processo, alguns permaneceram no leste árabe, onde um emirado azedita foi fundado em Zará no século III/IX. Eles se uniram aos azeditas do Sarate já estabelecidos em Baçorá, fizeram aliança com os rebiaítas e assim se tornaram opositores dos tamimitas. Em 38/658, os azeditas do Sarate de Baçorá protegeram o governador Ziade ibne Abi contra os tamimitas. De modo semelhante, Ubaide Alá ibne Ziade obteve auxílio dos azeditas quando, após a morte de Iázide I (64/683), os tamimitas se levantaram contra ele. A subsequente guerra tribal, durante a qual foi morto Maçude ibne Anre Alatiqui, líder dos azeditas e rebiaítas, foi encerrada por Alanafe, líder dos tamimitas. A inimizade, porém, permaneceu e espalhou-se ao Coração, especialmente quando os azeditas ali (novamente aliados aos rebiaítas) se tornaram a tribo dominante sob os moalábidas depois de 78/697.[7] Sob Almoalabe ibne Abi Sufra, envolveram-se nas expedições de Merve até Bucara.[6] Os azeditas ficaram profundamente ofendidos com a destituição dos moalábidas e foram largamente responsáveis pelos eventos que levaram à derrota e morte de Cutaiba ibne Muslim em 96/715.
Os azeditas permaneceram o grupo líder até o início do reinado de Iázide II em 101/720. A subsequente extermínio sistemático dos moalábidas inaugurou para eles um período de sujeição a governadores caicitas. Sua inimizade contra estes contribuiu muito para a queda dos omíadas. Durante os tempos turbulentos no final do reinado dos omíadas, os azeditas — com poucas alianças de curta duração — permaneceram em oposição ao governador Nácer ibne Saiar, fato que facilitou consideravelmente o avanço de Abu Muslim. Em Baçorá, também, os azeditas seguiram os abássidas, tendo-se levantado contra o domínio omíada e sido derrotados por tropas tamimitas e sírias. O ibadismo, trazido de Baçorá, começou a ser aceito no Omã aproximadamente ao mesmo tempo. Em 132/749, Aljulanda ibne Maçude, membro da antiga casa governante Banu Aljulanda, foi eleito o primeiro imame. Ele foi morto em 134/751, lutando contra Cazim ibne Cuzaima Atamimi, general de Açafá (r. 750–754). Os anos seguintes foram muito conturbados no país. Nominalmente, estava sob um governador abássida, mas havia batalhas constantes, normalmente entre os Banu Aljulanda, que tentavam restabelecer o antigo governo, e os ibaditas. Só em 177/793 estes últimos obtiveram supremacia e elegeram um novo imame legítimo. Daí em diante, Nazua tornou-se a sede dos imames ibaditas, que foram, quase sem exceção, da tribo iamadita. Após 230/844, surgiram novos conflitos. Além das atividades dos Banu Aljulanda, houve guerras tribais entre azeditas e nizaritas. Os Banu Sama ibne Luai pediram auxílio ao califa Almutadide em 277/890 para ajudá-los contra os ibaditas. O último imame independente, Azane ibne Tamime, caiu em 280/893, lutando contra Maomé ibn Nur, governador abássida do Barém. Depois de 282/875, houve novamente imames ibaditas em Nazua, mas seus poderes permaneceram limitados.[8]
Referências
- ↑ a b c Rosenthal 1960, p. 811.
- ↑ a b c Algül 1995, p. 46.
- ↑ Rosenthal 1960, p. 811-812.
- ↑ a b c Rosenthal 1960, p. 812.
- ↑ a b Algül 1995, p. 46-47.
- ↑ a b Algül 1995, p. 47.
- ↑ a b Rosenthal 1960, p. 812-813.
- ↑ Rosenthal 1960, p. 813.
Bibliografia
- Algül, Hüseyin (1995). «EZD (Benî Ezd)». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 12. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 4 de janeiro de 2026
- Rosenthal, F. (1960). «Azd». In: Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Lévi-Provençal, E.; Schacht, J.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume I: A–B. 1. Leida: E. J. Brill