Harura
Harura (em árabe: حروراء; romaniz.: Ḥarūrāʾ) era uma localidade da Arábia, variadamente referida como aldeia ou distrito (cora), perto de Cufa.
História
Harura era uma aldeia ou distrito (cora), perto de Cufa. No período pré-islâmico e, pelo menos, no século I do Islã, situava-se às margens do Eufrates ou de um de seus canais, pois um verso de Alaxa (Atabari, II.730) menciona o "rio de Harura"; contudo, no século III/IX ela é descrita como estando no deserto (ṣaḥrāʾ) pelo tradicionista Ibne Dibil Alhandani (m. 283/896). O sistema hidrográfico da região provavelmente havia passado, portanto, por uma transformação. Sem importância do ponto de vista comercial ou agrícola, Harura deve sua notoriedade a um acontecimento histórico ali ocorrido: foi o local onde os partidários de Ali que se opunham à arbitragem proposta por Moáuia em Sifim realizaram sua primeira secessão.[1]
Alguns indivíduos haviam manifestado sua oposição em Sifim apenas clamando lā ḥukma illā li-llāh ("não há julgamento senão o de Deus"), mas seu número aumentou durante o retorno do exército de Ali a Cufa. Aqueles que se reuniram em Harura (de onde passaram a ser conhecidos como haruraítas) em Rabi Alual de 37/agosto–setembro de 658 eram vários milhares, talvez cerca de 12 mil. Tratou-se de um verdadeiro motim, pois, embora esses opositores se limitassem inicialmente à escolha provisória de um dirigente para conduzir a oração (Abedalá ibne Alcaua Aliascuri) e de um chefe militar (Xabate ibne Ribi Atamimi), já não reconheciam a autoridade de Ali. Proclamaram que a baia deveria ser prestada a Deus e segundo o preceito do al-amr bi-l-maʿrūf wa-l-nahy ʿan al-munkar ("ordenar o que é correto e proibir o que é reprovável"), e que um conselho (xura) deveria então escolher o chefe da comunidade. Isso não impediu que os dissidentes, antes de partirem para Naravã, tomassem como líder Abedalá ibne Uabe Arracibi.[1]
Preocupado com a secessão dos haruraítas, Ali enviou a Harura, para negociar em seu nome, seu primo Ibne Abas, e depois foi ele próprio discutir a questão com os dissidentes. Os argumentos utilizados pelos haruraítas nessas discussões não foram reproduzidos em Atabari nem em outras fontes sunitas ou favoráveis a Ali, enquanto os argumentos deste e de Ibne Abas o foram. Ibne Abas lembrou inutilmente a seus oponentes os versículos do Alcorão (IV.35; V.1–2) sobre a nomeação de árbitros em certos casos; os haruraítas responderam que toda questão para a qual existisse uma decisão (ḥukm) de Deus não podia ser submetida à arbitragem. Nas discussões, os haruraítas recorreram ainda a outros argumentos e a outros versículos do Alcorão para justificar sua secessão. Ibne Abas foi compelido a reconhecer sua validade; quanto a Ali, ele conseguiu persuadir os dissidentes a abandonar a secessão, embora não esteja muito claro como o fez. Segundo Abedalá ibne Iázide Alfazari, em seu Kitāb al-Nahrawān, Ali prometeu retomar a guerra contra Moáuia e reforçou essa promessa com as garantias mais firmes.[2]
Algum tempo depois de seu retorno a Cufa, Ali declarou claramente sua intenção de respeitar o acordo de Sifim, e os haruraítas, que haviam retornado à cidade com ele, enfureceram-se. Foi em consequência dessa declaração de Ali que os dissidentes passaram a realizar reuniões secretas, levantando a questão de saber se permanecer em um país onde reinava a injustiça era compatível com os deveres devidos a Deus; os que sustentaram que era necessário abandoná-lo retiraram-se para a clandestinidade, convidaram os dissidentes de Baçorá a fazer o mesmo e reuniram-se em Naravã, separando-se assim pela segunda vez. Em Harura, ou em suas proximidades, ocorreram duas batalhas: uma em 67/686, na qual Almoquetar Atacafi foi derrotado pelo exército de Muçabe ibne Zobair; a outra em 9 de Xaual de 315/8 de dezembro de 927, quando o sájida Iúçufe ibne Abi Açaje, lutando pelo califa Almoctadir contra o soberano cármata do Barém, Abu Tair Aljanabi, foi derrotado e capturado (deve-se observar, porém, que a maioria das fontes não menciona Harura em conexão com essa batalha, limitando-se a dizer que ela ocorreu fora de Cufa ou às portas dessa cidade).[3]
Referências
- ↑ a b Vaglieri 1971, p. 235.
- ↑ Vaglieri 1971, p. 235-236.
- ↑ Vaglieri 1971, p. 236.
Bibliografia
- Vaglieri, Laura Veccia (1971). «Ḥarūrāʾ». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume III: H–Iram. Leida: E. J. Bril