Academias judaicas na Babilônia

As academias judaicas na Babilônia (português brasileiro) ou Babilónia (português europeu) foram os centro do saber judaico, na região chamada de "Babilônia" (anacronismo para Assuristão) nas fontes judaicas.

História

A principal sede do judaísmo babilônico era Neardeia, onde existia alguma instituição de ensino. Em Neardeia, havia uma sinagoga muito antiga, que se acreditava ter sido construída pelo rei Jeconias. Em Huzal, perto de Neardeia, havia outra sinagoga, não longe da qual se podiam ver as ruínas da academia de Esdras. Ao mesmo tempo, havia em Nísibis, no norte da Mesopotâmia, um colégio judaico, à frente do qual estava Judá bem Betera, e no qual muitos eruditos palestinos encontraram refúgio na época das perseguições. Uma importância temporária também foi alcançada por uma escola em Near-Pecode, fundada pelo imigrante palestino Hananias, sobrinho de Josué bem Hananias. No tempo do imperador Adriano (r. 117–136), Natã, contemporâneo de Judá, o Príncipe, e Hia. O sobrinho deste, Abá Aricá foi um dos mais importantes discípulos de Judá. Em seu retorno à Babilônia em 219, deixou Neardeia sob responsabilidade de seu amigo Samuel e fundou uma academia em Sura. Como Abá Aricá e Samuel eram reconhecidos como pares em posição e erudição, suas academias também eram consideradas de igual nível e influência. Dessa forma, ambas as escolas rabínicas babilônicas inauguraram seus cursos, e as discussões que se seguiram em suas aulas forneceram o estrato mais antigo do material erudito depositado no Talmude Babilônico.[1]

Descrição de Axi lecionando na Academia de Sura (Museu da Diáspora, Telavive)

Quando Odenato (r. 263–267) destruiu Neardeia em 259, Pumbedita foi escolhida para abrigar uma nova academia de estudos talmúdicos;[1][2] outros preferem datar a destruição de Neardeia em 262/3.[3] Seu fundador foi Judá bar Ezequiel, discípulo de Abá Aricá e Samuel. Durante a vida de seu fundador, e ainda mais sob seus sucessores, essa escola adquiriu fama por sua agudeza intelectual e capacidade de distinção, que muitas vezes degenerava em mero casuísmo excessivo. Pumbedita tornou-se o outro foco da vida intelectual dos judeus babilônicos e conservou essa posição até o fim do período gaônico (século XI). Neardeia voltou a ganhar destaque sob Amemar, contemporâneo de Axi. O prestígio de Sura foi ampliado pelo discípulo e sucessor de Abá Aricá, Huná. Quando Huná morreu, em 297, Judá bar Ezequiel foi reconhecido pelos sábios de Sura como seu chefe. Com a morte de Judá, dois anos depois, Sura tornou-se o único centro de ensino, tendo Hisdá (m. 309) como seu dirigente. Ainda durante a vida de Huná, Hisda havia reconstruído em Sura a academia arruinada de Abá Aricá, enquanto a academia de Huná se situava nas proximidades de Mata Mecásia. Com a morte de Hisda, Sura perdeu sua importância por longo tempo. Em Pumbedita, Rabá bar Nacmani (m. 331), José (m. 333) e Abaié (m. 339) se sucederam. Foram seguidos por Rabá, que transferiu o colégio para sua cidade natal, Mauza.[4]

Após a morte de Rabá, em 352, Pumbedita recuperou sua antiga posição. O chefe da academia era Nacmã bar Isaque (m. 356), discípulo de Rabá. Após a morte de Rabá, Papa, outro de seus discípulos, fundou um colégio em Narexe, perto de Sura, o que, por algum tempo, dificultou o crescimento da escola de Sura; mas, depois da morte de Papá, em 375, a Academia de Sura recuperou sua antiga supremacia. Seu restaurador foi Axi, sob cuja direção, por mais de meio século (Axi morreu em 427), a academia alcançou grande destaque e ofereceu tais atrativos que os exilarcas passaram a ir ali, no outono de cada ano, para realizar suas recepções oficiais habituais. A academia de Pumbedita reconheceu a preeminência da de Sura, e essa liderança foi firmemente mantida por vários séculos. A tradição designa Axi como o iniciador do Talmude Babilônico. Rabiná II, mestre em Sura, é considerado pela tradição o último amora e o ano de sua morte (ano 500) é tomado como a data do encerramento do Talmude.[5]

Os três séculos ao longo dos quais o Talmude foi desenvolvido nas academias fundadas por Abá Aricá e Samuel foram seguidos por cinco séculos durante os quais ele foi zelosamente preservado, estudado e exposto nas escolas e, por meio de sua influência, reconhecido por toda a diáspora. Sura e Pumbedita eram consideradas as únicas sedes importantes do saber: seus dirigentes e sábios eram autoridades incontestadas, cujas decisões eram solicitadas de todos os lados e aceitas onde quer que existisse vida comunitária judaica. Os períodos da história judaica imediatamente posteriores ao encerramento do Talmude são designados segundo os títulos dos mestres de Sura e de Pumbedita; assim, fala-se do "tempo dos gaonitas" e do dos saboraítas. Os saboraítas foram os eruditos que completaram o Talmude no primeiro terço do século VI, acrescentando numerosas ampliações ao seu texto. O título gaom, que originalmente pertencia ao chefe da Academia de Sura, passou a ser de uso geral no século VII, sob a supremacia muçulmana, quando a posição oficial e o estatuto dos exilarcas e dos chefes das academias foram novamente regulamentados.[5] A posição superior herdada por Sura perdurou até o final do século VIII, após o que Pumbedita passou a ganhar maior importância. Sura ocuparia sempre um lugar de destaque na história judaica, pois foi ali que Saadia ben José deu um novo impulso ao saber judaico e, assim, abriu o caminho para a regeneração intelectual do judaísmo. Pumbedita, por sua vez, encerrou o período gaonita com a gestão de Xerirá ben Haniná (m. 1000) e seu filho Hai (m. 1038).[5]

Organização

A designação oficial das academias babilônicas era o termo aramaico metibta (em hebraico, iexivá), “sessão, assembleia”. O chefe da academia era, por conseguinte, chamado rexe metibta (em hebraico, roxe iexivá). Existe uma tradição segundo a qual Huná, o segundo dirigente de Sura, foi o primeiro a portar esse título. Antes dele, a denominação usual na Babilônia era rexe sidra; rexe metibta permaneceu a designação oficial para o chefe da academia até o fim do período gaônico, não tendo sido de modo algum substituída pelo título gaom, que, na realidade, significa apenas "alteza" ou "excelência". Ao lado do rexe metibta, e imediatamente abaixo dele em hierarquia, encontrava-se o rexe calá (presidente da assembleia geral). A Calá (assembleia geral) era totalmente desconhecida na Palestina. Em razão da grande extensão da Babilônia, era necessário criar oportunidades para que aqueles que viviam longe das academias pudessem participar de suas deliberações. Essas reuniões de estudantes externos realizavam-se duas vezes por ano, nos meses de Adar e Elul.[5]

Referências

  1. a b Bacher 1906, p. 145.
  2. Oppenheimer, Isaac & Lecker 1983, p. 191.
  3. Dodgeon & Lieu 2002, p. 370.
  4. Bacher 1906, p. 145-146.
  5. a b c d Bacher 1906, p. 146.

Bibliografia

  • Dodgeon, Michael H.; Lieu, Samuel N. C. (2002). The Roman Eastern Frontier and the Persian Wars (Part I, 226–363 AD). Londres: Routledge. ISBN 0-415-00342-3 
  • Oppenheimer, Aharon; Isaac, Benjamin H.; Lecker, Michael (1983). Babylonia Judaica in the Talmudic Period. Nova Iorque: L. Reichert