Xerirá ben Haniná

Xerirá ben Haniná (em hebraico: שרירא בר חנינא; romaniz.: Šerira ben Ḥanina), também conhecido como Xerirá Gaom (em hebraico: שרירא גאון; romaniz.: Šerira Gaon; c. 900 – c. 1000), foi o gaom da Academia de Pumbedita.

Vida

Xerirá ben Haniná nasceu por volta do ano 900. Era descendente, tanto pelo lado paterno quanto pelo materno, de famílias proeminentes, vários de cujos membros haviam ocupado o cargo de gaom. Um de seus antepassados foi Rabá ibne Abuá, que por sua vez pertencia à família do exilarca. Xerirá afirmava que sua genealogia podia ser traçada até o ramo pré-bostanaiano dessa família, o qual — segundo ele —, em razão da decadência do exilarcado, teria renunciado às suas pretensões a esse cargo, preferindo a vida erudita. O selo de sua família era um leão, que se dizia ter sido o emblema dos reis de Judá.[1]

Xerirá exerceu inicialmente a função de chefe do tribunal; posteriormente, no ano de 968, foi eleito gaom da Academia de Pumbedita, pouco depois do que nomeou seu filho chefe do tribunal em seu lugar. O gaonato de Xerirá durou trinta anos, e então ele renunciou ao cargo por causa de sua idade avançada, designando seu filho Hai como sucessor. Tendo sido maliciosamente denunciado por inimigos ao califa Alcadir (r. 991–1031), embora a natureza da acusação seja desconhecida, ele e seu filho Hai foram presos e privados de seus bens, inclusive do necessário para a subsistência. Xerirá, em consequência, adoeceu de desgosto e morreu pouco depois, aos 100 anos de idade.[1]

Academia

Como diretor da academia, procurou alcançar discípulos próximos e distantes, e muitas de suas respostas foram preservadas nas coleções gueônicas e em obras que contêm decisões antigas. Suas respostas são semelhantes às respostas gueônicas em geral, tratando em sua maioria de questões de prática religiosa, embora algumas contenham exposições e comentários sobre passagens do Talmude e da Mixná. Com efeito, sua atividade literária limitou-se a temas talmúdicos e correlatos. Não se interessava muito pela literatura árabe, embora conhecesse o suficiente da língua para redigir em árabe aquelas decisões destinadas a comunidades de países muçulmanos; em geral, preferia usar o hebraico ou o aramaico.[1]

Xerira era conhecido pela nobreza e seriedade de seu caráter. Como juiz, esforçava-se por apurar exatamente os fatos de cada caso e por proferir decisões em estrita conformidade com a Lei. Ao decidir questões práticas, adotava a posição mais rigorosa, seguindo a letra do Talmude com o propósito de sustentar e enfatizar sua autoridade contra os ataques dos caraítas. Com frequência formulava em suas respostas regras de grande importância para a correta interpretação do Talmude. Por exemplo, declara que o termo miṣvá designa, em certas passagens, um mandamento cuja transgressão não fica impune, mas em outras indica apenas uma exortação cujo cumprimento é louvável, embora possa ser negligenciada sem receio de punição.[1]

Xerira foi adepto do misticismo cabalístico; acreditava que as obras místicas Shi'ur qomah e Hekalot representavam tradições antigas, originadas em Ismael e Aquiba. Afirma, em uma resposta, que a passagem do Shi'ur qomah que atribui órgãos humanos a Deus contém mistérios profundos, mas não deve ser interpretada literalmente. Xerira escreveu uma obra sobre o Talmude intitulada Megillat Setarim. Nela, parece ter tratado da importância da Hagadá; contudo, a parte da obra que continha suas opiniões sobre esse tema perdeu-se.[2]

Cartas

Xerira tornou-se célebre por uma carta dirigida à comunidade de Cairuão, que constitui a principal fonte para a história dos períodos talmúdico, pós-talmúdico e gueônico. Jacó ben Nissim, de Cairuão, dirigiu, em nome de sua comunidade, uma série de questões de interesse histórico a Xerira, indagando especialmente sobre a origem da Mixná e a sequência de suas redações, a origem da Tossefta e a sucessão das autoridades talmúdicas, pós-talmúdicas e gueônicas. Xerira respondeu a todas essas questões com clareza e lucidez, lançando luz sobre muitas passagens obscuras da história judaica. Essa resposta histórica foi composta metade em aramaico e metade em hebraico. Apesar do aspecto de crônica, suas opiniões sobre os príncipes do Exílio pertencentes ao ramo de Bostanai, bem como sobre alguns de seus contemporâneos, não estão isentas de parcialidade. [3]

Essa carta está incluída na Crônica de Aimaás, mas também foi editada a partir de manuscritos por Benedict Goldberg, em Ḥofes Maṭmonim (Berlim, 1845), e sob o título Iggeret Rab Xerira Gaon (Mogúncia, 1873); bem como por Jacob Wallerstein, sob o título Xerirae Epistola, com tradução latina e notas (Breslávia, 1861). A melhor edição dessa carta é a de Adolf Neubauer, em Medieval Jewish Chronicles (Oxônia, 1887). Outra carta de Xerira, também dirigida a Jacó ben Nissim de Cairuão, trata dos diversos títulos atribuídos aos sábios talmúdicos, como Rabon, Rabbi, Rab e Mar, e explica por que alguns sábios são mencionados apenas pelo nome, sem acréscimo de qualquer título.[3]

Referências

Bibliografia

  • Bacher, Wilhelm; Lauterbach, Jacob Zallel (1906). «Sherira ben Ḥanina». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls