Samuel de Neardeia
Samuel de Neardeia ou Samuel bar Abá (em hebraico: שְׁמוּאֵל בַּר אַבָּא; romaniz.: Šəmūʾēl bar ʾAbbā; Neardeia, ca. 165 - Neardeia, ca. 257[1]), muitas vezes chamado apenas Samuel ou Mar Samuel, foi um amora judeu da 1.ª geração. Era filho de Abá bar Abá e chefe da Academia de Neardeia, na Babilônia.
Vida
Família e primeiros anos
Samuel nasceu em Neardeia por volta de 165 e era filho de Abá bar Abá. Como ocorre com muitos outras personagens, diversas narrativas lendárias se ligam ao seu nascimento. Seu pai, que posteriormente passou a ser conhecido apenas pela designação Abu di-Xemuel ("pai de Samuel", era comerciante de seda.[2] Teve um filho chamado Rabá[3] e duas filhos, cujos nomes não são conhecidos. Suas filhas capturadas por soldados durante a guerras do Império Sassânida com o Império Romano. Elas foram Elas foram levadas para Séforis, na Palestina, onde foram resgatadas por correligionários, mas ambas morreram em idade jovem, após terem sido sucessivamente casadas com um parente.[2] Diz-se que Judá bar Bateira) encomendou de Abá uma veste de seda, mas recusou-se a aceitá-la depois que Abá a havia providenciado; quando este lhe perguntou o motivo da recusa, Judá respondeu: "a encomenda foi apenas verbal, e não bastou para tornar a transação vinculante". Abá replicou: "A palavra de um sábio não é melhor garantia do que o seu dinheiro?”. "Tens razão", disse Judá; "e porque dás tanto valor à palavra empenhada, terás a felicidade de ter um filho semelhante ao profeta Samuel, cuja palavra todo o Israel reconhecerá como verdadeira". Pouco depois nasceu um filho a Aba, a quem deu o nome de Samuel.[1]
Estudos
O primeiro mestre de Samuel foi um homem cujo nome não é conhecido; diz-se que Samuel dominava mais do que ele certa questão jurídica e recusou-se a submeter-se aos maus-tratos desse professor. Então seu pai, ele próprio destacado mestre da Lei, passou a instruí-lo. Depois, Abá o enviou a Nísibis, para frequentar a escola do rabino que profetizara seu nascimento, a fim de que ali adquirisse conhecimento da Lei. Samuel permaneceu pouco tempo em Nísibis. De volta a Neardeia, estudou com Levi ben Sissi, que estivera na Babilônia antes da morte de Judá, o Príncipe e exerceu grande influência em sua formação. O progresso de Samuel foi tão rápido que logo passou a relacionar-se com seu mestre como igual. Além da Bíblia e da Lei tradicional, Samuel recebeu, provavelmente desde cedo, instrução em outras ciências. É provável que tenha acompanhado o pai em sua viagem à Palestina, pois, após a ida de Levi ben Sissi à Palestina, já não havia na Babilônia quem pudesse instruí-lo.[1]
Segundo um relato talmúdico, que Solomon Judah Loeb Rapoport considera acréscimo tardio, mas que pode ter algum fundamento histórico, Samuel teria curado Judá, o Príncipe, de uma afecção ocular. Embora ainda jovem demais para estudar diretamente com ele, Samuel aprendeu com os discípulos do patriarca, especialmente com Hanina bar Hama. Após adquirir vasto saber na Palestina — incluindo o estudo da Mixná editada por Judá, o Príncipe, e outras coleções tradicionais — Samuel deixou a região, provavelmente com seu pai, e retornou à cidade natal. Sua reputação como mestre da Lei já o precedera, e numerosos discípulos se reuniram em torno dele. Por seu profundo conhecimento do direito civil, o exilarca Mar Uqueba, que fora seu discípulo, nomeou-o juiz do tribunal de Neardeia, onde atuou juntamente com seu amigo Carna. Esse tribunal era então considerado o mais importante de sua espécie. Na Palestina e na Babilônia, Samuel e Carna eram chamados "os juízes da Diáspora".[1]
Academia de Neardeia
Após a morte de Xila, diretor (rexe sidra) da Academia de Neardeia, Samuel foi nomeado para o cargo, depois que Rave o recusara, por não aceitar funções honoríficas na cidade natal de Samuel. Sob sua direção, a academia prosperou e, junto com a fundada por Rabe em Sura, gozou de altíssimo prestígio. Rabe em Sura e Samuel em Neardeia estabeleceram a independência intelectual da Babilônia. Já não era necessário aos jovens ir à Palestina para estudar a Lei. A Babilônia passou a ser considerada, em certo sentido, uma segunda Palestina. Samuel ensinava: "Assim como é proibido emigrar da Palestina para a Babilônia, também é proibido emigrar da Babilônia para outros países". Após a morte de Rabe, nenhum novo diretor foi eleito, e o maior discípulo dele, Huna — que se tornara presidente do tribunal de Sura — subordinou-se em tudo a Samuel, consultando-o em toda questão jurídico-religiosa difícil. A Academia de Neardeia era então a única existente na Babilônia, e Samuel era considerado a autoridade suprema entre os judeus babilônicos. Até mesmo Joanã bar Napaca, o mais eminente mestre da Palestina, que inicialmente via Samuel apenas como um colega, ficou tão convencido de sua grandeza — depois que Samuel lhe enviara numerosas responsa sobre importantes leis rituais — que exclamou: "Tenho um mestre na Babilônia".[4]
Conhecimentos científicos
Samuel parece ter possuído vasto conhecimento da medicina conforme praticada em seu tempo; isso é evidente pelas numerosas máximas médicas e regras dietéticas dispersas pelo Talmude. Opôs-se à concepção então corrente, mesmo em círculos cultos, de que a maioria das doenças provinha do mau-olhado, declarando que a origem de todas as enfermidades devia ser buscada na influência nociva do ar e do clima sobre o organismo humano. Atribuía muitas doenças à falta de higiene e outras a perturbações no modo regular de vida. Alegava possuir curas para a maioria das enfermidades e era particularmente hábil no tratamento dos olhos; descobriu um colírio conhecido como o "ḳillurin [κολλύριον] de Mar Samuel", embora afirmasse que lavar os olhos com água fria pela manhã e banhar mãos e pés com água morna à noite eram melhores do que todos os colírios do mundo. Samuel também identificou várias doenças dos animais. Às vezes desenhava a figura de um ramo de palmeira como sua assinatura, o que talvez fosse um sinal comum entre médicos da época.[5]
A partir das referências esparsas no Talmude, é impossível determinar com precisão o grau de conhecimento de Samuel em astronomia; contudo, sabia resolver muitos problemas matemáticos e explicar diversos fenômenos. Ele próprio dizia: "Embora eu esteja tão familiarizado com os cursos dos astros quanto com as ruas de Neardeia, não posso explicar a natureza nem o movimento dos cometas". Samuel dedicou-se especialmente ao ramo da astronomia aplicada que trata da ciência do calendário, que ensinou a seus colegas e discípulos. Seus estudos astronômicos sobre os movimentos da Lua permitiram-lhe prever o início do mês conforme determinado na Palestina, e ele afirmava poder eliminar a necessidade de celebrar dias festivos duplicados na Diáspora. Calculou também um calendário para sessenta anos, que enviou posteriormente a Joanã bar Napaca, como prova de seu saber. Era chamado Yarḥinaʾah (de yeraḥ, “mês”) por essa familiaridade com a ciência do calendário e por sua capacidade de determinar de modo independente o início do mês. Segundo Nacman Krochmal, “Xoquede", outro nome dado a Samuel, significaria "astrônomo"; mas a interpretação de David Hoffmann, segundo a qual "Xoquede" (no Talmude babilônico "Xacude") significa "o vigilante, o diligente", parece mais provável. Diz-se que esse nome lhe foi dado porque, apesar de seus estudos médicos e astronômicos, dedicou-se sobretudo ao estudo da Lei.[5]
Ensinamentos
Samuel desenvolveu e ampliou teorias jurídicas anteriores e formulou muitos novos princípios legais. Ele enunciou o importante princípio segundo o qual a lei do país em que os judeus vivem é obrigatória para eles (dina d'malkhuta dina). Esse princípio, reconhecido como válido do ponto de vista haláquico, fez da obediência às leis do país um dever religioso para os judeus. Assim, embora os judeus tivessem seus próprios tribunais civis, Samuel entendia que o direito persa devia ser levado em consideração e que diversas normas judaicas deveriam ser adaptadas a ele. Em razão de sua lealdade ao governo e de sua amizade com o xainxá Sapor I (r. 240–270), Samuel foi chamado "Rei Sapor" (Šabur Malka). Julius Fürst e Rapoport explicam, cada um de modo diverso, o nome Arioque, dado a Samuel, a partir de suas estreitas relações com os neopersas e com seu rei. Comentadores mais antigos explicam esse nome sem referência a tais relações.[2]
Como homem, Mar Samuel distinguia-se pela modéstia, brandura e abnegação, estando sempre disposto a subordinar seus interesses pessoais aos da comunidade. Dizia: "O homem jamais deve excluir-se da comunidade, mas deve buscar o seu bem no bem da sociedade". Exigia comportamento digno de todos, afirmando que qualquer conduta imprópria era punível por lei. Ensinava que se deve ajudar o próximo aos primeiros sinais de dificuldade iminente, a fim de preveni-la, e não esperar até que ele esteja em real aflição. Em sua solicitude pelos órfãos indefesos, impôs a todo tribunal a tarefa de agir como pai deles; declarou ainda que um empréstimo tomado de um órfão não era cancelado no ano sabático, mesmo que não tivesse sido lavrado um prosbul. Armazenava seu grão até que os preços subissem, para então vendê-lo aos pobres pelos preços baixos do tempo da colheita. Para evitar que o povo fosse explorado, ordenou aos comerciantes que nunca obtivessem lucro superior a um sexto do preço de custo, e estava disposto a modificar temporariamente a Lei para impedir que vendessem a preços elevados bens necessários ao cumprimento de um dever religioso. Em certo caso, também permitiu a infração de uma prescrição religiosa para evitar dano às pessoas.[5]
Samuel era modesto em suas relações com os outros, honrando abertamente qualquer pessoa da qual tivesse aprendido algo. Nunca insistia obstinadamente em sua própria opinião, mas cedia assim que se convencia de estar errado. Era afável com todos e declarava: "É proibido enganar qualquer pessoa, seja judia ou pagã". "Diante do trono do Criador não há diferença entre judeus e pagãos, pois entre estes também há muitos nobres e virtuosos". Ensinava que a dignidade humana deve ser respeitada mesmo no escravo: o escravo é dado ao senhor apenas como servo, e o senhor não tem o direito de tratá-lo com desprezo ou insultá-lo. Certa vez, quando uma escrava lhe fora tomada e ele a recuperou inesperadamente mediante resgate, sentiu-se obrigado a libertá-la, pois já havia perdido a esperança de recuperá-la.[5]
Seguindo o exemplo de seu mestre Levi ben Sissi, Samuel reuniu as tradições que lhe haviam sido transmitidas; sua coleção de baraitas, chamada no Talmude Tanna debe Shemu’el, era notável por sua correção e confiabilidade, embora não fosse tida em tão alta estima quanto as coleções de Hia e Hoxaia. Samuel contribuiu muito para elucidar a Mixná, tanto por meio de suas explicações textuais quanto por suas paráfrases precisas de expressões ambíguas e por suas remissões a outras tradições. Sua principal importância, contudo, reside na formulação de novas teorias e em suas decisões independentes, tanto no direito ritual quanto no direito civil. No campo do direito ritual, porém, ele não era considerado autoridade tão grande quanto seu colega Rabe, e as questões práticas eram sempre decididas segundo a opinião de Rabe contra a de Samuel . No direito civil, sua autoridade era a mais elevada na Babilônia, e suas decisões tornaram-se lei mesmo quando contrárias às de Rabe.[6]
Relação com a corte
Foi graças à influência de Samuel junto ao xainxá que os judeus receberam muitos privilégios. Em certa ocasião, Samuel chegou mesmo a subordinar seu amor por seu próprio povo à sua lealdade ao xainxá e à sua rigorosa concepção dos deveres do cidadão; pois, quando chegou a notícia de que os persas, ao capturarem Cesareia Mázaca, na Capadócia, haviam matado 12 mil judeus que lhes resistiram obstinadamente, Samuel se absteve de manifestar qualquer tristeza. Contudo, nutria grande amor por seu povo e preservava fielmente a memória do antigo Reino de Judá. Certa vez, quando um de seus contemporâneos se adornou com uma coroa de oliveira, Samuel lhe enviou a seguinte mensagem: "A cabeça de um judeu que hoje usa uma coroa enquanto Jerusalém jaz desolada merece ser separada de seu tronco". Samuel esperava que a restauração do Estado judaico na Palestina ocorresse de modo natural, mediante a permissão concedida pelos diversos governos para que os judeus retornassem à Palestina e ali estabelecessem um Estado independente.[2]
Referências
- ↑ a b c d Bacher & Lauterbach 1906a, p. 29.
- ↑ a b c d Bacher & Lauterbach 1906a, p. 31.
- ↑ Bacher & Lauterbach 1906b, p. 293.
- ↑ Bacher & Lauterbach 1906a, p. 29-30.
- ↑ a b c d Bacher & Lauterbach 1906a, p. 30.
- ↑ Bacher & Lauterbach 1906a, p. 30-31.
Bibliografia
- Bacher, Wilhelm; Lauterbach, Jacob Zallel (1906a). «Samuel Yarḥina'ah». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls
- Bacher, Wilhelm; Lauterbach, Jacob Zallel (1906b). «Rabbah b. Samuel». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls