Rabá (amora)

Abá bar José bar Hamá (em hebraico: אַבָּא בַּר יוֹסֵף בַּר חָמָא; romaniz.: Abba bar Yosef bar Ḥama; c. 280352), referido exclusivamente no Talmude pelo nome Rabá (em hebraico: רבא), foi um rabino babilônio pertencente à quarta geração dos amoraítas. É conhecido por seus debates com Abaié e é um dos rabinos mais frequentemente citados no Talmude.

Vida

Rabá nasceu por volta de 280 em Maoza (um subúrbio de Ctesifonte, a capital do Império Sassânida), onde seu pai era um erudito rico e distinto. Na juventude, Rabá foi para Sura, onde assistiu às aulas de Hisdá e conviveu com Rami bar Hamá. Cerca de dez anos após a morte de Rami, Rabá casou-se com a viúva dele, a filha de Hisdá. Rabá estudou na Academia talmúdica de Pumbedita. Seus mestres foram José bar Hia, Rabá bar Nacmani e, sobretudo, Nacmã bar Jacó, que vivia em Maoza. Seu principal companheiro de estudo foi Abaié, de idade aproximada à sua, e ambos desenvolveram o método dialético que Judá bar Ezequiel e seu mestre Rabá haviam estabelecido em suas discussões da tradição; seus debates tornaram-se conhecidos como as Havayot de-Abaye ve-Rabá.[1]

Rabá gozou do favor da rainha-mãe Ifra Hormisda, mãe do xainxá Sapor II (r. 309–379) e, por esse motivo, bem como em consideração às grandes somas que contribuía secretamente à corte, conseguiu atenuar as opressões de Sapor contra os judeus na Babilônia.[1] Mesmo assim, eventualmente foi preso sob uma acusação infundada.[2] Quando, após a morte de José bar Hia, Abaié foi escolhido chefe da Academia de Pumbedita, Rabá fundou uma escola própria em Maoza. Muitos alunos, preferindo as aulas de Rabá às de Abaié, seguiram Rabá para lá. Após a morte de Abaié, Rabá foi eleito chefe da escola, e a academia foi transferida de Pumbedita para Maoza, que, durante a vida dele, foi o único centro de estudos judaicos na Babilônia. Segundo Xerirá ben Haniná, Rabá morreu em 352.[1]

Ensinamentos

Rabá ocupou uma posição de destaque entre os transmissores da Halacá, tendo estabelecido numerosas novas decisões e pareceres, especialmente no direito ritual. Esforçou-se por difundir o conhecimento da Halacá por meio de exposições em aulas às quais o público tinha acesso, e muitas de suas decisões haláquicas declaram expressamente que foram extraídas desses discursos. Foi mestre da exegese haláquica, recorrendo a ela não raramente para demonstrar a autoridade bíblica subjacente às normas jurídicas. Adotou certos princípios hermenêuticos que eram em parte modificações de regras mais antigas e em parte de sua própria elaboração. Era considerado autoridade maior do que Abaié e, nos casos em que havia divergência de opinião entre ambos, Rabá era geralmente seguido; há apenas seis casos em que a decisão de Abaié foi preferida.[1]

Rabá foi tão eminente na Hagadá quanto na Halacá. Além das aulas dirigidas a seus discípulos, costumava proferir discursos públicos, a maioria de caráter hagádico, e muitas de suas interpretações da Hagadá são explicitamente ditas como tendo sido apresentadas em público. Ainda mais numerosas são as interpretações que, embora não se declare expressamente que tenham sido proferidas em público, parecem ter sido apresentadas diante de um auditório geral, pois não diferem das demais quanto à forma. A maior parte dessas exposições, que frequentemente contêm máximas e provérbios populares, refere-se aos primeiros livros dos Hagiógrafos — Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Wilhelm Bacher infere que as aulas hagádicas de Rabá eram ministradas em conexão com o serviço da tarde do sábado, no qual, segundo um costume observado em Neardeia e, mais tarde, provavelmente também em Maoza, eram lidas paraxás dos hagiógrafos. Rabá, portanto, acrescentava seu discurso hagádico à seção que havia sido lida.[3]

O estudo da Lei é um tema frequente na Hagadá de Rabá. No ajuste de contas no mundo vindouro, cada pessoa será obrigada a declarar se dedicou tempos determinados ao estudo e se perseguiu diligentemente o conhecimento da Lei, procurando deduzir o sentido de uma passagem a partir de outra. A Torá, em sua concepção, é um remédio: vivificante para os que a ela se dedicam com a intenção correta, mas um veneno mortal para os que não dela se valem devidamente. Rabá enfatiza com frequência o respeito devido aos mestres da Lei, os métodos adequados de estudo e as normas aplicáveis à instrução dos jovens. Em sua Hagadá, além disso, discute repetidamente personagens da história bíblica. Rabá foi iniciado secretamente, provavelmente por seu mestre José, no esoterismo hagádico; é autor de diversos aforismos tingidos de misticismo. Certa vez desejou lecionar na academia acerca do Tetragrama, mas um ancião o impediu, lembrando-o de que tal conhecimento deve ser mantido em segredo.[4]

Referências

Bibliografia

  • Jastrow Jr., Morris; Rogers, Robert W.; Gottheil, Richard; Krauss, Samuel (1906). «Babylon». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls