Ifra Hormisda
| Ifra Hormisda | |||||
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![]() Coroação de Sapor II na infância, segundo o Xanamé do Xá Tamaspe | |||||
| Dados pessoais | |||||
| Morte | século IV | ||||
| Cônjuge | Hormisda II | ||||
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| Dinastia | sassânida | ||||
| Religião | Judaísmo Cristianismo | ||||
Ifra Hormisda (em persa: ایفرا هرمز, Īfrā Hormoz) foi uma nobre do Império Sassânida, esposa de Hormisda II (r. 302–309) e mãe de Sapor II (r. 309–379).
Contexto
Após a morte do xainxá Hormisda II (r. 302–309), seu filho Adanarses (r. 309) o sucedeu, mas pouco depois foi deposto e morto pela nobreza.[1] Os nobres cegaram o segundo filho de Hormisda[2] e seu terceiro filho, cujo nome era Hormisda, foi preso. Hormisda escapou da prisão pouco depois e se refugiou no Império Romano.[3] Por essa razão, o trono recaiu sobre o filho não nascido de Hormisda II, o futuro Sapor II (r. 309–379).[4]
Vida

As origens de Ifra Hormisda são desconhecidas, bem como a data de seu nascimento. Seu nome é mencionado apenas em fontes judaicas. Ifra (’YPR’), segundo Theodor Nöldeke, tem etimologia obscura.[5] Mitra Mirbakhsh et al. sugeriram que possa derivar de Faraia Hormisda (Farāya-Ohrmazd), cujo significado é "aquela que ama Hormisda".[6] É possível que o nome Hormisda presente em seu nome seja uma referência a seu pai.[5] Segundo Magno de Carras, citado por João Malalas, o futuro rei se chamava Arsácio Sapor (Arsacius Sapor, possivelmente derivado de Šabuhr Aršak), o que pode sugerir que Ifra tivesse ancestralidade arsácida.[6] A Crônica de Sirte registra uma tradição segundo a qual o pai dela era judeu; que Simeão bar Sabae a teria convertido ao cristianismo; e que esse teria sido um dos motivos da perseguição contra Simeão e contra os cristãos do Império Sassânida.[7]
Ifra era mãe apenas de Sapor.[8] A tradição árabe afirma que ele foi coroado no ventre de sua mãe para assegurar a sucessão.[9] Essa história era conhecida por historiadores ocidentais como Agátias (século VI),[10] que escreve que os magos profetizaram que a criança seria um menino.[11] Os historiadores modernos C. E. Bosworth[12] e Alireza Shapour Shahbazi consideram essa história ficcional.[13] O sexo do bebê não poderia ter sido conhecido antes do nascimento, escreve Bosworth. A coroação do infante Sapor, após a eliminação de seus irmãos mais velhos, foi um meio para a nobreza e o clero obterem maior controle do império. Atabari afirma que os mesmos cortesãos, sacerdotes e funcionários que estavam no comando durante o reinado de seu pai continuaram a administrar o império de Sapor, o que implica que o Império Sassânida era seguro e estável o suficiente para sobreviver sem um monarca forte.[12] Eles mantiveram seu controle até 325, quando Sapor atingiu a maturidade aos dezesseis anos.[4][9]
Tradição talmúdica

A tradição talmúdica preserva algumas histórias, segundo as quais Ifra Hormisda teria concedido presentes a alguns rabinos proeminentes de seu tempo. Na primeira delas, enviou uma bolsa de dinares (referido como denários) a José bar Hia num contexto aparentemente ligado a uma questão jurídica; na segunda, menos credível, pois implicaria que a rainha tivesse conhecimento da situação dos judeus no Império Romano, pretendeu enviar 400 dinares a Ami, na Palestina, que foram depois enviados a Rabá dada sua reputação, o que irritou Ami; na terceira, um animal sacrificial, enviado a Rabá, visando o favor do céu; na quarta, sangue enviado a Rabá, para que ele o interpretasse; e na quinta, intercedeu por Rabá, a quem Sapor pretendia punir por ter açoitado um indivíduo por uma transgressão, causando a morte dele.[14] Essas histórias são incomuns, já que nenhuma história semelhante sobre épocas anteriores foi contada. Ademais, nenhuma delas desempenha algum papel para explicar uma questão legal, como esperado de textos presentes na Talmude [15]
As tradições sobre a rainha-mãe refletem a crença de que os rabinos possuíam poder sobrenatural, capaz de fazer chover e interpretar fenômenos naturais, o que justificaria os presentes em dinheiro e sacrifícios enviados a José e Rabá. Algumas histórias (terceira e quarta) indicam que a corte persa reconhecia a habilidade dos judeus como mágicos e médicos, embora detalhes como nomes de auxiliares e instruções não tenham relevância histórica concreta. No entanto, outros relatos (primeira, segunda e quinta histórias) têm baixo valor histórico: é improvável que ela tenha intercedido pessoalmente em questões judiciais ou discutido os talentos sobrenaturais dos rabinos. É mais plausível que erros judiciais tenham ocorrido e que o governo sassânida tenha intervindo, sem necessidade da participação dela. A ausência de evidência corroborativa impede confirmar que Ifra Hormisda esteve envolvida; o que se preserva é sobretudo a reputação de poder dos rabinos, que teria sido levada a sério na corte, sem que isso implique necessariamente uma amizade real ou envolvimento direto da rainha.[16]
Referências
- ↑ Tafazzoli 1983, p. 477.
- ↑ Atabari 1999, p. 50.
- ↑ Shahbazi 2004, p. 461–462.
- ↑ a b Daryaee 2014, p. 16.
- ↑ a b Neusner 1969, p. 36.
- ↑ a b Mirbakhsh, Hassani & Heravi 2021, p. 323.
- ↑ Neusner 1969, p. 36.
- ↑ Mirbakhsh, Hassani & Heravi 2021, p. 322.
- ↑ a b Daryaee 2009.
- ↑ Atabari 1999, p. 50, nota 144.
- ↑ Agátias 1975, p. 127–128 (IV.25).
- ↑ a b Atabari 1999, p. 50, nota 146.
- ↑ Shahbazi 2005.
- ↑ Neusner 1969, p. 35-36.
- ↑ Neusner 1969, p. 37-38.
- ↑ Neusner 1969, p. 38-39.
Bibliografia
- Agátias (1975). The Histories: Translated with an introduction and explanatory notes by Joseph D. Frendo. Berlim: de Gruyter. ISBN 978-3-11-003357-1
- Atabari (1999). Bosworth, C.E., ed. The History of al-Tabari Vol. V - The Sasanids, The Byzantines, the Lakhmids and Yemen. Nova Iorque: Imprensa da Universidade Estadual de Nova Iorque
- Daryaee, Touraj (2009). «Šāpur II». In: Touraj, Daryaee. Enciclopédia Irânica Online. Irvine: Universidade da Califórnia
- Daryaee, Touraj (2014). «The Last Ruling Woman of Iranshahr: Queen Azarmigduxt». Jornal Internacional da Sociedade de Arqueologia Iraiana [International Journal of the Society of Iranian Archaeology]. 1 (1)
- Mirbakhsh, Mitra; Hassani, Mirza Mohammad; Heravi, Javad (2021). «Vaz'iyat-e asl va nasab-e zanān-e Irāni dar bār sāsāni bar asās-e manābe'-e mosavvar va maktub-e tārikhī [وضعیت اصل و نسب زنان ایرانی دربار ساسانی بر اساس منابع مصور و مکتوب تاریخی]» [Status de origem e linhagem das mulheres iranianas na corte sassânida com base em fontes iconográficas e escritas históricas] (PDF). Majalle-ye Motāle‘āt-e Honar-e Eslāmī [مجله مطالعات هنر اسلامی]. 17 (40): 314–332
- Neusner, Jacob (1969). A History of the Jews in Babylonia, Part 4. The Age of Shapur II. Leida: Brill. ISBN 9789004021471
- Shahbazi, A. Shapur (2004). «Hormizd (2)». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica Vol. XII, Fasc. 5. Irvine: Universidade da Califórnia
- Shahbazi, A. Shapur (2005). «Sasanian dynasty». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica. Irvine: Universidade da Califórnia
- Tafazzoli, Ahmad (1983). «ĀDUR NARSEH». Enciclopédia Irânica Vol. I, Fasc. 5. Nova Iorque: Imprensa da Universidade de Colúmbia
