Ami bar Natã
Ami bar Natã (em hebraico: עמי בן נתן; romaniz.: ʿAmmi b. Nathan) foi um amora da 3.ª geração, ativo na segunda metade do século III e no começo do IV.
Vida
Primeiros anos
Ami bar Natã tem origens incertas, salvo que descendia de uma família sacerdotal. Tinha uma amizade duradoura com Assi bar Natã, que pode ter sido seu irmão dada a semelhança de seus nomes. Assi era nativo da Babilônia, o que indica que Ami também era. Na juventude, Ami frequentou a escola em Cesareia Mázaca, na Capadócia, que era dirigida por Hoxaiá Rabá, e posteriormente foi para Tiberíades, tornando-se discípulo de Joanã bar Napaca, ao cuja morte observou voluntariamente o período ritual de luto prescrito apenas para a morte de parentes mais próximos. Quando ouviu que seu contemporâneo babilônico, Nacmã bar Jacó, havia se expressado desrespeitosamente sobre uma opinião equivocada de Joanã, exclamou indignado: "Será que Nacmã pensa que, por ser genro do exilarca, pode falar depreciativamente das opiniões de Joanã?". Tiberíades tornou-se o centro de um grande círculo de amigos eruditos, entre os quais estavam Abau, Hanina bar Papi, Isaque e Samuel ben Nacmã; mas a amizade mais próxima e duradoura existia entre Ami, Hia bar Abá e Assi bar Natã.[1]
Ida à Palestina
Embora Ami tivesse chegado à Palestina muito antes de Assi, ambos foram ordenados ao mesmo tempo e receberam uma calorosa recepção dos estudantes, que cantaram: "Tais homens, tais homens ordenam para nós! Não ordenem para nós aqueles que usam palavras como 'sermis' e 'sermit', ou 'hemis' e 'tremis'", aludindo à linguagem simples usada por esses rabinos, em contraste com a mistura de termos estrangeiros empregados por outros mestres. Esses dois, juntamente com Hia, constituíam um tribunal de justiça. Por uma certa ofensa, haviam aplicado uma sentença severa a uma mulher chamada Tamar, que então apresentou queixa contra eles perante o governo proconsular por interferirem nos tribunais romanos. Temendo as consequências da denúncia, solicitaram que Abau intercedesse em favor deles junto ao governo; mas ele antecipou o pedido, e nada mais se soube do caso. Entre seus contemporâneos babilônicos, Ami e Assi eram conhecidos como "os juízes palestinos" ou "os sacerdotes distintos da Palestina". Por outro lado, quando Ami citava uma doutrina de Rabe ou de Samuel, introduzia com a expressão: "Nossos mestres na Babilônia dizem".[1]
Academia de Tiberíades
Eventualmente, Ami sucedeu à reitoria da escola em Tiberíades, mas isso não o impediu de atender às suas funções judiciais junto com Assi. Diz-se que interrompiam seus estudos a cada hora e, batendo na porta da escola, anunciavam sua disponibilidade para ouvir causas se necessário. Faziam suas orações no prédio da escola, preferindo para isso os espaços entre os pilares às treze sinagogas da cidade. Além dessas funções, eles, juntamente com Hia, atuavam como inspetores e, quando necessário, organizavam escolas para crianças e adultos. Uma das instruções de Ami aos mestres era acomodar estudiosos itinerantes nas salas de aula. Além da familiaridade com Halacá e Hagadá, Ami e Assi possuíam algum conhecimento das ciências da época. Prescreviam remédios em casos de doença e estudavam os hábitos dos animais. Embora valorizassem o estudo da Lei, prezavam ainda mais as ações piedosas. Por isso, eles e Hia não hesitavam em se ausentar da escola e perder uma aula de Eleazar ben Azarias quando o enterro de um estranho exigia sua atenção; e quando uma quantia considerável foi apresentada à escola, Ami a tomou em nome dos pobres, entre os quais foi posteriormente distribuída.[1]
Certa vez, Ami, acompanhado de Samuel bar Nacmã, realizou uma viagem à corte da rainha Zenóbia (r. 267–273), em Palmira, para interceder por Zeir ben Hinena, que havia sido preso por suas ordens. Zenóbia recusou libertá-lo, comentando: "Vosso Deus está acostumado a operar milagres para vocês", quando um sarraceno, portando uma espada, entrou e relatou: "Com esta espada, Bar Nazar matou seu irmão"; o incidente salvou Zeir b. Ḥinena. Em outra ocasião, ele estava pronto para resgatar um homem que havia se vendido repetidamente aos Jogos. Argumentou que, embora a Mixná isentasse um judeu do dever de resgatar um homem que repetidamente se vendia a não israelitas, ainda assim era seu dever resgatar as crianças (para salvá-las do paganismo); tanto maior era essa obrigação em caso de morte violenta iminente. Entretanto, os colegas de Ami o convenceram de que o solicitante de sua proteção era totalmente indigno de compaixão, e ele finalmente se recusou a interceder.[1]
Exegeta
Ami e Assi são muito frequentemente citados tanto nos dois Talmudes quanto nos midraxes, e muitas vezes juntos, seja por concordarem em determinada opinião, seja por se oporem um ao outro. Devido a essa circunstância, as mesmas doutrinas são às vezes atribuídas a um e às vezes ao outro. Essa mesma incerteza se manifesta mesmo quando o relator provavelmente recebeu a tradição diretamente de um deles.[2] A respeito de Lamentações 3:41, "Levantemos os nossos corações com as mãos a Deus que está nos céus", ele observou: "A oração de ninguém é ouvida do céu, a menos que ele carregue a sua alma nas mãos que levanta em oração." Sobre a chuva, disse: "A oração por chuva é concedida apenas por causa dos homens de fé." Em apoio a essa observação, Ami, por meio de uma substituição exegetical de palavras hebraicas sinônimas, citou o versículo (Salmos 85:11), "Da terra brota a verdade, E a justiça olha lá do céu". Na designação de Israel por Moisés como "um povo de pescoço duro" (Êxodo 34:9), Ami viu não tanto uma censura, mas um elogio à sua firmeza na religião, mesmo diante da perseguição: "O judeu ou viveria como judeu ou morreria na cruz". Segundo Ami, a morte é consequência do pecado, e o sofrimento, a punição pelo mal; a primeira observação ele deriva da palavra das Escrituras (Ezequiel 18:4), "A alma que pecar, essa morrerá"; a segunda de Salmos 89:33, "Então com a vara punirei as suas transgressões, E com açoites a sua iniquidade".[3]
Referências
- ↑ a b c d Mendelsohn 1906, p. 522.
- ↑ Mendelsohn 1906, p. 522-523.
- ↑ Mendelsohn 1906, p. 523.
Bibliografia
- Mendelsohn, S (1906). «Ammi, Aimi, or Immi». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls