Variedade algébrica
Uma variedade algébrica é o conjunto de zeros de uma família de polinômios, e constitui o objeto principal de estudo da geometria algébrica. Pelo conceito de variedade algébrica é possível constituir uma relação entre a álgebra e a geometria, que permite se reformular problemas geométricos em termos algébricos, e vice-versa. Tal relação é baseada principalmente no fato que um polinômio complexo em uma variável é completamente determinado em seus zeros: o teorema dos zeros de Hilbert permite de fato estabelecer-se uma correspondência entre variedade algébrica e ideal de anéis de polinômios.
Visão geral e definições
Uma variedade afim sobre um corpo algebricamente fechado é conceitualmente o tipo mais fácil de variedade de se definir, o que será feito nesta seção. Em seguida, pode-se definir variedades projetivas e quase-projetivas de maneira semelhante. A definição mais geral de uma variedade é obtida juntando-se variedades quase-projetivas menores. Não é óbvio que se possa construir exemplos genuinamente novos de variedades desta maneira, mas Nagata deu um exemplo de uma dessas novas variedades na década de 1950.
Variedades afins
Para um corpo algebricamente fechado K e um número natural n, seja An um espaço afim n-dimensional sobre K, identificado a Kn através da escolha de um sistema de coordenadas afim. Os polinômios f no anel K[x1, ..., xn] podem ser vistos como funções com valores em K sobre An avaliando f nos pontos em An, ou seja, escolhendo valores em K para cada xi. Para cada conjunto S de polinômios em K[x1, ..., xn], define-se o lugar geométrico dos zeros Z(S) como sendo o conjunto de pontos em An nos quais as funções em S se anulam simultaneamente, isto é:
Um subconjunto V de An é chamado de conjunto algébrico afim se V = Z(S) para algum S.[1] Um conjunto algébrico afim não vazio V é chamado de irredutível se não puder ser escrito como a união de dois subconjuntos algébricos próprios.[1] Um conjunto algébrico afim irredutível também é chamado de variedade afim.[1] (Alguns autores usam a expressão variedade afim para se referir a qualquer conjunto algébrico afim, seja ele irredutível ou não.[nota 1])
Pode-se dar às variedades afins uma topologia natural declarando que os conjuntos fechados são precisamente os conjuntos algébricos afins. Esta topologia é chamada de topologia de Zariski.[1]
Dado um subconjunto V de An, definimos I(V) como sendo o ideal de todas as funções polinomiais que se anulam em V:
Para qualquer conjunto algébrico afim V, o anel de coordenadas ou anel de estrutura de V é o quociente do anel de polinômios por esse ideal.[1]
Variedades projetivas e variedades quase-projetivas
Seja k um corpo algebricamente fechado e seja Pn o espaço projetivo n-dimensional sobre k. Seja f em k[x0, ..., xn] um polinômio homogêneo de grau d. Não é bem definido avaliar f em pontos de Pn em coordenadas homogêneas. No entanto, como f é homogêneo, significando que f(λx0, ..., λxn) = λdf(x0, ..., xn), faz sentido perguntar se f se anula em um ponto [x0 : ... : xn]. Para cada conjunto S de polinômios homogêneos, define-se o lugar geométrico dos zeros de S como sendo o conjunto de pontos em Pn nos quais as funções em S se anulam:
Um subconjunto V de Pn é chamado de conjunto algébrico projetivo se V = Z(S) para algum S.[2] Um conjunto algébrico projetivo irredutível é chamado de variedade projetiva.[3]
As variedades projetivas também são equipadas com a topologia de Zariski declarando-se que todos os conjuntos algébricos são fechados.
Dado um subconjunto V de Pn, seja I(V) o ideal gerado por todos os polinômios homogêneos que se anulam em V. Para qualquer conjunto algébrico projetivo V, o anel de coordenadas de V é o quociente do anel de polinômios por esse ideal.[3]
Uma variedade quase-projetiva é um subconjunto aberto de Zariski de uma variedade projetiva. Observe que toda variedade afim é quase-projetiva usando a carta x0 = 0.[4] Observe também que o complemento de um conjunto algébrico numa variedade afim é uma variedade quase-projetiva; no contexto das variedades afins, tal variedade quase-projetiva normalmente não é chamada de variedade, mas sim de conjunto construtível.
Variedades abstratas
Na geometria algébrica clássica, todas as variedades eram, por definição, variedades quase-projetivas, o que significa que elas eram subvariedades abertas de subvariedades fechadas de um espaço projetivo. Por exemplo, no Capítulo 1 do livro Algebraic Geometry de Hartshorne, uma variedade sobre um corpo algebricamente fechado é definida como sendo uma variedade quase-projetiva,[5] mas do Capítulo 2 em diante, o termo variedade (também chamada de variedade abstrata) refere-se a um objeto mais geral, que localmente é uma variedade quase-projetiva, mas quando visto como um todo não é necessariamente quase-projetivo; ou seja, pode não ter um mergulho em um espaço projetivo.[6] Então, classicamente, a definição de uma variedade algébrica exigia um mergulho no espaço projetivo, e esse mergulho era usado para definir a topologia na variedade e as funções regulares na variedade. A desvantagem de tal definição é que nem todas as variedades vêm com mergulhos naturais no espaço projetivo. Por exemplo, sob esta definição, o produto P1 × P1 não é uma variedade até que seja mergulhado em um espaço projetivo maior; isto geralmente é feito pelo mergulho de Segre. Além disso, qualquer variedade que admita um mergulho no espaço projetivo admite muitos outros, por exemplo, compondo o mergulho com o mergulho de Veronese; assim, muitas noções que deveriam ser intrínsecas, como a de uma função regular, não o são de forma óbvia.
A primeira tentativa bem-sucedida de definir uma variedade algébrica de forma abstrata, sem um mergulho, foi feita por André Weil em sua obra Foundations of Algebraic Geometry, usando valorizações. Claude Chevalley elaborou a definição de um esquema, que serviu a um propósito semelhante, mas era mais geral. No entanto, a definição de esquema de Alexander Grothendieck é ainda mais geral e recebeu a aceitação mais ampla. Na linguagem de Grothendieck, uma variedade algébrica abstrata é geralmente definida como um esquema integral, separado e de tipo finito sobre um corpo algebricamente fechado,[7] embora alguns autores abandonem a condição de irredutibilidade, a de ser reduzido ou a condição de separação, ou permitam que o corpo subjacente não seja algebricamente fechado.[8] As variedades algébricas clássicas são os esquemas quase-projetivos integrais separados de tipo finito sobre um corpo algebricamente fechado.
Existência de variedades algébricas abstratas não quase-projetivas
Um dos primeiros exemplos de uma variedade algébrica não quase-projetiva foi dado por Nagata.[9] O exemplo de Nagata não era completo (o análogo da compacidade), mas logo depois ele encontrou uma superfície algébrica que era completa e não projetiva.[10][11] Desde então, outros exemplos foram encontrados: por exemplo, é direto construir variedades tóricas que não são quase-projetivas, mas completas.[12]
Variedades afins
Dado o corpo algebricamente fechado e um espaço afim de dimensão sobre os polinômios do anel são funções a valores em definidas sobre
Tomada uma família de polinômios o conjunto dos pontos de pelos quais as funções de são todas nulas:
é dito conjunto algébrico afim. Se não pode ser escrito como união própria de dois conjuntos algébricos semelhantes, é dita variedade afim.
Propriedades
- Sobre as variedades afins é possível definir uma topologia natural definindo como conjuntos fechados todos os conjuntos algébricos (topologia de Zariski).
- Dado é o ideal formato de todas as funções que se anulam sobre
- Se define anel da coordenadas de o anel quociente O grau de transcendência do campo das frações de sobre é dito dimensão de
- Um conjunto algébrico afim é uma variedade se e somente se é um ideal primo, ou se e somente se o anel das coordenadas de é um domínio de integridade.
- Todo conjunto algébrico afim pode ser escrito de maneira única como união de variedades algébricas.
Exemplos
Subvariedade
Uma subvariedade é um subconjunto de uma variedade que é em si uma variedade (com respeito à estrutura topológica induzida pela variedade ambiente). Por exemplo, todo subconjunto aberto de uma variedade é uma variedade. Veja também imersão fechada.
O Nullstellensatz de Hilbert diz que as subvariedades fechadas de uma variedade afim ou projetiva estão em correspondência biunívoca com os ideais primos ou ideais primos homogêneos não irrelevantes do anel de coordenadas da variedade.
Variedade afim
Exemplo 1
Seja k = C, e A2 seja o espaço afim bidimensional sobre C. Polinômios no anel C[x, y] podem ser vistos como funções de valores complexos em A2 avaliando-os nos pontos em A2. Seja um subconjunto S de C[x, y] contendo um único elemento f(x, y):
O lugar geométrico dos zeros de f(x, y) é o conjunto de pontos em A2 nos quais esta função se anula: é o conjunto de todos os pares de números complexos (x, y) tais que y = 1 − x. Isso é chamado de reta no plano afim. (Na topologia clássica proveniente da topologia sobre os números complexos, uma reta complexa é uma variedade real de dimensão dois). Este é o conjunto Z(f):
Assim, o subconjunto V = Z(f) de A2 é um conjunto algébrico. O conjunto V não é vazio. Ele é irredutível, pois não pode ser escrito como a união de dois subconjuntos algébricos próprios. Portanto, é uma variedade algébrica afim.
Exemplo 2
Seja k = C, e A2 seja o espaço afim bidimensional sobre C. Polinômios no anel C[x, y] podem ser vistos como funções de valores complexos em A2 avaliando-os nos pontos em A2. Seja um subconjunto S de C[x, y] contendo um único elemento g(x, y):
O lugar geométrico dos zeros de g(x, y) é o conjunto de pontos em A2 nos quais esta função se anula, ou seja, o conjunto de pontos (x, y) tais que x2 + y2 = 1. Como g(x, y) é um polinômio absolutamente irredutível, esta é uma variedade algébrica. O conjunto de seus pontos reais (isto é, os pontos para os quais x e y são números reais) é conhecido como círculo unitário; esse nome também é frequentemente dado a toda a variedade.
Exemplo 3
O exemplo a seguir não é uma hipersuperfície, nem um espaço linear, nem um único ponto. Seja A3 o espaço afim tridimensional sobre C. O conjunto de pontos (x, x2, x3) para x em C é uma variedade algébrica e, mais precisamente, uma curva algébrica que não está contida em nenhum plano.[nota 2] É a cúbica torcida mostrada na figura acima. Ela pode ser definida pelas equações
A irredutibilidade deste conjunto algébrico precisa de uma demonstração. Uma abordagem neste caso é verificar se a projeção (x, y, z) ↦ (x, y) é injetiva no conjunto das soluções e se a sua imagem é uma curva plana irredutível.
Para exemplos mais difíceis, uma prova semelhante sempre pode ser dada, mas pode implicar um cálculo difícil: primeiro, o cálculo de uma base de Gröbner para calcular a dimensão, seguido por uma mudança linear aleatória de variáveis (nem sempre necessária); depois, o cálculo de uma base de Gröbner para outra ordem monomial a fim de calcular a projeção e provar que ela é genericamente injetiva e que a sua imagem é uma hipersuperfície, e finalmente uma fatoração polinomial para provar a irredutibilidade da imagem.
Grupo linear geral
O conjunto de matrizes n por n sobre o corpo base k pode ser identificado com o espaço afim de dimensão n2, An2, com coordenadas xij de tal forma que xij(A) é a entrada (i, j) da matriz A. O determinante de det é então um polinômio em xij e, portanto, define a hipersuperfície H = V(det) em An2. O complemento de H é, portanto, um subconjunto aberto de An2 que consiste em todas as matrizes n por n invertíveis, o grupo linear geral GLn(k). É uma variedade afim, pois, em geral, o complemento de uma hipersuperfície numa variedade afim é afim. Explicitamente, considere An2 × A1, onde a reta afim recebe a coordenada t. Então GLn(k) equivale ao lugar geométrico dos zeros em An2 × A1 do polinômio em xij, t:
ou seja, o conjunto de matrizes A tais que t det(A) = 1 tem uma solução. Isso é melhor visto algebricamente: o anel de coordenadas de GLn(k) é a localização k[xij | 0 ≤ i, j ≤ n][det−1], que pode ser identificada com k[xij, t | 0 ≤ i, j ≤ n]/(t det − 1).
O grupo multiplicativo k× do corpo base k é o mesmo que GL1(k) e, portanto, é uma variedade afim. Um produto finito dele (k×)r é um toro algébrico, que é novamente uma variedade afim.
Um grupo linear geral é um exemplo de um grupo algébrico linear, uma variedade afim que possui a estrutura de um grupo de tal forma que as operações do grupo são morfismos de variedades.
Variedade característica
Seja A uma álgebra não necessariamente comutativa sobre um corpo k. Mesmo que A não seja comutativa, ainda pode acontecer que A tenha uma Z-filtração de modo que o anel associado seja comutativo, reduzido e finitamente gerado como uma álgebra sobre k; isto é, gr A é o anel de coordenadas de uma variedade (redutível) afim X. Por exemplo, se A é a álgebra envolvente universal de uma álgebra de Lie de dimensão finita , então gr A é um anel de polinômios (pelo teorema PBW); mais precisamente, o anel de coordenadas do espaço vetorial dual .
Seja M um módulo filtrado sobre A (isto é, Ai Mj ⊂ Mi+j). Se gr M for finitamente gerado como uma gr A-álgebra, então o suporte de gr M em X; ou seja, o lugar geométrico onde gr M não se anula é chamado de variedade característica de M.[13] A noção desempenha um papel importante na teoria dos D-módulos.
Variedade projetiva
Uma variedade projetiva é uma subvariedade fechada de um espaço projetivo. Ou seja, é o lugar geométrico dos zeros de um conjunto de polinômios homogêneos que geram um ideal primo.
Exemplo 1

Uma curva projetiva plana é o lugar geométrico dos zeros de um polinômio homogêneo irredutível em três indeterminadas. A reta projetiva P1 é um exemplo de curva projetiva; ela pode ser vista como a curva no plano projetivo P2 = {[x, y, z]} definida por x = 0. Como outro exemplo, considere primeiro a curva cúbica afim
no espaço afim de dimensão 2 (sobre um corpo de característica diferente de dois). Ela tem a equação polinomial homogênea cúbica associada:
que define uma curva em P2 chamada de curva elíptica. A curva tem gênero um (fórmula do gênero); em particular, não é isomorfa à reta projetiva P1, que tem gênero zero. O uso do gênero para distinguir curvas é muito básico: na verdade, o gênero é o primeiro invariante usado para classificar curvas (veja também a construção do espaço de moduli de curvas algébricas).
Exemplo 2: Grassmanniana
Seja V um espaço vetorial de dimensão finita. A variedade de Grassmann (ou grassmanniana) Gn(V) é o conjunto de todos os subespaços de dimensão n de V. É uma variedade projetiva: ela é mergulhada em um espaço projetivo por meio do mergulho de Plücker:
onde bi é qualquer conjunto de vetores linearmente independentes em V, é a n-ésima potência exterior de V, e os colchetes [w] significam a reta gerada pelo vetor não nulo w.
A variedade de Grassmann vem acompanhada de um fibrado vetorial natural (ou feixe localmente livre em outra terminologia) chamado de fibrado tautológico, que é importante no estudo de classes características como as classes de Chern.
Variedade jacobiana e variedade abeliana
Seja C uma curva completa suave e Pic(C) o seu grupo de Picard; ou seja, o grupo de classes de isomorfismo de fibrados de linhas sobre C. Uma vez que C é suave, Pic(C) pode ser identificado como o grupo de classes de divisores de C e, portanto, existe o homomorfismo de grau deg : Pic(C) → Z. A variedade jacobiana Jac(C) de C é o núcleo deste mapa de grau; isto é, o grupo de classes de divisores em C de grau zero. Uma variedade jacobiana é um exemplo de uma variedade abeliana, uma variedade completa com uma estrutura de grupo abeliano compatível nela (o nome "abeliana", entretanto, não se deve ao fato de ser um grupo abeliano). Verifica-se que uma variedade abeliana é projetiva (em suma, funções teta algébricas fornecem um mergulho em um espaço projetivo. Veja Equações definindo variedades abelianas); portanto, Jac(C) é uma variedade projetiva. O espaço tangente a Jac(C) no elemento neutro é naturalmente isomorfo a [14] consequentemente, a dimensão de Jac(C) é o gênero de C.
Fixe um ponto P0 em C. Para cada inteiro n > 0, há um morfismo natural[15]
onde Cn é o produto de n cópias de C. Para g = 1 (isto é, C é uma curva elíptica), verifica-se que o morfismo acima para n = 1 é um isomorfismo;[16] em particular, uma curva elíptica é uma variedade abeliana.
Variedades de moduli
Dado um número inteiro g ≥ 0, o conjunto de classes de isomorfismo de curvas completas suaves de gênero g é chamado de espaço de moduli de curvas de gênero e é denotado por . Existem algumas maneiras de mostrar que este espaço de moduli possui a estrutura de uma variedade algébrica possivelmente redutível; por exemplo, uma maneira é usar a teoria dos invariantes geométricos, que garante que um conjunto de classes de isomorfismo tenha uma estrutura de variedade quase-projetiva (redutível).[17] Moduli como o espaço de moduli de curvas de gênero fixo tipicamente não são uma variedade projetiva; aproximadamente a razão é que uma degeneração (limite) de uma curva suave tende a ser não suave ou redutível. Isso leva à noção de uma curva estável de gênero g ≥ 2, uma curva completa não necessariamente suave sem singularidades terrivelmente ruins e um grupo de automorfismos não tão grande. O espaço de moduli de curvas estáveis , o conjunto de classes de isomorfismo de curvas estáveis de gênero g ≥ 2, é então uma variedade projetiva que contém como um subconjunto denso aberto. Visto que é obtido adicionando pontos de fronteira a , diz-se coloquialmente que é uma compactificação de . Historicamente, um artigo de Mumford e Deligne[18] introduziu a noção de uma curva estável para mostrar que é irredutível quando g ≥ 2.
O espaço de moduli de curvas exemplifica uma situação típica: um espaço de moduli de objetos bem comportados tende a não ser projetivo, mas apenas quase-projetivo. Outro caso é o espaço de moduli de fibrados vetoriais em uma curva. Aqui, existem as noções de fibrados vetoriais estáveis e semi-estáveis sobre uma curva completa suave C. O espaço de moduli de fibrados vetoriais semi-estáveis de um dado posto n e de um dado grau d (grau do determinante do fibrado) é então uma variedade projetiva denotada como , a qual contém o conjunto de classes de isomorfismo de fibrados vetoriais estáveis de posto n e grau d como um subconjunto aberto.[19] Como um fibrado de linhas é estável, tal espaço de moduli é uma generalização da variedade jacobiana de C.
Em geral, ao contrário do caso do espaço de moduli de curvas, a compactificação de um espaço de moduli não precisa ser única e, em alguns casos, diferentes compactificações não equivalentes são construídas utilizando diferentes métodos e por diferentes autores. Um exemplo sobre C é o problema de compactificar D / Γ, o quociente de um domínio simétrico limitado D por uma ação de um grupo discreto aritmético Γ.[20] Um exemplo básico de é quando , o semiespaço superior de Siegel e Γ é comensurável com Sp(2g, Z); nesse caso, D / Γ tem uma interpretação como o espaço de moduli de variedades abelianas complexas principalmente polarizadas de dimensão g (uma polarização principal identifica uma variedade abeliana com o seu dual). A teoria das variedades tóricas (ou mergulhos de toros) fornece uma maneira de compactificar D / Γ, sendo uma compactificação toroidal dela.[21][22] Porém, existem outras formas de compactificar D / Γ; por exemplo, existe a compactificação mínima de D / Γ devida a Baily e Borel: é a variedade projetiva associada ao anel graduado formado por formas modulares (no caso de Siegel, formas modulares de Siegel;[23] veja também variedade modular de Siegel). A não unicidade das compactificações se deve à falta de interpretações em termos de moduli daquelas compactificações; isto é, elas não representam (no sentido da teoria das categorias) nenhum problema de moduli natural ou, em linguagem mais precisa, não há nenhuma pilha de moduli (moduli stack) natural que seria um análogo à pilha de moduli de curvas estáveis.
Exemplo não afim e não projetivo
Uma variedade algébrica pode não ser nem afim nem projetiva. Para dar um exemplo, seja X = P1 × A1 e p : X → A1 a projeção. Aqui X é uma variedade algébrica, já que é um produto de variedades. Não é afim porque P1 é uma subvariedade fechada de X (como o lugar geométrico dos zeros de p), mas uma variedade afim não pode conter uma variedade projetiva de dimensão positiva como uma subvariedade fechada. Tampouco é projetiva, já que há uma função regular não constante sobre X; a saber, p.
Outro exemplo de uma variedade não afim e não projetiva é X = A2 − (0, 0) (veja a seção Morfismos de variedades: Exemplos).
Não exemplos
Considere a reta afim A1 sobre C. O complemento do círculo { z ∈ C : |z|2 = 1 } em A1 = C não é uma variedade algébrica (nem mesmo um conjunto algébrico). Observe que |z|2 − 1 não é um polinômio em z (embora seja um polinômio nas coordenadas reais x, y). Por outro lado, o complemento da origem em A1 = C é uma variedade (afim) algébrica, uma vez que a origem é o lugar geométrico dos zeros de z. Isso pode ser explicado da seguinte maneira: a reta afim tem dimensão um e, portanto, qualquer subvariedade dela diferente de si mesma deve ter dimensão estritamente menor; isto é, zero.
Por motivos semelhantes, um grupo unitário (sobre os números complexos) não é uma variedade algébrica, enquanto o grupo linear especial SLn(C) é uma subvariedade fechada de GLn(C), o lugar geométrico dos zeros de det − 1. (Sobre um corpo de base diferente, entretanto, um grupo unitário pode receber a estrutura de uma variedade).
Resultados básicos
- Um conjunto algébrico afim é uma variedade se e somente se for um ideal primo; equivalentemente, é uma variedade se e somente se o seu anel de coordenadas for um domínio de integridade.[24][25]
- Todo conjunto algébrico afim não vazio pode ser escrito de forma única como uma união finita de variedades algébricas (onde nenhuma das variedades na decomposição é uma subvariedade de qualquer outra).[26]
- A dimensão de uma variedade pode ser definida de várias maneiras equivalentes. Veja Dimensão de uma variedade algébrica para mais detalhes.
- Um produto de um número finito de variedades algébricas (sobre um corpo algebricamente fechado) é uma variedade algébrica. Um produto finito de variedades afins é afim[27] e um produto finito de variedades projetivas é projetivo.
Isomorfismo de variedades algébricas
Sejam e variedades algébricas. Dizemos que e são isomorfas, e escrevemos , se existirem aplicações regulares (ou mapas regulares) e tais que as composições e sejam as aplicações identidade em e , respectivamente.
Discussão e generalizações
As definições e fatos básicos acima permitem que se faça a geometria algébrica clássica. Para poder fazer mais — por exemplo, para lidar com variedades sobre corpos que não são algebricamente fechados — algumas mudanças fundamentais são necessárias. A noção moderna de uma variedade é consideravelmente mais abstrata do que a descrita acima, embora equivalente no caso de variedades sobre corpos algebricamente fechados. Uma variedade algébrica abstrata é um tipo particular de esquema; a generalização para esquemas do lado geométrico permite uma extensão da correspondência descrita acima para uma classe mais ampla de anéis. Um esquema é um espaço localmente anelado tal que cada ponto possui uma vizinhança que, como um espaço localmente anelado, é isomorfa ao espectro de um anel. Basicamente, uma variedade sobre é um esquema cujo feixe estrutural é um feixe de -álgebras com a propriedade de que os anéis que ocorrem acima são todos domínios de integridade e são todos -álgebras finitamente geradas, ou seja, são quocientes de álgebras de polinômios por ideais primos.
Esta definição funciona sobre qualquer corpo . Ela permite colar variedades afins (ao longo de conjuntos abertos comuns) sem se preocupar se o objeto resultante pode ser colocado em algum espaço projetivo. Isto também leva a dificuldades, uma vez que se pode introduzir objetos um tanto patológicos, por exemplo, uma reta afim com a origem dobrada (reta com dois zeros). Tais objetos geralmente não são considerados variedades e são eliminados exigindo-se que os esquemas subjacentes a uma variedade sejam separados. (A rigor, há também uma terceira condição, a saber, que se precisa apenas de um número finito de remendos afins na definição acima).
Alguns pesquisadores modernos também removem a restrição de que uma variedade tenha cartas afins que sejam domínios de integridade, e ao falar de uma variedade exigem apenas que as cartas afins tenham nilradical trivial.
Uma variedade completa é uma variedade tal que qualquer mapa (ou aplicação) de um subconjunto aberto de uma curva algébrica não singular nela pode ser estendido de forma única para toda a curva. Toda variedade projetiva é completa, mas o inverso não é verdadeiro.
Essas variedades têm sido chamadas de "variedades no sentido de Serre", já que o artigo fundamental de Serre, FAC,[28] sobre coomologia de feixes foi escrito para elas. Elas continuam sendo objetos típicos para se começar a estudar em geometria algébrica, mesmo que objetos mais gerais também sejam usados de forma auxiliar.
Um caminho que leva a generalizações é permitir conjuntos algébricos redutíveis (e corpos que não sejam algebricamente fechados), de modo que os anéis podem não ser domínios de integridade. Uma modificação mais significativa é permitir elementos nilpotentes no feixe de anéis, ou seja, anéis que não são reduzidos. Esta é uma das várias generalizações da geometria algébrica clássica que estão incorporadas na teoria dos esquemas de Grothendieck.
Permitir elementos nilpotentes em anéis está relacionado a rastrear "multiplicidades" na geometria algébrica. Por exemplo, o subesquema fechado da reta afim definido por é diferente do subesquema definido por (a origem). Mais genericamente, a fibra de um morfismo de esquemas em um ponto de pode ser não reduzida, mesmo se e forem reduzidos. Geometricamente, isso diz que as fibras de bons mapeamentos podem ter uma estrutura "infinitesimal" não trivial.
Existem generalizações adicionais chamadas espaços algébricos e pilhas algébricas (stacks).
Manifolds algébricas
uma manifold algébrica (ou variedade algébrica lisa) é uma variedade algébrica que também é uma variedade (manifold). Sendo assim, as manifolds algébricas são uma generalização do conceito de curvas e superfícies suaves definidas por polinômios. Um exemplo é a esfera, que pode ser definida como o conjunto de zeros do polinômio , e portanto é uma variedade algébrica.
Para uma manifold algébrica, o corpo base será o dos números reais ou números complexos; no caso dos números reais, a variedade de pontos reais é por vezes chamada de variedade de Nash.
Toda vizinhança local suficientemente pequena de uma manifold algébrica é isomorfa a , onde é o corpo base. Equivalentemente, a variedade é suave (livre de pontos singulares). A esfera de Riemann é um exemplo de uma manifold algébrica complexa, uma vez que é a reta projetiva complexa.
Notas
Referências
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- ↑ Hartshorne, Robin (1977). Algebraic Geometry. [S.l.]: Springer-Verlag. p. 9. ISBN 0-387-90244-9
- 1 2 Hartshorne, Robin (1977). Algebraic Geometry. [S.l.]: Springer-Verlag. p. 10. ISBN 0-387-90244-9
- ↑ Hartshorne, Exercício I.2.9, p. 12
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