Variedade abeliana

Na matemática, particularmente na geometria algébrica, análise complexa e teoria algébrica dos números, uma variedade abeliana é uma variedade algébrica projetiva suave que é também um grupo algébrico, ou seja, possui uma lei de grupo que pode ser definida por funções regulares. As variedades abelianas estão, ao mesmo tempo, entre os objetos mais estudados na geometria algébrica e são ferramentas indispensáveis para a pesquisa em outros tópicos da geometria algébrica e teoria dos números.

Uma variedade abeliana pode ser definida por equações que tenham coeficientes em qualquer corpo; diz-se então que a variedade está definida sobre esse corpo. Historicamente, as primeiras variedades abelianas a serem estudadas foram as definidas sobre o corpo dos números complexos. Constata-se que tais variedades abelianas são exatamente os toros complexos que podem ser mergulhados holomorficamente num espaço projetivo complexo.

As variedades abelianas definidas sobre corpos de números algébricos constituem um caso especial, que é importante também do ponto de vista da teoria dos números. Técnicas de localização conduzem naturalmente de variedades abelianas definidas sobre corpos de números a variedades definidas sobre corpos finitos e vários corpos locais. Uma vez que um corpo de números é o corpo de frações de um Domínio de Dedekind, para qualquer primo não nulo do seu domínio de Dedekind, existe um mapeamento do domínio de Dedekind para o quociente do domínio de Dedekind pelo primo, que é um corpo finito para todos os primos finitos. Isto induz um mapeamento do corpo de frações para qualquer um desses corpos finitos. Dada uma curva com equação definida sobre o corpo de números, podemos aplicar este mapa aos coeficientes para obter uma curva definida sobre algum corpo finito, onde as escolhas de corpo finito correspondem aos primos finitos do corpo de números.

As variedades abelianas aparecem naturalmente como variedades jacobianas (as componentes conexas do zero em variedades de Picard) e variedades de Albanese de outras variedades algébricas. A lei de grupo de uma variedade abeliana é necessariamente comutativa e a variedade é não singular.

Uma curva elíptica é uma variedade abeliana de dimensão 1. As variedades abelianas têm dimensão de Kodaira 0.

Teoria analítica

Definição

Um toro complexo de dimensão é um toro de dimensão real que possui a estrutura de uma variedade complexa. Ele pode ser sempre obtido como o quociente de um espaço vetorial complexo de dimensão por um reticulado de posto . Uma variedade abeliana complexa de dimensão é um toro complexo de dimensão que é também uma variedade algébrica projetiva sobre o corpo dos números complexos. Ao invocar o teorema de mergulho de Kodaira e o teorema de Chow, pode-se definir de forma equivalente uma variedade abeliana complexa de dimensão como um toro complexo de dimensão que admite um fibrado em retas positivo. Como são toros complexos, as variedades abelianas possuem a estrutura de um grupo. Um morfismo de variedades abelianas é um morfismo das variedades algébricas subjacentes que preserva o elemento neutro para a estrutura de grupo. Uma isogenia é um morfismo finito-para-um.

Quando um toro complexo possui a estrutura de uma variedade algébrica, esta estrutura é necessariamente única. No caso em que , a noção de variedade abeliana é a mesma que a de curva elíptica, e todo o toro complexo dá origem a uma tal curva; para , sabe-se desde Riemann que a condição de variedade algébrica impõe restrições adicionais sobre um toro complexo.

Condições de Riemann

O seguinte critério de Riemann decide se um dado toro complexo é ou não uma variedade abeliana, ou seja, se pode ou não ser mergulhado de forma holomorfa num espaço projetivo. Seja um toro de dimensão dado por , onde é um espaço vetorial complexo de dimensão e é um reticulado em . Então é uma variedade abeliana se e somente se existe uma forma hermitiana definida positiva em cuja parte imaginária assume valores inteiros em . Tal forma em é usualmente chamada de forma de Riemann (não degenerada). Escolhendo uma base para e , pode-se tornar esta condição mais explícita. Existem várias formulações equivalentes para isto; todas elas são conhecidas como as condições de Riemann.

A jacobiana de uma curva algébrica

Toda a curva algébrica de gênero está associada a uma variedade abeliana de dimensão , por meio de um mapa analítico de em . Como um toro, possui uma estrutura de grupo comutativo, e a imagem de gera como um grupo. Mais precisamente, é coberta por :[1] qualquer ponto em provém de uma -upla de pontos em . O estudo das formas diferenciais em , que dão origem às integrais abelianas com as quais a teoria começou, pode ser derivado da teoria mais simples, invariante por translação, de diferenciais em . A variedade abeliana é chamada de variedade jacobiana de , para qualquer curva não singular sobre os números complexos. Do ponto de vista da geometria birracional, o seu corpo de funções é o corpo fixo do grupo simétrico em letras atuando no corpo de funções de .

Funções abelianas

Uma função abeliana é uma função meromorfa numa variedade abeliana, a qual pode ser considerada, portanto, como uma função periódica de variáveis complexas, tendo períodos independentes; equivalentemente, é uma função no corpo de funções de uma variedade abeliana. Por exemplo, no século XIX houve muito interesse em integrais hiperelípticas que pudessem ser expressas em termos de integrais elípticas. Isto resume-se em exigir que seja um produto de curvas elípticas, a menos de uma isogenia.

Teoremas importantes

Um teorema de estrutura importante das variedades abelianas é o teorema de Matsusaka. Ele afirma que, sobre um corpo algebricamente fechado, toda variedade abeliana é o quociente da jacobiana de alguma curva; isto é, existe alguma sobrejeção de variedades abelianas onde é uma jacobiana. Este teorema permanece verdadeiro se o corpo base for infinito.[2]

Definição algébrica

Duas definições equivalentes de variedade abeliana sobre um corpo geral são comumente usadas:

Quando a base é o corpo dos números complexos, estas noções coincidem com a definição anterior. Sobre todas as bases, as curvas elípticas são variedades abelianas de dimensão 1.

No início da década de 1940, Weil usou a primeira definição (sobre um corpo base arbitrário), mas a princípio não conseguiu provar que ela implicava a segunda. Apenas em 1948 ele provou que grupos algébricos completos podem ser mergulhados no espaço projetivo. Enquanto isso, para fazer funcionar a demonstração da hipótese de Riemann para curvas sobre corpos finitos que ele havia anunciado em 1940, ele teve que introduzir a noção de uma variedade abstrata e reescrever os fundamentos da geometria algébrica para trabalhar com variedades sem mergulhos projetivos (veja também a seção de história no artigo Geometria algébrica).

Estrutura do grupo de pontos

Pelas definições, uma variedade abeliana é uma variedade de grupo. Pode-se provar que o seu grupo de pontos é comutativo.

Para o corpo e, consequentemente, pelo princípio de Lefschetz para todo o corpo algebricamente fechado de característica zero, o grupo de torção de uma variedade abeliana de dimensão é isomorfo a . Consequentemente, a sua parte de -torção é isomorfa a , isto é, o produto de cópias do grupo cíclico de ordem .

Quando o corpo base é um corpo algebricamente fechado de característica , a -torção continua a ser isomorfa a quando e são coprimos. Quando e não são coprimos, o mesmo resultado pode ser recuperado desde que se interprete como dizendo que a -torção define um esquema de grupo plano e finito (finite flat group scheme) de posto . Se, em vez de se olhar para a estrutura de esquema completa na -torção, se considerarem apenas os pontos geométricos, obtém-se um novo invariante para variedades em característica (o chamado -posto quando ).

O grupo de pontos -racionais para um corpo global é finitamente gerado pelo Teorema de Mordell-Weil. Deste modo, pelo teorema de estrutura para grupos abelianos finitamente gerados, ele é isomorfo a um produto de um grupo abeliano livre e um grupo comutativo finito para algum número inteiro não negativo chamado de posto da variedade abeliana. Resultados semelhantes são válidos para algumas outras classes de corpos .

Produtos

O produto de uma variedade abeliana de dimensão e uma variedade abeliana de dimensão , sobre o mesmo corpo, é uma variedade abeliana de dimensão . Uma variedade abeliana é simples se não for isógena a um produto de variedades abelianas de dimensão inferior. Qualquer variedade abeliana é isógena a um produto de variedades abelianas simples.

Polarização e variedade abeliana dual

Variedade abeliana dual

A uma variedade abeliana sobre um corpo , associa-se uma variedade abeliana dual (sobre o mesmo corpo), que é a solução para o seguinte problema de moduli. Uma família de fibrados em retas de grau 0 parametrizada por uma -variedade é definida como um fibrado em retas em tal que

  1. para todo o em , a restrição de a seja um fibrado em retas de grau 0,
  2. a restrição de a seja um fibrado em retas trivial (aqui 0 é a identidade de ).

Então, existe uma variedade e uma família de fibrados em retas de grau 0 , o fibrado de Poincaré, parametrizada por de tal modo que a uma família em está associado um único morfismo de forma que seja isomorfo ao pullback de ao longo do morfismo . Aplicando isto ao caso em que é um ponto, vemos que os pontos de correspondem aos fibrados em retas de grau 0 em , de modo que existe uma operação de grupo natural em dada pelo produto tensorial de fibrados em retas, o que a converte numa variedade abeliana.

Esta associação é uma dualidade no sentido em que é contravariantemente funtorial, ou seja, associa a todos os morfismos morfismos duais de forma compatível, e existe um isomorfismo natural entre a dupla dual e (definido por meio do fibrado de Poincaré).

A -torção de uma variedade abeliana e a -torção da sua dual são duais uma da outra quando é coprimo em relação à característica da base. Em geral — para todo o — os esquemas de grupo de -torção de variedades abelianas duais são duais de Cartier uns dos outros. Isto generaliza o emparelhamento de Weil para curvas elípticas.

Polarizações

Uma polarização de uma variedade abeliana é uma isogenia de uma variedade abeliana para a sua dual que é simétrica em relação à dupla-dualidade para variedades abelianas e para a qual o pullback do fibrado de Poincaré ao longo do morfismo de grafo associado é amplo (portanto, é análogo a uma forma quadrática definida positiva). Variedades abelianas polarizadas possuem grupos de automorfismos finitos. Uma polarização principal é uma polarização que é um isomorfismo. As jacobianas de curvas são naturalmente equipadas com uma polarização principal assim que se escolhe um ponto base racional arbitrário na curva, e a curva pode ser reconstruída a partir da sua jacobiana polarizada quando o género for . Nem todas as variedades abelianas principalmente polarizadas são jacobianas de curvas; veja o problema de Schottky. Uma polarização induz uma involução de Rosati no anel de endomorfismos de .

Polarizações sobre os números complexos

Sobre os números complexos, uma variedade abeliana polarizada pode ser definida como uma variedade abeliana juntamente com uma escolha de uma forma de Riemann . Duas formas de Riemann e são chamadas de equivalentes se existirem inteiros positivos e tais que . A escolha de uma classe de equivalência de formas de Riemann em é chamada de polarização de ; sobre os números complexos isto é equivalente à definição de polarização dada acima. Um morfismo de variedades abelianas polarizadas é um morfismo de variedades abelianas tal que o pullback da forma de Riemann em para é equivalente à forma dada em .

Esquema abeliano

Também é possível definir variedades abelianas no contexto da teoria de esquemas e relativamente a uma base. Isto permite um tratamento uniforme de fenómenos como a redução módulo de variedades abelianas (veja Aritmética de variedades abelianas), e famílias parametrizadas de variedades abelianas. Um esquema abeliano sobre um esquema base de dimensão relativa é um esquema de grupo próprio e suave sobre cujas fibras geométricas são conexas e de dimensão .

As fibras de um esquema abeliano são variedades abelianas, pelo que se pode pensar num esquema abeliano sobre como sendo uma família de variedades abelianas parametrizada por .

Para um esquema abeliano , o grupo de pontos de -torção forma um esquema de grupo plano e finito. A união dos pontos de -torção, para todo o , forma um grupo p-divisível. As deformações de esquemas abelianos são, de acordo com o Teorema de Serre-Tate, governadas pelas propriedades de deformação dos grupos -divisíveis associados.

Exemplo

Sejam tais que não tem raízes complexas repetidas. Então o discriminante é não nulo. Seja , logo é um subesquema aberto de . Então é um esquema abeliano sobre . Ele pode ser estendido para um modelo de Néron sobre , que é um esquema de grupo suave sobre , mas o modelo de Néron não é próprio e, consequentemente, não é um esquema abeliano sobre .

Não-existência

ru[3] e Jean-Marc Fontaine[4] provaram independentemente que não existem variedades abelianas não nulas sobre com boa redução em todos os primos. Equivalentemente, não existem esquemas abelianos não nulos sobre . A prova envolve mostrar que as coordenadas dos pontos de -torção geram corpos de números com muito pouca ramificação e, portanto, de pequeno discriminante, enquanto que, por outro lado, existem limites inferiores para os discriminantes de corpos de números.[5]

Variedade semiabeliana

Uma variedade semiabeliana é uma variedade de grupo comutativo que é uma extensão de uma variedade abeliana por um toro.[6]

Ver também

Referências

  1. Bruin, N. «N-Covers of Hyperelliptic Curves» (PDF). Math Department Oxford University. Consultado em 14 January 2015 Verifique data em: |acessodata= (ajuda) J é coberta por :
  2. Milne, J.S., Jacobian varieties, em Arithmetic Geometry, eds Cornell e Silverman, Springer-Verlag, 1986
  3. Abrashkin, V. A. (1985). «Group schemes of period p over the ring of Witt vectors». Dokl. Akad. Nauk SSSR. 283 (6): 1289–1294. MR 0802862. Zbl 0593.14029
  4. Fontaine, Jean-Marc (1985). «Il n'y a pas de variété abélienne sur ». Inventiones Mathematicae. 81 (3): 515–538. Bibcode:1985InMat..81..515F. MR 0807070. Zbl 0612.14043. doi:10.1007/BF01388584
  5. «There is no Abelian scheme over Z» (PDF). Cópia arquivada (PDF) em 23 Aug 2020 Verifique data em: |arquivodata= (ajuda)
  6. Krämer, Thomas (4 de novembro de 2014). «Perverse sheaves on semiabelian varieties». Rendiconti del Seminario Matematico della Università di Padova. 132: 83–102. ISSN 0041-8994. arXiv:1309.4726Acessível livremente. doi:10.4171/RSMUP/132-7