Polyozellus

Polyozellus
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Fungi
Filo: Basidiomycota
Classe: Agaricomycetes
Ordem: Thelephorales
Família: Thelephoraceae
Género: Polyozellus
Murrill 1910
Espécie-tipo
Polyozellus multiplex
(Underw.) Murrill
Espécies
28 espécies, ver texto
Polyozellus
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Características micológicas
Himênio pregueado
Píleo é infundibuliforme
Lamela não distinguível
Estipe é nua
A cor do esporo é branco
A relação ecológica é micorrízica
Comestibilidade: comestível

Polyozellus é um gênero de fungos da família Thelephoraceae. Foi considerado um gênero monotípico até 2017, mas agora contém o complexo de espécies Polyozellus multiplex. O nome do gênero deriva do grego poly, que significa "muitos", e oz, que significa "ramo".[1] Os basidiomas são espatulados ou em forma de funil, com a parte inferior pregueada. A cor é variável, podendo ir do marrom ao azul, roxo ou preto, dependendo da espécie e do estágio de maturidade.

Polyozellus possui uma história taxonômica variada e foi reclassificado várias vezes tanto no nível de família quanto de gênero. A distribuição de Polyozellus abrange principalmente a América do Norte e o leste da Ásia, onde cresce no solo de florestas temperadas de coníferas, geralmente sob árvores de espruces e abetos. Contém espécies comestíveis e tem sido colhido para fins comerciais.

Taxonomia

A primeira descrição publicada da espécie Polyozellus multiplex foi escrita pelo botânico Lucien M. Underwood em 1899, com base em um espécime encontrado no ano anterior nas florestas de Mount Desert [en], Maine. Embora tenha chamado a nova espécie de Cantharellus, observou que "a planta é notável e, por seu hábito, poderia bem formar um gênero distinto, pois tem pouco em comum com Cantharellus exceto suas lamelas semelhantes a pregas".[2] Em 1910, William Murrill transferiu a espécie para o novo gênero Polyozellus; Murrill considerou a estrutura composta do estipe uma característica suficientemente única para justificá-la separada das espécies de Cantharellus, que possuem estruturas de estipe mais simples.[3] Em 1920, espécimes de uma coleção japonesa compilada por A. Yasuda foram enviados ao micologista Curtis Gates Lloyd, que acreditou que o fungo era uma nova espécie e nomeou-o Phyllocarbon yasudai.[4]

Um fungo marrom-claro composto por um aglomerado de vários segmentos rugosos em forma de funil fundidos em uma base comum, crescendo no solo da floresta.
Polyozellus multiplex já foi considerada uma forma de crescimento extrema de Gomphus clavatus, mostrada na foto.

Nenhuma outra coleção do fungo foi relatada até 1937, quando foi encontrado em Quebec, Canadá.[5] No ano seguinte, Paul Shope considerou o gênero Polyozellus supérfluo, apontando que os basidiomas compostos e o himênio pregueado eram consistentes, na verdade, com o gênero Craterellus.[6] Em 1939, o micologista americano Lee Oras Overholts, em uma carta ao periódico Mycologia, opinou que ambos os autores haviam ignorado uma publicação de 1925 de Calvin Henry Kauffman, que fez anotações e fotos da espécie coletada nas Montanhas Rochosas de Wyoming e Colorado, e na Cordilheira das Cascatas de Washington e Oregon, Estados Unidos.[7] Kauffman acreditava que a espécie era meramente "uma condição de crescimento muito extrema" de Cantharellus clavatus (agora conhecido como Gomphus clavatus) e sugeriu que não havia motivo para transferi-la para o gênero Craterellus.[8] Os micologistas Alexander H. Smith e Elizabeth Eaton Morse, em uma publicação de 1947 sobre espécies de Cantharellus nos Estados Unidos, colocaram a espécie em uma nova seção Polyozellus, mas não a separaram do gênero Cantharellus; definiram as características distintivas de Polyozellus como os esporos pequenos, rugosos e hialinos e a mudança de cor da carne em solução de hidróxido de potássio, acrescentando que "os esporos são incomuns para o gênero, mas, em nossa opinião, não justificam a exclusão da espécie".[9]

Um espécime encontrado na Ilha Moresby, Haida Gwaii
Polyozellus multiplexHaida Gwaii, Colúmbia Britânica

Em 1953, Rokuya Imazeki considerou diferenças nas características dos esporos: espécies do gênero Cantharellus não eram conhecidas por terem esporos subglobosos (aproximadamente esféricos) e tuberculados (cobertos por projeções semelhantes a verrugas) como na seção Polyozellus; no entanto, essas características de esporos eram comuns em espécies da família Thelephoraceae (Cantharellus pertence a uma família diferente, a Cantharellaceae). Outras características que ligavam Polyozellus multiplex à Thelephoraceae incluíam a cor escura, o odor forte (especialmente em espécimes secos) e a presença de ácido telefórico, um pigmento fúngico comum na família. Juntos, esses fatores levaram Imazeki a propor a nova família Phylacteriaceae.[10] A mudança taxonômica sugerida no nível de família não foi aceita por outros autores; por exemplo, em 1954, Seiichi Kawamura renomeou-a Thelephora multiplex,[11] devolvendo-a à família Thelephoraceae, um agrupamento de cogumelos comumente conhecidos em inglês e espanhol, respectivamente, como "leathery earthfans" e "hongos ventiladores de tierra" (fungos ventiladores da terra).[12]

Em 2017, pesquisadores da Europa Oriental e da América do Norte colaboraram em um estudo sobre filogenia molecular do até então monotípico Polyozellus multiplex. Eles determinaram que Polyozellus continha cinco espécies distinguíveis pelo tamanho dos esporos e pela região geográfica: as de esporos pequenos P. multiplex e P. atrolazulinus e as de esporos grandes P. mariae, P. marymargaretae e P. purpureoniger.[13]

Em 2021, Svantesson e colaboradores estudaram a relação filogenética entre Polyozellus e Pseudotomentella, dois gêneros de fungos ectomicorrízicos da ordem Thelephorales intimamente relacionados; sendo o primeiro estipitado e o segundo corticioide. Ambos são comuns no Hemisfério Norte e muitas espécies de ambos os gêneros estão restritas a florestas primárias. A pesquisa revelou que Polyozellus torna Pseudotomentella parafilético. Como resultado, quase todas as espécies antes colocadas em Pseudotomentella foram recombinadas para Polyozellus (exceto Pseudotomentella larsenii, que precisa de mais estudos).[14]

Um artigo publicado em 2025 tratou 106 táxons distribuídos em 3 filos, 11 classes, 35 ordens e 64 famílias, e descreveu Polyozellus albus como uma nova espécie descoberta na Suécia.[15]

Descrição

As espécies do gênero apresentam basidioma espatulado ou em forma de funil, com a parte inferior pregueada.[13] A cor é variável, podendo ir do marrom ao azul, roxo ou preto, dependendo da espécie e do estágio de maturidade. Os píleos dos espécimes jovens são felpudos ou hirsutos na parte superior, mas tornam-se lisos com a idade; o himênio tem uma aparência consistentemente opaca. A consistência é macia e quebradiça. Microscopicamente, todas as espécies de Polyozellus são semelhantes e compartilham as características de esporos hialinos, inamilóides, cobertos por lóbulos ou nódulos irregulares e hifas com fíbulas.[14]

Espécies

Em outubro de 2025, os bancos de dados Index Fungorum e Mycobank listam 28 espécies no gênero.[16][17]

  • Polyozellus abundilobus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2020
  • Polyozellus albus Svant. 2025
  • Polyozellus alnophilus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus alobatus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus atrofuscus (M.J. Larsen) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus atrolazulinus S.A. Trudell & Kõljalg 2018
  • Polyozellus badjelanndanus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus flavovirens (Höhn. & Litsch.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus griseopergamaceus (M.J. Larsen) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus humicola (M.J. Larsen) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus mariae Voitk & Kõljalg 2018
  • Polyozellus marymargaretae Beug & I. Saar 2018
  • Polyozellus medius (Svant. & Kõljalg) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus mucidulus (P. Karst.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus multiplex (Underw.) Murrill 1910
  • Polyozellus niger (Höhn. & Litsch.) Kõljalg & Svant. 2024
  • Polyozellus pinophilus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus plurilobus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus purpureoniger Spirin & I. Saar 2018
  • Polyozellus rhizopunctatus (E.C. Martini & Hentic) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus rotundisporus (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021 Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus sciastrus (Svant. & Kõljalg) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus sorjusensis (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus tristis (P. Karst.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus tristoides (Svant. & K.H. Larss.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus umbrinascens (Svant.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus umbrinus (Fr.) Svant. & Kõljalg 2021
  • Polyozellus vepallidosporus (M.J. Larsen) Svant. & Kõljalg 2021

Habitat e distribuição

Polyozellus cresce em associação ectomicorrízica com coníferas como [[ Picea|espruce]] (exemplo à esquerda) e abeto (à direita).

Polyozellus cresce em florestas de coníferas sob espruce e abeto,[18] e mais frequentemente em elevações mais altas.[19] É mais comumente encontrado no verão e no outono.[20]

Este gênero tem distribuição setentrional e alpina e é raramente encontrado. Coletas foram feitas nos Estados Unidos (incluindo Maine, Oregon, Colorado, Novo México e Alasca), Canadá (Quebec e Colúmbia Britânica),[5][9][21][20] China,[22] Japão, Coreia[23] e Suécia.[15] A distribuição disjunta do gênero na América do Norte e no leste da Ásia ocorre também em várias outras espécies de fungos.[24] No Noroeste do Pacífico americano, o gênero é encontrado em setembro e outubro.[25] Também é encontrado no arquipélago Haida Gwaii (na costa norte do Pacífico do Canadá), onde é colhido comercialmente.[26]

Referências

  1. Siegel, Noah; Schwarz, Christian (September 1, 2024). Mushrooms of Cascadia: A Comprehensive Guide to Fungi of the Pacific Northwest. Humboldt County, CA: Backcountry Press. p. 45. ISBN 9781941624197.
  2. Underwood LM. (1899). «A new Cantharellus from Maine». Bulletin of the Torrey Botanical Club. 26 (5): 254–5. JSTOR 2477751. doi:10.2307/2477751 
  3. Murrill WA. (1910). «Chanterel». North American Flora. 9: 167–71 
  4. Lloyd CG. (1921). «Botanical notes». Mycological Writings. 6: 1066 
  5. a b Mounce I, Jackson HA (1937). «Two Canadian collections of Cantharellus multiplex». Mycologia. 29 (3): 286–8. JSTOR 3754283. doi:10.2307/3754283 
  6. Shope PF. (1938). «Further notes on Cantharellus multiplex». Mycologia. 30 (4): 372–74. JSTOR 3754462. doi:10.2307/3754462 
  7. Kauffman C. (1925). «The fungus flora of Mt Hood, with some new species». Papers of the Michigan Academy of Science, Arts and Letters. 5: 115–48 
  8. Overholts LM. (1939). «Cantharellus multiplex again». Mycologia. 31 (2): 231–233. JSTOR 3754572. doi:10.2307/3754572 
  9. a b Smith AH, Morse EE (1947). «The genus Cantharellus in the Western United States». Mycologia. 39 (5): 497–534. ISSN 0027-5514. JSTOR 3755192. PMID 20264537. doi:10.2307/3755192 
  10. Sawada M. (1952). «Studies on pigment in fungi (I). On the distribution of thelephoric acid in fungi». Journal of the Japanese Forestry Society. 34: 110–13 
  11. Kawamura S. (1954). Icones of Japanese Fungi. 6. Tokyo: Kazama-Shobo. p. 638 
  12. Pilz D, Norvell L, Danell E, Molina R (2003). Ecology and management of commercially harvested chanterelle mushrooms. General Technical Report PNW-GTR-576. Portland, OR: Department of Agriculture, Forest Service, Pacific Northwest Research Station. Consultado em 31 de outubro de 2025 
  13. a b Voitk, Andrus; Saar, Irja; Trudell, Steven; Spirin, Viacheslav; Beug, Michael; Kõljalg, Urmas (2 de novembro de 2017). «Polyozellus multiplex (Thelephorales) is a species complex containing four new species». Mycologia (em inglês). 109 (6): 975–992. ISSN 0027-5514. PMID 29494282. doi:10.1080/00275514.2017.1416246 
  14. a b Svantesson, S.; Kõljalg, U.; Wurzbacher, C.; Saar, I.; Larsson, K.-H.; Larsson, E. (2021). «Polyozellus vs. Pseudotomentella: generic delimitation with a multi-gene dataset». Fungal Systematics and Evolution (em inglês). ISSN 2589-3823. PMC 8687065Acessível livremente. PMID 35005578. doi:10.3114/fuse.2021.08.11. Consultado em 29 de outubro de 2025 
  15. a b Dong, Wei; Hyde, Kevin D.; Jeewon, Rajesh; Karunarathna, Samantha C.; Zhang, Huang; Rossi, Walter; Leonardi, Marco; Kezo, Kezhocuyi; Kaliyaperumal, Malarvizhi (29 de setembro de 2025). «Fungal diversity notes 2017–2122: taxonomic and phylogenetic contributions to freshwater fungi and other fungal taxa». Fungal Diversity (em inglês). ISSN 1878-9129. doi:10.1007/s13225-025-00560-3. Consultado em 29 de outubro de 2025 
  16. «Polyozellus Murrill - Index Fungorum». www.indexfungorum.org. Consultado em 29 de outubro de 2025 
  17. «Polyozellus Murrill, 1910». MycoBank. Consultado em 29 de outubro de 2025 
  18. Bessette A, Fischer DH (1992). Edible Wild Mushrooms of North America: A Field-to-Kitchen Guide. Austin, Texas: University of Texas Press. p. 31. ISBN 978-0-292-72080-0 
  19. Ammirati JF, McKenny M, Stuntz DE (1987). The New Savory Wild Mushroom. Seattle, Washington: University of Washington Press. p. 31. ISBN 978-0-295-96480-5 
  20. a b Bigelow HE. (1978). «The cantharelloid fungi of New England and adjacent areas». Mycologia. 70 (4): 707–56. ISSN 0027-5514. JSTOR 3759354. doi:10.2307/3759354 
  21. Arora D. (1986). Mushrooms Demystified: a Comprehensive Guide to the Fleshy Fungi. Berkeley, California: Ten Speed Press. p. 668. ISBN 978-0-89815-169-5 
  22. Lee IS, Nishikawa A (2003). «Polyozellus multiplex, a Korean wild mushroom, as a potent chemopreventive agent against stomach cancer». Life Sciences. 73 (25): 3225–34. PMID 14561527. doi:10.1016/j.lfs.2003.06.006 
  23. Imazeki R. (1953). «Polyozellus multiplex and the family Phylacteriaceae». Mycologia. 45 (4): 555–61. JSTOR 4547729. doi:10.1080/00275514.1953.12024295 
  24. Yang ZL. (2005). «Diversity and Biogeography of Higher Fungi in China». In: Xu J. Evolutionary Generics of Fungi. Norfolk, UK: Horizon Bioscience. pp. 35–61. ISBN 978-1-904933-15-1 
  25. «Seasonal Chart for Edible Mushrooms». Central Oregon Mushroom Club. 12 de março de 2024. Consultado em 31 de outubro de 2025. Arquivado do original em 31 de março de 2024 
  26. Kroeger P, Ceska O, Roberts C, Kendrick B (2007). «Macrofungi of Haida Gwaii». E-Flora BC. Consultado em 31 de outubro de 2025