Arquitetura fatímida

Interior da Grande Mesquita de Mahdiya (originalmente construída no início do século X; reconstruída principalmente no século XX)
Mesquita de Aqmar, Cairo (início do século XII)

A arquitetura fatímida que se desenvolveu no Califado Fatímida (909–1167 CE) do Norte da África combinou elementos da arquitetura oriental e ocidental, com base na arquitetura abássida, bizantina, egípcia antiga, arquitetura copta e tradições norte-africanas; uniu os primeiros estilos islâmicos e a arquitetura medieval dos mamelucos do Egito, introduzindo muitas inovações.

A riqueza da arquitetura fatímida foi descoberta nas principais cidades de Mádia (921–948), Mançoria (948–973) e Cairo (973–1169). O centro da atividade e expressão arquitetónica durante o governo fatímida foi em al-Qahira (Cairo), na zona oriental do Nilo, onde muitos dos palácios, mesquitas e outros edifícios foram construídos.[1]Foram realizadas construções em grande escala durante os reinados de Almuiz (r. 953–975) Alaziz Bilá (r. 975–996) e Aláqueme (r. 996–1021). [2]

Os califas fatímidas competiram com os governantes dos impérios Abássida e Bizantino e se entregaram à construção de palácios luxuosos. Os seus palácios, e as suas maiores realizações arquitetónicas, são porém conhecidos apenas por descrições escritas Vários túmulos, mesquitas, portões e muros remanescentes, principalmente no Cairo, retêm elementos originais, embora tenham sido extensivamente modificados ou reconstruídos em períodos posteriores. Exemplos notáveis da arquitetura fatímida existentes incluem a Grande Mesquita de Mádia e as Mesquita de Alazar, Aláqueme, Alacmar, Juiuxi e Lulua, no Cairo.

Embora fortemente influenciados pela arquitetura da Mesopotâmia e de Bizâncio, os fatímidas introduziram ou desenvolveram características únicas, como o arco tudor e a trompa de ângulo, ligando volumes internos quadrados à cúpula. As suas mesquitas seguiam a planta hipostilo, onde um pátio central era rodeado por arcadas com os seus telhados geralmente suportados por arcos de quilha (variante do arco tudor), inicialmente assentes em colunas com frondosos capitéis de ordem coríntia. Normalmente tinham características como portais que se projetavam da parede, cúpulas acima de mirabes e quiblas, e ornamentação de fachada com inscrições iconográficas e decorações de estuque. A madeira das portas e dos interiores dos edifícios era frequentemente finamente esculpida. Os fatímidas também fizeram um desenvolvimento considerável no sentido da construção de mausoléus. A mashhad, um santuário que homenageia um descendente do profeta islâmico Maomé, era um tipo característico da arquitetura fatímida. Sobreviveram três portais da era fatímida no Cairo, Bab al-Nasr (1087), Bab al-Futuh (1087) e Bab Zuweila (1092), construídas sob as ordens do vizir Badre Aljamali (c. 1074-1094). Embora tenham sido alteradas ao longo dos séculos, apresentam características arquitetónicas bizantinas, com poucos vestígios da tradição islâmica oriental.

Muitas das características e técnicas da arquitetura fatímida continuaram a ser utilizadas na arquitetura dos seus sucessores, os Aiúbidas,[3] e, deforma mais intensiva, na arquitetura do Cairo posteriormente.[4] Recentemente, surgiu um estilo "neofatímida",[5] utilizado em restaurações ou em mesquitas xiitas modernas pela Dawoodi Bohra,[6] que reivindica continuidade da arquitetura fatímida original.[7]

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Antecedentes históricos

Origens

Fases do controle territorial fatímida

O Califado Fatímida teve origem num movimento Xiita Ismaelita lançado em Salamia, na extremidade ocidental do Deserto Sírio, por Abedalá Alacbar, um suposto descendente de oitava geração do profeta Islâmico Maomé, através da filha de Maomé, Fátima. Em 899, o seu neto, que viria a ser conhecido por Abedalá Almadi Bilá, tornou-se líder do movimento. Fugiu dos seus inimigos para Segelmeça em Marrocos, sob o disfarce de comerciante.[8] Foi apoiado por um militante chamado Abu Abedalá Axii, que organizou uma revolta berbere que derrubou o Emirado Aglábida da Ifríquia e, em seguida, convidou Almadi a assumir a posição de imã e califa. O império cresceu de modo a incluir a Sicília e a estender-se pelo Norte de África, desde o Atlântico até à Líbia.[9] Os califas fatímidas construíram três capitais, que ocuparam por ordem sequencial: Mádia (921–948) e Mançoria (948–973) em Ifríquia]] e Cairo (973–1169) no Egito.

Ifríquia

Mádia era uma cidade amuralhada situada numa península que se projetava para o Mediterrâneo a partir da costa do que é hoje a Tunísia, então parte de Ifríquia.[a][10] O porto cartaginesa de Zela já tinha ocupado o local. Mádia foi fundada em 913 por Abedalá Almadi Bilá, o primeiro imã-califa fatímida. Al-Mahdi construiu a Grande Mesquita de Mádia, a mais antiga mesquita fatímida, na nova cidade.[10] Os outros edifícios erguidos nas proximidades naquela época desapareceram desde então, mas o monumental portão de acesso e o pórtico a norte da mesquita foram preservados da estrutura original.[11]

Mançoria, perto de Cairuão, Tunísia, foi a capital do Califado Fatímida durante os governos dos Imãs Almançor Bilá (c. 946–953) e Almuiz Lidim Alá (c. 953–976).[12] Construída entre 946 e 972, era uma cidade circular amuralhada que albergava elaborados palácios rodeados de jardins, piscinas artificiais e canais de água.[13]

Após a conquista fatímida do Egito em 969, o califa al-Mu’izz mudou-se para a nova cidade de al-Qāhira (Cairo) em 973, mas al-Mansuriya continuou a servir como capital provincial. Em 1057, foi abandonada e destruída. Alguns objetos ou materiais úteis foram recuperados durante os séculos seguintes. Hoje, apenas restam ténues vestígios.[14]

Egipto

Vista de 1830 do portão de Bab al-Nasr, Cairo, construído por Badre Aljamali em 1087

O general fatímida, Jauar Assiquili, construiu uma nova cidade-palácio perto da antiga capital de Fostate ao conquistar o Egito em 969, a que inicialmente chamou Mançoria, em homenagem à capital da Tunísia. Quando Almuiz chegou, em 973, o nome foi alterado para al-Qāhira (Cairo). A nova cidade incorporava elementos do projeto de Mançoria, embora tivesse uma planta retangular em vez de circular.[15] Ambas as cidades tinham mesquitas chamadas Alaziz, em homenagem à filha de Maomé, Fátima, e ambas tinham portões chamados Babe Alfutu e Babe Zauila.[9] Ambas as cidades tinham dois palácios, um para o califa e outro para o seu herdeiro, opostos e um em frente ao outro.[15]

Algumas das mesquitas e palácios fatímidas mais impressionantes e de grande escala foram construídos no Cairo durante os reinados de Almuiz e dos seus sucessores, Alaziz Bilá e Aláqueme.[2] O reinado de Al-Aziz (c. 975-996) é geralmente considerado o mais próspero.[16] Auxiliado em parte por fundos gerados pelas reformas fiscais do seu pai,Almuiz, Alaziz é creditado com pelo menos 13 grandes obras de construção durante o seu reinado, incluindo palácios, uma mesquita, uma fortaleza, um miradouro, uma ponte e banhos públicos.[16] Foi responsável pela construção e expansão de grande parte dos grande complexo de palácios do Cairo, que tinham sido estabelecidos pela primeira vez sob o seu pai. Entre outras obras, construiu o Palácio Ocidental e ordenou a construção de mais acrescentos ao complexo do Palácio Oriental, incluindo o "Grande Salão" (al-Iwan al-Kabir) e o "Palácio Dourado" (Qasr al-Dhahab).[17] Iniciou também a construção da uma grande mesquita que foi concluída após a sua morte por seu sucessor, Aláqueme.[18] Sob o governo de Alaziz, os aspectos cerimoniais e rituais que envolviam o imã-califa fatímida tornaram-se mais elaborados. Em contraste com as práticas do Abássida em Bagdade, nas quais as atividades do califa estavam geralmente confinadas ao palácio, as práticas cerimoniais fatímidas tornaram-se cada vez mais integradas no ambiente urbano circundante do Cairo. O imã-califa fazia frequentemente procissões pela cidade e visitava mesquitas e santuários, incluindo monumentos recém-construídos, patrocinados pelo governante ou pela sua família. [19]

Portão de entrada da Grande Mesquita de Mádia. Nesta estrutura primitiva, o arco é redondo, em vez de quilha

A mãe de Al-Aziz, Durzan, viúva de Almuiz, foi também responsável por ordenar o início dos projetos de construção, principalmente na zona de Qarafa, ordenando a construção da segunda mesquita no Cairo, a Mesquita Jami Alcarafa, em 975. [16] Semelhante à primeira mesquita, a Mesquita Alazar, tinha cerca de catorze portas, mas foi posteriormente destruída por um incêndio, ficando apenas o seu "mirabe verde". [16] Durzane é também Atribui-se a ela a ordenação da construção do Palácio de Carafa, de um banho público, uma cisterna ou piscina, e de um jardim real e uma bomba hidráulica para a fortaleza de Abu Almalum.[20] Ela também ordenou a construção de um poço no pátio da Mesquita de ibne Tulune em 995, um pavilhão com vista para o Nilo chamado Manazil Aliz, e o seu próprio mausoléu em Carafa.[20]

A fortuna dos fatímidas declinou em meados do século XI, mas a ordem foi temporariamente restaurada por uma linhagem de poderosos vizires no final do século XI.[2] O vizir arménio Badre Aljamali foi um construtor notável, patrocinando vários projectos arquitectónicos estatais e obras de restauro durante o seu governo de 1074 a 1094, particularmente com mesquitas, restaurando minaretes no Alto Egito e construindo mesquitas no Baixo Egito.[21] Também reconstruiu as muralhas e as portas do Cairo. Embora as mesquitas de grande dimensão e as grandes obras públicas fossem raras durante este último período, as mesquitas mais pequenas e os novos santuários comemorativos (mashhads) atestam a manutenção de um elevado padrão de artesanato em arte e arquitetura.[2]

Referências

Notas

  1. Ifríquia era a parte ocidental do califado fatímida, abrangendo a parte norte do que é hoje o oeste da Líbia, a Tunísia e o leste da Argélia.

Citações

  1. Jarzombek & Prakash 2011, p. 384.
  2. a b c d Bloom & Blair 2009, p. 71.
  3. Bloom 2012.
  4. Behrens-Abouseif 1992.
  5. Sanders 2008, p. 130.
  6. Madraswala 2020, p. 142.
  7. a b Madraswala 2020, p. 90.
  8. Yeomans 2006, p. 43.
  9. a b Yeomans 2006, p. 44.
  10. a b Petersen 2002, p. 168.
  11. Hadda 2008, p. 72–73.
  12. Halm 1996, p. 331, 345.
  13. Ruggles 2011, p. 120.
  14. Barrucand & Rammah 2009, p. 349.
  15. a b Safran 2000, p. 68.
  16. a b c d Cortese & Calderini 2006, p. 166.
  17. Anderson & Pruitt 2017, p. 229.
  18. Behrens-Abouseif 1992, p. 63.
  19. Anderson & Pruitt 2017, p. 243.
  20. a b Cortese & Calderini 2006, p. 167.
  21. Cortese & Calderini 2006, p. 170.

Fontes