Arquitetura otoniana
Arquitetura otoniana refere-se à arquitetura vigente na área de língua alemã a partir do reino de Otão o Grande (936-975), Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico, que incluía à época a Alemanha e norte da Itália. A deposição de Carlos, o Gordo, em 887, marca o fim da unidade imperial e o início de um 'século obscuro' para as artes centrais. Contudo, é neste intervalo entre 900 e 1000 que as experiências regionais — particularmente nas bacias do Reno e nos condados mediterrâneos — começam a fundir a herança romana com novas necessidades litúrgicas, criando o substrato do que chamaremos de Românico.[1]
No Império [Germânico], a transição é tão fluida que se torna difícil traçar uma linha divisória. A arquitetura otoniana dos séculos X e XI não é apenas uma antecipação, mas já uma forma plenamente desenvolvida de Românico, onde a monumentalidade dos Westwerks carolíngios se integra numa nova clareza espacial e rítmica. Embora derive diretamente do modelo carolíngio, ela introduz uma clareza e uma escala monumental que antecipam o românico pleno. O período entre 887 e o ano mil é um laboratório onde as formas se tornam mais nítidas e os volumes mais definidos, especialmente no coração do território germânico.[2]
Também sofreu influência da arquitetura das basílicas paleocristãs. Ao contrário da época carolíngia, quando as grandes obras arquitetónicas foram financiadas pelos soberanos carolíngios, a arquitetura otoniana foi impulsada tanto pelos reis otonianos como por figuras religiosas destacadas, como bispos e abades das cidades e mosteiros germânicos. Nos grandes edifícios do século XI, como a Catedral de Speyer (Fase I) ou São Miguel de Hildesheim, os elementos otonianos — como o duplo transepto e a alternância de suportes (coluna e pilar) — fundem-se tão perfeitamente com a lógica românica que é impossível dissociá-los. Existe uma persistência das formas imperiais que resistiu à influência do românico lombardo mais leve que vinha do sul.[3]
Exemplos

Um dos poucos edifícios do início da época otoniana que ainda existe é a Igreja de São Ciriaco em Gernrode, começada em 959. A fachada possui um corpo ocidental flanqueado por duas torres, uma estrutura - chamada Westwerk em alemão - derivada da época carolíngia. Atualmente a fachada possui uma ábside que só foi construída na época românica, pois a igreja original possuía apenas uma ábside no lado leste. No interior a nave é tripartida, com as naves laterais separadas da central por um sistema de suportes que alterna um pilar e duas colunas. Esse esquema de suportes foi muito influente na arquitetura germânica subsequente. As naves laterais também possuem galerias com arcadas na parte superior, o que pode ser derivado da arquitetura bizantina ou paleocristã.

A Igreja de São Miguel em Hildesheim, começada em 1001, apresenta de cada lado da nave uma ábside e um transepto, um esquema relacionado ao plano carolíngio da Abadia de São Galo, datado do século VIII. Cada transepto possui uma grande torre de seção quadrada e é flanqueado por duas torres circulares, novamente inspiradas na época carolíngia. No interior, de três naves, repete-se o esquema de alternância de suportes visto de Gernrode. Criptas sob as ábsides permitiam o acesso às relíquias dos santos.
Em Colónia subsiste uma impressionante Westwerk da época otoniana, a fachada da Igreja de São Pantaleão (c. 980), com duas torres laterais e uma central. Na Catedral de Essen também subsiste uma fachada com três torres da época otoniana, construída após 971. O interior desta parte da igreja tem uma planta semi-octogonal inspirada na Capela palatina de Aquisgrão, construída por Carlos Magno ao redor do ano 800.
Ver também
Referências
- Ottonian architecture and its influence. in: Walkin, David. A history of Western architecture. Laurence King Publishing, 2005. ISBN 1856694593 [1]
Literatura
- Louis Grodecki, Au seuil de l'art roman. L'architecture ottonienne, Armand Collin, Paris, 1958, 342 p..
- Puig I. Cadafalch, La géographie et les origines du premier art roman, H. Laurens, Paris, 1935, 515 p..
- Robert Folz, « L'interprétation de l'Empire ottonien », Actes des congrés des historiens médiévistes de l'enseignement supérieur public, vol. 9, no 1, 1978, p. 5-22 (lire en ligne [archive]).
- Jacques Thiébaut, « Art préroman, art ottonien, art roman (compte rendu) », Bulletin monumental, vol. 129, no 3, 1971, p. 201-202 (lire en ligne [archive]).
- Marcel Durlat, « Les représentations de l'Église dans l'art ottonien et dans l'art roman (compte-rendu) », Bulletin monumental, vol. 132, no 2, 1974, p. 107 (lire en ligne [archive]).
- André Grabar, « L'art de l'Empire au début du moyen-âge, les arts carolingiens et ottoniens (compte-rendu) », Cahiers de civilisation médiévale, vol. 18, no 69, 1975, p. 70-74 (lire en ligne [archive]). *
- Henri Focillon, L'an mil, Denoël, Paris, 1984, 187 p. (ISBN 9782282302461).
- Louis Grodecki et Florantine Müther, Le siècle de l'an mil (collection: Univers des formes), Gallimard, Paris, 1973, 436 p. (ISBN 2-07-010785-X).
- Gabrielle Demians D'Archimbaud, Histoire artistique de l'occident médiéval, Paris, Armand Colin, 1992, (ISBN 2200313047)
- Ulrik Laule, Rolf Toman, Achim Bednorz, Architecture médiévale, Feierabend, 2004
- Rolf Toman, L’Art roman, Paris, Place des Victoires, 2006, (ISBN 9782844590947)
- Marjorie Gevrey-Alfort, Perspectives ottoniennes de l'abbatiale d'Ottmarsheim : quand l'art roman conjugue mobilier, calligraphie et histoire des formes architecturales, Bâle, Presses de l'École d'architecture, 2008
- Annett Laube-Rosenpflanzer ; Lutz Rosenpflanzer: Kirchen, Klöster, Königshöfe : vorromanische Architektur zwischen Weser und Elbe, Halle 2007, (ISBN 3898124991)