Pascoal de Azevedo
| Pascoal de Azevedo | |
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| Nacionalidade | |
| Ocupação | Administrador colonial português |
Pascoal de Azevedo foi um militar e administrador colonial português. De 1752 a 1760 foi titular da Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, com poderes de governo militar e civil dos territórios portugueses no atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul, e membro do Conselho da Junta Governativa do Rio de Janeiro em 1763.
Carreira
Pascoal de Azevedo serviu como escrivão da Junta da Real Fazenda do Estado Português da Índia na década de 1730.[1] Pouco antes de iniciar seu governo, em 13 de janeiro de 1750, foi assinado o Tratado de Madri. O Tratado tentou resolver a crônica tensão existente entre Portugal e Espanha a respeito da progressiva expansão portuguesa para dentro dos territórios espanhóis, reconhecendo os fatos consumados e estabelecendo uma trégua nas hostilidades. Porém, o processo foi complicado. Havia muitas resistências internas tanto em Portugal quanto na Espanha a respeito dos termos do acordo, e os povos indígenas da região das Missões também se mostraram insatisfeitos, pois havia sido estabelecido que os Sete Povos das Missões passariam para Portugal em troca da Colônia do Sacramento, o que determinou a expulsão dos indígenas e dos jesuítas que controlavam as Missões, os quais também faziam campanha contra o Tratado.[2][3]

Em 21 de setembro de 1751 o Marquês de Pombal escreveu a Gomes Freire de Andrade, governador do Rio de Janeiro e comissário das demarcações territoriais, informando que por ordem do rei enviava Pascoal de Azevedo e outros oficiais para auxiliá-lo "nas grandes fadigas que lhe são preparadas", acrescentando que "na pessoa de Pascoal de Azevedo concorriam não só as qualidades de honra e prudência, mas também as de experiência na disciplina das tropas e do modo de viver entre os espanhóis, e sabendo que este oficial era da aprovação de Vossa Senhoria, foi servido mandá-lo na mesma ocasião passar a esse Estado à ordem de Vossa Senhoria para Vossa Senhoria o empregar onde julgar que seu préstimo e fidelidade ser mais úteis ao serviço real".[4]
As demarcações iniciaram em 1752 e desde o início foram difíceis.[3] Em 28 de junho de 1752 Azevedo foi nomeado titular da Comandância Militar do Rio Grande, tendo a patente de tenente-coronel.[5] A administração de Azevedo seria ofuscada pela longa presença do poderoso Gomes Freire na região, ficando quase restrito à administração da vila de Rio Grande de São Pedro, a sede do governo português, bem como de suas instalações militares, incluindo o Forte Jesus, Maria e José.[6]
Em 1753, em protesto contra o Tratado, os indígenas iniciaram uma resistência, que desembocou na Guerra Guaranítica, sendo combatidos por uma combinação de tropas portuguesas e espanholas. Sob o comando de Gomes Freire, os portugueses estabeleceram seu quartel general na vila de Rio Grande.[3] Pascoal de Azevedo recebeu elogios de Gomes Freire em janeiro[7] e foi instruído a enviar o sargento-mor Luís Manuel de Azevedo Carneiro e Cunha a fim de que ele escolhesse lugares para armazéns no sítio da Forqueta do Rio Pardo para receber os exércitos.[8] No início de 1754 a Forqueta foi atacada e Azevedo enviou em seu socorro 60 granadeiros, 20 paulistas e um esquadrão de dragões, postos sob o comando do tenente-coronel Tomás Luís Osório.[9] Partiram de Rio Grande outras tropas para Viamão, e do porto de Rio Grande partiu uma flotilha de faluas e sumacas entrando na Lagoa dos Patos com o objetivo de chegar aos rios Guaíba, Jacuí e Pardo, onde outros soldados desembarcariam.[3] Recebendo informações de seus enviados, em 2 de setembro Pascoal de Azevedo tentou avisar Gomes Freire, que já estava em marcha, que ele teria problemas, relatando que a situação nas Missões havia saído completamente do controle, recomendando que não avançasse além do Rio Pardo.[10][11] Com efeito, encontrando forte oposição dos indígenas, Gomes Freire estabeleceu um armistício e retrocedeu para Rio Grande a fim de se reorganizar e esperar a chegada de reforços.[3][10] Pascoal de Azevedo deu apoio para as tropas em Rio Grande, e em fevereiro de 1755 Gomes Freire recomendou-o para receber uma mercê pelas grandes despesas pessoais que teve com oficiais e tropas,[12] além de elogiá-lo pelo governo que exercia "com grande zelo e acerto".[13]
Ainda em 1755 os portugueses saíram de Rio Grande com 1.606 praças e oficiais e 250 negros escravos, tendo na vanguarda um destacamento de 200 mamelucos paulistas e 200 indígenas minuanos na retaguarda. As forças espanholas contavam com 1.670 homens, centenas deles arregimentados por latifundiários e comerciantes interessados no saque das Missões.[3][14] As Missões foram tomadas em 16 de janeiro de 1756, em 7 de fevereiro foi morto o líder da revolta, Sepé Tiaraju, e em maio foi travado o último combate, encerrando o conflito com a derrota dos indígenas e um saldo de cerca de 1,5 mil mortos.[15]
Gomes Freire tinha consciência da importância de ganhar o apoio dos indígenas, dizendo a eles que se passassem para o lado português seriam bem tratados, e depois das atrocidades do combate, defendeu a ideia de permitir que os indígenas permanecessem nas Missões e se tornasse súditos de Portugal, e renunciou à prática bélica tradicional de tomar sua parte dos bens dos vencidos, mas os espanhóis não seguiram a mesma linha, pilhando as Missões e dispensando um tratamento brutal e humilhante para seus aliados históricos.[10][14] Segundo Leandro Fontella, "ao longo de todo esse processo, Gomes Freire e seus comandados foram ganhando a confiança dos guaranis [...]. A cordialidade com que tratavam os índios, evitando ofensas e humilhações a estes, o tratamento justo nas relações comerciais e a renúncia ao butim de guerra foram medidas habilmente manejadas pelos portugueses para se aproximar e interagir com os missioneiros. [...] Os portugueses procuravam transformar sua imagem de inimigos para que os missioneiros os vissem como um aliado potencial, o que possibilitaria aos lusitanos efetivamente controlar a região".[14] Com a ascensão de Carlos III ao trono espanhol em 1759 as relações Portugal-Espanha se deterioraram, o que levaria à anulação do Tratado de Madri em 1761.[2]
Em meio a essas agitações, Azevedo continuou a política de seus antecessores de consolidar a vila do Rio Grande e o povoamento na região, acomodando novos colonos, organizando a vida civil, melhorando na medida do possível as estruturas administrativas e militares, expandindo as áreas ocupadas pelos portugueses, incentivando a exploração de gado e cavalos, fomentando a integração comercial entre as regiões do continente.[16] Em 29 de maio de 1753 enviou 640 mil réis para o capitão Francisco Barreto Pereira Pinto acomodar colonos açorianos e outros no Sítio do Dornelles, no porto de Viamão, no início da colonização de Porro Alegre.[17] Por solicitação de Azevedo e da comunidade, em 1755 Gomes Freire determinou o início da construção de uma nova igreja na vila de Rio Grande, substituindo a primitiva capela, que se tornaria a Catedral de São Pedro, tombada pelo IPHAN.[18] Em 10 de março de 1757 foi promovido a coronel.[19] Em janeiro de junho escreveu ao Marquês de Pombal apelando por sua ajuda para suas irmãs, que estavam desamparadas.[20]
Entrou em conflito com o provedor da Fazenda Real, Manuel da Costa Barba Rica, a respeito da construção e supervisão de alguns armazéns, alegando que a má gestão de Barba Rica comprometia o trabalho de diversas pessoas, além de causar a perda de produtos.[21] Em 1760 enviou relatório descrevendo a chegada de suprimentos de farinha, a compra de cavalos para as tropas, a construção de um depósito para couros e a seca.[22] Em 13 de agosto de 1760 foi criada a Capitania do Rio Grande de São Pedro. Permaneceu na chefia do governo até 9 de setembro de 1760, quando foi nomeado seu substituto, o coronel Inácio Elói de Madureira,[23] que tomou posse em 17 de janeiro de 1761.[6]
Em 31 de janeiro de 1762 estava no Rio de Janeiro entre as testemunhas no juramento de fidelidade e bom serviço prestado pelo coronel Francisco Antônio de Meneses e Sousa em sua investidura do governo da Capitania de Santa Catarina.[24] Com a morte de Gomes Freire em 1 de janeiro de 1763, foi formada às pressas uma Junta Governativa interina para governar a Capitania do Rio de Janeiro. Azevedo foi indicado membro do Conselho Militar da Junta, que tinha como funções principais observar a situação no Brasil Meridional, que estava tensa e logo degenerou em conflito aberto com ataques em Sacramento, no Jacuí e na vila de Rio Grande, que foi tomada pelos espanhóis em 1763 com um exército de mais de dois mil homens.[25]
Ver também
Referências
- ↑ Pinheiro, Luís da Cunha. Junta da Real Fazenda do Estado da Índia: Livro 15 (1730-1731). Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa, s/d., p. 5
- ↑ a b Valdez, Luísa Caiaffo. O Rio Grande de São Pedro espanhol (c.1763 - c.1776) : viver e governar uma povoação de fronteira no sul da América. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023, p. 83
- ↑ a b c d e f Golin, Tau. "Cartografia da Guerra Guaranítica". In: I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica. Paraty, 2011
- ↑ Campana del Brasil: antecedentes coloniales, Tomo II (17501762). Archivo General de la Nación, 1939, p. 94
- ↑ Viegas, José dos Santos. "Governo da Província do Rio Grand do Sul". In: Revista Trimensal do Instituto Historico, Geographico e Ethnographico do Brasil, 1860 (XXIII): 587
- ↑ a b Santos, Sherol dos. Apesar do Cativeiro: Família escrava em Santo Antônio da Patrulha (1773-1824). Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2009, p. 105
- ↑ Almeida, Eduardo de Castro e. "Inventario dos documentos relativos ao Brasil existentes no Archivo de Marinha e Ultramar (VIII)". In: Annaes da Bibliotheca Nacional, 1928 (L): 347
- ↑ Frühauf, Garcia, Elisa. As diversas formas de ser índio: políticas indígenas e políticas indigenistas no extremo sul da América portuguesa. Universidade Federal Fluminense, 2007, p. 49
- ↑ Almeida, Eduardo de Castro e. "Inventario dos documentos relativos ao Brasil existentes no Archivo de Marinha e Ultramar". In: Annaes da Bibliotheca Nacional, 1909 (XXXI): 84
- ↑ a b c Ribeiro, Mônica da Silva. "Gomes Freire de Andrada e os conflitos pela demarcação de fronteiras meridionais nas Américas: redes de poder e estratégias de ação na segunda metade dos Setecentos". In: Revista Navigator, 2013; 9 (18) - Dossiê Imprensa Militar
- ↑ Almeida, Eduardo de Castro e."Inventario dos documentos relativos ao Brasil existentes no Archivo de Marinha e Ultramar". In: Annaes da Bibliotheca Nacional, 1909 (XXXI): 384
- ↑ Osório, Helen; Berwanger, Ana Regina; Souza, Susana Bleil de. Catálogo de documentos manuscritos avulsos referentes à Capitania do Rio Grande do Sul existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Arquivo Histórico Ultramarino / Universidade Federal do Rio Grande do Sul / Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, 2001, pp. 40-41
- ↑ Almeida, Eduardo de Castro e. "Inventario dos documentos relativos ao Brasil existentes no Archivo de Marinha e Ultramar". In: Annaes da Bibliotheca Nacional, 1909 (XXXI): 455
- ↑ a b c Fontella, Leandro Goya. "A Guerra Guaranítica num contexto de Cultura de Contato: uma interpretação sobre o caráter das interações entre guaranis missioneiros e sociedades ibéricas". In: Anos 90, 2020 (27)
- ↑ Neumann, Eduardo Santos. "A lança e as cartas: escrita indígena e conflito nas reduções do Paraguai – século XVIII". In: História Unisinos, 2007; 11 (2):160-172
- ↑ Valdez, pp. 66-67
- ↑ Santos, Corcino Medeiros dos. Economia e Sociedade do Rio Grande do Sul: Século XVIII. Fundação Nacional Pró-Memória, 1984, p. 19
- ↑ Mirco, Carmen Helena Braz. Textos para o estudo da história do município do Rio Grande, XVI-XVIII. Editora da FURG, 1987, p. 24
- ↑ Indice da Correspondencia dos governadores do Rio de Janeiro, com diversas autoridades, 1718-1763. Archivo Publico Nacional, 1908, p. 237
- ↑ Almeida, Eduardo de Castro e. "Inventário dos documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar - Rio de Janeiro, 1756-1757". In: Anais da Biblioteca Nacional, 1951 (71): 161
- ↑ Arpini, Paula Andrea Dombkowitsch. Retratos da Provedoria: Os agentes fazendários do Rio Grande de São Pedro (1748-1802). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015, p. 116
- ↑ Osório, Berwanger & Souza, p. 48
- ↑ Silva, Augusto da. A Ilha de Santa Catarina e sua Terra Firme: Estudo sobre o governo de uma capitania subalterna (1738-1807). Universidade de São Paulo, 2007, p. 76
- ↑ Silva, Frabcisco Joaquim Bethancourt da. Livro dos termos, homenagens e assentos. Archivo Publico Nacional, 1907, p. 87
- ↑ Mendes, Jeferson dos Santos. Capitulações Portuguesas na América Meridional, 1762-1777: Histórias, Julgamentos e Punições das Autoridades Coloniais. Universidade de Lisboa, 2019, pp. 62-69
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