Diogo Osório Cardoso

Diogo Osório Cardoso
NacionalidadePortugal Português
OcupaçãoMilitar e administrador colonial português

Diogo Osório Cardoso (Cartaxo, c. 1695 — Chuí, 4 de outubro de 1752) foi um militar e administrador colonial português, o terceiro governador civil e militar dos territórios portugueses no Rio Grande do Sul, atuando em 1739 como interino e como titular de 1740 a 1752.

Família

Nascido em torno de 1695 na vila de Cartaxo, no Distrito de Santarém, Diogo Osório Cardoso era filho de Teodósia Felipa de Almeida e Belchior Cardoso Osório, capitão de Ordenanças da vila de Cartaxo e fidalgo cavaleiro da Casa Real, com uma tença de 1,6 mil réis de moradia e 1 alqueire de cevada em 1688,[1] em 1694 foi nomeado para o comando de uma tropa aquartelada em Beja.[2]

Seu avô foi Belchior Osório Cardoso,[1] natural de Penaguião, em 18 de janeiro de 1666, em reconhecimento de serviços prestados, recebeu alvará de fidalgo cavaleiro da Casa Real, com uma tença de 1,6 mil réis de moradia e 1 alqueire de cevada,[3] aumentada para 38 mil réis em 1683,[4] em 1685 arrendava a lezíria do Chorrilho em Porto de Muge por três anos,[5] Seu bisavô foi Francisco Cardoso Osório.[1]

Diogo nunca casou e não teve descendência conhecida. Teve como irmão Francisco da Fonseca Osório, ancestral do marechal Manuel Luís Osório, Marquês do Herval.[1]

Carreira

Diogo Osório Cardoso seguiu carreira militar, foi capitão de um regimento em Alcântara,[6] e em 28 de novembro de 1734 era capitão no regimento do Marquês de Marialva em Minas Gerais. Em 1736, no contexto do conflito entre Portugal e Espanha pela posse da região do Prata, integrou uma grande missão portuguesa enviada para socorrer a Colônia do Sacramento, que estava sitiada, retomar Montevidéu, destruir a frota espanhola e fundar novas colônias em Maldonado e no Rio Grande de São Pedro. Cardoso foi nomeado comandante do Regimento de Dragões com patente de coronel, e deveria instalar o Regimento em Sacramento. No entanto, o deslocamento dos dragões para a região causou discórdia entre as tropas portuguesas, alterando relações de poder e hierarquias já estabelecidas e gerando desconfianças na soldadesca rasa pelo seu status superior. Em vista disso, o governador do Rio de Janeiro os enviou para a Barra do Rio Grande, onde deveriam auxiliar o brigadeiro José da Silva Pais, que também participara da Campanha do Prata mas para lá fora deslocado a fim de fundar outra colônia.[1]

O litoral do Continente do Rio Grande de São Pedro em 1763. O Presídio se localiza na Barra da Lagoa dos Patos.

Silva Pais havia fundado o Presídio do Rio Grande em 19 de janeiro de 1737, subordinado à Capitania do Rio de Janeiro, e tudo estava por fazer. Cardoso viajou acompanhado pelos dragões e por seus sobrinhos Francisco Coelho Osório, Tomás Luís Osório e José Antônio Cardoso Osório, todos dragões,[1] mais dois capitães, dois tenentes, um ajudante, quatro alferes e cinco sargentos. Segundo relatório de Silva Pais ao governador do Rio de Janeiro, o grupo chegou ao Rio Grande em 1 de setembro de 1737 a bordo da nau Boa Viagem, que partira de Maldonado em 13 de agosto, e "a todos acomodei em casas que se alugaram por conta da Fazenda Real e se lhes dá o que pode suprir a miséria da terra, até que chegassem as ordens de Vossa Senhoria. Cuido que estão mui descontentes de virem parar à colônia, julgando que era seu destino para as Minas, mas também os da praça não encobrem o pesar de estarem preferidos de outros que não trabalharam tanto".[7]

O Regimento dos Dragões do Rio Grande foi criado oficialmente em 5 de janeiro de 1739 e Cardoso continuou no seu comando, cabendo-lhe a organização do corpo.[8] Por esta época o governador André Ribeiro Coutinho caiu doente, e em 5 de março de 1739 Cardoso assumiu como interino, tomando posse efetiva do governo civil e militar do Rio Grande em 22 de dezembro de 1740.[9]

Cardoso tomou posse sob circunstâncias muito difíceis. O Presídio estava em sua fase inicial de organização, tudo ainda era extremamente precário, e a assistência da Coroa para as múltiplas carências era sempre insuficiente. Segundo Francisco das Neves Alves, "nessa sociedade, viver o dia-a-dia já era uma aventura, a incapacidade das coisas com que contavam era notória, suas moradas não passavam de barracas de couro, ou de ranchos cobertos de [capim] santa-fé; e havia falta de tudo, de remédios, de igrejas, de tecidos, de cal, de pregos, de pedras, de ferro, de telhas, de madeira, de mulheres, de distrações, de moedas e de tijolos; além disso, o soldo das tropas nunca era pago em dia, e, às vezes, levava anos para chegar. Tal penúria contrastava com as promessas iniciais da Coroa Portuguesa que garantira aos povoadores e soldados toda a infraestrutura necessária a sua manutenção e, até mesmo, em alguns casos, a distribuição de terras, o que só se efetivaria concretamente no caso dos militares superiores".[10]

Além disso, a população civil de colonos que ia chegando precisava de muito auxílio para se instalar e iniciar sua vida, havia problemas recorrentes com contrabandistas e ladrões, a soldadesca permanecia cronicamente insatisfeita com as más condições gerais, o constante atraso no soldo e com a dura disciplina e os maus tratos que foram impostos, e muitos desertavam ou se tornavam resistentes ao comando. O território ainda pertencia legalmente à Espanha, as relações entre as duas monarquias eram tensas e o temor de ataques permanecia uma preocupação constante.[1][11][12] A relação com alguns indígenas que viviam na região também não era tranquila. Os Minuanos estabeleceram amizade com os portugueses e se tornaram colaboradores, mas os Tapes eram hostis e tinham que ser mantidos à distância.[12]

Em 5 de janeiro de 1742 os soldados, sob a liderança dos dragões, se rebelaram, aprisionaram os oficiais e tomaram o controle da colônia, exigindo pagamento, o fim dos castigos corporais, alívio de sua miséria, liberdade de movimento em suas folgas e uma reforma geral no modo como eram tratados. Há evidências sugerindo que a população civil ou parte dela apoiou o movimento.[1] Este episódio, conhecido na histografia como a Revolta dos Dragões, é o evento mais conhecido da sua administração.[13]

Cardoso tentou apaziguar os rebeldes com promessas de atendimento das suas reivindicações, mas a revolta só terminou em março com a intervenção do brigadeiro Silva Pais, que veio de Santa Catarina para servir de mediador e pagou parte do soldo em atraso, trouxe mantimentos e suprimentos militares, e transmitiu o perdão real para os rebeldes. Mesmo assim, o Conselho Ultramarino e o governador do Rio de Janeiro se preocuparam com a dimensão da crise e tomaram medidas disciplinares. Os líderes e outros soldados foram transferidos para outros regimentos, foram dadas instruções para que a administração da colônia procedesse com justiça e equidade e a ordem fosse buscada, o rigor da disciplina foi amenizado, a atuação de Cardoso foi censurada como frouxa e irregular, e seu sobrinho, o capitão Tomás, foi preso, conduzido ao Rio de Janeiro e submetido a uma devassa, mas acabou liberto e nomeado ajudante dos dragões graças às boas relações de Cardoso com seus superiores.[1][10] Na avaliação de Guilherme Gründling, "era bem provável que, ao longo do tempo, as desconfianças demonstradas pelo Conselho Ultramarino a respeito da conduta praticada pelo capitão Tomás Osório e pela demora em Diogo Osório proceder, foram esquecidas ou relevadas. A dificuldade da Coroa em fornecer condições plenas para a boa gerência administrativa colonial, suprindo as necessidades básicas, colocava a Coroa em uma situação difícil. O afastamento desses indivíduos poderia contribuir ainda mais com a desordem em Rio Grande".[1]

Ainda em 1742 enviou correspondência ao cardeal D. João da Mota e Silva, dando um relato sobre a fertilidade da terra, que produzia abundantemente frutas, legumes, hortaliças, cana-de-açúcar e tabaco, a abundância de peixe, o aumento dos rebanhos de vacas, éguas, leitões, ovelhas, e encarecia a necessidade da vinda de padres e colonos.[14]

Em 17 de julho de 1747 o Presídio foi elevado à condição de Vila, sendo o único assentamento português ao sul de Laguna com este estatuto. A Carta Régia da elevação determinou ainda que o Ouvidor da Comarca de Paranaguá definisse seus limites jurisdicionais, o ordenamento das ruas, a localização da praça e iniciasse as obras da igreja Matriz, além de instruir a disposição da Casa da Câmara e da cadeia, dos demais cargos e serviços. Porém, os governadores do Rio de Janeiro e do Rio Grande se opuseram à medida, outros fatores complicaram, e a instalação só ocorreu em 17 de dezembro de 1751.[15]

No fim da década de 1740 indígenas Minuanos começaram a ser recolhidos na Aldeia de Nossa Senhora da Conceição do Estreito e na Estância Real do Bojurú, atuando como mão-de-obra em serviços mecânicos e campeiros. Em outubro de 1750 cerca de 60 Minuanos foram batizados, estando Cardoso entre os padrinhos. Iam chegando novos colonos, e a sociedade se estratificava, formando-se uma elite incipiente de grandes proprietários de terras, diversos deles parte do grupo fundador, mas depois outros, que se dedicavam principalmente à exploração dos grandes rebanhos de gado que existiam nos campos em torno, e que então era a principal atividade econômica da região. A produção agrícola era basicamente voltada para a subsistência. Enquanto isso, a ocupação portuguesa do interior do Continente avançava com rapidez.[16]

O território português fixado no Tratado de Madri de 1750

Depois dos poucos açorianos chegados no fim da década de 1730, em 8 de agosto de 1746 um Edital da Coroa prometeu terras, ajuda de custo, ferramentas, animais e mantimentos a novos colonos, e uma Provisão Régia de 9 de agosto de 1747 deu instruções aos governadores do Rio de Janeiro e de Santa Catarina sobre os procedimentos a serem adotados para recebê-los, e determinava que embora a maioria se destinasse a Santa Catarina, alguns deveriam ser instalados no Rio Grande. Em junho de 1750, 40 pessoas seguiram viagem de Santa Catarina com destino ao Rio Grande.[17]

Essas medidas deram um grande incentivo à imigração de açorianos e madeirenses, e a partir da assinatura do Tratado de Madri em 13 de janeiro de 1750, fixando as fronteiras entre Portugal e Espanha no Continente de São Pedro e dando um pouco mais de paz à região, ela começa a ganhar volume. Rio Grande não apenas recebia residentes, mas servia de passagem para outros que iriam se estabelecer em outros locais, como Viamão, Triunfo, Taquari, Porto Alegre e Rio Pardo. Nesta época mais da metade do território do atual Rio Grande do Sul já estava ocupado pelos portugueses, e o Tratado em resumo reconheceu o fato consumado. Os que preferiram ficar no Rio Grande tiveram alguns problemas para se inserir na sociedade local, que a esta altura já estava relativamente estruturada e dominada pelo oficialato militar e pela elite estancieira. A situação dos imigrantes era heterogênea, contudo. Alguns faziam parte da elite açoriana, vieram com significativos capitais financeiros e sociais, e se inseriram com maior facilidade. A Coroa também começou a distribuir sesmarias ao sul da sede, em zonas próximas ao forte São Miguel, Taim, Chuí e Castilhos Grandes, contribuindo para a ocupação de áreas cada vez maiores para o interior.[18] Até o fim da gestão de Cardoso chegaram mais cerca de mil colonos.[19]

Um relato de janeiro de 1751 do jesuíta Francisco de Faria ao governador do Rio de Janeiro informava que Cardoso estava gravemente doente, os habitantes da vila estavam na miséria, faltava médico, e o provedor da Fazenda Real não se conduzia corretamente, mas louvou o governador "pela sua contribuição na formação do Rio Grande, contraindo dívidas para amparar os pobres".[20] Em 28 de junho de 1752 assumiu seu sucessor, o tenente-coronel Pascoal de Azevedo.[21] Faleceu perto do Chuí pouco depois, em 4 de outubro do mesmo ano.[22]

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i j Gründling, Guilherme de Mattos. "Uma família Lusitana atravessa o Atlântico: os Osório em Rio Grande de São Pedro no século XVIII". In: Karsburg, Alexandre; Vendrame, Maíra Ines; Carneiro, Deivy (orgs). Práticas de micro-história: diversidade de temas e objetos de um método historiográfico. FAPERGS, 2022, pp. 30-44
  2. Chaby, Claudio de. Synopse dos decretos remittidos ao extincto Conselho de Guerra, volume III. Imprensa Nacional, 1872, p. 256
  3. Inventario dos livros de matricula dos Moradores da Casa Real, volume II. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 1917, p. 130
  4. "Belchior Osório Cardoso". Arquivo Nacional da Torre do Tombo
  5. "Escritura de arrendamento e obrigação pelo prazo de três anos". Direção Regional da Cultura, 22/02/2024
  6. Mirco, Carmen Helena Braz. Textos para o estudo da história do município do Rio Grande, XVI-XVIII. Editora da FURG, 1987, p. 59
  7. "Documentos relativos à Colônia do Sacramento, Montevidéo, Buenos Ayres, e prisão de fabricantes de moeda falsa, etc". In: Revista trimensal do Instituto Histórico, Geographico e Etnographico do Brasil, 1869 (XXXII): p. 66
  8. Alves, Francisco das Neves & Torres, Luiz Henrique. Textos do século XVIII para o estudo da ocupação lusitana no Brasil Meridional. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa / Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes / Biblioteca Rio-Grandense, 2016, p. 25
  9. Fortes, Amyr Borges. Compêndio de história do Rio Grande do Sul. Sulina, 1976, p. 161
  10. a b Alves, Francisco das Neves. "Uma revolta militar e social no alvorecer do Rio Grande do Sul". In: Possamai, Paulo César (org.). Gente de Guerra e Fronteira: estudos de história militar do Rio Grande do Sul. Editora da UFPel, 2010, pp. 33-51
  11. Dillmann, Mauro; Alves, Francisco das Neves; Torres, Luiz Henrique. "Dos modos de ser soldado e capelão na militarizada povoação do Rio Grande do século XVIII". In: Territórios & Fronteiras, 2016; 9 (2) — Dossiê Revistas Modernistas: circulações, representações e a questão transnacional
  12. a b Dorenkott Jr., Charles. José da Silva País: The Defense and Expansion of Southern Brazil, 1735-1749. University of New Mexico, 1972, pp. 197-213
  13. Kühn, Fábio; Silva, Augusto da; Comissoli, Adriano. "Trajetórias sociais e práticas políticas nas franjas do Império". In: História, Histórias, 2013; 1 (1): 56-57
  14. Osório, Helen; Berwanger, Ana Regina; Souza, Susana Bleil de. "Avulsos - Rio Grande do Sul (1732-1800)". In: Catálogo de documentos manuscritos avulsos referentes à Capitania do Rio Grande do Sul existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Fundação Biblioteca Nacional, 2023, §44
  15. Valdez, Luísa Caiaffo. O Rio Grande de São Pedro espanhol (c.1763 - c.1776) : viver e governar uma povoação de fronteira no sul da América. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023, p. 266
  16. Valdez, pp. 46-52
  17. Barroso, Véra Lucia Maciel. Raízes açorianas no Rio Grande do Sul/Brasil. Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul / Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, 2024, pp. 204-209
  18. Valdez, pp. 52-61
  19. Valdez, pp. 209-210
  20. Osório, Berwanger & Souza, §71
  21. Santos, Sherol dos. Apesar do Cativeiro: Família escrava em Santo Antônio da Patrulha (1773-1824). Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2009, p. 105
  22. Grupo de Planejamento da Baixada Sul Riograndense. Inventário da situação do município de Pelotas. Superintendência do Plano de Valoriza̧ção Econômica da Região Fronteira Sudoeste do País, 1964, p. 33

Precedido por
André Ribeiro Coutinho
Governador do Rio Grande do Sul
1739 — 1752
Sucedido por
Pascoal de Azevedo