Governo João Figueiredo

Governo João Figueiredo
Brasil
Ditadura militar
1979–1985
Figueiredo em 1979
Início15 de março de 1979
Fim15 de março de 1985
Duração6 anos
Organização e Composição
TipoGoverno federal
30.º Presidente do BrasilJoão Figueiredo
19.º Vice-presidente do BrasilAureliano Chaves
PartidoARENA (1979)
Partido Democrático Social (1980–1985)
OposiçãoAté 1979:
MDB
Após 1980:
PMDB
PT
PDT
PTB
PCdoB (oposição clandestina)
Histórico
EleiçãoEleição presidencial no Brasil em 1978 (Indireta)

O Governo João Figueiredo corresponde ao período da história política do Brasil entre 15 de março de 1979 e 15 de março de 1985, sendo o último governo do regime militar instaurado em 1964. Figueiredo foi o 30.º presidente da República, eleito de forma indireta pelo Congresso Nacional, conforme o modelo institucional vigente durante a ditadura militar. Seu mandato foi marcado pela fase final do processo de abertura política, pela intensificação das mobilizações sociais por democracia e por uma grave crise econômica, que contribuiu para o desgaste do regime.[1]

Antecedentes e contexto político

Cerimônia de posse do presidente João Figueiredo em 1979, em sessão conjunta do Congresso Nacional, presidida pelo Senador Luís Viana.

João Figueiredo sucedeu o general Ernesto Geisel, que havia iniciado a política de abertura "lenta, gradual e segura", com o objetivo de promover uma transição controlada do regime autoritário para um sistema político mais liberal. Ao assumir a presidência, Figueiredo encontrou um cenário marcado por restrições às liberdades civis, controle sobre a imprensa, repressão a movimentos sociais e tensões internas nas Forças Armadas, divididas entre setores favoráveis e contrários à democratização.[2]

Além do contexto político, o país enfrentava dificuldades econômicas crescentes, resultado do esgotamento do chamado "milagre econômico" e do aumento do endividamento externo durante a década de 1970.

Projeto político e discurso presidencial

João Figueiredo assumiu a presidência defendendo a continuidade da abertura política e afirmando seu compromisso com a normalização institucional. Tornou-se conhecida sua declaração de que "preferia o cheiro dos cavalos ao do povo", frase que simbolizou, para parte da opinião pública, a distância entre o governo e as demandas populares, além de seu estilo político considerado ríspido e pouco conciliador.[3]

Apesar disso, o governo manteve formalmente o compromisso com a transição, ainda que de maneira controlada e com frequentes recuos.

Abertura política e reformas institucionais

O principal marco do governo Figueiredo no campo político foi a Lei da Anistia, promulgada em 28 de agosto de 1979, que permitiu o retorno de exilados políticos, a libertação de presos por crimes políticos e a reintegração de servidores públicos afastados pelo regime. A lei, contudo, também concedeu anistia a agentes do Estado envolvidos em práticas de repressão, o que gerou críticas de movimentos de direitos humanos e permanece como objeto de debate histórico e jurídico.[4][5]

No mesmo ano, o governo promoveu o fim do bipartidarismo, vigente desde 1965, permitindo a reorganização do sistema partidário. Essa medida resultou na criação de novos partidos, como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), além da transformação do MDB no PMDB, fortalecendo a oposição política.[6][5]

Movimentos sociais e oposição política

Durante o governo Figueiredo, houve expressivo crescimento da participação política da sociedade civil. Destacaram-se as greves operárias do ABC Paulista, iniciadas ainda no final da década de 1970, que evidenciaram o fortalecimento do movimento sindical e o desgaste do controle estatal sobre os trabalhadores. Lideranças sindicais, como Luiz Inácio Lula da Silva, ganharam projeção nacional nesse período.[7][8]

Entre 1983 e 1984, o país foi palco do movimento Diretas Já, que reuniu milhões de pessoas em manifestações públicas em defesa da eleição direta para presidente da República. Apesar da ampla mobilização popular, a Emenda Dante de Oliveira não obteve os votos necessários para ser aprovada no Congresso Nacional.[9][8]

Economia e crise financeira

A economia brasileira atravessou um período de forte instabilidade durante o governo Figueiredo. O país foi impactado pelo segundo choque do petróleo, pelo aumento das taxas de juros internacionais e pelo elevado nível da dívida externa, fatores que comprometeram o crescimento econômico.[10][8]

A inflação alcançou índices elevados, o poder de compra da população foi reduzido e o desemprego aumentou. O governo adotou políticas de austeridade fiscal e firmou acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que impuseram medidas de contenção de gastos públicos, gerando impactos sociais significativos.[11][8]

Repressão, violência política e atentados

Embora o processo de abertura estivesse em curso, o período ainda foi marcado por episódios de violência política. Setores contrários à redemocratização promoveram atentados com o objetivo de provocar instabilidade e justificar o endurecimento do regime. O episódio mais emblemático foi o atentado do Riocentro, ocorrido em 1981, durante um evento comemorativo do Dia do Trabalhador, posteriormente atribuído a militares ligados à chamada "linha-dura".[12][8]

Política externa

O Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan cavalgando com o Presidente do Brasil João Figueiredo em Brasília, 1º de dezembro de 1982.

Na política externa, o governo Figueiredo deu continuidade à estratégia de diversificação de parcerias internacionais. O Brasil buscou estreitar relações com países da América Latina, África e Ásia, adotando uma postura relativamente autônoma em relação às grandes potências no contexto da Guerra Fria.[13][14]

Fim do governo e transição para a Nova República

O desgaste político e econômico do governo contribuiu para a derrota do candidato governista nas eleições indiretas de 1985. A vitória de Tancredo Neves, apoiado por uma ampla coalizão de oposição, simbolizou o encerramento do ciclo militar. Com a morte de Tancredo antes da posse, o vice-presidente José Sarney assumiu o cargo, dando início à Nova República.[2]

Avaliação histórica e legado

A historiografia avalia o governo João Figueiredo de forma ambivalente. Por um lado, reconhece-se seu papel decisivo no encerramento do regime militar e na criação das condições institucionais para a redemocratização. Por outro, o governo é criticado pela gestão econômica ineficaz, pela manutenção da impunidade em relação às violações de direitos humanos e pela resistência em atender plenamente às demandas populares por eleições diretas.[1]

Ver também

Referências

  1. a b SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
  2. a b FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015.
  3. GASPARI, Elio. A ditadura encurralada. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
  4. BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979.
  5. a b Arruda, Pedro Fassoni (2019). «A transição política no Brasil: da abertura à Constituinte (1974-1988)». Ponto-e-Vírgula (26): 4–15. ISSN 1982-4807. doi:10.23925/1982-4807.2019i26p4-15. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  6. KINZO, Maria D’Alva Gil. Oposição e autoritarismo no Brasil. São Paulo: Vértice, 1988.
  7. SINGER, André. Os sentidos do lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  8. a b c d e Pedro Macarini, José (2008). «Crise e política econômica: o Governo Figueiredo (1979-1984)» (PDF). ISSN 0103-9466 
  9. NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.
  10. GIAMBIAGI, Fabio et al. Economia brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
  11. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A crise do Estado. São Paulo: Nobel, 1992.
  12. GASPARI, Elio. A ditadura acabada. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
  13. CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora UnB, 2011.
  14. HENRIQUES FERREIRA, TÚLIO SÉRGIO (2006). «A ruína do consenso: a política exterior do Brasil no governo Figueiredo (de 1979 a 1985)» (PDF)