Trienio Adeco


O Trienio Adeco, compreendido entre 1945 e 1948, refere-se ao período histórico que inaugura uma democracia representativa com sufrágio universal na Venezuela. Esse período representa o fim da Hegemonía Andina, entre 1899 e 1945, bem como o início da Ação Democrática (AD) como primeira força política venezuelana.[1]

Embora o aparato opressor da ditadura de Juan Vicente Gómez fosse aos poucos sendo desmantelado por seus sucessores, os também militares e tachirenses, Eleazar López Contreras e Isaías Medina Angarita; em outubro de 1945, vários militares de médio escalão e um grupo de militantes da Ação Democrática realizaram um golpe de Estado bem-sucedido, iniciando o Trienio Adeco.[1]

Nesse período, a Venezuela experimentou uma maior abertura democrática, elegendo uma Assembleia Constituinte que redigiu a Constituição venezuelana de 1947 e foram realizadas as primeiras eleições presidenciais universais, secretas e diretas, sendo eleito o romancista Rómulo Gallegos.[1] No entanto, cabe ressaltar a marginalização do poder que outras forças políticas sofreram com a AD, destacando-se o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) e o Partido Comunista, o que fez com que a alcunha de «Trienio Adeco» fosse preferida pelos historiadores ao invés de “Triênio Democrático”.

Este breve período democrático terminou em novembro de 1948 sob outro golpe militar, liderado por Marcos Pérez Jiménez, juntamente com Carlos Delgado Chalbaud, que estabeleceu uma ditadura militar na Venezuela.[1] A democracia não voltaria à Venezuela até que Pérez Jiménez fosse derrubado num golpe de Estado em 1958, dando início a um longo período de estabilidade constitucional e democrática.

Contexto

No exílio, Rómulo Betancourt havia flertado com o comunismo, mas chegou à conclusão de que não iria muito longe por esse caminho. O presidente Isaías Medina Angarita incentivou a profissionalização do corpo de oficiais venezuelanos. Entre outros, enviou o capitão Marcos Pérez Jiménez para a escola militar peruana, então considerada uma das mais eficientes da América Latina, onde o jovem oficial andino teve como professor o general Manuel Odría, que mais tarde se tornaria ditador do Peru. Outra influência peruana na política venezuelana foi Víctor Raúl Haya de la Torre, que tentou criar uma aliança interamericana de partidos de esquerda anti-imperialistas, algo que se ajustava de forma vaga ao programa de Betancourt. Outro oficial em ascensão era Carlos Delgado Chalbaud, filho do conspirador anti-Juan Vicente Gómez, Román Delgado Chalbaud. Delgado Chalbaud passou a maior parte da vida na França, onde estudou engenharia e posteriormente frequentou a academia militar de Saint-Cyr. Retornou à Venezuela em 1939 e foi imediatamente incorporado ao exército pelo presidente general Eleazar López Contreras. Por sua trajetória, Delgado tornou-se o líder incontestável de um grupo de oficiais conspiradores, entre os quais o segundo mais importante era Marcos Pérez Jiménez.

Golpe de Estado de 1945

Membros da Junta Revolucionária de Governo, da esquerda para a direita: Mario Ricardo Vargas, Raúl Leoni, Valmore Rodríguez, Rómulo Betancourt, Carlos Delgado Chalbaud, Edmundo Fernández e Gonzalo Barrios. Palácio de Miraflores, 1945

À medida que se aproximavam as eleições de 1945, Betancourt, que sabia quão ampla era sua base política nacional, aceitou o convite de Medina para participar delas, no entendimento tácito de que o candidato oficial, pt, venceria com o apoio da Ação Democrática (AD), como havia sido batizado o partido de Betancourt. Em troca, as eleições seguintes seriam totalmente democráticas.

Escalante fazia parte desse acordo, mas ao retornar à Venezuela, vindo de Washington, onde era embaixador, para disputar sua própria eleição, começou a balbuciar e a fazer declarações incoerentes. O homem estava insano, sendo forçado a abandonar a política e passar o resto da vida em um centro psiquiátrico em Miami, Flórida. O presidente Medina então cometeu um erro ao escolher um substituto para Escalante sem consultar a AD. Ele propôs seu ministro da Agricultura, pt, mas este não contava com o apoio de Betancourt, e a via do golpe voltou a ser ativada. Betancourt ficou indignado e assim o partido mais forte da Venezuela e os militares conspiradores, nenhum com posto superior a major, fizeram um pacto cujas consequências seriam duradouras.

Em outubro de 1945, os militares declararam-se em aberta rebelião em Caracas, e Betancourt convocou o povo para uma insurreição civil.[2] Medina renunciou, mas é amplamente reconhecido que o exército, exceto os rebeldes, estava do seu lado e poderia ter sufocado a rebelião e prendido os oficiais insubordinados. O exército era uma criação de Gómez e López Contreras, e mesmo de Medina, sendo uma instituição disciplinada. No entanto, a longa história de violência da política venezuelana no século anterior fez Medina não querer ter uma guerra civil sangrenta em suas mãos.[3]

Governo adeco

Rómulo Betancourt votando nas eleições de 1946

Formou-se uma junta, chefiada por Betancourt, como pt,[4] e com Carlos Delgado Chalbaud como ministro da Defesa. As eleições constituintes de 1946 mostraram que a AD, sob Betancourt, havia realmente se tornado o partido da grande maioria dos venezuelanos. Foram fundados ainda outros dois partidos: o COPEI (Comité de Organização Política Eleitoral Independente), de inspiração clerical, criado por Rafael Caldera, que mais tarde seria rebatizado como COPEI Social Cristão; e a URD (União Republicana Democrática), à qual se uniu Jóvito Villalba, considerado um dos maiores oradores da história da Venezuela, transformando-a praticamente em seu partido pessoal.

Desde a morte de Gómez, os governos seguintes vinham aumentando gradualmente os impostos sobre o petróleo. Na Junta, o ministro do Fomento Juan Pablo Pérez Alfonso decretou um acordo de divisão 50-50 com as companhias petrolíferas. A Junta também tomou outras medidas ousadas. Escolas católicas, consideradas as melhores do país, foram obrigadas a fechar temporariamente enquanto se elaborava um novo currículo nacional. Foi aprovada a Reforma agrária. Mas o mais notável foi que a burocracia, antes mantida no mínimo indispensável, deu um salto fenomenal, não apenas devido às reformas necessárias, mas também porque a AD precisava recompensar seus apoiadores mais destacados.

A divisão entre brancos e pardos foi em teoria abolida, embora na prática poucos pardos conseguissem cumprir até mesmo os requisitos mínimos para o serviço público, no qual, mesmo assim, muitos ingressaram.[5] Uma campanha nacional de alfabetização foi inaugurada, mas, como a maioria dos venezuelanos ainda era analfabeta, tudo isso significava apenas que os poucos que sabiam ler ensinariam aos muitos que não sabiam. Houve eleições presidenciais em 1947, que o candidato adeco, o talentoso romancista Rómulo Gallegos, venceu novamente por ampla margem. No entanto, havia grande descontentamento na classe média, base de apoio de Caldera — ele obteve 262 mil votos —, sem falar na elite, e claro, nos oficiais que haviam levado a AD ao poder, que estavam à espreita da oportunidade.

Golpe de Estado de 1948

Não houve um incidente específico que tivesse desencadeado o golpe sem derramamento de sangue de 1948, liderado por Carlos Delgado Chalbaud. Não houve oposição popular. Isso pode ter significado que as chances de resistência eram muito pequenas ou que as massas pardas não perceberam melhorias significativas em suas vidas, apesar da propaganda incessante do governo. Todos os líderes adecos proeminentes foram expulsos. Os demais partidos foram permitidos, mas controlados.

Referências

  1. a b c d Trienio Adeco. historiadevenezuela.org
  2. Betancourt, Rómulo, Venezuela, Oil and Politics, 1979
  3. Caballero, Manuel, e outros, El 18 de Octubre de 1945, 1994
  4. Jessup, John E. (1989). A Chronology of Conflict and Resolution, 1945-1985. New York: Greenwood Press. ISBN 0-313-24308-5 
  5. «Conferência de Juan Carlos Rey». Consultado em 21 de maio de 2012. Arquivado do original em 12 de fevereiro de 2009 

Bibliografia