Raúl Leoni

 Nota: Se procura município da Venezuela localizado no estado de Bolívar, veja Raúl Leoni (Bolívar).
Raúl Leoni Otero
Presidente da Venezuela
Período11 de Março de 1964
a 11 de Março de 1969
Antecessor(a)Rómulo Betancourt
Sucessor(a)Rafael Caldera
Dados pessoais
Nascimento26 de abril de 1905
Bolívar,
Morte5 de julho de 1972 (67 anos)
Nova Iorque,  Estados Unidos
Primeira-damaCarmen América Fernández
PartidoAção Democrática
ProfissãoAdvogado e Político

Raúl Leoni (Manteco, estado de Bolívar, 1905Nova Iorque, 1972) foi um político venezuelano, presidente do país de 1964 a 1969.[1]

Sua iniciativa política se deu ainda na universidade como presidente do centro estudantil, quando estudou direito na Universidade Central da Venezuela, em Caracas. No ano de 1928, foi presidente da federação do estudantes, celebrou a semana do estudante, dando início ao movimento de protesto contra o regime de Juan Vicente Gómez, resultando em sua prisão.[2]

Em 1941, fundou o partido Ação Democrática (AD).[3]

No período de 1945 a 1948 atuou como ministro do Trabalho da Venezuela. Entre 1959 e 1963 presidiu o Senado e o Congresso Nacional.[4]

No ano de 1963, o governo de Rómulo Betancourt sofreu intensas manifestações pelo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), decorrente de sua postura de rejeição aos comunistas, incluindo greves, luta armada e guerrilhas. Com isso, nas eleições desse mesmo ano, Raúl Leoni foi eleito o novo presidente da Venezuela,[5] apoiado pelos partidos da União Republicana Democrática (URD) e da frente nacional democrática (FND). Leoni tornou-se o primeiro presidente civil eleito livremente na Venezuela a completar seu mandato.[6]

Presidência

Monumento a Leoni e sua esposa Menca, Ciudad Bolívar, Venezuela

Leoni assumiu a presidência em 13 de março de 1964, sucedendo Rómulo Betancourt; ambos eram membros da Ação Democrática.

Um dos pilares da consolidação política na Venezuela, o Pacto de Punto Fijo, foi subestimado por Leoni, já que em sua opinião reduzia a "coerência e organização do regime". Estritamente, o pacto determinava que a composição do gabinete executivo fosse limitada a representantes de três dos partidos políticos mais importantes: Ação Democrática (AD), COPEI e União Republicana Democrática (URD). Leoni inicialmente formou um gabinete com alguns membros de seu partido e um bom número de independentes. Mais tarde, em novembro de 1964, Leoni iniciou conversações com líderes dos partidos envolvidos para resgatar o espírito do pacto. Um novo gabinete foi formado, mas durou apenas 16 meses.

Durante seu governo, Leoni realizou importantes projetos estruturais na Venezuela, especificamente o desenvolvimento da indústria pesada em Guayana (hidrelétrica, ferro e aço), a inauguração do Banco dos Trabalhadores e a construção de infraestrutura rodoviária (rodovias, autoestradas e pontes – a mais importante das quais cruzava o Orinoco). Mudanças importantes também ocorreram em programas trabalhistas e sociais; os sindicatos ganharam força e a lei da Previdência Social foi modificada. Leoni tentou reformar a estrutura tributária, mas foi contido por uma coalizão de esquerda e direita que abertamente servia aos interesses das companhias petrolíferas.

Durante a presidência de Leoni, o conflito com o movimento guerrilheiro de esquerda Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) se intensificou. O governo de Leoni não foi extraordinário, mas coube a ele liquidar os remanescentes da insurreição comunista, para o que colocou o exército no comando do país com plenos poderes para ser tão severo quanto necessário.

No entanto, ao contrário das guerrilhas em outras partes do mundo, os guerrilheiros comunistas não tinham apoio rural significativo e, assim, não controlavam aldeias.[7] Eles sabiam que não eram páreo para o exército e evitavam confrontos. Castro esperava que a Venezuela fosse o segundo ato da revolução latino-americana e tentou abastecer os guerrilheiros venezuelanos. Isso estava de acordo com a teoria do que poderia ser chamado de "revolução agrária permanente", que o intelectual francês Régis Debray havia expressado no amplamente difundido livro Revolution Inside the Revolution e Ernesto "Che" Guevara tentava colocar em prática, primeiro na África e depois, fatalmente para ele, na Bolívia. Em 1966, Castro selecionou um oficial de confiança, Arnaldo Ochoa, para avaliar os guerrilheiros venezuelanos. Ochoa, junto ao comandante guerrilheiro venezuelano Luben Petkoff, tomou um barco para as costas de Falcón, Venezuela, em uma de suas expedições mais secretas. Juntamente com outros 15 membros das forças armadas cubanas, foram às montanhas da Serra de Coro para fortalecer os guerrilheiros de Douglas Bravo que lutavam contra as tropas do governo, terminando em uma grande derrota estratégica com alto custo humano.

Em 1967, ocorreu a Invasão de Machurucuto com 12 cubanos e revolucionários venezuelanos que tentaram ajudar os guerrilheiros venezuelanos nos Andes venezuelanos. Logo depois, Leoni suspendeu as garantias constitucionais e, em uma coletiva de imprensa, denunciou a agressão cubana contra a Venezuela e exibiu dois cubanos capturados: Manuel Gil Castellanos e Pedro Cabrera Torres. Cuba foi denunciada pela Venezuela à Organização dos Estados Americanos. Cuba não reconheceu sua ação mesmo que a investigação do AK-47 em posse dos guerrilheiros tivesse números de série correspondentes a armas vendidas pela República Tcheca a Cuba. O governo da Venezuela rompeu relações com Cuba até 1974. Isso efetivamente encerrou a intervenção cubana nos assuntos venezuelanos.[8] Nessa época, os esquerdistas venezuelanos haviam desistido da violência e buscavam legalização, mas Leoni não a ofereceu. Ochoa foi posteriormente julgado e executado por Castro sob uma acusação improvável de tráfico de drogas.

Enquanto isso, Leoni assinou o Acordo de Cartagena. O precursor da Comunidade Andina, era um bloco comercial em Bogotá entre Venezuela, Chile, Colômbia, Peru e Equador.

Em 11 de março de 1969, Leoni transferiu o poder para Rafael Caldera, membro do partido democrata-cristão COPEI e signatário do Pacto de Punto Fijo. Essa transferência instituiu definitivamente a alternância de poder entre os partidos importantes até o final do século XX na Venezuela.

Vida pessoal e morte

Seu pai era descendente de um "massone" que fugiu para Murato, uma vila na Córsega que na época estava sob a República de Gênova[9]

Raúl Leoni foi casado com Carmen América Fernández, que serviu como primeira-dama da Venezuela de 1964 a 1969 e teve um filho chamado Álvaro.

Leoni morreu em 5 de julho de 1972, aos 67 anos, no Cornell Medical Center em Nova Iorque, onde se recuperava de um tratamento médico após sofrer uma hemorragia.

Referências

  1. Ph.D, Elizabeth Gackstetter Nichols; Morse, Kimberly J. (2010). Venezuela (em inglês). Santa Bárbara: ABC-CLIO. p. 386. ISBN 9781598845709 
  2. «VenezuelaTuya». Venezuela Tuya. Consultado em 17 de dezembro de 2022 
  3. «Leoni, Raúl nell'Enciclopedia Treccani». www.treccani.it (em italiano). Consultado em 17 de dezembro de 2022 
  4. «Leoni, Raúl (1906-1972)». datos.bne.es (em espanhol). Consultado em 17 de dezembro de 2022 
  5. «Memorial da Democracia». Memorial da Democracia. Consultado em 17 de dezembro de 2022 
  6. NEVES, RÔMULO FIGUEIRA (2010). «Cultura Política e Elementos de Análise da Política Venezuelana» (PDF). Consultado em 17 de dezembro de 2022 
  7. Zago, Angela, Aqui no ha pasado nada, 1972
  8. Szulc, Tad, Castro: a Critical Portrait, 1986
  9. alguns historiadores – como Della Volpe e D'Ambrosio – afirmam que Raúl Leoni tem raízes italianas por ser descendente de um refugiado nascido italiano, sob a República de Gênova (que possuía a Córsega até 1770)