Império colonial

Impérios coloniais do ocidente, de 1492 até 2008.

Impérios coloniais foram formações políticas caracterizadas pela dominação de territórios ultramarinos, frequentemente descontínuos em relação à metrópole, estabelecidos sobretudo a partir da expansão marítima europeia iniciada no século XV, no contexto da Era dos Descobrimentos. Diferenciaram-se de formas anteriores de império por se apoiarem em redes oceânicas, estruturas administrativas coloniais e sistemas econômicos voltados à exploração e integração das colônias em circuitos globais de comércio.[1][2]

A formação desses impérios esteve associada ao desenvolvimento da navegação oceânica, da cartografia moderna e do capitalismo mercantil europeu. Portugal e Espanha foram os primeiros Estados a estabelecer domínios coloniais de alcance transcontinental, seguidos, a partir dos séculos XVII e XVIII, por outras potências marítimas, como os Países Baixos, a França e o Reino Unido. A competição entre esses Estados deu origem aos primeiros acordos internacionais de partilha colonial, entre eles o Tratado das Alcáçovas (1479) e o Tratado de Tordesilhas (1494).[3][4]

Entre os séculos XVII e XIX, os impérios coloniais integraram-se em um sistema global de rivalidades políticas, econômicas e militares, atingindo seu auge durante o período do imperialismo do século XIX, quando a expansão colonial se intensificou, particularmente na África e na Ásia.[5] O Império Britânico destacou-se nesse contexto como o maior império colonial da história em extensão territorial e população submetida.[6]

O declínio dos impérios coloniais ocorreu principalmente ao longo do século XX, em especial após a Segunda Guerra Mundial, com o avanço dos processos de descolonização e a formação de novos Estados independentes na Ásia, na África e no Caribe. Paralelamente aos impérios coloniais ultramarinos, existiram formas alternativas de expansão imperial, baseadas na incorporação territorial contínua, como no caso do Império Russo, do Império Otomano e do Império do Japão.[7]

História

Antecedentes históricos

Embora a existência de grandes entidades políticas expansionistas seja um fenômeno recorrente na história humana, os impérios coloniais constituem uma forma específica de dominação imperial, distinta dos impérios da Antiguidade e da Idade Média. Impérios como o Egito Antigo, o Império Romano, o Império Chinês, o Império Inca ou o Império Asteca baseavam-se predominantemente na expansão territorial contígua e na incorporação direta de regiões vizinhas, limitadas pelas condições tecnológicas e logísticas de seu tempo.[1]

Os impérios coloniais, por sua vez, caracterizam-se pela dominação de territórios ultramarinos, frequentemente descontínuos em relação à metrópole, sustentados por redes marítimas, estruturas administrativas diferenciadas e sistemas econômicos orientados para a exploração e a integração em circuitos globais de comércio. Essa forma de império tornou-se historicamente viável apenas a partir do desenvolvimento da navegação oceânica, da cartografia moderna e das transformações econômicas associadas ao final da Idade Média europeia.[2]

Formação dos impérios coloniais europeus (séculos XV–XVI)

A formação dos impérios coloniais europeus está diretamente associada à Era dos Descobrimentos, iniciada no século XV. Nesse contexto, a expansão marítima europeia combinou interesses comerciais, estratégicos, políticos e religiosos, permitindo a projeção do poder europeu sobre vastas áreas da África, da Ásia, das Américas e da Oceania.[4]

O Império Português é geralmente considerado o primeiro império colonial de alcance global, estruturando-se inicialmente como um império marítimo-comercial. A partir da conquista de Ceuta em 1415, Portugal estabeleceu uma rede de entrepostos e possessões ao longo da costa africana, no Atlântico Sul e no Oceano Índico, alcançando posteriormente o Brasil, a África Ocidental, a África Oriental, o Sul da Ásia e o Sudeste Asiático, além de domínios na China e em Timor-Leste.[8][9]

O Império Espanhol consolidou-se sobretudo a partir do século XVI, após a conquista de extensos territórios na América e a incorporação das Filipinas. Diferentemente do modelo português, a expansão espanhola baseou-se amplamente na conquista territorial, na exploração mineral e na implantação de estruturas administrativas complexas, como vice-reinos e audiências.[10]

A rivalidade entre as coroas ibéricas levou à formulação dos primeiros acordos internacionais de partilha colonial, como o Tratado das Alcáçovas (1479) e o Tratado de Tordesilhas (1494), que buscaram regular juridicamente a expansão ultramarina por meio de linhas de demarcação globais.[3]

Consolidação e competição imperial (séculos XVII–XVIII)

A partir do século XVII, a primazia ibérica foi progressivamente contestada por novas potências marítimas europeias. O Império Colonial Holandês destacou-se pelo controle de rotas comerciais estratégicas e pela atuação de companhias privadas, como a Companhia Holandesa das Índias Orientais, sobretudo no Oceano Índico e no Sudeste Asiático.[11]

Em paralelo, desenvolveram-se os impérios coloniais francês e britânico, fortemente vinculados à expansão do comércio atlântico, à colonização de povoamento e à exploração de sistemas econômicos baseados na escravidão e na produção de gêneros tropicais.[12]

Nesse período, os impérios coloniais passaram a integrar-se em um sistema global de rivalidades, no qual conflitos europeus frequentemente se estendiam aos territórios ultramarinos, consolidando a dimensão mundial das disputas imperiais.[13]

Imperialismo e expansão colonial do século XIX

O século XIX marcou uma nova fase da expansão colonial, frequentemente designada como imperialismo, caracterizada pela intensificação da dominação territorial e econômica sobre regiões da África, da Ásia e da Oceania. Esse processo esteve estreitamente ligado à Revolução Industrial, ao avanço tecnológico e à busca por matérias-primas, mercados consumidores e áreas de investimento.[5]

Durante esse período, o Império Britânico atingiu sua máxima extensão territorial, tornando-se o maior império colonial da história em termos de área e população submetida.[6] Paralelamente, potências de unificação tardia, como a Alemanha e a Itália, bem como o Império Belga, ingressaram na competição colonial, especialmente na África, processo formalizado diplomaticamente na Conferência de Berlim (1884–1885).[14]

Declínio dos impérios coloniais e descolonização

O declínio dos impérios coloniais intensificou-se ao longo do século XX, particularmente após a Primeira Guerra Mundial e, de forma decisiva, após a Segunda Guerra Mundial. O enfraquecimento das metrópoles europeias, o fortalecimento de movimentos nacionalistas nas colônias e a pressão internacional por autodeterminação contribuíram para o avanço dos processos de descolonização.[15]

Entre as décadas de 1940 e 1970, grande parte da Ásia, da África e do Caribe conquistou a independência formal, alterando profundamente a ordem internacional e conduzindo à formação de novos Estados soberanos. Esse processo marcou o colapso do sistema colonial europeu, ainda que persistam vínculos políticos, econômicos e culturais entre antigas metrópoles e ex-colônias.[16]

Impérios não europeus e formas alternativas de expansão imperial

Paralelamente aos impérios coloniais ultramarinos, existiram formas de expansão imperial baseadas na incorporação territorial contígua. O Império Russo, em expansão desde o século XVII, estendeu-se pela Eurásia, integrando vastas regiões da Sibéria, do Cáucaso e da Ásia Central. Esse império, sucedido pela União Soviética e posteriormente pela Federação Russa, diferiu dos impérios coloniais marítimos, embora também tenha exercido formas de dominação imperial sobre povos periféricos.[7]

Outros casos relevantes incluem o Império Otomano e o Império do Japão, cuja expansão combinou dominação territorial, controle político e integração econômica, evidenciando a diversidade histórica das formas de imperialismo além do modelo colonial europeu clássico.[17]

Lista de impérios coloniais

Regiões que já pertenceram a um império colonial.
  Império Britânico, Influência
  Império Alemão, Influência
  Império Francês, Influência
  Império Russo, Influência
  1. Portugal Império Português (1415–1999)
  2. Espanha Império Espanhol (1492–1975/presente)
  3. França Império Francês (1534–1980/presente)
  4. Czarado da Rússia, Império Russo Império Russo,  União Soviética e Rússia Federação Russa (1580–presente)
  5. Países Baixos Império Neerlandês (1602–1975/presente)
  6. Reino da Inglaterra Possessões ultramarinas inglesas (1583–1707)
  7. Reino da Escócia Colonização escocesa da América (1621–1707)
  8. Império Britânico Império Britânico (1707–1997/presente)
  9. Austrália Territórios e mandatos sob administração australiana (1901–presente)
    • O domínio australiano, uma colônia que gradualmente aumentou sua independência em 1907, 1947 e 1986, foi encarregado do governo de várias outras colônias e territórios britânicos e o mandato de Samoa. Também foi co-administradora nominal do mandato de Nauru. O território remanescente não autônomo da Nova Zelândia é Tokelau.
  10. Nova Zelândia Reino da Nova Zelândia (1907–presente)
    • O domínio neozelandês, uma colônia que gradualmente aumentou sua independência em 1907, 1947 e 1986, foi encarregado do governo de várias outras colônias e territórios britânicos e o mandato de Samoa. Também foi co-administradora nominal do mandato de Nauru. O território remanescente não autônomo da Nova Zelândia é Tokelau.
  11. União Sul-Africana Mandatos sob administração sul-africana (1915–1990)
    • O mandato do Sudoeste Africano O mandato foi governado pelo domínio domínio britânico da África do Sul, que era uma colônia que gradualmente aumentou sua independência em 1910, 1931 e 1961.
  12. Dinamarca Império Dinamarquês (1620–1979/presente)
  13. Suécia Império Sueco (1638–1663 e 1784–1878)
  14. Cavaleiros Hospitalários (Malta, um vassalo do Reino da Sicília; 1651–1665)
  15. Iniciativas colonias alemãs (1683–1721, 1883–1919)
  16. Colônias da Monarquia Habsburgo[20] e Áustria-Hungria (1719–1750, 1778–1783, 1901–1917)
  17. Ducado da Curlândia e Semigália
  18. Estados Unidos Império Americano (1817–presente)
  19. Império do Japão Império do Japão (1868–1947)
  20. Tailândia Reino de Rattanakosin
  21. Bélgica Império Belga (1885–1962)
  22. Itália Império Italiano (1885–1960)
  23. Noruega Império Norueguês (reinante e territorial 875-1397, apenas territorial 1397-1814)
  24. Império Otomano Império Otomano (1299–1922)
  25. Marrocos Reino de Marrocos (1975–presente)
  26. Mascate e Omã (1652–1892)
    • Dinastia Yaruba (1624-1742)
    • Sultanato de Mascate (1652-1820)
    • Sultanato de Zanzibar (tomado por Omã em 1698, tornou-se capital do Sultanato ou Império de Omã a partir de 1632 ou 1640; até 1890)

Ver também

Referências

  1. a b Pagden 1995, p. 7–10.
  2. a b Bayly 2004, p. 23–31.
  3. a b Russell-Wood 1998, p. 33–52.
  4. a b Elliott 2006, p. 3–28.
  5. a b Darwin 2009, p. 121–160.
  6. a b Ferguson 2003, p. 15–48.
  7. a b Lieven 2000, p. 1–22.
  8. Boxer 1969, p. 1–20.
  9. Subrahmanyam 1997, p. 45–78.
  10. Elliott 2006, p. 63–102.
  11. Israel 1995, p. 295–340.
  12. Bayly 2004, p. 91–130.
  13. Pagden 1995, p. 112–135.
  14. Darwin 2009, p. 235–260.
  15. Darwin 2009, p. 487–520.
  16. Bayly 2004, p. 451–470.
  17. Pagden 1995, p. 173–190.
  18. Milán, Jesús Martínez. «Sidi Ifni en el contexto del colonialismo español en el sur de Marruecos, 1912-1956». Hespéris-Tamuda, vol. XLVI (2011), pp. 39-64. Consultado em 25 de outubro de 2024 
  19. «El Rincón de Sidi Ifni - Un poco de historia...». www.sidi-ifni.com. Consultado em 25 de outubro de 2024 
  20. a b Parte do Sacro Império Romano-Germânico antes de 1804.

Bibliografia

  • Bayly, C. A. (2004). The Birth of the Modern World, 1780–1914. Oxford: Blackwell 
  • Bethencourt, Francisco (2013). Racisms: From the Crusades to the Twentieth Century. Princeton: Princeton University Press 
  • Boxer, C. R. (1969). The Portuguese Seaborne Empire, 1415–1825. London: Hutchinson 
  • Darwin, John (2009). The Empire Project: The Rise and Fall of the British World-System. Cambridge: Cambridge University Press 
  • Elliott, J. H. (2006). Empires of the Atlantic World: Britain and Spain in America, 1492–1830. New Haven: Yale University Press 
  • Ferguson, Niall (2003). Empire: How Britain Made the Modern World. London: Allen Lane 
  • Ferro, Marc (2004). O livro negro do colonialismo. Rio de Janeiro: Ediouro. ISBN 8500013613 
  • Israel, Jonathan I. (1995). Dutch Primacy in World Trade, 1585–1740. Oxford: Oxford University Press 
  • Lieven, Dominic (2000). Empire: The Russian Empire and Its Rivals. New Haven: Yale University Press 
  • Pagden, Anthony (1995). Lords of All the World: Ideologies of Empire in Spain, Britain and France. New Haven: Yale University Press 
  • Russell-Wood, A. J. R. (1998). The Portuguese Empire, 1415–1808. Baltimore: Johns Hopkins University Press 
  • Subrahmanyam, Sanjay (1997). The Portuguese Empire in Asia, 1500–1700. London: Longman