Abedalá ibne Maçude

Abedalá ibne Maçude
Ibne Maçude recita o Alcorão e irrita os idólatras de Meca
Morte
652/3

Abedalá ibne Gafil ibne Habibe ibne Hudail ibne Maçude (em árabe: عبد الله بن غافل بن حبيب بن هذيل بن مسعود; romaniz.: ʿAbd Allāh ibn Ghāfil ibn Ḥabīb ibn Hudhayl ibn Masʿūd),[1] mais conhecido apenas como Ibne Maçude, foi um companheiro do profeta islâmico Maomé. Era de origem beduína e de nascimento humilde. Pelo lado paterno, foi cliente (maula) dos zuraítas, ramo dos coraixitas, o que lhe garantiu ocasional proteção de figuras como Zobair ibne Alauame e Sade ibne Abi Uacas. Foi um dos primeiros a abraçar o Islã, havendo divergência nas tradições quanto à sua posição cronológica entre os convertidos. Seu zelo lhe valeu a estima de Maomé, que lhe confiou tarefas modestas, como carregar suas sandálias e recolher o material do siwāk. Essa proximidade fez de Ibne Maçude uma fonte importante sobre episódios como o Miraje, o Isra e a data da Noite do Destino.

Ibne Maçude recebeu o Alcorão diretamente de Maomé e foi o primeiro a tentar recitá-lo publicamente em Meca, o que lhe rendeu perseguições. Participou da Migração para a Abissínia e retornou a tempo de acompanhar o profeta a Medina na Hégira. Lutou nas batalhas de Badre e de Uude, criticando a cobiça por despojos, e depois manteve atuação discreta até a morte de Maomé. Nesse período, consolidou laços sobretudo com os ançares e com companheiros de origem humilde, como Amar ibne Iacir, Abu Dar Alguifari, Abu Adarda e Salmã, o Persa, entre outros.

Após a morte de Maomé, ganhou maior projeção política e militar, participando da Batalha do Jarmuque e da organização do Iraque conquistado, fixando-se definitivamente em Cufa. Atuou como administrador, embaixador e missionário, mas entrou em conflito com membros da elite coraixita e com autoridades locais, culminando em sua ruptura com o califa Otomão. Sua morte ocorreu em circunstâncias controversas, em Medina ou em Cufa. No campo intelectual, sua influência foi duradoura: seus hádices circularam sobretudo em Cufa, sua leitura corânica diferia em detalhes do texto padrão, e sua exegese corânica revelou afinidades com os Ahl al-Bayt e uma inclinação ao taʾwīl, tornando-o figura central na formação das tradições religiosas e jurídicas cufanas.

Vida

Abedalá ibne Maçude era de origem beduína e nascimento humilde. Seu pai era halife (aliado juramentado) Abedalá ibne Haris ibne Zura, por isso, era cliente (maula) dos zuraítas, um ramo dos coraixitas, o que lhe permitiu, mais tarde, contar ocasionalmente com a proteção de importantes membros desse clã, como Zobair ibne Alauame e Sade ibne Abi Uacas. Por ser filho de uma família pobre, trabalhou na infância como pastor dos rebanhos de Uqueba ibne Abi Muaite. Foi um dos primeiros muçulmanos. Algumas fontes chegam a afirmar (Assacaui) que teria sido a terceira pessoa a abraçar o Islã, depois de Cadija e Ali, enquanto o Iṣāba de Ibne Hajar coloca-o em sexto lugar. Há relatos que atribuem sua conversão a um milagre realizado por Maomé enquanto apresentava-lhe seus rebanhos, assim como tradições segundo as quais ele teria se tornado muçulmano antes de o Profeta se estabelecer na casa de Alarcame ou antes da conversão de Omar. A mãe de Abedalá, Ume Abede binte Abede Aluade, e seu irmão Uqueba também estavam entre os primeiros muçulmanos. Como pouco se sabe sobre seu pai, foi chamado tanto de companheiro (sahābī, filho do companheiro, quanto, em referência à mãe, de Ibne Ume Abde (Ibn Umm ʿAbd). Após tornar-se muçulmano, Ibne Maçude afastou-se de Uqueba ibne Abi Muaite — um dos mais ferrenhos inimigos do Islã — e dedicou-se inteiramente à religião e ao serviço de Maomé.[2]

Diz-se que Ibne Maçude recebeu o Alcorão do próprio Maomé e foi o primeiro a tentar recitá-lo publicamente em Meca, um ato que lhe valeu insultos e perseguições por parte de alguns pagãos. Foi um dos muçulmanos que migraram para a Abissínia, ao lado de Miquedade ibne Anre, que mais tarde se tornaria seu amigo e companheiro de armas. Sabe-se que retornou a tempo de acompanhar o profeta a Medina (Hégira de 622).[1] Ali estabeleceu entre ele, Zobair ibne Alauame e Muade ibne Jabal um pacto de fraternidade (muʾāḫāt). Em Medina, foi reservada para Abedalá, nos fundos da Mesquita do Profeta, uma casa onde viveria com sua mãe; além disso, concedeu-se a ambos permissão para entrar e sair livremente da casa de Maomé. Em razão dessa proximidade, estrangeiros chegavam a supor que pertenciam à família do profeta. Tendo dedicado sua vida ao seu serviço, quando o profeta desejava sair, Ibne Maçude preparava-lhe os calçados, caminhava à sua frente, segurava o pano enquanto ele se lavava e o despertava para a oração quando dormia; quando se sentavam, retirava e guardava seus calçados.[2] Também cabia a ele recolher a planta da qual se faziam os palitos de limpeza dos dentes (siwāk) de Maomé. Essas tarefas o colocavam em estreita proximidade com o profeta, o que explica sua menção como fonte de alguns detalhes sobre a ascensão noturna dele (Miraje), sua viagem milagrosa a Jerusalém (Isra) e sobre a data da Noite do Destino.[1]

As fontes relatam que ele participou de todas as campanhas travadas no tempo de Maomé. Na Batalha de Badre (624), integrou a patrulha de reconhecimento na noite anterior ao combate e, durante a luta, matou Abu Jal, que encontrou ferido. O profeta, em louvor a Abedalá e em agradecimento a Deus por sua morte, entregou a Ibne Maçude a espada de Abu Jal.[2] Na Uude (625), Ibne Maçude foi severo em suas críticas àqueles combatentes excessivamente ávidos por despojos.[1] Além disso, durante um momento de pânico generalizado, esteve entre os poucos que não abandonaram Maomé.[2] É provável que nesse tempo tenha formado, por meio de sua influência pessoal, diversas amizades sólidas, sobretudo entre os ançares, os convertidos vindos de províncias distantes ou os zelosos de origem humilde. A tradição menciona entre seus amigos um importante ançar, Sade ibne Muade, chefe dos aucitas que haviam aderido ao Islã; o iemenita Abu Muça Alaxari; e seus companheiros constantes Miquedade, Amar ibne Iacir, Hudaifa ibne Aliamane, Abu Dar Alguifari, Abu Adarda e Salmã, o Persa.[1] No califado de Abacar (r. 632–634), durante as Guerras Rida, foi incluído entre os encarregados da defesa de Medina e da proteção de seus pontos estratégicos.[2]

Durante o califado de Omar (r. 634–644), participou da Batalha do Jarmuque (636), na qual lhe foi confiada a guarda do espólio. De acordo com Ceife ibne Omar, em 637, após a conquista do Iraque, recebeu algumas terras no distrito. Esteve presente na fundação de Cufa por seu patrono Sade ibne Abi Uacas.[3] Omar o nomearia juiz em Cufa e administrador do bayt al-māl. Posteriormente, com a nomeação de Xurai Alcadi como juiz, Ibne Maçude manteve apenas a função relativa ao tesouro público.[4] Algum tempo depois, retornou à Síria, onde lhe foi confiada uma missão militar e diplomática em Homs. Quando voltou ao Iraque, acompanhando os exércitos que combatiam em duas frentes, assegurou rapidamente a ligação entre a nova colônia árabe de Cufa e o governo central em Medina. Em 642, estabeleceu-se definitivamente em Cufa, no bairro dos Hudail (Ramada), no qual, por razões desconhecidas, preferiu viver em vez do bairro dos coraixitas, ao qual seus patronos zuraítas talvez pudessem tê-lo feito admitir. Ainda assim, serviu como tenente de seu companheiro Amar ibne Iacir.[3]

Após o Assassinato de Omar, retornou a Medina e, depois de algum tempo, foi reconduzido por Otomão (r. 644–656) ao seu antigo cargo em Cufa. Em Cufa, além de suas funções oficiais, lançou as bases das escolas locais de exegese e direito islâmico por meio de sua atividade intelectual e de seus discípulos.[4] Durante essa fase de sua vida, que marcou o auge de sua carreira política, uma vez concluídas as grandes conquistas, tornou-se menos necessário. Em particular, passou a ser alvo do desprezo dos muḥājirūn, coraixitas de nascimento nobre que, como ele, haviam emigrado anteriormente de Meca para Medina. Sade ibne Abi Uacas criticou publicamente sua administração financeira, em razão de sua parcimônia. Em 649/50, criticou o novo governador de Cufa, Alualide ibne Uqueba, cujo comportamento pagão o chocou e o levou a protestar.[5] Em 650/1, foi chamado a Medina por Otomão; contudo, ficou magoado com o califa por este ter enviado Abu Dar Alguifari ao exílio em Arrabada e por ter ordenado a queima de exemplares do Alcorão que divergiam do muxafe oficial. Embora os cufanos lhe prometessem proteção e lhe pedissem que não partisse, ele declarou não desejar que discórdias surgissem por sua causa e obedeceu à ordem de Otomão, retornando a Medina. Ali permaneceu algum tempo, adoeceu e faleceu com mais de sessenta anos, em 652/3 A oração fúnebre foi conduzida por Otomão ou por Amar, e ele foi sepultado no cemitério de Albaqui (Ibne Catir, Ibne Hajar e Atabari). O místico Almunaui contrariamente alegou que ele faleceu em Cufa.[5]

Segundo as fontes, Ibne Maçude tinha bela voz e recitava o Alcorão de modo excelente. Entre os companheiros, era considerado o que mais se assemelhava a Maomé em caráter e modo de vida, esforçando-se ao máximo para imitar seu estilo, vestimenta, moral e atitudes. Ao mesmo tempo em que servia de perto ao profeta, ensinava o Islã aos novos convertidos. Era de baixa estatura, magro e moreno, dotado de extrema humildade. Usava cabelos longos, gostava de vestir-se com asseio e elegância, e era reconhecido mesmo em noites escuras pelo perfume que usava. Teve duas esposas, Raita binte Abedalá e Zainabe binte Moáuia, e três filhos: Abderramão, Oteba e Abu Ubaida. Antes mesmo de ter filhos, Maomé lhe concedeu a cúnia Abu Abderramão, e quando nasceu seu filho deu-lhe esse nome. A grandeza e os serviços de Ibne Maçude devem ser buscados menos em sua atuação política e administrativa e mais em seu papel pioneiro na formação das ciências islâmicas.[6]

Ensinamentos

Hádices

Ibne Maçude ouviu numerosos hádices de Maomé e os transmitiu. Além disso, há hádices que transmitiu por intermédio de Omar, Otomão, Ali e de outros companheiros. Partem de Ibne Maçude isnades nos quais figuram nomes bem conhecidos como Abu Muça Alaxari, Ibne Abas, Inrane ibne Huceine, Jabir ibne Abedalá, Anas ibne Maleque, Abida Assalmani, Anre ibne Xurabil, Alharite ibne Cais,[4] Ibraim Anacai, Alaçaude ibne Iázide e Alcama ibne Cais, associados a um pequeno círculo de íntimos, como Alharite ibne Suaide Alançari, Uabe ibne Zaide, Uail ibne Maana e o filho de Ibne Maçude, Abu Ubaida A estes se associam autoridades mais discutidas como Masruque, Abu Uail, Abu Adua e Habibe ibne Abi Tabite. Em etapas posteriores do isnade aparecem os grandes especialistas em hádice: Sufiane Atauri e Sufiane ibne Uiaina, e o mestre deles Solimão Alamaxe, cujo gosto por narrativas edificantes e belas lendas é bem conhecido. A Ibne Maçude são atribuídos hádices de conteúdo escatológico ou exortativo (como o hádice segundo o qual o Islã terminará no exílio, assim como começou; ou o hádice sobre o dever de manter intacta a unidade da comunidade islâmica).[5]

Dos cerca de 848 hádices sobreviventes, a grande maioria foi por ele transmitida diretamente por Maomé; muitos deles encontram-se no al-Musnad de Amade ibne Hambal e no as-Sunan de Atirmidi. Albucari e Muslim ibne Alhajaje incluíram em conjunto 64 hádices de Ibne Maçude em seus Ṣaḥīḥ. Além disso, Albucari incluiu 21 e Muslim 35 hádices de forma independente. Assim, Albucari registrou 85, e Muslim, 99. Embora inicialmente não fosse favorável à escrita dos hádices, Ibne Maçude demonstrou extrema cautela e rigor na sua transmissão. Segundo Jean-Claude Vadet, o meio cufano lhe permaneceu fiel quanto à transmissão, enquanto os tradicionalistas de outras cidades, devido ao suposto descrédito de seu nome entre os sunitas, teriam evitado recorrer a ele, apresentando-o assim como uma figura duvidosa. İsmail Cerrahoğlu refutou essa afirmação, alegando que é uma distorção da realidade. Segundo ele, entre aqueles que transmitiram hádices a partir dele há estudiosos de todas as regiões. Além disso, concluiu que é natural que em Cufa e arredores — onde permaneceu por longo tempo e ensinou — seus alunos e transmissores fossem mais numerosos.[4]

Alcorão e exegese

Ibne Maçude lançou as bases da escola iraquiana de exegese. Assim como no direito, essa escola valorizou o raʾy (opinião fundamentada) também na interpretação corânica e formou muitos sábios de relevo que transmitiram essas disciplinas às gerações seguintes. Seu saber remontava diretamente a Maomé, que apreciava ouvir sua recitação do Alcorão. Ele estava entre os principais hafizes do Alcorão entre os companheiros e, segundo afirmou, aprendera mais de setenta suras diretamente do profeta. Existe uma cópia do muxafe que ele próprio reuniu e à qual seu nome é associado. As principais diferenças entre essa cópia e o muxafe oficial — reunido por ordem do califa Abacar e multiplicado por Otomão — dizem respeito à ordem das suras, à ortografia de algumas palavras e à presença, em certos pontos, de adições de caráter exegético. Essas adições explicativas e variantes de leitura, além de influenciarem o pensamento posterior, foram úteis para a compreensão das prescrições corânicas e para esclarecer palavras de difícil entendimento. Sabe-se que Ibne Maçude, após recitar uma sura a seus alunos, a explicava longamente e lhes expunha as normas extraídas dos versículos. Ao interpretar os versículos ambíguos (mutashābih), suas principais referências eram o próprio Alcorão e a suna do profeta; além disso, em certos temas, formulou também opiniões pessoais, exercendo o ijtihād.[4]

Até hoje não foi possível reconstruir com certeza, em sua forma externa, o corpus corânico de Ibne Maçude. As variantes preservadas por Ibne Calauai dizem respeito apenas a detalhes. Da obra desse autor depreende-se que Ibne Maçude possuía certa prosaicidade, fazia uso relativamente livre das formas gramaticais do árabe e tinha gosto por definições jurídicas.[5] Ibne Maçude e alguns outros companheiros afirmaram ter registrado em suas cópias particulares explicações de caráter exegético que haviam ouvido do profeta. Embora se saiba que tais adições consistiam em esclarecimentos explicativos e não tinham outro objetivo senão facilitar a compreensão do sentido dos versículos, Ignác Goldziher procurou suscitar dúvidas ao alegar que não está claro se essas adições tinham função meramente explicativa ou se visavam corrigir o texto original. Por exemplo, os hanafitas deduzem a obrigatoriedade de jejuar três dias consecutivos como expiação de um juramento a partir da palavra mutatābiʿāt (متتابعات), presente na cópia particular de Ibne Maçude para o versículo correspondente (Almaida 5:89). Do mesmo modo, ao registrar no versículo 93 da sura Alisra a expressão min zuhruf (من زخرف) como min dhahab (من ذهب), ele facilitou a compreensão do significado lexical do termo.[7]

Ibne Maçude, enquanto exegeta, foi alvo de críticas bastante severas por parte de Atabari, que refletia fielmente a atitude da escola de Meca. Com frequência, ele classifica Ibne Maçude juntamente com Murra Alhandani e Abu Maleque Alaxari numa categoria indeterminada à qual o Tafsīr dá o nome amplo de "companheiros do profeta". Trata-se de um isnade cufano no qual Ibne Abas foi artificialmente incluído. Com ainda mais cautela, Ibne Maçude é separado de seu discípulo Masruque, que, como ele, era frequentemente interrogado sobre as realidades do Além. O testemunho de Ibne Maçude é indispensável para o comentário da sura al-Kahf (XVIII), com seu relato dos Sete Adormecidos, a mais importante passagem escatológica. Como especialista em taʾwīl (comentário alegórico ou interpretativo), Ibne Maçude previu (e mesmo os sunitas o admitem) as dissensões que viriam a dilacerar a comunidade muçulmana (Isāba). Tendo sido testemunha das ocasiões em que Maomé recebeu inspiração e das consequências imediatas dessa inspiração, ele detinha segredos importantes acerca do fim dos tempos e do destino da humanidade.[8]

Alguns relatos segundo os quais Ibne Maçude teria adotado uma atitude de oposição a Otomão e a Zaide ibne Tabite por ocasião da comissão criada para a multiplicação dos exemplares do muxafe foram explorados por orientalistas. Sabe-se, contudo, que tal atitude não foi bem recebida pelos companheiros mais eminentes e que o próprio Ibne Maçude mais tarde se arrependeu dela. Na realidade, quando Abacar encarregou Zaide ibne Tabite da compilação do Alcorão, Ibne Maçude não se opôs, nem tampouco se opôs à comissão instituída por Otomão para a multiplicação dos exemplares. O que o levou a adotar uma postura crítica foi o fato de que, enquanto Abacar não interferira nas cópias particulares, Otomão, por necessidade, ordenara sua destruição. Além disso, manifestou ressentimento por não ter sido incumbido de uma tarefa tão importante quanto a confiada a Zaide ibne Tabite. Abu Becre Alambari explicou a preferência de ambos os califas por Zaide ibne Tabite — apesar de Ibne Maçude ter aceitado o Islã mais cedo e ser mais virtuoso — pelo fato de Zaide memorizar melhor o Alcorão; além disso, sua escrita era alegadamente bela. Outra razão para não se ter incumbido Ibne Maçude dessa tarefa pode ter sido o desejo de assegurar a continuidade de seus serviços e de sua atividade intelectual em Cufa. Pode-se também considerar que sua atitude em relação a Zaide derivava de um sincero espírito de serviço. Com efeito, Ibne Omar transmite que Maomé disse: "Aprendei o Alcorão com quatro pessoas: Ibne Ume Abede (Ibne Maçude), Muade ibne Jabal, Ubai ibne Cabe e Salim".[7]

Segundo Jean-Claude Vadet, admitindo a exatidão dos dados do Kitab al-Fihrist de Ibne Anadim (editado por Theodor Nöldeke) e supondo que a recensão que há de Ibne Maçude é autêntica, Ibne Maçude deixou de explorar o conhecimento íntimo que possuía, como companheiro, da biografia de Maomé e das circunstâncias específicas que acompanharam cada revelação. Isso pode dever-se à falta de senso de sequência, à negligência, a preconceitos literários ou à falsificação intencional de um documento com viés xiita, em benefício do sunismo.[5] Para Vadet, seu modo de pensar devia estar mais próximo daquele que prevalecia entre os Ahl al-Bayt (família de Maomé) do que da mentalidade aristocrática do círculo de Otomão. Faz-se referência às passagens prediletas de Ibne Maçude, aquelas que ele provavelmente desenvolveu de maneira mais plena em seu ensino: por exemplo, o versículo 40 da sura V, considerado pelos xiitas como confirmando a dignidade dos imames enquanto supremos "testemunhos" e tenentes de Deus (Alculaini, Tawḥīd, 190), e a sura LVI.[9] İsmail Cerrahoğlu, novamente, contrasta essa visão, ao assumir que o sentimento de Ibne Maçude pela Ahl al-Bayt era comum entre os muçulmanos, de modo que não possa presumir alguma inclinação particular. Além disso, Cerrahoğlu corrobora que a rixa com Otomão foi menos grave do que Vadet pressupôs para justificar uma inclinação xiita. Os relatos sobre as conversas entre ele e Otomão — quando este o visitou em seu leito de morte para perguntar sobre seu testamento e seus desejos — bem como as tradições segundo as quais foi o próprio Otomão quem conduziu sua oração fúnebre, mostram que tal ressentimento não era particularmente significativo.[7]

O desejo dos xiitas que se opunham a Otomão no tocante ao califado de se inclinarem por uma cópia do muxafe diferente daquela oficial multiplicada por ele levou-os a se interessarem pela cópia atribuída a Ibne Maçude e, consequentemente, a lhe imputarem o xiismo. Alguns xiitas apresentaram em Baguedade, no ano 398 A.H. (1007/8), uma cópia que atribuíram a Ibne Maçude. No entanto, essa cópia, que continha acréscimos e omissões, foi queimada por decisão jurídica (fátua) do grande jurista xafeíta da época, o cádi Abu Hamide Alisfaraini. Por outro lado, a cópia oficial multiplicada por Otomão fora aceita pelo consenso (ijma) dos companheiros. Ainda que alguns xiitas extremistas tenham alegado que Otomão alterou o muxafe ao omitir certos elementos relativos a Ali, nem mesmo os eruditos xiitas que escreveram obras e compuseram exegeses aceitaram tal acusação. De fato, Ali nunca manifestou uma opinião divergente sobre o muxafe oficial, nem durante o período de Otomão nem durante o seu próprio califado. Os mais célebres alunos formados por Ibne Maçude nos campos da exegese (tafsīr) e da recitação (qirāʾa) foram Haçane de Baçorá, Catada ibne Diama, Abu Abderramão Assulami e Abu Anre Isaque ibne Mirar Axaibani.[10]

Jurisprudência

Assim como nos campos do hádice e das ciências do Alcorão, Ibne Maçude ocupa também uma posição de destaque no domínio do fiqh. Quando Omar se tornou califa, encarregou Ibne Maçude de administrar as funções judiciais, educacionais e de ensino em Cufa, cidade habitada por pessoas de diferentes culturas, modos de vida e valores. Assim, ele permaneceu em Cufa por longo tempo, dirigindo as atividades intelectuais; e, assim como teve papel decisivo na fundação da escola de Cufa nas áreas do tafsīr e da leitura corânica (qirāʾa), desempenhou também o papel mais importante na formação dessa escola no campo do fiqh. Segundo as fontes, pode-se dizer que, entre os companheiros de Maomé, não há outro além de Ibne Maçude cujas opiniões e pareceres jurídicos (fátua) tenham sido sistematicamente postos por escrito por seus alunos. Por ter-se dedicado inteiramente à atividade intelectual, os discípulos que ele formou superaram os dos demais tanto em número quanto em qualidade. Como consequência, na região do Iraque difundiram-se sobretudo as opiniões de Ibne Maçude, ao lado das de Omar e Ali, e por essa razão passou-se a sustentar posteriormente que o verdadeiro fundador dessa escola — sistematizada mais tarde por Abu Hanifa — foi Ibne Maçude.[10]

Os dois traços mais característicos da escola jurídica iraquiana — o princípio de recorrer à opinião pessoal (raʾy) e ao raciocínio analógico (qiyās) quando não há texto explícito, e o princípio de preferir o ijtihād a hádices cuja autenticidade não seja comprovada com certeza — baseiam-se fundamentalmente no modo de pensar de Ibne Maçude. Também se sabe que, depois de emitir uma opinião em matéria para a qual não havia um texto explícito (naṣṣ), ele dizia: "Se estiver correta, vem de Deus; se estiver errada, vem de mim e de Satanás; e Deus e Seu Mensageiro estão livres disso" (Ibne Alcaim, I.81). Entre os principais representantes da primeira geração que adquiriu conhecimento diretamente de Ibne Maçude e desempenhou papel importante na fundação da escola jurídica de Cufa estão: Alcama ibne Cais, Alaçaude ibne Iázide, Abida Assalmani, Masruque, Anre ibne Xurabil e Alharite ibne Cais. Na cadeia de mestres que chega até Abu Hanifa, o primeiro elo é Alcama ibne Cais; entre seus discípulos mais destacados estão Ibraim Anaca e Amir Axabi. O mais célebre discípulo destes, Hamade ibne Abi Suleimão, foi o principal mestre de Abu Hanifa, junto de quem este estudou por cerca de vinte anos. Além de Abu Hanifa, outros herdeiros intelectuais de Ibne Maçude são Sufiane Atauri, Ibne Abi Laila e Ibne Xubruma. As opiniões jurídicas de Ibne Maçude, que se encontram dispersas nas fontes, foram reunidas por Muḥammad Rawwās Qalʿajī e publicadas sob o título Mawsūʿat fiqh ʿAbd Allāh b. Masʿūd (Cairo, 1984), entre as publicações da Universidade Umm al-Qurā de Meca. A obra foi organizada em estilo enciclopédico, segundo termos técnicos e temas.[10]

Referências

  1. a b c d e Vadet 1971, p. 873.
  2. a b c d e Cerrahoğlu 1988, p. 114.
  3. a b Vadet 1971, p. 873-874.
  4. a b c d e Cerrahoğlu 1988, p. 115.
  5. a b c d e Vadet 1971, p. 874.
  6. Cerrahoğlu 1988, p. 114-115.
  7. a b c Cerrahoğlu 1988, p. 116.
  8. Vadet 1971, p. 875.
  9. Vadet 1971, p. 874-875.
  10. a b c Cerrahoğlu 1988, p. 117.

Bibliografia

  • Cerrahoğlu, İsmail (1988). «Abdullah b. Mes'ûd». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 1. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 30 de dezembro de 2025 
  • Vadet, J.-C. (1971). «ibn Masʿūd». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, New Edition, Volume III: H–Iram. Leida: E.J. Brill. pp. 126–131. ISBN 90-04-08118-6