Jabir ibne Abedalá
Abu Abedalá Jabir ibne Abedalá ibne Anre ibne Harame Alançari (em árabe: أبو عبد الله جابر بن عبد الله بن عمرو بن حرام الأنصاري; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Jābir ibn ʿAbd Allāh b. ʿAmr b. Ḥarām al-Anṣārī; m. 697) foi um proeminente companheiro do profeta islâmico Maomé e narrador de hádices.
Vida
Primeiros anos
Jabir ibne Abedalá nasceu em Medina em 607. Pertencia ao clã salimaíta dos cazerajitas e também era conhecido pelas cúnias Abu Abderramão e Abu Maomé. Seu pai era Abedalá ibne Anre ibne Harame, um dos companheiros de Maomé morto na Batalha de Uude (625), e sua mãe era Anissa (Unaissa) binte Anama, uma das mulheres companheiras que prestaram o juramento de fidelidade ao profeta. Em 622, Jabir participou com seu pai do Segundo Juramento de Ácaba e era o mais jovem membro da delegação. Segundo ele próprio, na época era ainda uma criança tão pequena que mal conseguia atirar uma pedra. Embora se relate, com base em sua narração, que teria participado da Batalha de Badre (624) e, devido à escassez de água, descido a um poço para encher os baldes (Abu Daúde Assijistani, Jihād, 141), as tradições autênticas indicam (Muslim, Jihād, 145) que ele não esteve presente nessa batalha, pois foi incumbido por seu pai dos cuidados de suas sete (ou nove) irmãs. Quando eventualmente seu pai foi morto em Uude, Jabir compareceu a todas as expedições.[1]
Tempo de Maomé
A primeira expedição que Jabir tomou parte foi a Expedição de Hanra Alaçade, realizada logo após Uude para perseguir o inimigo. Ao saber que apenas aqueles que haviam combatido em Uude no dia anterior estavam autorizados a participar, apresentou-se diante de Maomé e explicou que não pudera ir à batalha por ter de cuidar das irmãs, obtendo dele uma autorização especial. Depois disso, participou de dezenove expedições juntamente com o profeta. Esteve presente no Juramento da Satisfação (Bayʿat al-Riḍwān) em Hudaibia e narrou que o profeta disse ali aos 1 400 presentes: "Hoje vós sois as melhores pessoas da terra" (Albucari, Maghāzī, 35). Nos últimos anos de sua vida, ao mencionar esse episódio, dizia que, se não tivesse perdido a visão, poderia indicar a árvore sob a qual haviam prestado o juramento.[2]
Jabir foi um dos companheiros que gozaram de especial apreço e atenção de Maomé. Algumas tradições que demonstram essa proximidade ocupam lugar importante nos livros de hádice. Numa das histórias diz-se que, após a morte do pai, Jabir se viu obrigado a cuidar de seus irmãos órfãos e pagar as dívidas deixadas pelo pai, caindo em grande dificuldade financeira. A maioria de seus credores, judeus, exigiu o pagamento quando chegou o tempo da colheita das tâmaras. Jabir explicou ao profeta que não possuía outra fonte de renda além do pomar e que a colheita daquele ano não bastaria para quitar a dívida. Maomé mandou reunir as tâmaras em vários montes e sentou-se junto ao maior deles; tomando a medida nas mãos, passou a distribuir a cada credor a quantidade que lhe era devida, mas milagrosamente as tâmaras não diminuíram (Albucari, Waṣāyā, 36; Maghāzī, 18).[3]
Tempos depois, após casar-se, Jabir ouviu sobre a Expedição de Date Arrica e participou dela. No retorno, Maomé percebeu que o camelo fraco e malcuidado dele ficara para trás; ordenou-lhe que o fizesse ajoelhar e, batendo-o com um bastão, o animal sem forças se revigorou a ponto de ultrapassar muitos outros camelos. Durante a viagem, ao conversar com ele e saber que ele havia se casado, Maomé perguntou se fora com uma virgem ou com uma viúva. Ao saber que se tratava de uma viúva, comentou que casar-se com uma jovem poderia trazer mais alegria; Jabir explicou que preferira uma mulher capaz de cuidar das crianças e que não achara adequado introduzir alguém da idade delas entre suas irmãs, recebendo então a bênção de Maomé. Nessa mesma viagem, Maomé, ciente de suas dificuldades financeiras, pediu a Jabir que lhe vendesse o camelo. Após longa negociação, comprou-o com a condição de que fosse entregue ao chegar a Medina. Quando Jabir levou o animal, o profeta pagou-lhe o valor combinado e ainda lhe devolveu o camelo como presente. Esse episódio ficou conhecido como "a noite do camelo" (Laylat al-baʿīr). Jabir dizia que, naquela noite, Maomé pediu perdão por ele vinte e cinco vezes.[3]
Período califal inicial
Segundo a tradição predominante nas fontes xiitas, Jabir figura, ao lado de Salmã, Abu Dar Alguifari e outros, entre os seis ou sete companheiros que, no episódio da Saquifa, permaneceram fiéis aa Ali, reconhecendo-lhe o direito ao imamato e à sucessão de Maomé.[4] Dos relatos transmitidos por Jabir, sabe-se sobre ações de Omar (r. 634–344), das conquistas islâmicas, das revoltas contra Otomão (r. 644–656) e seu eventual assassinato, sobre as campanhas de Ali e acontecimentos do califado de Moáuia I (r. 661–680).[4] Aparentemente, participou de diversas campanhas militares, especialmente da conquista da Síria, e sabe-se que foi encarregado por Omar de representar sua tribo (arife) entre os ançares.[2] A tradição xiita afirma que combateu ao lado de Ali na Batalha de Sifim contra Moáuia. Em 660/1, às vésperas do assassinato de Ali, Moáuia envio a Medina Busre ibne Abi Artate para exigir que a população prestasse juramento de fidelidade a ele. Diz-se que Jabir qualificou esse ato como uma "aliança do desvio" (bayʿat ḍalāl) e criticou o comportamento de Moáuia para com os habitantes de Medina.[4] Jabir declarou que não aceitaria o juramento de ninguém antes de prestar o seu próprio. Em seguida, após consultar a mãe dos crentes, Ume Salama, prestou juramento, ainda que contrariado.[2] Pouco depois, numa viagem à Síria, adotou uma postura crítica diante de Moáuia, recusando seus presentes (Almaçudi, 3/115–116).[4]
Em 670, quando Moáuia quis levar para Damasco o púlpito e o bastão de Maomé, alegando que os habitantes de Medina haviam assassinado Otomão, Abu Huraira e Jabir o dissuadiram dessa intenção.[5] Na tradição xiita, quarenta dias após o Axura, foi a Carbala para visitar o túmulo de Huceine (m. 680), e essa visita é considerada a primeira iniciativa xiita de celebração do Arbaim de Huceine.[4] Em 683/4, quando Moáuia II (r. 683–684) abdicou e Abedalá ibne Zobair (r. 683–692) reivindicou o califado, Jabir, Ibne Abas e Ibne Omar eram líderes do Hejaz e eram consultados por Ibne Zobair. Contudo, após o retorno do califado aos omíadas e a morte de Ibne Zobair pelas mãos de Alhajaje ibne Iúçufe, e depois de Alhajaje ter sido nomeado governador do Hejaz (693/4) por Abedal Maleque (r. 685–705), Jabir adotou uma posição de oposição a ele. Segundo algumas fontes, sua posição como um ancião respeitado entre os companheiros impedia Alhajaje de atacá-lo, porém, outros, como Iacubi, registram que, quando Alhajaje puniu alguns companheiros, Jabir também esteve entre aqueles cujos pescoços foram marcados a ferro por ordem dele (algumas fontes falam em marcas nas mãos[5]).[4]
Jabir perdeu a visão nos últimos anos de sua vida e faleceu em Medina no ano 78 (697); também se afirma que teria morrido em 68, 73 ou 77. Diz-se que viveu 94 anos e, por isso, foi considerado um dos longevos. Relata-se que recomendou que Alhajaje não conduzisse sua oração fúnebre e que, quando morreu, a oração foi conduzida por Abane ibne Otomão, filho de Otomão e então governador de Medina. Embora exista uma tradição segundo a qual Alhajaje teria conduzido sua oração fúnebre, Adaabi considerou esse relato estranho, até mesmo reprovável (Aʿlām al-nubalāʾ, III, 193).[5] A tradição que coloca sob Alhajaje a responsabilidade da oração afirma que ela teria causado um conflito entre o governador e Haçane ibne Haçane, neto de Ali. Seja como for, Jabir foi sepultado no cemitério de Albaqui.[4] Ele foi o último sobrevivente entre os que participaram do Juramento de Ácaba. Relata-se que usava um izar que não lhe cobria os tornozelos, enrolava um turbante branco na cabeça deixando a ponta cair para trás e que, ocasionalmente, tingia de amarelo (em algumas tradições, de vermelho) seus cabelos e barba completamente brancos.[5]
Xiismo
Jabir está entre aqueles companheiros cuja veneração é consensual tanto entre xiitas quanto entre sunitas. Suas posições específicas em relação à Ahl al-Bayt (família de Maomé) e sua postura crítica não apenas em relação aos primeiros califas e aos califas omíadas levaram os xiitas a considerá-lo entre os precursores de sua escola. Segundo uma tradição, o imame Jafar Açadique incluiu Jabir entre aqueles que se dedicaram inteiramente à Ahl al-Bayt, e em outra tradição ele figura entre alguns dos companheiros de Ali aos quais foi anunciada a boa-nova do Paraíso. Alcaxi também transmitiu diversos relatos em seu elogio, um dos quais o hádice no qual Maomé teria previsto a longa vida de Jabir e lhe pedido que transmitisse suas saudações a Maomé Albaquir, o quinto imame dos xiitas.[4]
Os relatos de Jabir são utilizados em temas como a designação (waṣāya) de Ali, sua autoridade sobre os crentes, a identificação do "caminho reto" com ele e o papel dos doze imames na religião. Segundo tradições de origem xiita, Jabir teria transmitido pessoalmente ao imame Albaquir a saudação enviada por Maomé. Afirma-se ainda que, com a permissão de Fátima, ele copiou um documento escrito enviado diretamente por Deus a ela, no qual constavam os nomes dos imames e a ordem de sua sucessão. Quando Albaquir se encontrou com Jabir, interrogou-o sobre esse documento, comparou a cópia feita por ele com a que possuía e constatou que não havia diferenças entre elas. Nenhuma dessas alegações aparece nas fontes sunitas.[6]
Ensino
Jabir desfrutava de especial prestígio científico entre os companheiros. Segundo Hixame ibne Urua, ele mantinha um círculo de ensino na Mesquita do Profeta, em torno do qual se reuniam seguidores da geração dos tābiʿūn, como seus filhos Abderramão, Aquil e Maomé, bem como Saíde ibne Almuçaibe, Ata ibne Abi Raba, Haçane de Baçorá, Maomé ibne Almoncadir, Bilal ibne Sade, Mujaide, Amir Axabi, Taus ibne Caiçane e Maomé Albaquir.[3] Quanto à sua posição intelectual, Jabir deve ser contado entre os companheiros mais jovens, com uma inclinação mais próxima de Ibne Abas e distinta da de Ibne Omar. Embora algumas leituras e grafias do texto do Alcorão tenham sido atribuídas a ele, sua abordagem do Alcorão era predominantemente interpretativa. Além dos hádices exegéticos transmitidos por ele, os textos de exegese narrativa também preservam um conjunto de suas opiniões interpretativas. Entre os relatos exegéticos preservados de Jabir, as ocasiões da revelação (asbāb al-nuzūl) ocupam lugar especial, de modo que algumas narrativas indicam que ele era uma referência para os tābiʿūn em questões relativas a esse tema.[4]
Hádices
Jabir transmitiu numerosos hádices de Maomé, bem como de Abacar, Omar, Ali, Amar ibne Iacir, Abu Ubaida ibne Aljarrá, Muade ibne Jabal, Zobair ibne Alauame, Abuçaíde Alcudri, Abu Huraira e outros companheiros. Ele próprio tornou-se uma referência para o hádice profético entre os tābiʿūn, e figuras proeminentes dessa geração, em Medina — como Saíde ibne Almuçaibe, Abu Salama ibne Abderramão, Solimão ibne Iassar, Urua ibne Zobair, Maomé ibne Almoncadir e Ibne Xiabe Azuri —, bem como tābiʿūn de Meca, como Ata ibne Abi Raba, Mujaide ibne Jabre, Anre ibne Dinar, Abu Zobair Almaqui e Icrima, liberto de Ibne Abas, aprenderam hádice com ele. Entre eles aparecem nomes célebres de outras regiões, como Haçane de Baçorá, Amir Axabi de Cufa e Taus ibne Caiçane do Iêmem.[4]
Jabir é um dos seis companheiros que transmitiram mais de mil hádices (al-muksirūn), com 1 540 relatos preservados nas coleções. 58 deles constam em Albucari e Muslim; além disso, 26 aparecem apenas no Ṣaḥīḥ de Albucari e 126 apenas no Ṣaḥīḥ de Muslim. Seus relatos encontram-se reunidos também no Musnade de Amade ibne Hambal (III, 292–400). Menciona-se ainda uma folha (ṣaḥīfa) intitulada Kitāb al-Manāsik, contendo suas tradições sobre a peregrinação. Sabe-se que Jabir empreendeu uma longa viagem de um mês, montado em camelo, até Damasco para ouvir diretamente de Abedalá ibne Unais um hádice que este ouvira do profeta, segundo o qual quem tivesse cometido injustiça contra alguém não entraria no Paraíso (Albucari, Tawḥīd, 32).[3]
Direito islâmico
Jabir figurava entre os companheiros que emitiam pareceres jurídicos (fátuas) em Medina, e suas fátuas ocupam o volume de um pequeno caderno. Registra-se também que um de seus discípulos, Solimão ibne Cais Aliascuri, escreveu e transmitiu uma ṣaḥīfa a partir dele (Ibne Hajar, Tahdhīb al-Tahdhīb, IV, 215).[6] Nos círculos xiitas, embora os relatos jurídicos preservados de Jabir nas Quatro Obras e em outras coletâneas de hádices sejam poucos, uma cadeia de transmissão apresentada na Mashyakha de Man lā yaḥḍuruhu al-faqīh (Ibne Babauai, 4/445) mostra que, nos primeiros séculos da Hégira, ainda circulava entre os imamitas uma versão contendo um conjunto de tradições jurídicas de Jabir. Na cadeia dessa versão aparecem nomes como Jabir Aljufi e Almufadal ibne Omar como transmissores.[4]
No campo do direito islâmico (fiqh), Jabir era reconhecido como autoridade emissora de pareceres jurídicos em Medina e, especialmente após a morte de Abedalá ibne Omar (m. 693), tornou-se uma referência incontestável no fiqh medinense. Não apenas uma parte significativa dos hádices transmitidos por Jabir nas obras sunitas possui valor jurídico, como também seus pareceres (fátuas), enquanto jurista e mufti de Medina, foram considerados pelos estudiosos posteriores e registrados nas obras de tradições jurídicas. Abu Isaque Axirazi o incluiu entre os companheiros dos quais o fiqh foi aprendido, e, na prática, uma ampla gama de suas opiniões jurídicas pode ser rastreada em diversas fontes. Parte importante dessas opiniões pode ser encontrada nos escritos antigos das escolas maliquita e xafeíta, e outra parte nas obras de fiqh comparado. Ele por vezes também transmitiu pareceres jurídicos de companheiros influentes, como Abacar e Omar. Mūsā ibn ʿAlī ibn Muḥammad Amīr, em um livro intitulado Jabir wa-fiqhuhu, esforçou-se por apresentar uma forma sistematizada do fiqh de Jabir com base nas amplas transmissões presentes nas fontes (Beirute, 2000).[4]
Uma das características importantes do fiqh de Jabir é sua visão dinâmica do direito: em alguns casos, ele aponta que, na época de Maomé, existiram dois julgamentos diferentes sobre uma mesma questão, sendo um posterior ao outro, o que constitui uma referência à ab-rogação ou ao aperfeiçoamento de uma norma. Essa característica se manifesta de forma ainda mais clara em relação às transformações ocorridas no período dos companheiros; por exemplo, ele recorda que decisões como a supressão da expressão ḥayya ʿalā khayr al-ʿamal no adhān, a proibição da venda da ume ualade e a proibição do matrimônio temporário (mutʿa) pertenciam à época do segundo califa, ao passo que, no tempo de Maomé e do primeiro califa, vigorava uma norma diferente. Independentemente dos hádices transmitidos por Jabir nas fontes imamitas, nas obras jurídicas e tradicionais xiitas também se encontram referências ocasionais a alguns de seus pareceres jurídicos. Nesse contexto, foram particularmente valorizadas pelos imamitas aquelas opiniões jurídicas de Jabir que auxiliavam seus argumentos contra os sunitas, em questões como a licitude do mutʿa e a rejeição da taʿṣīb na herança.[4]
Referências
Bibliografia
- Kandemir, Mehmet Yaşar (1992). «Câbir b. Abdullah». TDV İslâm Ansiklopedisi’nin [Enciclopédia Islâmica TDV]. 6. Istambul: Turkiye Diyanet Vakfi Islâm Ansiklopedisi [Fundação Religiosa Turca Enciclopédia Islâmica]. Consultado em 1 de janeiro de 2026
- Paktchi, Ahmad (2019). «Jābir ibn ʿAbd Allāh al-Anṣārī [جابر بن عبدالله انصاری]». Encyclopaedia Islamica. Teerã: Centro para a Grande Enciclopédia Islâmica