Fazenda Independência (Bananal)

Fazenda Independência
Fazenda Independência (Bananal)
Tipo fazenda
Inauguração 1813 (213 anos)
Geografia
Coordenadas 22° 36' 56.278" S 44° 13' 59.702" O
Localização Bananal - Brasil
Homenageado Independência do Brasil

A Fazenda Independência é uma antiga fazenda de Café do século XIX, que fica no município de Bananal, estado de São Paulo, no chamado Vale do Paraíba e também no Caminho Novo da Piedade (que ia de Lorena até a cidade do Rio de Janeiro).

Economia do café

O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).[1]

Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.[1][2]

Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".[3]

No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:[4]

A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].[4]

História

A Fazenda Independência foi fundada em 1813 e foi uma das grandes produtoras do período cafeicultor. Seu primeiro proprietário foi Pedro Luiz Pereira e Souza, o qual recebeu terras como dote de casamento do sogro, o Comendador Valim. Entre 1995 e 2012, a fazenda pertencia à família Tumbolo, de Jaú, quando o hotel-fazenda encontrava-se à venda.[5]

O hotel-fazenda iniciou suas atividades com a oferta de cinco suítes, no antigo porão do casarão. Em 2012, eram oito suítes no porão e cinco no andar principal, além de cinco chalés; comportando ao todo 80 pessoas.[5]

Nota-se um forte legado que a associa à aristocracia Imperial, ao ciclo cafeeiro e à Independência do Brasil.[5]

Arquitetura

O casarão da Fazenda Independência é uma edificação térrea de aspecto assobradado, em estilo neoclássico, planta quadrangular, com porão e pátio interno. A senzala ficava no porão, enquanto o andar superior servia como residência.[5][4] A casa era pintada e impapellada, com um terraço ao lado,[6] aberturas com bandeiras em arco e caixilhos delicados.[4]

No inventário de 1884, indica-se a composição interna da casa em termos de compartimentos e móveis:[4]

sala de jantar; terraço; sala de espera; corredor; sala de visitas; sala de costura; quarto grande da sala de visitas; quartos da sala de visitas; sala da frente do 2° andar; quarto; sala e livraria.[4]

No corredor, são indicados aparadores de pedra mármore, um lavabo de parede e doze quadros emoldurados, um sofá, uma mesa com quatro cadeiras. Já chamada "livraria" se constituía em uma biblioteca com dois mil livros de diversos autores, tais como Shakespeare, Homero, Tácito, Ésquilo, Cervantes, Montaigne e Victor Hugo, e dos brasileiros Machado de Assis e Casemiro de Abreu; além de uma coleção "História do Brasil" em cinco volumes e de um exemplar do "Dicionário Caldas Aulete".[4]

Ainda dentre o mobiliário que ornamentava o interior do casarão, sabe-se de:[4]

  • Conjunto em madeira de nogueira e encosto de palhinha: um canapé, quatro cadeiras de braços, dezoito cadeiras simples, uma mesa de centro e dois dunquerques;
  • Cadeira de balanço com assento e encosto de pano;
  • Cadeira em madeira de mogno;
  • Canapé estufado;
  • Poltrona com marcas de uso;
  • Piano meio armário, em madeira de jacarandá, da marca Gaveau, sete oitavas e um môcho;
  • Lustre duplo;
  • Bilhar pequeno;
  • Jogo de bagatella;
  • Duas mesas redondas pequenas;
  • Par de escarradeiras de porcelana;
  • Dois tapetes;
  • Lampião;
  • Quadro grande emoldurado (modelo rico)
  • Vinte e um quadros emoldurados;
  • Dois capachos; e
  • Duas serpentinas da marca Christofle.

Reformas

A última reforma grande do casarão ocorreu na década de 1980, com intuito de convertê-lo em hotel-fazenda: a entrada principal foi deslocada para o pavimento térreo, onde antes era a senzala; condições de habitação e unidades sanitárias foram melhoradas.[5] A senzala dos escravizados domésticos foi transformada em porão / espaço de lazer para os hóspedes.[7]

[...] a senzala, que se transformou em um porão para uso dos hóspedes, e outros equipamentos de lazer instalados na fazenda, como a piscina e a sauna, distanciam o visitante do sentido impresso neste lugar pelos seus usos pregressos. Descansando naquelas antigas senzalas, se ignora quantos dali conseguiram fugir, quais os seus nomes, sua origem, quantas mulheres ali teriam parido seus filhos.[7]

Apesar das reformas realizadas ao longo dos anos, mantiveram-se a simetria na distribuição das aberturas e sua composição em arco.[4]

Outras edificações

A Fazenda Independência contava ainda com um quarto e uma casa de um lanço, ambos cobertos de telhas, que serviam como Hospital. Seis mais três tulhas com vários lanços, além de engenhos, sendo o de café com um dos lados assobradado; o que "parece constituir uma necessidade, pelo menos no estágio mais avançado da produção no vale do Paraíba".[4]

O engenho era implantado junto a um desnível do terreno para possibilitar a construção em sobrado (com apenas um lado assobradado), de modo a obter maior coluna d'água e, consequentemente, maior envergadura para a roda d'água. Muitas fazendas se valeram da construção de muros de arrimo para apoiar a estrutura do pavimento superior. Esta era uma gaiola com vedação de adobe ou pau-a-pique.[4]

Ver também

Referências

  1. a b Júnior, Caio Prado (1949). História econômica do Brasil. [S.l.]: Editôra Brasiliense. Consultado em 4 de fevereiro de 2026 
  2. Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.
  3. TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.
  4. a b c d e f g h i j k Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
  5. a b c d e César, Pedro de Alcântara Bittencourt; Stigliano, Beatriz Veroneze (7 de novembro de 2012). «Patrimônio rural e sua relação entre o local e o visitante: um estudo de Bananal (SP)». Revista Rosa dos Ventos - Turismo e Hospitalidade (2). ISSN 2178-9061. Consultado em 13 de novembro de 2025 
  6. Carrilho, Marcos José (2006). «Fazendas de café oitocentistas no Vale do Paraíba». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material: 59–80. ISSN 0101-4714. doi:10.1590/S0101-47142006000100003. Consultado em 26 de novembro de 2025 
  7. a b Gagliardi, Clarissa Maria Rosa (2023). «Narrativas turísticas de paisagens escravistas: práticas de memória na interpretação do patrimônio cultural do Vale do Paraíba, SP». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material: e19. ISSN 0101-4714. doi:10.11606/1982-02672023v31e19. Consultado em 13 de novembro de 2025