Fazenda dos Coqueiros (Bananal)

Fazenda dos Coqueiros
Fazenda dos Coqueiros (Bananal)
Tipo fazenda
Inauguração 1855 (171 anos)
Página oficial (Website)
Geografia
Coordenadas 22° 41' 4.196" S 44° 21' 44.046" O
Localização Bananal - Brasil
Patrimônio bem de interesse histórico em Bananal

A Fazenda dos Coqueiros, também conhecida como Fazenda Coqueiros, é uma antiga propriedade rural, construída em 1855 para o Major Cândido Ribeiro Barbosa e sua esposa Joaquina Maria de Jesus. A fazenda fez parte do Ciclo do café no Vale do Paraíba, estando localizada na Rodovia dos Tropeiros Km 309, na cidade de Bananal, no estado de São Paulo.[1][2]

Economia do café

O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).[3]

Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.[3][4]

Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".[5]

No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:[6]

A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].[6]

História

Em 1844, o cafeicultor João Rebelo de Mendonça faleceu, deixando propriedade e 61 escravizados para a viúva e seus quatro filhos (três deles menores de idade). No ano seguinte, a viúva casou-se com o negociante João Lopes Brasil, que, em 1847, vendeu sua parte da propriedade (provavelmente, uma parcela das terras da viúva) para Candido Ribeiro Barbosa, fazendeiro que estava ampliando suas posses, nos seguintes termos:[7]

22 contos de reis nas letras que o comprador tem a pagar e nos prazos que com ele se convencionou, a saber: em 2 anos, 8 contos de reis; no 3º ano outros 8 contos; e no 4º ano 6:120$000, sendo 3:120$000 de juros que o suplicante se obriga a pagar pelos 4 anos, ficando 3:000$000 em poder do suplicante para pagamento que devem os órfãos a José da Agonia Alvares de Magalhaes, quando se liquidaram suas contas, ficando este de verificar esse pagamento [...] ao mesmo juro de 6% o que tudo perfaz a quantia de 25:120$000, incluindo os juros de 4 anos.[7]

A propriedade foi paga a prazo e já possuía cafezais produtivos, ferramentas, espaço de beneficiamento do café e escravizados trabalhando.[7][8]

Em 1852, a Fazenda Coqueiros fazia parte de um complexo de fazendas, em conjunto com as fazendas Bom Retiro e Campinhos, onde, ao todo, trabalhavam 340 pessoas escravizadas e havia mais de 730 mil pés de café produtivos.[9]

A sede da fazenda foi construída em 1855 para o Major Cândido Ribeiro Barbosa e sua esposa Joaquina Maria de Jesus. Quando o Major faleceu, em 1875, 282 pessoas escravizadas constavam do inventário da propriedade; o que o colocava no status de "mega proprietário". Nesse período, "A riqueza dos barões de café não era medida em tamanho de propriedade, área plantada de café, ou instalações e benfeitorias das fazendas, mas sim pelo número de cabeças de escravo que possuíam, pois estes valiam mais que toda a fazenda e suas benfeitorias".[7][8]

Uma fonte afirma que ela foi especializada no comércio de escravizados, o que era facilitado pelo fato de a fazenda se localizar na principal rota de circulação de mercadorias do período colonial.[8] No cotidiano da Fazenda Coqueiros, os escravizados trabalhavam nos cafezais, com limpeza do terreno, plantio, colheita, lavagem do café e secagem.[10]

Na década de 1990, Newton Teixeira, professor de história, levou uma turma de alunos para visitar a fazenda. Desde então, o local tem recebido visitação e se aperfeiçoado como produto turístico, recebendo principalmente estudantes paulistas e cariocas. Em 2012, recebia em média um ônibus por semana; o que representava 10% da renda da propriedade (suficiente para custear os serviços de manutenção).[11]

No início do século XX, foi vendida para um comerciante chamado Luiz Dias. No ano 2025, os proprietários eram Tatiana G. Gomes, Renato G. Gomes e Gustavo G. Gomes.[1][12]

Arquitetura

Na Fazenda Coqueiros, o local de acesso da residência térrea é marcado por um patamar simples, de um nível; que, posteriormente, passou a abrigar um copiar em forma de alpendre. Tais elementos eram parte do protocolo social da época.[13]

O casarão da Fazenda Coqueiros foi construído no centro do quadrilátero principal do conjunto arquitetônico, onde um pequeno jardim ajuda a afastá-la ligeiramente dos terreiros (onde o café secava ao sol, depois de colhido e lavado). O terreiro era uma superficie plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central no conjunto arquitetônico. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.[13]

A configuração espacial [das construções da fazenda] em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.[14]

À direita do casarão, havia um engenho de café e, à esquerda, a senzala, mas ambos já foram demolidos.[14] As tulhas e o engenho ficavam junto à estrada; do lado oposto, as edificações que possivelmente abrigavam as senzalas se prolongavam ao redor dos terreiros.[13]

Um edifício único com estrutura em gaiola (baldrames de pedra e vedações de pau-a-pique) conjugava tulhas e engenho. De um lado do engenho, ficava a roda d'água (no interior da edificação). Para isso, o acabamento da edificação era diferente do que normalmente se via: onde a água era tomada, as paredes eram de alvenaria de pedra aparelhada; e o piso era de lajes de pedra, onde os piIões eram assentados. Imediatamente contígua à roda d'água, ficava a área das lajes de piso que embasavam a bateria de pilões. Do lado oposto, ficava a tulha cujo acesso se fazia pelo pavimento superior, gerado por um talude e por onde o café era despejado na tulha. Para a boa ventilação dos espaços onde o café era armazenado, a edificação possuía "pequenos conjuntos de aberturas triangulares próximas aos beirais".[13]

Pequenos canais artificiais subterrâneos de pedra foram construídos ao longo das encostas, com inclinação de seis linhas por cada seis pés, levam água da nascente até os vários locais em que se fazia necessária.[13] Depois se converte em canal subterrâneo paralelo à estrada, ao longo do conjunto de edificações, que desemboca em um pequeno represamento, de onde é distribuída para três pontos: o engenho perto do casarão, recolhendo as águas servidas e caindo no moinho; o lavador de café, o canal e recolhendo as águas do terreiro; e o engenho hoje em ruínas.[13]

a posição da fonte hídrica organiza a distribuição das instalações e determina suas cotas e níveis. Quando necessário, alguns artíficies propiciam uma relativa autonomia em relação ao alinhamento do rego e permitem, como visto, potencializar o seu aproveitamento.[13]

O lavador de café da Fazenda ainda está intacto e fica situado na entrada da fazenda. É um tanque construído em alvenaria de pedra, que forma uma queda d’água, com um sistema permite separar os grãos pela diferença de densidade: grãos verdes “boiam” e os cerejas (bons) afundam, porque são mais densos. Em seguida, a conformação da estrutura de pedra se liga a canais que levam aos terreiros.[10]

Em 2012, sua área era de 150ha.[11] Em 2023, ainda preservava as senzalas, os moinhos e o banheiro.[12] Em 2025, ainda se mantinham o casarão da casa sede, a capela e o antigo lavador de café, em pedra com ducha natural.[1]

O casarão

O casarão da Fazenda Coqueiros é uma edificação térrea, implantada em terreno plano, sobre porão com embasamento de pedra. Possui fachada simétrica, escada central e um jardim frontal. A existência de várias técnicas construtivas nessa mesma edificação é indício de que recebeu melhorias ao longo do tempo.[13]

Internamente, o casarão da fazenda tinha o espaço de recepção e área de convívio muito mais espaçosa do que o que era visto nas residências de séculos anteriores, em formato do que ficou conhecido como casa paulista e casa brasileira.[14] Nessas salas, aconteciam saraus, tertúlias recitatórias e as demais atividades de sociabilidade.[15] Essas edificações eram divididas em três zonas segundo o nível de acesso para pessoas externas: social (de acesso mais amplo); íntima (acesso limitado); e de serviços.[14][15] Os cômodos se organizavam na seguinte sequência: espaço de recepção, salas sociais, alcovas e quartos, varanda e sala de jantar, puxado de serviço.[13]

Sociabilidade

A rotina dos escravizados, nos cafezais, consistia em limpar o terreno, plantar e colher. Após a colheita, o café era lavado e exposto ao sol para a secagem.[16]

Ver também

Referências

  1. a b c «História». Fazenda dos Coqueiros - 1855. 18 de julho de 2021. Consultado em 19 de novembro de 2025 
  2. Ruth Aparecida Sales Philippini. Fazenda de café do Vale Histórico: perspectiva de práticas educativas de história e cultura afrobrasileiras em espaços não formais de educação. 2019
  3. a b Júnior, Caio Prado (1949). História econômica do Brasil. [S.l.]: Editôra Brasiliense. Consultado em 4 de fevereiro de 2026 
  4. Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.
  5. TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.
  6. a b Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
  7. a b c d Sterman, Gabriel González (14 de novembro de 2024). «As finanças da cafeicultura escravista brasileira na era do tráfico ilegal, 1831-1850». Consultado em 26 de novembro de 2025 
  8. a b c Hato, Júlio Takahiro (18 de março de 2011). «Geografia da educação». Consultado em 26 de novembro de 2025 
  9. Sterman, Gabriel González. As finanças da cafeicultura escravista brasileira na era do tráfico ilegal, 1831 – 1850. São Paulo, 2025.
  10. a b Ruth Aparecida Sales Philippini. Fazenda de café do Vale Histórico: perspectiva de práticas educativas de história e cultura afrobrasileiras em espaços não formais de educação. 2019.
  11. a b Pedro de Alcântara Bittencourt César; Beatriz Veroneze Stigliano. Patrimônio rural e sua relação entre o local e o visitante: um estudo de Bananal (SP). 2012.
  12. a b Cavalcanti, Cristina Kanya Caselli; Lima, Eduardo Gasparelo; Coutinho, Laís de Gusmão; Uzum, Monica dos Santos Dolce (26 de outubro de 2023). «Sensibilização aos conceitos de conforto ambiental: Experiência didático-pedagógica em Escola Itinerante». ENCONTRO NACIONAL DE CONFORTO NO AMBIENTE CONSTRUÍDO: 1–10. ISSN 2965-5897. doi:10.46421/encac.v17i1.4052. Consultado em 26 de novembro de 2025 
  13. a b c d e f g h i Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
  14. a b c d Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro». Consultado em 4 de novembro de 2025 
  15. a b CARRILHO, Marcos Jose. As Fazendas de Café do Caminho Novo da Piedade. São Paulo: FAU-USP, 1994.
  16. Ruth Aparecida Sales Philippini. Fazenda de café do Vale Histórico: perspectiva de práticas educativas de história e cultura afrobrasileiras em espaços não formais de educação. 2019.