Fazenda Rialto
Fazenda Rialto
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| Tipo | fazenda |
| Geografia | |
| Coordenadas | |
| Localização | Arapeí - Brasil |
A Fazenda Rialto, também conhecida como Fazenda Arribada ou Lugar da Arribada, foi uma antiga fazenda de Café do século XIX, que se localiza no município de Bananal, estado de São Paulo, no chamado Vale do Paraíba. Demolida em 1996, após muitos anos de abandono.
Destacou-se pelos inúmeros murais de rica beleza e técnica, principalmente, pinturas em estilo trompe l’oleil; arquitraves, colunas e cornijas esculpidas e com tintas; e “quadros fingidos” reproduzindo cenas europeias, como aquedutos, cenas de caça, chinoiseries e musas gregas.[1]
Economia do café
O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).[2]
Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.[2][3]
Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".[4]
No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:[5]
A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].[5]
História
Originalmente, o local era conhecido como Arribada ou "Lugar da Arribada", por ser o local onde as tropas de Barão de Caxias se alojaram para se recuperar das lutas contra os revoltosos ligados à Revolução Liberal, a Fazenda Rialto é uma das grandes fazendas do período cafeicultor. Foi fruto de uma sesmaria concedida no final do século XVIII (1784) e, posteriormente, foi desmembrada em várias propriedades. A fazenda teve vários donos, passando por diversas alterações ao longo do tempo. Sua versão mais recente data do século XIX, em estilo europeu, com uma série de pinturas murais de José María Villaronga, que estavam em péssimo estado de conservação até a data de sua demolição, em 1996. Suas ruínas estão localizadas na Via dos Tropeiros, estrada em direção a Arapeí, município que emancipou-se de Bananal em 1991.[6]
Arquitetura
O acesso à Fazenda Rialto é realizado por alameda marcada por linhas de vegetação; um vasto jardim emoldura o casarão e o afasta um pouco do terreiro (onde o café secava ao sol, depois de colhido e lavado).[7] O casarão assobradado está posicionado no eixo central do conjunto arquitetônico, sendo ladeado por engenhos, oficinas e vários lanços de senzalas, e tendo à sua frente o terreiro e jardins com canteiros e alamedas que direcionavam o olhar para a escadaria de acesso ao piso superior.[8]
O terreiro era uma superficie plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central no conjunto arquitetônico. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.[7]
Os terreiros eram pavimentados e tinham mureta baixa em suas bordas. Aberturas guarnecidas de grelhas em ferro fundido permitiam guardar o café nessas muretas durante as chuvas; assim as águas não carregavam os grãos. Além do terreiro confinado entre as edificações, a Fazenda Rialto possui outros externos ao quadro: chamados terreiro de baixo, terreiro de cima, terreiro da frente, terreiro de dentro. Certamente, foram resultado de ampliação da produção desta fazenda.[7]
Seguindo o estilo arquitetônico palladiano, a configuração espacial da fazenda era em quadros. O casarão assobradado, sobre pilares de pedra, ficava em posição de destaque, na posição superior do terreno, o que permitia um maior controle visual sobre os escravizados. Nas laterais da fazenda, ficavam os engenhos (onde os grãos eram processados), oficinas e senzalas (alojamentos dos escravizados).[1][7] O edifício do engenho é assobradado.[7]
A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.[8]
As edificações ligadas ao beneficiamento do café dependem diretamente da oferta de água, que movimenta as máquinas. Assim, a captura de água é realizada em plano superior ao do maquinário. Na Fazenda Rialto, há um reservatório de água detrás da residência, de onde saem dois bicames de distribuição de água: o da direita segue até a casa das máquinas; e o da esquerda, até o lavador de café.[7]
O casarão da Fazenda Rialto, localizado na porção superior do terreno, apresenta tamanha variedade de técnicas construtivas e espessuras de paredes que parece resultado de diversas reformas.[7][8] Há quem indique que a casa atual não seja a sede original e que tenha sido construída posteriormente, mas ainda no século XIX. De modo geral, a edificação em estilo europeu, em padrão palladianotem feições achalesadas e de características ecléticas. A fachada principal possui corpo central destacado, que forma um alpendre de acesso com exuberantes recortes nos vãos.[6][7][8]
Internamente, o casarão da fazenda tinha o espaço de recepção e área de convívio muito mais espaçosa do que o que era visto nas residências de séculos anteriores, em formato do que ficou conhecido como casa paulista e casa brasileira.[8] Nessas salas, aconteciam saraus, tertúlias recitatórias e as demais atividades de sociabilidade.[7] Essas edificações eram divididas em três zonas segundo o nível de acesso para pessoas externas: social (de acesso mais amplo); íntima (acesso limitado); e de serviços.[8][7]
Pinturas murais

As cidades emergentes da região, sob o comando dos senhores recém-enriquecidos, buscavam construir edificações com tamanha sofisticação quanto à da Corte, para demonstrarem sua imponência e ostentação. Assim, havia um conjunto de artistas de boa orientação acadêmica e habilidades que circulavam pelas cidades da região e trabalharam em diversas das fazendas. Dentre os trabalhos artísticos decorativos que podem ser encontrados nesses casarões estão: pinturas em estilo trompe l’oleil; arquitraves, colunas e cornijas esculpidas e com tintas; e “quadros fingidos” reproduzindo cenas europeias, como aquedutos, cenas de caça, chinoiseries e musas gregas.[1]
As pinturas murais da Fazenda Rialto (vestíbulos, sala de jantar e capela), assim como todas da região, são atribuídas oralmente ao pintor José María Villaronga. Contudo, análises de materiais e técnicas demonstraram haver na Fazenda Rialto trabalhos de ao menos três pintores distintos.[1]
Como a fazenda foi demolida em 1996, essas pinturas não existem mais. Na sala de jantar, existiam oito painéis, mas apenas três deles estavam em um estado melhor de conservação: um deles representava um trem, outro representava palmeiras imperiais, e o terceiro representava uma ponte de pedras. Os outros cinco estavam quase ilegíveis por desprendimento do reboco ou por danos causados pelas chuvas, mas sabe-se que representavam a própria fazenda cercada pelos mares da Serra da Bocaina, acampamentos árabes, paisagens idílicas e minaretes.[1][7][6]
Reforma e demolição
Acredita-se que houve uma reforma no final dos anos 1960.[7] Contudo, as obras tiveram a intenção apenas de manter a residência segura para habitação, não se preocupando em manter a originalidade das técnicas e dos materiais. O Adobe foi substituído por tijolos e as vigas de madeira por concreto armado.[1][9] Dessa forma, considera-se que fazenda foi demolida em 1996, "no lugar foram erigidas novas paredes de tijolos cerâmicos, com a intenção de construir um hotel-fazenda.”[1]
Ver também
- Fazenda Boa Vista
- Fazenda Bom Retiro
- Fazenda dos Coqueiros
- Fazenda Independência
- Fazenda Loanda
- Fazenda Resgate
- Fazenda Vargem Grande
- Fazenda Ponte Alta
- Fazenda Pau d'Alho
- Fazenda Pasto Grande
- Fazenda Boa Vista (Cruzeiro)
Referências
- ↑ a b c d e f g Tirello, Regina A. (2005). «O caso da destruição das pinturas murais da sede da Fazenda Rialto, Bananal». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material: 277–334. ISSN 0101-4714. doi:10.1590/S0101-47142005000200010. Consultado em 12 de novembro de 2025
- ↑ a b Júnior, Caio Prado (1949). História econômica do Brasil. [S.l.]: Editôra Brasiliense. Consultado em 4 de fevereiro de 2026
- ↑ Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.
- ↑ TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.
- ↑ a b Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
- ↑ a b c Antonio Filho, Fadel David (4 de agosto de 2009). «O caminho novo: o Vale Histórico da Serra da Bocaina - opulência e decadência da sub-região paraibana paulista (reintegração de um espaço geográfico 'deprimido')». Consultado em 12 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
- ↑ a b c d e f Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro» (PDF). Consultado em 4 de novembro de 2025
- ↑ MARIA SALETE PERRONI Construções históricas no Vale do Paraíba Paulista: caracterização de materiais de alvenaria usados nas edificações com terra. 2015. Dissertação (Mestrado em Mudança Social e Participação Política) - Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.


