Fazenda Boa Vista (Bananal)
Fazenda Boa Vista
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|---|---|
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| Tipo | fazenda |
| Inauguração | 1854 (172 anos) |
| Página oficial (Website) | |
| Geografia | |
| Coordenadas | |
| Localização | Bananal - Brasil |
| Patrimônio | bem de interesse histórico em Bananal |
A Fazenda Boa Vista é uma antiga fazenda de Café, localizada no município de Bananal, estado de São Paulo. Faz parte do chamado Vale do Paraíba Paulista. Seu casarão é considerado "um dos mais destacados exemplos de casas rurais da região".[1]
Em 1854, era de propriedade do Comendador Luciano José de Almeida (sogro do Comendador Manuel de Aguiar Valim, proprietário da Fazenda Resgate), um dos grandes cafeicultores do município durante o Segundo Reinado, e já possuía trechos de estradas em asfalto.[1]
Economia do café
O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).[2]
Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.[2][3]
Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".[4]
No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:[5]
A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].[5]
História
A Fazenda Boa Vista foi fundada na década de 1840, por Luciano José de Almeida. A sede contava com casarão, terreiros, engenhos e senzalas. Em 1854, um inventário da propriedade listava a propriedade de 815 escravos, sendo que mais da metade deles residia nesta Fazenda da Boa Vista.[6]
Conforme crescia a demanda e a produção do café, o número de pessoas morando na fazenda também aumentava e chegou a centenas delas, incluindo não só proprietário e sua família, mas também funcionários pagos e escravizados, como feitores, administradores, camaradas e escravizados. Além disso, a fazenda instalou um rancho para os tropeiros, onde uma pequena venda comercializava produtos para o abastecimento das caravanas.[1]
De modo geral, Augusto Emílio Zaluar comentou sobre os ranchos por onde passou entre 1860 e 1861 que cômodos, serviços e preços era bem arbitrários, e dependiam do humor momentâneo do chefe da casa. Não havendo "direito, autoridade, nem lei que prevaleça ao sequestro imediato desta implacável justiça de aldeia". Se o viajante não pudesse pagar, podia hipotecar animais, bagagens e pajens. As refeições servidas (almoço, janta e ceia) eram compostas por arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho, e a depender do viajante, acrescentavam-se uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. E o preço pago por isso dependia da finesse do hóspede: variando entre dez e cem. Até o capim para os animais era pago, mas provavelmente não lhes era dado.[7]
Em 1972, a Fazenda foi convertida um Hotel-Fazenda em um terreno desmembrado da propriedade do período colonial do café, configurando uma pequena chácara de 3,6 alqueires mineiros que mantém o antigo casarão sede. Convertida em hotel, foi organizada em 30 unidades habitacionais que acomodam até 120 pessoas, servidos por 15 funcionários. Por ser construção mais suntuosa de Bananal, na década de 1990, o espaço era ocupado, na maior parte do tempo, por equipes de filmagem, que locavam o espaço como um todo.[8]
Arquitetura

A organização espacial das edificações no espaço físico está alinhada àquela típica das fazendas do período: em quadros ou em pátios.[1] Dois conjuntos de senzalas eram organizados em quadra: um único edifício localizado em frente ao casarão (parte superior direita do terreiro) contava com 60 lanços de senzalas, tulhas e um engenho de pilões; outra edificação com 49 lanços de senzalas ficava atrás do casarão. Todas as portas de senzalas estão voltadas para o terreiro e há apenas um portão de entrada, localizado na quadra frontal. A organização espacial forma, portanto, um desenho em U, com o eixo principal sendo o casarão; de onde o proprietário tinha visão e controle do funcionamento de todos os elementos.[6]
A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.[9]
A sede da fazenda Boa Vista:
tem uma arquitetura [neoclássica] típica da primeira metade do séc. XIX: casa assobradada, de frente para o terreno, com um correr de casas em cada lateral do terreiro, fechando-se por portão a parte fronteira. Da casa, o senhor, controla a mão-de-obra e a produção.[10]
O edifício foi construído grudado à encosta do terreno ("assentado à meia encosta"), de modo que sua parte frontal tem dois pavimentos; e a posterior, apenas um. O alpendre coberto do casarão da fazenda que se desenvolve nas faces internas do pátio é um acréscimo posterior; o que inclusive pode ser verificado porque ele não existe na pintura do século XIX. Foi fechado e forma um corredor.[1]
Internamente, o casarão da fazenda tinha o espaço de recepção e área de convívio muito mais espaçosa do que o que era visto nas residências de séculos anteriores, em formato do que ficou conhecido como casa paulista e casa brasileira.[1] Nessas salas, aconteciam saraus, tertúlias recitatórias e as demais atividades de sociabilidade.[11] Essas edificações eram divididas em três zonas segundo o nível de acesso para pessoas externas: social (de acesso mais amplo); íntima (acesso limitado); e de serviços.[1][11]
A capela era interna e, por estar localizada na sala de estar, servia apenas à família. As celebrações eram realizadas abrindo-se três portas de belos entalhes (a central e maior tinha verga em arco pleno e ficava em frente ao altar), e a sala se convertia em uma espécie nave. Em algum momento, um capelão residiu na fazenda para presidir as cerimônias.[1]
Em 1854, a fazenda contava ainda com um engenho de café, com máquinas de beneficiamento e roda d’água. Ao longo do tempo, teve uma botica própria, mas não há informação adicional nos inventários.[1] Em 1882, o conjunto edificado do Rancho de Tropeiros era formado por:
Nove lanços de Casas a beira da Estrada geral, cobertos de telha, que servem de Rancho de passageiros, com dous lanços feixados que servem de Casa de Negócio, tendo em cada hum destes, hum Balcão e parteleiras e hum dos ditos sendo assualhados: todos os dois com nove portas, e quatro janellas incluzive hum pequeno puxado que serve de cozinha.[11]
É o que acontece na fazenda Boa Vista, em Bananal, na qual além do "engenho de soccar café" há "um dispolpador com dois tanques" .
Decoração
No interior do casarão da Fazenda Boa Vista, encontram-se cômodos com decorações neoclássicas de muito boa qualidade, incluindo o vestíbulo, as salas sociais, a capela, e cinco salões. São portas lavradas com bandeiras com pinázios em forma de leque, tetos trabalhados e assoalhos de tábuas largas.[1]
Ver também
- Fazenda Bom Retiro
- Fazenda dos Coqueiros
- Fazenda Independência
- Fazenda Loanda
- Fazenda Resgate
- Fazenda Rialto
- Fazenda Vargem Grande
- Fazenda Ponte Alta
- Fazenda Pau d'Alho
- Fazenda Pasto Grande
- Fazenda Boa Vista (Cruzeiro)
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro» (PDF). Consultado em 4 de novembro de 2025
- ↑ a b Júnior, Caio Prado (1949). História econômica do Brasil. [S.l.]: Editôra Brasiliense. Consultado em 4 de fevereiro de 2026
- ↑ Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.
- ↑ TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.
- ↑ a b Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
- ↑ a b MARQUESE, Rafael de Bivar. Revisitando casas grandes e senzalas: a arquitetura das plantations escravistas americanas no século XIX. Conferência apresentada no II Encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional”. Porto Alegre: UFRGS, em 26 de outubro de 2005.
- ↑ ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S.Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976. 237 p. ( Biblioteca histórica paulista, 2 )
- ↑ de Alcântara Bittencourt César, Pedro; Veroneze Stigliano, Beatriz Patrimônio Rural e sua Relação entre o Local e o Visitante: Um Estudo de Bananal (SP) Rosa dos Ventos, vol. 4, núm. 2, abril-junio, 2012, pp. 136-157 Universidade de Caxias do Sul Caxias do Sul, Brasil.
- ↑ Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro» (PDF). Consultado em 4 de novembro de 2025
- ↑ SCHNOOR, E. Das casas de morada às casas de vivenda. In. CASTRO, H.M.M.; SCHNOOR, E.(orgs.). Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. p.31-62.
- ↑ a b c CARRILHO, Marcos Jose. As Fazendas de Café do Caminho Novo da Piedade. São Paulo: FAU-USP, 1994.
