Fazenda Bom Retiro (Bananal)
Fazenda Bom Retiro
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|---|---|
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| Tipo | fazenda, edifício |
| Inauguração | 1840 (186 anos) |
| Geografia | |
| Coordenadas | |
| Localização | Bananal - Brasil |
| Patrimônio | bem de interesse histórico em Bananal |
A Fazenda Bom Retiro é uma antiga fazenda de Café do século XIX, que fica no município de Bananal, estado de São Paulo. A sede histórica, construída em estilo neoclássico em 1840, possui 1.000 m² e 19 cômodos. É a única da região que possui passagem para carruagens, de modo que os passageiros desembarquem em local abrigado.[1]
Economia do café
O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro).[2]
Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.[2][3]
Em 1887, Bananal era o segundo maior município escravista, com 4.182 habitantes. Sendo menor apenas que Campinas, que possuía 9.986 habitantes. Ocupava também a segunda posição em termos de valor dos escravizados que ali viviam: 2.604 contos de réis (em Campinas eram 6.851 contos de réis). Podendo Bananal ser considerado como um dos municípios "da maior importância cafeeira".[4]
No período de acelerado crescimento da cultura cafeeira na região do Vale do Paraíba, mais especificamente entre 1836 e 1837, a então vila de Bananal produziu 64.822 arrobas de café (quase 1 tonelada); 11% do total da produção da Província de São Paulo. Em Bananal, estavam estabelecidas 82 fazendas com 8 engenhos de açúcar e 12 destilarias de aguardente. Cada uma delas teve seu local de implantação cuidadosamente analisado:[5]
A escolha do sítio; a forma do assentamento; o condidonamento à presença da água para o aproveitamento da energia hidráulica; a adequação das edificações destinadas ao beneficiamento, armazenamento, habitação e atividades subsidiárias [...].[5]
História
Antônio Barbosa da Silva mudou-se de Sabará, Minas Gerais, para Bananal no ano de 1813. Casou-se com a filha do capitão Hilário Gomes Nogueira (proprietário da Fazenda das Três Barras), Placidina Carolina Nogueira. Provavelmente, recebeu de dote de casamento as terras onde estabeleceu sua lavoura de café.[6]
As primeiras moradias eram precárias, pois o dinheiro era usado na tarefa árdua e custosa de implantar a plantação de café. A casa de moradia era construída apenas após algumas colheitas.[6]
Antônio passou a vida em meio a dívidas. "Em 1849, Antônio hipoteca a propriedade ao senhor Manoel José de Bessa. Nessa época, a fazenda possuía 240 escravos".[6] Em 1852, a Fazenda Bom Retiro fazia parte de um complexo de fazendas, em conjunto com as fazendas Coqueiros e Campinhos, onde, ao todo, trabalhavam 340 pessoas escravizadas e havia mais de 730 mil pés de café produtivos.[7]
Em 1859, foi a vez do filho de Antônio hipotecar a fazenda e outras propriedades para João Henrique Ulrich e Cia. À época, a fazenda tinha então 200 mil pés de café, senzalas, tulhas, paióis, engenhos, alambique e lavadores de café. Pouco mais de 20 anos depois, em 1875, o inventário de Antônio Barbosa da Silva (filho) contabilizava apenas 30.100 pés de café e 58 escravos. Brás Barbosa da Silva, filho de Antônio filho, passou a administrar a propriedade, mas ela foi executada.[6]
Em 2025, estava à venda pelo valor de R$7.000.000.[1]
Arquitetura
A sede histórica assobradada se destaca por sua monumentalidade[8] e é a única instalação primitiva da fazenda que ainda está em pé. Foi construída em estilo neoclássico em 1840, com 19 cômodos e um total de 1.000 m².[1][9] As residências rurais do período eram construídas com influência arquitetônica dos engenhos de açúcar, das casas urbanas e das construções europeias. Buscava refletir o máximo de opulência possível.[6] A fachada principal desta sede é marcada pelo uso abundante de ornamentações (entablamento e cimalhas de madeira no beiral, molduras e pestanas das aberturas, pilastras dóricas nos grossos cunhais, fuste frisado, base e capitel - feitos com argamassa engrossada com cacos de telha), pela simetria de sua composição, incluindo o ritmo uniforme das aberturas.[8][9]
Aberturas que também são bastante ornamentadas. As janelas de vergas retas têm folhas envidraçadas e escuros almofadados. A grande porta central de folhas almofadadas é a passagem para carruagens.[9] A Fazenda Bom Retiro é a única da região que possui essa funcionalidade, que permite que os passageiros desembarquem em local abrigado.[1][6][9] No pavimento superior, estão dez portas-balcão, com sacadas estreita ornamentadas com gradis de ferro forjado.[9]
Cada uma dessas portas possui bandeira envidraçada com pinázios em segmentos de arcos contrários, entrelaçados. As folhas externas têm a metade superior envidraçada e a inferior almofadada. As folhas internas são inteiramente almofadadas. Nas laterais, surgem janelas de vergas retas, com guilhotinas, com desenho semelhante às bandeiras das portas-balcão.[9]
Os espaços internos da edificação eram divididos em três zonas, segundo o nível de acesso para pessoas externas: social (de acesso mais amplo); íntima (acesso limitado); e de serviços.[9][10] No pavimento superior do corpo principal do casarão, ficam localizados o vestíbulo, uma sala de visitas e a sala de dentro, além de uma capela, e os dormitórios (não havia alcovas nessa edificação).[8] O espaço de recepção e área de convívio muito mais espaçosa do que o que era visto nas residências de séculos anteriores, em formato do que ficou conhecido como casa paulista e casa brasileira.[9] Nessas salas, aconteciam saraus, tertúlias recitatórias e as demais atividades de sociabilidade.[10]
Ao redor do pátio interno, no pavimento térreo, os cômodos se dividiam da seguinte forma: à direita, no corpo secundário, em geral com um pavimento, a cozinha e a despensa; à esquerda, salas para receber mercadores / tropeiros, viajantes e pessoas de fora da casa. Uma escada levava ao segundo piso da edificação, que era reservado apenas à família do fazendeiro. Além disso, as senzalas dos escravos "de dentro".[6][8]
Em relação às técnicas construtivas, o embasamento e o térreo foram construídos em taipa de pilão, e o piso superior tem estrutura de madeira, com gaiola (esteios, baldrames e frechais) preenchida em adobe disposto em formato de espinha de peixe.[9]
Ao redor do casarão histórico, encontram-se um jardim com árvores centenárias (em frente à fachada principal do casarão) e um pomar.[1][9] Atrás do casarão, fica o antigo terreiro que era o centro do conjunto de edificações de produção: senzalas, engenhos etc.[9]
A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.[9]
Um amplo jardim localiza-se entre o casarão e o antigo terreiro, que ajudava a "abafar" a brancura do terreiro:[9]
Outras edificações
No terreno de 18 alqueires geométricos, estão localizadas duas represas e três nascentes. Além disso, uma casa de apoio com 5 quartos, um varandão com churrasqueira, duas casas de colonos, e três baias para cavalos.[1]
Ver também
- Fazenda Boa Vista
- Fazenda dos Coqueiros
- Fazenda Independência
- Fazenda Loanda
- Fazenda Resgate
- Fazenda Rialto
- Fazenda Vargem Grande
- Fazenda Ponte Alta
- Fazenda Pau d'Alho
- Fazenda Pasto Grande
- Fazenda Boa Vista (Cruzeiro)
Referências
- ↑ a b c d e f Imóveis, M. G. F. «Fazenda Bom Retiro em Bananal, SP - MGF Imóveis - MGF Imóveis». sp.mgfimoveis.com.br. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ a b Júnior, Caio Prado (1949). História econômica do Brasil. [S.l.]: Editôra Brasiliense. Consultado em 4 de fevereiro de 2026
- ↑ Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.
- ↑ TAUNAY, Affonso de E. História do café no Brasil. v. 6. tomo 4. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939.
- ↑ a b Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
- ↑ a b c d e f g Leila Vilela Alegrio. A fazenda Bom Retiro na rota da riqueza do café? Revista do Café. p. 48-49.
- ↑ Sterman, Gabriel González. As finanças da cafeicultura escravista brasileira na era do tráfico ilegal, 1831 – 1850. São Paulo, 2025.
- ↑ a b c d Joana Mello de Carvalho e Silva; Flávia Brito do Nascimento. A EXPERIÊNCIA DE INVENTÁRIO DE CONHECIMENTO DO PATRIMÔNIO RURAL NO VALE DO PARAÍBA-SP.
- ↑ a b c d e f g h i j k l m Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro» (PDF). Consultado em 4 de novembro de 2025
- ↑ a b CARRILHO, Marcos Jose. As Fazendas de Café do Caminho Novo da Piedade. São Paulo: FAU-USP, 1994.
