Cúpula em cebola

Mosteiro Avraamiev, Oblast de Kostroma, Rússia, fundado no século XIV
O Taj Mahal em Agra (Índia), exemplo de arquitetura mogol

Uma cúpula em cebola é uma cúpula cuja forma lembra uma cebola.[1] Tais cúpulas costumam ter diâmetro maior que o tambor (tholobate) sobre o qual se apoiam, e sua altura geralmente excede a largura. Elas afunilam suavemente para cima até um ponto.

É um traço típico de igrejas pertencentes à Igreja Ortodoxa Russa. Existem edifícios semelhantes em outros países do Leste Europeu e, ocasionalmente, na Europa Ocidental: Baviera (Alemanha), Áustria e nordeste da Itália. Edifícios com cúpulas em cebola também são encontrados nas regiões orientais da Ásia Central e do Sul da Ásia, e no Oriente Médio. Contudo, construções antigas fora da Rússia geralmente não apresentam a técnica construtiva típica do desenho russo.

Outros tipos de cúpulas ortodoxas orientais incluem cúpulas em elmo (por exemplo, as da Catedral da Dormição em Vladímir), cúpulas em pêra ucranianas (Catedral de Santa Sofia em Kiev) e cúpulas em botão barrocas (Igreja de Santo André em Kiev), ou ainda misturas cebola-elmo, como na Catedral de Santa Sofia em Nóvgorod.

História

Mosaico omíada mostrando um edifício com aparência de cúpula em cebola

Segundo Wolfgang Born, a cúpula em cebola tem origem na Síria, onde alguns mosaicos da era do Califado Omíada retratam estágios iniciais do desenvolvimento de cúpulas bulbosas.[2][3] Um protótipo inicial também apareceu em Chehel Dokhter, uma obra do século XI da arquitetura Seljúcida na região de Damghan, no Irã.[4]

Na arquitetura russa

Cúpulas em cebola na Igreja da Ressurreição, Kostroma (1652)

Não está totalmente claro quando e por que as cúpulas em cebola se tornaram um traço típico da arquitetura russa. O estilo curvo apareceu na Rússia já no século XIII.[5] Ainda assim, há várias teorias de que a forma russa teria sido influenciada por países do Oriente, como Índia e Pérsia, com os quais a Rússia manteve longo intercâmbio cultural. Igrejas bizantinas e a arquitetura da Rússia de Kiev caracterizavam-se por cúpulas mais largas e achatadas, sem uma armação especial erguida acima do tambor. Em contraste, cada tambor de uma igreja russa é coroado por uma estrutura especial de metal ou madeira, revestida com chapas de ferro ou telhas, enquanto a arquitetura “em cebola” é majoritariamente muito curva. A arquitetura russa usou a forma da cúpula não apenas em igrejas, mas também em outros edifícios.

No fim do século XIX, a maioria das igrejas russas anteriores ao período petrino tinha cúpulas bulbosas. As maiores foram erguidas no século XVII na região de Yaroslavl. Algumas tinham formas mais complexas, em botão, derivadas de modelos barrocos do fim do século XVII. Cúpulas em forma de pêra costumam associar-se ao barroco ucraniano, enquanto cúpulas cônicas são típicas das igrejas ortodoxas do Transcaucaso.

Hipótese de origem oriental

Cúpulas em cebola da Catedral de São Basílio

Supostamente,

ícones russos pintados antes da invasão mongol de 1237–1242 não apresentam igrejas com cúpulas em cebola. Duas igrejas pré-mongóis muito veneradas que foram reconstruídas — a Catedral da Assunção e a Catedral de São Demétrio, ambas em Vladímir — exibem cúpulas douradas em elmo. Trabalhos de restauração em outras igrejas antigas revelaram fragmentos de antigas cúpulas em elmo sob cúpulas em cebola mais recentes.

Postula-se que as cúpulas em cebola surgiram na Rússia durante o reinado de Ivan, o Terrível. As cúpulas da Catedral de São Basílio não foram alteradas desde o reinado de Fiódor I, indicando a presença de cúpulas em cebola na Rússia do século XVI.

Alguns estudiosos sustentam que os russos adotaram as cúpulas em cebola de países muçulmanos, possivelmente do Canato de Kazã, cuja conquista em 1552 foi comemorada por Ivan com a construção da Catedral de São Basílio.[6] Outros acreditam que elas apareceram primeiro na arquitetura de madeira russa, acima de igrejas em “tenda”. Segundo essa teoria, teriam função utilitária: impedir o acúmulo de neve no telhado.[7]

Hipótese de origem russa

Igrejas de madeira em Kizhi e Vytegra têm até vinte e cinco cúpulas em cebola

Em 1946, o historiador Boris Rybakov, analisando miniaturas de crônicas russas antigas, observou que a maioria delas, do século XIII em diante, mostra igrejas com cúpulas em cebola e não em elmo. Nikolai Voronin, estudioso da arquitetura russa pré-mongol, corroborou a opinião de que as cúpulas em cebola existiam na Rússia já no século XIII.[8] Essas conclusões demonstram que as cúpulas em cebola russas não poderiam ter sido importadas do Oriente, onde elas só substituíram as esféricas a partir do século XV.[9]

O historiador de arte Sergey Zagraevsky pesquisou centenas de ícones e miniaturas russos, do século XI em diante, e concluiu que a maioria dos ícones pintados após a invasão mongol mostra apenas cúpulas em cebola. As primeiras aparecem em algumas imagens do século XII.[10] Ele encontrou apenas um ícone do fim do século XV com cúpula semelhante a um elmo em vez de cebola. Suas descobertas o levaram a descartar fragmentos de cúpulas em elmo descobertos por restauradores sob cúpulas modernas como estilizações pós-petrinas destinadas a reproduzir formas bizantinas. Zagraevsky também indicou que as representações mais antigas das duas catedrais de Vladímir as mostram com cúpulas em cebola, antes da substituição por cúpulas em elmo classicizantes. Ele explica a aparição ubíqua das cúpulas em cebola no fim do século XIII pelo ênfase geral na verticalidade, característica da arquitetura eclesiástica russa do fim do século XII ao início do XV.[11] Na época, pórticos, pilastras, abóbadas e tambores eram organizados para criar impulso vertical, fazendo a igreja parecer mais alta do que era.[12] Outra hipótese proposta por Zagraevsky relaciona a forma alongada das cúpulas ao peso das cruzes russas tradicionais, maiores e mais elaboradas que as bizantinas. Tais cruzes pesadas precisariam ser fixadas a pedras volumosas tradicionalmente colocadas dentro das cúpulas alongadas; algo inviável em cúpulas baixas do tipo bizantino.

Simbolismo

Grupo de três cúpulas azuis na Igreja de São Simeão da Montanha Maravilhosa, em Dresden, Alemanha

Antes do século XVIII, a Igreja Ortodoxa Russa não atribuía simbolismo particular à forma externa de uma igreja.[13] Ainda assim, popularmente acredita-se que cúpulas em cebola simbolizam velas acesas. Em 1917, o filósofo religioso príncipe Evguêni Trubetskói argumentou que a forma pode não ser explicada racionalmente. Segundo ele, tambores coroados por cúpulas afinadas foram deliberadamente talhados para lembrar chamas, manifestando certa atitude estética e religiosa.

A cúpula bizantina acima da igreja representa a abóbada do céu sobre a terra. Já a agulha gótica expressa impulso vertical indômito, que eleva enormes massas de pedra ao céu. Em contraste, nossa cúpula em cebola pode ser comparada a uma língua de fogo, coroada por uma cruz e afunilando em direção a ela. Quando olhamos para a Torre do Sino de Ivan, o Grande, parece uma vela gigantesca ardendo sobre Moscou. As catedrais e igrejas do Kremlin, com suas múltiplas cúpulas, se assemelham a grandes candelabros. A forma em cebola resulta da ideia de oração como alma ardendo para o céu, conectando o mundo terreno aos tesouros do além. Toda tentativa de explicar a forma por considerações utilitárias (por exemplo, evitar acúmulo de neve) falha quanto ao ponto essencial: o significado estético das cúpulas em nossa religião. Existem inúmeras outras maneiras de obter o mesmo resultado utilitário — agulhas, torres, cones. Por que, entre todas essas formas, a arquitetura russa antiga adotou a cúpula em cebola? Porque a impressão estética por ela produzida corresponde a uma certa atitude religiosa. O sentido desse sentimento estético-religioso é bem expresso por um ditado popular — “brilhando com fervor” — quando falam das cúpulas das igrejas.

— Evguêni Trubetskói[14]

Outra explicação sustenta que a cúpula em cebola teria sido originalmente vista como forma reminiscente do aedicula (cibório) no Santo Sepulcro, em Jerusalém.[15]

Cúpulas em cebola muitas vezes aparecem em grupos de três (Trindade) ou cinco (Jesus Cristo e os quatro Evangelistas). Cúpulas isoladas representam Jesus. Vasíli Tátichtchev, o primeiro a registrar essa interpretação, a reprovou enfaticamente, atribuindo o arranjo de cinco cúpulas ao patriarca Nikon. Não há outras evidências de que Nikon sustentasse tal visão.

As cúpulas costumam ser pintadas com cores vivas: verde, azul e dourado são, por vezes, tidas como representações informais da Trindade, do Espírito Santo e de Jesus, respectivamente. Cúpulas pretas e arredondadas foram populares no norte nevado da Rússia.

Internacionalmente

Ásia

Sul da Ásia

A cúpula em cebola foi amplamente usada na arquitetura mogol, que mais tarde influenciou a arquitetura indo-sarracênica. É também um elemento comum na arquitetura sikh, particularmente em gurudwaras, e às vezes aparece na arquitetura rajput.

Em outras partes da Ásia

Fora do subcontinente indiano, aparece também no Irã e em outros locais do Oriente Médio e da Ásia Central. No fim do século XIX, a Grande Mesquita Baiturrahman, em Aceh (Indonésia), incorporou a forma em cebola. Desde então, o formato tem sido usado em inúmeras mesquitas no país.

Europa

Países ocidentais e centrais

Cúpulas barrocas em forma de cebola (ou de outros vegetais ou botões florais) também eram comuns no Sacro Império Romano-Germânico. A primeira foi construída em 1576 pelo arquiteto Johannes Holl (1512–1594) na igreja do Convento das Irmãs Franciscanas de Maria Stern, em Augsburgo. Geralmente feitas de chapa de cobre, as cúpulas em cebola aparecem em igrejas católicas por todo o sul da Alemanha, Suíça, terras tchecas, Áustria, e Sardenha e nordeste da Itália. As cúpulas em cebola também foram uma das favoritas do designer austríaco Friedensreich Hundertwasser no século XX.

Países do sul

Américas

O Corn Palace (World’s Only Corn Palace), atração turística e arena de basquete em Mitchell, Dakota do Sul, também apresenta cúpulas em cebola no telhado da estrutura.

Veja também

  • Lista de formas de telhado
  • Giboshi
  • Ogee (perfil em S)

Notas e referências

Referências

  1. Block, Eric (2010). Garlic and Other Alliums: The Lore and the Science (em inglês). [S.l.]: Royal Society of Chemistry. ISBN 9780854041909 
  2. Darke, Diana (15 de dezembro de 2020). Stealing from the Saracens: How Islamic Architecture Shaped Europe (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-1-78738-510-8 
  3. Born, Wolfgang (1944). «The Introduction of the Bulbous Dome into Gothic Architecture and Its Subsequent Development». Speculum. 19 (2): 208–221. ISSN 0038-7134. JSTOR 2849071. doi:10.2307/2849071  Verifique o valor de |url-access=subscription (ajuda)
  4. Ring, Trudy; Watson, Noelle; Schellinger, Paul (5 de março de 2014). Middle East and Africa: International Dictionary of Historic Places (em inglês). [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-134-25993-9 
  5. Block, Eric (2010). Garlic and Other Alliums: The Lore and the Science (em inglês). [S.l.]: Royal Society of Chemistry. ISBN 9780854041909 
  6. Shvidkovsky, D. S. (2007). Russian architecture and the West. [S.l.]: Yale University Press. ISBN 978-0-300-10912-2 
  7. A. П. Новицкий. Луковичная форма глав русских церквей. В кн.: Московское археологическое общество. Труды комиссии по сохранению древних памятников. Т. III. Moscow, 1909.
  8. Н. Н. Воронин. Архитектурный памятник как исторический источник (заметки к постановке вопроса). В кн.: Советская археология. Вып. XIX. М., 1954. С. 73.
  9. Б. А. Рыбаков. «Окна в исчезнувший мир (по поводу книги А. В. Арциховского «Древнерусские миниатюры как исторический источник»). В кн.: Доклады и сообщения историч. факультета МГУ. Вып. IV. М., 1946. С. 50.
  10. S. V. Zagraevsky. Forms of the domes of the ancient Russian temples. Published in Russian: С. В. Заграевский. Формы глав (купольных покрытий) древнерусских храмов. М.: Алев-В, 2008.
  11. Г. К. Вагнер. О своеобразии стилеобразования в архитектуре Древней Руси (возвращение к проблеме). В кн.: Архитектурное наследство. Вып. 38. М., 1995. С. 25.
  12. П. А. Раппопорт. Древнерусская архитектура. СПб, 1993.
  13. И. Л. Бусева-Давыдова. Символика архитектуры по древнерусским письменным источникам XI-XVII вв. // Герменевтика древнерусской литературы. XVI - начало XVIII вв. Moscow, 1989.
  14. Е. Н. Трубецкой. Три очерка о русской иконе. 1917. Новосибирск, 1991. С. 10.
  15. А. М. Лидов. Иерусалимский кувуклий. О происхождении луковичных глав. // Иконография архитектуры. Moscow, 1990.

Ligações externas

  • Predefinição:Commons-em-linha