Ablaq

Salão de recepção do Palácio Azem em Damasco, Síria, com alvenaria em ablaq (século XVIII)

Ablaq (em árabe: أبلق; policromado; literalmente «malhado» ou «de coloração contrastante»[1]) é uma técnica arquitectónica que consiste na alternância regular de fiadas de pedra clara e escura na alvenaria.[2][3]

O termo, de origem árabe,[4] designa uma técnica associada sobretudo à arquitectura islâmica no mundo árabe.[5] O ablaq é utilizado principalmente com fins decorativos, embora possa também desempenhar uma função estruturante na organização visual da fachada.

A técnica poderá ter raízes em tradições anteriores da arquitectura bizantina na região, onde se empregavam fiadas alternadas de pedra clara e tijolo de tonalidade alaranjada.[3] O seu uso encontra-se documentado desde uma fase precoce da história da arquitectura islâmica.[6]

Origens

A técnica decorativa do ablaq é geralmente considerada um possível desenvolvimento de práticas construtivas do antigo Império Bizantino, cuja arquitectura recorria à alternância sequencial de silhares de pedra clara e de materiais de tonalidade mais escura.[3] O primeiro uso documental claramente identificado de alvenaria em ablaq encontra-se nas obras de reparação do muro norte da Grande Mesquita de Damasco em 1109.[3]

A técnica poderá ter-se desenvolvido na Síria, onde a disponibilidade local de materiais pétreos favorecia a alternância cromática. No sul da região abundam tanto o basalto negro como o calcário claro, em quantidades aproximadamente equivalentes, o que terá incentivado o recurso a técnicas de alvenaria baseadas no contraste equilibrado entre ambos.[3]

Uso na arquitectura islâmica

Interior da Cúpula da Rocha, em Jerusalém, com aduelas em ablaq nos arcos

A Cúpula da Rocha, em Jerusalém, construída no final do século VII durante o período omíada, apresenta aduelas de pedra clara e escura em ablaq nos arcos da colunata interior.[7] A cronologia exacta dos revestimentos marmóreos em ablaq deste monumento é objecto de debate académico, havendo divergências quanto à sua datação e autoria.[4]

A alternância de alvenaria vermelha e branca nas aduelas dos arcos da Grande Mesquita de Córdova, construída a partir do final do século VIII e ampliada até ao século X, constitui outro exemplo precoce da técnica. Este uso poderá relacionar-se com modelos anteriores de Jerusalém e Damasco, conhecidos pelos governantes omíadas do Emirado de Córdova.[8]

Andrew Petersen identifica o ablaq — caracterizado pela alternância de calcário branco e basalto negro — como um elemento distintivo da alvenaria monumental de Damasco.[9]

A técnica surge igualmente na Mesquita Zitouna em Tunes, onde a alvenaria em ablaq foi introduzida numa campanha de renovação promovida pelos Zíridas em 991. Esta característica não se encontra na anterior arquitectura aglábida da região, podendo representar a continuidade de técnicas locais de tradição bizantina.[10]

Alvenaria em ablaq na Mesquita de Alâeddin em Konya (século XIII)

O ablaq encontra-se documentado em edifícios dos séculos XII e XIII em Diyarbakır, construídos sob os Artúquidas, bem como em algumas obras tardias da Dinastia aiúbida em Damasco.[11] Aparece igualmente nos portais de certos monumentos seljúcidas do século XIII em Konya, como a Mesquita de Alâeddin e a Madraça Karatay, possivelmente devido à influência de artesãos sírios.[12]

Pormenor de alvenaria em ablaq com aduelas engrenadas na entrada da Mesquita do Sultão al-Mu'ayyad no Cairo (século XV)

O ablaq assumiu particular relevância na arquitetura mameluca da Síria, Egipto e Palestina durante os séculos XIV e XV. Durante este período, utilizaram-se frequentemente pedra branca, pedra negra e tijolo vermelho em fiadas alternadas, criando composições de forte contraste cromático.[3] A técnica era frequentemente combinada com outras soluções decorativas, como a utilização de aduelas engrenadas nos arcos.[13]

Em 1266, o sultão mameluco al-Zahir Baybars al-Bunduqdari mandou construir em Damasco um palácio conhecido como Qasr al-Ablaq («Palácio do Ablaq»), edificado com alternância de alvenaria clara e escura, evidenciando o uso corrente do termo no século XIII.[3]

Khan As'ad Pasha em Damasco (século XVIII)

A construção com fiadas alternadas de tijolo e pedra foi também comum na arquitectura otomana primitiva da Anatólia e dos Balcãs, embora tenha perdido protagonismo na fase posterior da arquitectura imperial otomana.[14] A técnica do ablaq continuou, contudo, a ser utilizada regionalmente na arquitectura da Síria otomana a partir do século XVI.[3]

Em Damasco, exemplos notáveis incluem a Takiyya Sulaymaniyya (século XVI), o Palácio Azem (século XVIII) e o Khan As'ad Pasha (século XVIII).[15]

A alternância de mármore preto e branco tornou-se igualmente uma característica da arquitetura tunisina durante o período otomano (séculos XVI a XIX).[16] Segundo Abdelaziz Daoulatli, esta prática poderá ter-se iniciado ainda no período hafsida, no século XIV, enquanto Georges Marçais sugere que terá sido incentivada pela influência da arquitectura mameluca do Egipto.[17]

Referências

  1. Hillenbrand, Robert (1999). Islamic Art and Architecture (em inglês). [S.l.]: Thames and Hudson. 146 páginas. ISBN 978-0-500-20305-7 
  2. Rabbat, Nasser O. «10- The Emergence of the Citadel as Royal Residence». Programa Aga Khan para a Arquitectura Islâmica. Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Consultado em 28 de Janeiro de 2012 
  3. a b c d e f g h Petersen, Andrew (1996). «ablaq». Dictionary of Islamic Architecture (em inglês). [S.l.]: Routledge. pp. 1–2. ISBN 978-0-415-21332-5 
  4. a b Allen, Terry (2008). Pisa and the Dome of the Rock 2.ª ed. [S.l.]: Solipsist Press. ISBN 978-0-944940-08-2 
  5. Egypt and Syria in the Fatimid, Ayyubid and Mamluk eras. 3. [S.l.]: Peeters. 1995. 288 páginas. ISBN 978-90-6831-683-4 
  6. Lamine, Siham (2018). «The Zaytuna: The Mosque of a Rebellious City». The Aghlabids and Their Neighbors. [S.l.]: Brill. 292 páginas. ISBN 978-90-04-35566-8 
  7. Milwright, Marcus (2014). «Dome of the Rock». Encyclopaedia of Islam, Three. [S.l.]: Brill. ISBN 9789004161658 
  8. Evangelatou, Maria (2021). Icons of Space. [S.l.]: Routledge. pp. 171–172. ISBN 978-1-000-41086-0 
  9. Petersen, Andrew (3 de Outubro de 2011). «Damascus – history, arts and architecture». Islamic Arts & Architecture 
  10. Lamine, Siham (2018). The Aghlabids and Their Neighbors. [S.l.]: Brill. pp. 286–292. ISBN 978-90-04-35566-8 
  11. The Grove Encyclopedia of Islamic Art and Architecture. [S.l.]: Oxford University Press. 2009. pp. 112–116 
  12. Blessing, Patricia (2016). Rebuilding Anatolia after the Mongol Conquest. [S.l.]: Routledge. 44 páginas. ISBN 978-1-351-90628-9 
  13. Petersen, Andrew (1996). Dictionary of Islamic Architecture. [S.l.]: Routledge. 172 páginas 
  14. Kuban, Doğan (2010). Ottoman Architecture. [S.l.]: Antique Collectors' Club. 145 páginas. ISBN 9781851496044 
  15. Shoup, John A. (2018). The History of Syria. [S.l.]: ABC-CLIO. 76 páginas. ISBN 978-1-4408-5835-2 
  16. Daoulatli, Abdelaziz (2021). «Ḥafṣid architecture». Encyclopaedia of Islam, Three. [S.l.]: Brill 
  17. Marçais, Georges (1954). L’Architecture musulmane d’occident. [S.l.]: Arts et métiers graphiques 

Bibliografia