Projeto de lei anti-Oruam
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Em janeiro de 2025, foi protocolado na Câmara Municipal de São Paulo o projeto de lei 4/2025, que ficou conhecido como projeto de lei anti-Oruam. A proposta, da vereadora Amanda Vettorazzo, do União Brasil e Movimento Brasil Livre (MBL), almeja impedir que a prefeitura do município contrate artistas que façam apologia ao crime ou ao uso de drogas, impondo a eles uma cláusula de não expressão de apologia ao crime, que tem multa de 100% do valor do contrato como consequência do descumprimento dela. Além de impedir a contratação, o texto do projeto descreve a intenção de proteger o público infantojuvenil da adultização e do consumo de drogas.[1] Projetos similares se expandiram por todo o Brasil, não se restringindo à capital paulista.
Antecedentes e divulgação
Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, mais conhecido por seu nome artístico Oruam, é um rapper que ganhou alcance nacional em 2021 e desde então publicou vários sucessos que alcançaram a marca dos 100 milhões de visualizações.[1] Oruam é filho de Marcinho VP, um dos líderes da facção Comando Vermelho e frequentemente defende a soltura de seu pai, práticas associadas à apologia ao crime.[1][2]
O projeto foi protocolado num contexto em que o MBL está propondo uma guerra declarada contra as facções criminosas no Brasil com o uso do direito penal do inimigo, sob o uso do lema "Prendeu, matou".[3] Para integrantes do movimento, combater a cultura do crime é essencial para o combate ao crime organizado e músicas que fazem apologia ao crime se enquadram nisso.[4]
Amanda Vettorazzo usou o nome de Oruam para a promoção do projeto logo após sua protocolação, escrevendo o seguinte texto em suas redes sociais: "Quero proibir o Oruam de fazer shows em São Paulo! Chega de cantores de funk e rap fazendo apologia explícita ao crime organizado. Facções são INIMIGAS e devem ser tratadas como tal. Em São Paulo, não!"[1]
Recepção
Apoiadores
Muitos políticos, além dos membros do MBL, declararam apoio ao projeto de lei, destacando a necessidade de combater o crime organizado e de não financiar com dinheiro público a glorificação de atos contra o Estado.[5] O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, declarou apoio ao projeto de Lei e disse que ela não é um ataque à cultura ou ao funk e sim ao uso de recursos públicos para a apologia ao crime por uma pessoa. Também destacou que "Pra você ver que eu tenho um bom gosto pra música, nunca ouvi a música desse cara".[6]
Opositores
Em geral, opositores colocaram o projeto de lei como um ataque à cultura negra e periférica, comparando a ação que vem do projeto a perseguições sofridas pelo samba e pela capoeira, citando que gêneros não periféricos fazem apologia ao crime sem sofrer ataques por isso e destacando uma possível inconstitucionalidade do projeto ao ferir a liberdade de expressão e ao uso de atribuições exclusivas da União por estados e municípios.[7][8] Foi destacado também que a prática de apologia ao crime já é crime no Brasil.[9] O rapper Orochi criticou o projeto por uma razão similar, dizendo que "Quem apoia essa lei é preconceituoso".[10]
Oruam
Após o anúncio feito pela vereadora paulistana, Oruam publicou diversos conteúdos em rede social em referência a Amanda Vettorazzo e ao projeto. Ele convocou seus seguidores a derrubar o perfil dela e disse, referindo-se a ela, “Sua doente mental da sua cabeça, nós canta o que nós vive, sua idiota. Quando é um playboy cantando, ninguém fala nada”. Em outro vídeo publicado por Oruam, um dos interlocutores diz para "alguém comer ela", termo que é repetido pelo rapper antes dele completar dizindo "Toma jack.", frase que pode ser interpretada como uma referência a estupro. Renan Santos, coordenador do MBL, afirmou que "Basicamente, [Oruam] convocou seus animais para estuprarem a Amanda". A parlamentar reagiu registrando um boletim de ocorrência contra o rapper por ameaças sofridas em decorrência das publicações de Oruam.[11][12]
Após sua primeira prisão em fevereiro de 2025, Oruam lançou seu álbum "Liberdade", que usa a alcunha da lei como título de uma das faixas.[2]
Expansão pelo Brasil e tramitação
O projeto foi espalhado para diferentes esferas do poder legislativo. O deputado federal Kim Kataguiri, também membro do MBL, protocolou um projeto de lei similar no Congresso Nacional, que multa em no mínimo 100% do valor do contrato artistas que promoverem o crime organizado, prática de condutas criminosas ou o consumo de drogas em eventos pagos pelo governo. O projeto recebeu 46 assinaturas na Câmara dos Deputados.[13]
Após uma iniciativa do MBL para espalhar o projeto por meio de um site onde vereadores poderiam copiar o texto da lei,[14] diferentes câmaras municipais do Brasil receberam e aprovaram projetos similares ou idênticos ao paulistano. Em fevereiro, 12 capitais estaduais já tinham projetos similares.[15] Durante o ano de 2025, vários deles foram sido lentamente aprovados, em cidades como Natal,[16] Santa Cruz do Sul,[17] Porto Velho,[18] Vitória,[19] Maceió[20] e Brusque.[21] Além disso, uma lei similar já existia em Salvador.[22] Em Natal, o projeto foi vetado pelo prefeito alegando uma violação da separação dos poderes.[23]
Na Câmara Municipal de São Paulo, o projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e por um congresso de comissões, ainda seguindo no processo de tramitação.[24]
Com as prisões do MC Poze do Rodo e a criação da CPI dos Pancadões ao longo de 2025, o projeto de lei pautou discussões políticas no debate público.[25][26][27]
Já no Rio de Janeiro, terra natal de Oruam, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro propôs através dos vereadores Pedro Duarte (Novo) e Talita Galhardo (PSDB) legislação similar, que foi arquivada em dezembro de 2025 por não ter atingido o número de votos suficientes para a sua tramitação.[28]
Ver também
Referências
- ↑ a b c d «O que é o "Projeto Anti-Oruam", protocolado por vereadora de São Paulo». CNN Brasil. 12 de fevereiro de 2025. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ a b «Oruam marca posição nos versos do primeiro álbum, 'Liberdade', lançado horas após a prisão e soltura do rapper». G1. 21 de fevereiro de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Partido do MBL quer eliminar traficantes e pode lançar Danilo Gentili à Presidência». www.gazetadopovo.com.br. 14 de julho de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ PODER360 (3 de junho de 2025). «MBL quer exclusão de funks de plataformas por apologia ao crime». Poder360. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Após SP, projetos de 'Lei Anti-Oruam' chegam ao Congresso e a capitais do País; entenda». Estadão. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «'Não conheço as músicas do rapaz, pra você ver que tenho um bom gosto', diz Nunes sobre projeto de lei 'anti-Oruam'». G1. 10 de fevereiro de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Gerais, Assembleia Legislativa de Minas (25 de setembro de 2025). «Artistas apontam racismo de projetos apelidados de leis anti-Oruam - Assembleia Legislativa de Minas Gerais». Portal da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «PL Anti-Oruam evidencia estigmatização da cultura periférica – Central Periférica» (em inglês). Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Código Penal já trata de delitos da "Lei anti-Oruam" – DW – 21/02/2025». dw.com. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Oliveira, Pablo (1 de maio de 2025). «Orochi critica lei anti-Oruam na porta da delegacia: "Quem apoia essa lei é preconceituoso"». Estado de Minas. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Moreira, Valentina (24 de janeiro de 2025). «Briga de vereadora do MBL e rapper Oruam termina com registro de B.O.». www.metropoles.com. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Vereadora de SP denuncia Oruam após sofrer ameaças: 'Tomar Jack'». www.band.com.br. 29 de janeiro de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «"Projeto Anti-Oruam" é protocolado na Câmara dos Deputados». CNN Brasil. 12 de fevereiro de 2025. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «Código Penal já trata de delitos da "Lei anti-Oruam" – DW – 21/02/2025». dw.com. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Brasil, Billboard (13 de fevereiro de 2025). «'Lei Anti-Oruam': projeto de lei contra rap e funk chega a 12 capitais - Billboard Brasil». billboard.com.br. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «Lei aprovada em Natal proíbe contratação de artistas que fazem apologia ao crime». G1. 27 de junho de 2025. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ Interativa, Bravo; emily (2 de junho de 2025). «Lei "Anti-Oruam" é aprovada pelos vereadores de Santa Cruz». Portal Arauto. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «'Lei anti-Oruam' que proíbe cachês públicos a artistas que fazem apologia ao crime é aprovada em Porto Velho». G1. 18 de março de 2025. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «Câmara Municipal de Vitória aprova "Lei Anti-Oruam" e artistas do ES reagem». www.agazeta.com.br. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ Amorim, Gabriel (14 de maio de 2025). «'Lei anti-Oruam': entenda o projeto aprovado na Câmara de Maceió». TNH1. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ Facchini, Thiago (6 de maio de 2025). «"Lei anti-Oruam" é aprovada na Câmara de Brusque para proibir contratação de shows com apologia a crimes». O Município. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «'Lei anti-Oruam': regra que proíbe contratação de artistas que façam apologia à violência vigora desde 2019 em Salvador». G1. 20 de fevereiro de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Nicácio, Romário (24 de julho de 2025). «Paulinho veta Lei 'Anti-Oruam' em Natal; Projeto proibia shows com apologia ao crime na cidade». Portal N10. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Painel: Projeto de lei anti-Oruam avança na Câmara de SP e tem aval de Nunes». Folha de S.Paulo. 27 de junho de 2025. Consultado em 28 de junho de 2025
- ↑ «Qual é sua opinião sobre a 'Lei anti-Oruam', de proibir contratação de artistas que fazem apologia do crime?». Folha de S.Paulo. 2 de junho de 2025. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ Meira, Júlia (4 de junho de 2025). «Deputado quer urgência para aprovação da Lei Anti-Oruam no Ceará após soltura de MC Poze». URB News. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ PODER360 (29 de maio de 2025). «MBL celebra prisão de MC Poze por apologia ao crime». Poder360. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Sem votos necessários, projeto da 'Lei anti-Oruam' é arquivado na Câmara do Rio». G1. 11 de dezembro de 2025. Consultado em 15 de dezembro de 2025