Pancrácio III de Imerícia
| Pancrácio III | |||||
|---|---|---|---|---|---|
![]() Afresco representando Pancrácio no Mosteiro de Guelati | |||||
| Rei do Reino de Imerícia | |||||
| Reinado | 1510–1565 | ||||
| Antecessor(a) | Alexandre II | ||||
| Sucessor(a) | Jorge II | ||||
| Dados pessoais | |||||
| Nascimento | 1495 | ||||
| Morte | 1565 | ||||
| Cônjuge | Helena | ||||
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| Dinastia | bagrátida | ||||
| Pai | Alexandre II | ||||
| Mãe | Tamara | ||||
| Religião | Igreja Ortodoxa Georgiana | ||||
| Assinatura | ![]() | ||||
Pancrácio III (em grego: Παγκράτιος, Pankrátios; em latim: Pancratius; em georgiano: ბაგრატ, Bagrat; nascido em 1495 – morto em 1565), da dinastia bagrátida, foi o rei (mefe) da Imerícia de 1510 a 1565, um dos três reinos georgianos que dividiram o controle da Geórgia após sua fragmentação em 1490. Pancrácio ascendeu ao trono aos quinze anos, após a morte de seu pai. Ao longo de seu reinado, enfrentou numerosas invasões pelo Império Otomano, notadamente em 1512, 1543, 1545 e 1549. Essas invasões causaram ampla devastação em seu reino e marcaram o início do declínio de um outrora poderoso reino georgiano ocidental.
Embora Pancrácio inicialmente controlasse vastos territórios, gradualmente perdeu autoridade sobre a Abecásia, Mesquécia e, perto do fim de seu reinado, sobre os fortes principados de Gúria e Mingrélia. Suas tentativas de conter vassalos rebeldes foram infrutíferas e, ao tempo de sua morte, após cinquenta e cinco anos de governo, seu domínio havia sido reduzido à cidade capital de Cutáissi e a algumas províncias agrícolas ao redor. Pancrácio é particularmente lembrado por recusar-se a converter ao Islã, ao contrário de vários governantes georgianos contemporâneos. Ele promoveu ativamente a construção de novas igrejas e fortaleceu a influência do Catolicato da Abecásia. É também notável por abolir a escravidão, uma medida que, embora moralmente orientada, teve efeito prejudicial sobre a economia agrária de seu reino.
Nome
Pancrácio (Παγκράτιος, Pankrátios; Pancratius) deriva do grego pankratḗs (παγκρατής), "todo poderoso",[1] e equivale ao clássico Bagadates.[2] Bagadates (Βαγαδάτης, Bagadátēs) e Magadates (Μαγαδάτες, Magadátes) são as formas grega e latina[3] do proto-iraniano *Bagadata (*Bágadaʰtah), que equivale ao persa antigo *Bagadata (Bagadātah, "criado por deus"), de bagaʰ, "deus", e dātaʰ, "dado, criado". Ocorre em babilônico tardio como Baguedatu (𒁀𒀝𒁕𒌈, Bagdatu), Bagadata (𒁀𒂵𒀪𒁕𒀀𒋫 e variantes, Bagaʾda/āta), Bagadati (𒁀𒂵𒀪𒁕𒀀𒋾, Bagaʾdāti), Bagadatu (𒁀𒂵𒀪𒁕𒀀𒌅 e variantes, Bagaʾdātu), Bagadadu (𒁀𒂵𒁕𒁺, Bagadadu) e Baguedada (𒄷𒁕𒁕, Bagdada), em elamita aquemênida como Baquedada (𒁀𒀝𒆪𒀜𒆪, Bakdada), Baquedauda (𒁀𒀝𒆪𒌓𒆪, Bakdauda), Baiquedauda (𒁀𒅅𒆪𒌓𒆪, Baikdauda), Bacadade (𒁀𒋡𒆪𒀜, Bakadad), Bacadada (𒁀𒋡𒆪𒀜𒆪, Bakadada) e Bacadauda (𒁀𒋡𒆪𒌓𒆪, Bakadauda), em aramaico (𐡁𐡂𐡃𐡕, bgdt),[4] persa médio (𐭡𐭢𐭣𐭠𐭲𐭩, bgdʾty, Baydād) e persa novo (بغداد, Baġdâd) como Baguedade,[3] em egípcio demótico como Peguetete (pgtt), em lício como Magabata,[5] em georgiano como Bagrate (ბაგრატ, Bagrat), em árabe como Bucrate (بُقْرَاط, Buqrāṭ) e em armênio como Bagrate (Բագրատ, Bagrat), Bagarate (Բագարատ, Bagarat) e Bagadia (Բագադիա).[6]
Vida
Ascensão ao trono
Pancrácio nasceu em 1495 no seio da antiga dinastia bagrátida da Geórgia. Era o filho mais velho do rei Alexandre II e de sua esposa, a rainha Tamara.[7] Em 1510, o rei Alexandre II morre.[8] Aos 15 anos de idade, Pancrácio ascende ao trono de Imerícia e assume o título histórico dos soberanos georgianos: "Mestre absoluto, soberano dominador dos abecásios, dos rânios e dos caques, dos xás dos xás, dos xás de Xirvão e dos armênios, de todo o oriente, do ocidente, do sul e do norte, dos dois tronos e reinos de Licte-Imier e Licte-Amier".[9] Desde o início de seu reinado, precisou enfrentar uma revolta de seu irmão mais novo, Vactangue que, segundo uma classificação proposta pelo historiador Marie-Félicité Brosset, teria ascendido ao trono junto com Pancrácio sob o nome de Vactangue II.[10] Em 1512, Vactangue refugia-se em Cártlia, onde foi sitiado e vencido por seu irmão em Moquissi. Após renunciar às conquistas de seu pai em Cártlia, Pancrácio conseguiu negociar uma paz duradoura com Vactangue graças à intervenção do rei Davi X (r. 1505–1525).[11]
Primeiros ataques otomanos

Em 1512[12] (ou 1510, segundo o historiador Kalistrat Salia[13]), o Império Otomano voltou-se novamente contra a Geórgia Ocidental e formou uma coalizão com o principado independente de Mesquécia. Mezechabuque, príncipe de Mesquécia, uniu suas tropas às dos otomanos em Perseti, antes de avançar para Imerícia durante o verão. Cutáissi, a capital, caiu sem esforço, e Pancrácio precisou se refugiar nas montanhas de Mesquécia.[12] Durante essa primeira invasão, os otomanos saqueiam Cutáissi, destroem os povoados vizinhos e queimam o mosteiro de Guelati, onde os antigos reis da Geórgia estão enterrados.[14] O jovem rei preparou uma resposta enérgica e reuniu suas tropas por todo o país. Já no inverno, conseguiu repelir os otomanos até o passo de Zecari, onde ameaçou isolá-los e cercá-los. Diante dessa estratégia, os otomanos foram obrigados a recuar para o sul e puseram fim à invasão.[13]
Os ataques continuaram parcialmente no noroeste do reino, onde a tribo circassiana dos zígios lançou investidas navais contra os portos da Abecásia e da Mingrélia. Os zígios eram, à época, financiados e influenciados pelo Canato da Crimeia,[14] um importante vassalo do Império Otomano. Os piratas zígios reduziram muitos georgianos à escravidão e os venderam nos mercados turcos.[15] Em janeiro de 1533, Pancrácio lançou uma ofensiva contra os zígios com apoio dos príncipes Mâmia III (r. 1512–1533) de Mingrélia e Mâmia I (r. 1323–1345) de Gúria. Durante a primeira batalha naval, em 30 de janeiro, ao largo de Gagra, os aliados georgianos conseguiram derrotar os piratas circassianos.[14] Mas, no dia seguinte, uma traição de nobres abecásios, liderada por um certo Sândia Inal-Ipa,[16] resultou numa ampla derrota georgiana. O príncipe Mâmia III foi morto durante o combate, enquanto Mâmia I foi capturado pelos zígios.[17] Pancrácio enviou o católico da Abecásia, Malaquias I (r. 1519–1540), para negociar o retorno do príncipe Mâmia I e do corpo de Mâmia III.[14]
Política doméstica

Após a invasão otomana de 1512, Pancrácio dedicou a primeira parte de seu reinado a restaurar os danos infligidos a Cutáissi. Com a ajuda de um nobre chamado José Fanelize, readquiriu e reconstruiu o Mosteiro de Guelati, confiando seu cuidado a Fanelize e a seus descendentes. Em troca, Fanelize recebeu a posse das terras e aldeias circundantes, sob a condição de que mantivesse o mosteiro, enquanto o rei conservava direitos irrestritos de caça na região.[18] Nesse mesmo ano, Pancrácio reconheceu Mâmia III como príncipe de Mingrélia após a morte de Liparites II. Segundo a tradição, Mâmia III assumiu também o posto de mandaturtucusessi (ministro do interior), enquanto Mâmia I, que se tornou governante vassalo de Gúria em 1512, foi nomeado amirspassalar (comandante supremo) das forças reais.[19]
Após a reconstrução de Guelati, Pancrácio transferiu o centro religioso de Imerícia de Bichvinta — sede do Catolicato da Abecásia — para Guelati. Essa mudança fortaleceu a influência real sobre a Igreja e respondeu à crescente expansão do islamismo na Abecásia. Diferentemente de Bichvinta, situada na costa do mar Negro, no norte da Abecásia, Guelati ficava próxima à capital real, Cutáissi.[20] Em 1519, Pancrácio nomeou Malaquias I católico, sucedendo Estêvão (r. 1490–1516). Malaquias permaneceu no cargo até 1540, após o que a linhagem de patriarcas se torna desconhecida até a nomeação, por Pancrácio, de Eudemão I em 1557.[21] O rei também trabalhou para restaurar as terras devastadas pelas incursões otomanas, redistribuindo-as entre súditos leais.[14] Em reconhecimento à sua fidelidade, Xoxita I (r. 1534–1570) foi nomeado eristavi de Racha,[15] um ducado no norte de Imerícia. Mais tarde, Pancrácio convocou um concílio de líderes eclesiásticos do catolicato da Abecásia, que promulgou novos decretos contra o tráfico de georgianos, estabelecendo pena de morte para qualquer envolvido na escravização. Apesar dessas reformas, as regiões sob controle otomano continuaram a praticar a escravidão e, após a morte de Pancrácio, os decretos logo caíram no esquecimento.[20] O concílio também codificou punições severas para roubo e homicídio.[14]
Pancrácio manteve uma relação complexa e frequentemente tensa com seu vizinho oriental, o Reino de Cártlia. Em 1520, aliou-se a Mâmia I e a Quervaquevare III de Mesquécia para invadir Cártlia, numa tentativa de encerrar o conflito contínuo entre aquele reino e Caquécia. Num raro ato de unidade georgiana, Pancrácio conseguiu negociar a paz, estabelecendo fronteiras definidas e um pacto de defesa mútua entre Cártlia e Caquécia.[22] Esse espírito de união persistiu em 1525, quando o rei Leão de Caquécia (r. 1518/20–1574) e o rei Jorge IX de Cártlia (r. 1525–1527/34) acompanharam Pancrácio numa peregrinação a Jerusalém.[23] Contudo, o equilíbrio político mudou em 1526,[24] quando Pancrácio arranjou o casamento de sua filha Tamara com o príncipe Luarsabe de Cártlia, sobrinho e herdeiro do rei. A aliança entre Imerícia e Cártlia tornou-se rapidamente oportunista: em 1527 Pancrácio invadiu Cártlia, depôs o rei Jorge IX e colocou seu genro no trono. Em contrapartida, Imerícia anexou todas as terras a oeste do rio Prone, incluindo as cidades estratégicas de Surami e Borjomi. As relações entre os dois reinos permaneceram instáveis nas décadas seguintes. Sob pressão otomana nos anos 1530, Pancrácio devolveu as terras conquistadas ao rei Luarsabe em troca de apoio militar.[24] Em 1546, Pancrácio esteve entre os vários monarcas georgianos — incluindo Caicosroes II (r. 1545–1573) e Leão de Caquécia — que juraram lealdade ao xá safávida Tamaspe I (r. 1524–1576) em Acalcalaqui, oferecendo assistência numa ofensiva contra Cártlia em troca de proteção persa contra a agressão otomana.[25]
Guerra em Mesquécia


No verão de 1534, o Império Otomano lançou uma campanha contra a Pérsia safávida. Durante sua marcha em direção a Tabriz, o sultão Solimão, o Magnífico (r. 1520–1566) atravessou Mesquécia, aproveitando a instabilidade local para reprimir uma revolta nobre e formar uma aliança com o príncipe Quevarquevare III. Em 1535, Pancrácio reuniu seu exército e se aliou a seus vassalos de Mingrélia e de Gúria para invadir Mesquécia. Em 12 de agosto, suas tropas se aproximaram de Acalcalaqui e enfrentaram Quevarquevare III na Batalha de Murjaqueti.[26] O príncipe de Mesquécia foi morto, e sua principado foi então anexado por Pancrácio.[17] A partir de seus territórios recém-adquiridos, Pancrácio concedeu Javaquécia a Luarsabe, numa tentativa de fortalecer as relações entre eles.[24] Rostom (r. 1534–1564) de Gúria, sucessor de Mâmia I, recebeu Ajária e Chaneti como recompensa, enquanto a contribuição de Mingrélia permaneceu sem recompensa.[26]
Apesar de sua vitória, Pancrácio logo enfrentou a retaliação otomana. Um dos vassalos do falecido Quevarquevare, Otar Xalicasvili, viajou a Istambul acompanhado do filho do príncipe, Caicosroes, para pedir ajuda a Solimão. Em resposta, os otomanos lançaram campanha contra Mesquécia sob comando de Maomé Cã. Após realizar os preparativos necessários, a campanha iniciou em 4 de julho de 1536 e seria conduzida pelos próximos dois anos. Maomé Cã marchou rumo a Tortum, Namervane (atual Narmane), Oltu e Berdagraque e infligiu pesadas baixas aos exércitos georgianos. Em 1538, submeteu Mesquécia, as regiões de Mejencerta, Zivim, Caesmane, Carse, o sul de Namervane e Oltu, as porções superiores do vale do Quisca em Tortum e as margens do Choruque, conhecidas como vale de Livane. Em 1538, foi criado o sanjaco de Livane no vale recém-conquistado.[27][28]
Pela primeira vez, os otomanos anexaram territórios georgianos, impondo administração turca e islâmica à população ortodoxa local — um sinal de uma nova e agressiva política otomana em relação à Imerícia.[29] Após a invasão, as tropas otomanas saquearam igrejas e povoados georgianos durante vários anos. Num esforço para conter os ataques, Pancrácio buscou auxílio do xá Tamaspe I, oferecendo sua submissão em troca de apoio militar em Mesquécia. Embora o xá tenha recusado, enviou presentes generosos ao rei.[30] Em 1543, o general otomano Muça Paxá[26] retornou a Mesquécia com um exército de sessenta nobres e 22 mil soldados, forçando Pancrácio a capitular após bombardear aldeias indefesas com canhões. Pancrácio ofereceu tributos e as chaves de Oltu, após o que os otomanos se retiraram, deixando para trás uma guarnição e um canhão. Pancrácio rapidamente rompeu a trégua, retomou Oltu e capturou o canhão otomano. Reforçado por tropas de Gúria, perseguiu as forças otomanas e derrotou-as em Caragaque, onde Muça Paxá foi morto.[30] Virtualmente, Pancrácio foi capaz de recuperar todo o vale de Livane perdido em 1538.[27][28]
No verão de 1545, o Império Otomano lançou uma invasão em larga escala da Imerícia para vingar a derrota em Caragaque. A campanha foi liderada pelos beilerbeis de Erzurum e Diarbaquir. Pancrácio convocou novamente seus aliados, mas Leão I (r. 1533–1572) de Mingrélia recusou-se a participar, irritado pela falta de recompensas após seu apoio anterior em Murjaqueti.[29] Pancrácio, juntamente com Luarsabe de Cártlia e Rostom de Gúria, enfrentou o exército otomano perto da aldeia de Socoista, onde foram derrotados após a traição dos soldados georgianos de Mesquécia, que haviam sido privados de seu direito tradicional de liderar o ataque.[30] Como consequência, Pancrácio perdeu o controle sobre Mesquécia, que os otomanos concederam a Caicosroes (r. 1545–1573). O rei fez várias tentativas para recuperar a região. Numa delas, em 1546, foi derrotado.[31]
Quando o sultão Solimão lançou sua campanha contra os safávidas em 1548, encarregou o terceiro grão-vizir, Cara Amade Paxá, de eliminar a ameaça representada pelos nobres georgianos. Após conquistar Tortum em 18 de setembro de 1549, Amade Paxá designou os beilerbeis de Erzurum e Sivas para retomarem o vale de Livane. Em 7 de outubro, as fortalezas da região — Berdagraque (atual Chevreli), Quisquim (atual Alambaxe) e Nicaque (atual Iocuslu) — foram conquistadas pela segunda e última vez. Durante essa campanha, os castelos se renderam pedindo clemência (amã). Desta vez, foi criado no vale de Livane o sanjaco de Pertecreque, subordinado ao beilerbei de Erzurum.[27] Em 1553, Pancrácio tentou nova campanha contra Mesquécia, na qual recuperou o Ícone da Virgem de Ascuri, posteriormente transferido para Cutáissi.[32] Ele também buscou auxílio de potências europeias, embora seu único contato ocidental registrado seja uma carta do papa Paulo III a Luarsabe de Cártlia, elogiando ambos os governantes georgianos por sua resistência contra os muçulmanos e prometendo o envio de emissários católicos à Geórgia.[30] A perda de Mesquécia sob Pancrácio levou à gradual islamização da região. No século XVII, os príncipes locais haviam perdido sua autonomia e adotado o título otomano de “paxá de Acalcalaqui”. No século XVIII, Mesquécia foi totalmente incorporada ao Império Otomano.[33]
Revolta dos nobres

Após a perda de Mesquécia, Pancrácio reconheceu que a vitória sobre o Império Otomano só poderia ser alcançada através da unificação completa da Geórgia Ocidental. Determinado a suprimir a insubordinação de seus vassalos, ele começou a consolidar sua autoridade. Em 1546, convidou Leão I de Mingrélia para Coni,[34] sob o pretexto de uma conferência de paz[35] realizada durante a temporada de caça.[36] Depois de banquetearem juntos, Pancrácio mandou prender Leão e o encarcerou na torre do sino do Mosteiro de Guelati,[37] tentando posteriormente anexar a Mingrélia. Em seguida, apelou a Rostom de Gúria para que se juntasse a ele na divisão dos domínios da família de Leão.[38] Desconfiado das intenções do rei, Rostom recusou a oferta e exigiu a libertação de Leão.[38] Enquanto isso, Caicosroes II de Mesquécia subornou Cofilandre Chequeize, um dos conselheiros reais de Pancrácio, para libertar Leão[38] e escoltá-lo até Acalsique.[37] Com a ajuda de Rostom, Leão retornou à sua capital, Zuguedidi, e recuperou o controle sobre seu principado. Pouco depois, declarou a independência da Mingrélia em relação à Imerícia e aceitou a suserania do Império Otomano sobre seu território.[39]
Em 1549, os otomanos invadiram a Geórgia mais uma vez, tomando o Chaneti e Ajária, ambos sob o controle do Principado da Gúria.[37] Rostom apelou a Pancrácio e a Leão I por apoio militar, levando o rei da Imerícia a enviar um destacamento de 500 homens sob o comando de seu irmão Vactangue.[34] Secretamente, Pancrácio ordenou a Vactangue que impedisse qualquer aliança militar entre Mingrélia e Gúria. Seguindo essas instruções, Vactangue convenceu as tropas mingrélias a se retirarem, permitindo que os otomanos capturassem e anexassem Gônio e Batumi.[34] Após esse fracasso — e irritado com a duplicidade de Pancrácio — Rostom da Gúria também declarou independência em relação à Imerícia.[38] Isso enfraqueceu ainda mais o poder político e militar de Cutáissi, reduzindo o reino de Pancrácio ao mais fraco dos três reinos georgianos. Em 1553, Leão e Rostom foram encontrados na comitiva pessoal do paxá otomano de Erzurum.[38]
Anos finais
Nos anos finais de seu governo, Pancrácio continuou a enfrentar incursões tanto do Império Otomano quanto da Pérsia safávida. Em agosto de 1549, o embaixador francês em Istambul Gabriel de Luetz, barão d’Aramom, liderou uma expedição turca a Imerécia, destruindo vinte e cinco fortalezas na região de Vani em uma semana. Essa operação enfraqueceu significativamente Imerícia. O barão havia sido instruído a ajudar os otomanos no Cáucaso como parte do acordo diplomático da França com os otomanos, em troca do apoio otomano contra os Habsburgo da Áustria.[34] Em 29 de maio de 1555, o Império Otomano e a Pérsia concluíram a Paz de Amásia,[40] dividindo formalmente a Transcaucásia em suas respectivas esferas de influência. Sem o seu consentimento, Pancrácio viu-se sob influência otomana — um revés diplomático para o rei,[39] que há muito buscava manter a estabilidade de seu reino equilibrando a rivalidade entre os dois impérios. Pouco depois, Solimão, o Magnífico, impôs pesados tributos a Imerícia e chamou o país, de forma depreciativa, de “Cabeça Desnuda”, simbolizando a devastação causada pelas invasões otomanas.[34] Enfraquecido e privado de apoio militar externo, Pancrácio tentou invadir Surami, localizada na Cártlia safávida, numa tentativa de minar a Paz de Amásia.[41] A campanha, no entanto, fracassou, forçando o rei a abandonar suas últimas ambições militares. Pancrácio morreu em 1565, após um reinado de cinquenta e cinco anos, e foi sucedido por seu filho mais velho Jorge II.[42]
Referências
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