Lacmitas

Os lacmitas ou Banu Lacme (em árabe: بنو لخم; romaniz.: Banu Lakhm) eram uma tribo árabe conhecida sobretudo pela sua dinastia reinante nacérida, ou, mais comumente, "lácmida", que governou como reis vassalos do Império Sassânida na zona-tampão com as tribos árabes nômades do norte e do leste da Península Arábica, entre os séculos IV e VI, a partir da sua sede em Hira (no atual Iraque). Após o seu primeiro governante, Anre ibne Adi ibne Nácer (r. 293–302), nada mais se noticia sobre os reis lácmidas no Iraque até ao final do século V, quando surgiram como comandantes das campanhas sassânidas contra tribos árabes nômades e, mais tarde, contra os aliados árabes do Império Bizantino. A sua origem é tida como iamanita. Uma parte dos lacmitas habitava a Síria pelo menos desde o século IV, durante o domínio bizantino, e manteve-se aliada do Império Bizantino até à conquista muçulmana da Síria na década de 630. Posteriormente, tornaram-se uma das principais tribos que integraram o contingente tribal árabe do Califado Omíada na Palestina e estiveram intimamente associadas à maior tribo dos judamitas.

História

Iraque

Os lacmitas são mais conhecidos por sua dinastia nacérida, ou, mais comumente, pela casa lácmida, que governou um reino vassalo do Império Sassânida persa entre os séculos IV e VI, a partir de sua capital em Hira, no Iraque (Baixa Mesopotâmia). O fundador do Reino Lácmida foi Anre ibne Adi ibne Nácer, identificado com o Anre ibne Lacme mencionado em duas inscrições pré-islâmicas — uma em pálavi/parta e outra em copta. O seu reinado é tradicionalmente datado de 293 a 302.[1] O sucessor de Anre, seu filho Inru Alcais I ibne Anre, inicialmente governou as tribos árabes do alto Eufrates e do Deserto da Síria, antes de se converter ao cristianismo e desertar para o Império Romano.[2] Pouco mais se ouve sobre os lácmidas do Iraque até o século V. Irfan Shahid suspeita que essa parte da tribo tenha regressado ao Iraque nessa época ou que ali tivesse permanecido, não acompanhando o seu rei Inru Alcais e o restante dos lacmitas para a Síria.[3]

Os reis lácmidas ressurgem no século V como comandantes nas campanhas sassânidas contra os bizantinos, governantes das tribos árabes do norte da Arábia, figuras de peso ocasional na política sucessória sassânida e construtores de palácios em Hira. A história lácmida no século VI foi marcada pelo longo reinado do rei Alamúndaro III (r. 503–554), que ajudou a ampliar e proteger a influência sassânida no sul e no oeste da Arábia, e pela guerra com os vassalos árabes dos bizantinos, os gassânidas da Síria. O último rei lácmida, Numane III (r. 580–602), adotou o cristianismo e foi assassinado pelo xainxá Cosroes II (r. 590–628). Isso pôs fim ao Reino Lácmida, removendo inadvertidamente o principal baluarte persa contra as tribos árabes dos desertos em torno do Iraque e, em última instância, abrindo caminho para a conquista árabe-muçulmana do Iraque na década de 630.[2]

Síria e Palestina

Período bizantino

Segundo os historiadores Henri Lammens e Irfan Shahid, a chegada dos lacmitas à Síria data do século IV, evidenciada pela inscrição de Namara, o epitáfio de Inru Alcais I ibne Anre (r. c. 295–328) encontrado no sul da Síria e datado de 328.[3] Os lacmitas da Síria habitavam as partes meridionais da região, próximos e entre as tribos dos judamitas e amilaítas, embora provavelmente estivessem estabelecidos ali antes de ambas. As três tribos tornaram-se estreitamente aliadas e criaram vínculos genealógicos fictícios, passando a ser consideradas tribos "irmãs". No período imediatamente anterior à conquista muçulmana da Síria, na década de 630, os lacmitas, mais antigos, foram superados em proeminência pelos judamitas e amilaítas, especialmente os primeiros, que praticamente absorveram a tribo.[3] Às vésperas da conquista, os lacmitas viviam em grupos entre os judamitas na região que se estendia ao norte de Tabuque, atravessando a área desértica a leste do vale de Arava e do mar Morto até as proximidades do Balca. Parte dos lacmitas também vivia no sul da Palestina, a oeste do mar Morto.[4]

Período islâmico inicial

O profeta islâmico Maomé estabeleceu contatos com clãs dos lacmitas, mas a tribo, em grande parte, permaneceu cristã e aliada ao Império Bizantino cristão, juntamente com os judamitas. Ambas as tribos lutaram em nome dos bizantinos contra os muçulmanos na Batalha de Muta por volta de c. 629, e foram alvo — junto com outras tribos árabes cristãs aliadas dos bizantinos — da incursão muçulmana a Tabuque por volta de c. 630. Pelo menos dez homens do clã adarita dos lacmitas, incluindo o célebre Tamime Adari, reuniram-se com Maomé em Medina e converteram-se ao Islã.[4] A esses homens adaritas, Maomé concedeu terras no sul da Palestina, incluindo Hebrom e seus arredores, embora essas terras estivessem então sob controle bizantino e a concessão só tenha surtido efeito após a conquista muçulmana.[5] Outro clã da tribo, os hadacitas, também se absteve de se juntar ao restante dos lacmitas em Muta, embora as informações sobre eles sejam escassas. Em geral, a maior parte dos lacmitas manteve-se ao lado do Império Bizantino.[4]

Durante a conquista muçulmana da Síria, membros dos lacmitas figuravam entre os combatentes tribais árabes liderados pelo rei gassânida Gabalas VI (r. 628–636) no exército bizantino, na Batalha de Jarmuque em 636.[6] Grupos de lacmitas também estavam presentes nas fileiras muçulmanas.[7] Segundo o historiador Fred Donner, divisões e rivalidades internas pré-existentes entre os lacmitas provavelmente explicam a participação de seus membros em ambos os lados, bizantino e muçulmano, em Jarmuque.[8] A lealdade pouco clara dos lacmitas e dos judamitas durante a conquista reflete-se na ordem do califa Omar (r. 364–344) de excluí-los da partilha dos espólios de guerra por volta de 638, que, de outro modo, deveriam ser divididos igualmente entre as tribos árabes das fileiras muçulmanas.[9] Ainda assim, a presença dos lacmitas e dos judamitas nas folhas de pagamento do exército muçulmano indica que já haviam sido incorporados à entidade política islâmica nessa época.[10]

Ao longo do primeiro século de domínio islâmico, os lacmitas quase sempre aparecem nas fontes juntamente com os judamitas como um único grupo. Na Batalha de Sifim em 657, que opôs o governador da Síria, Moáuia ibne Abi Sufiane (639–661), ao califa Ali (r. 656–661), os lacmitas lutaram ao lado dos judamitas sob a mesma bandeira e comando, o de Natil ibne Cais Aljudami, em favor de Moáuia. O mesmo ocorreu em Jarmuque e novamente quando ambos lutaram em nome do filho de Moáuia, o califa omíada Iázide I (r. 680–683), no exército sírio que reprimiu revoltas antiomíadas no Hejaz (Medina e Meca) em 682–683.[3] Juntamente com os judamitas e as tribos quinanaítas, azeditas do Sarate, cuzaítas e catamitas — as quatro últimas chegadas com os exércitos da conquista —, os lacmitas formaram a soldadesca tribal árabe do Junde de Filastine (distrito militar da Palestina) no início do período islâmico, segundo o historiador do século IX Califa ibne Caiate. Outro historiador do século IX, Iacubi, também lista as tribos árabes da Palestina como lacmitas, judamitas e quinanaítas, mas omite as demais, acrescentando amilaítas, quindaítas e caicitas.[11]

O historiador do século X Almoalabi menciona que Rafa, ao sul de Gaza, era dominada pelos lacmitas e judamitas, embora não esteja claro a que período ele se refere.[12] Embora os lacmitas da Síria e da Palestina estivessem quase invariavelmente associados aos judamitas, seu nisba (epíteto) continuou a ser prestigiosa devido ao "seu sabor arcaico, às gloriosas memórias que evocava" dos reis de Hira, segundo Lammens.[3] Ainda nos séculos IX e X, figuras notáveis da Palestina continuavam a reivindicar descendência da tribo, como o erudito Atabarani, de Tiberíades,[13] e o rebelde messiânico antiabássida Almubarca.[14]

Referências

  1. Schiettecatte & Arbach 2016, p. 16.
  2. a b Bosworth 2012.
  3. a b c d e Lammens & Shahid 1986, p. 632.
  4. a b c Donner 1981, p. 105.
  5. Donner 1981, pp. 97–98.
  6. Donner 1981, p. 132.
  7. Donner 1981, p. 133.
  8. Donner 1981, p. 148.
  9. Donner 1981, pp. 132, 320, nota 167; 321, nota 285.
  10. Athamina 1994, p. 267.
  11. Gil 1997, p. 133.
  12. Gil 1997, p. 204, nota 78.
  13. Gil 1997, p. 132, nota 127.
  14. Gil 1997, p. 295.

Bibliografia

  • Athamina, Khalil (1994). «The Appointment and Dismissal of Khālid b. al-Walīd from the Supreme Command: A Study of the Political Strategy of the Early Muslim Caliphs in Syria». Arabica. 41 (2): 253–272. doi:10.1163/157005894X00191 
  • Bosworth, C. Edmund (2012) [2000]. «Lakhmids». Encyclopaedia Iranica. Nova Iorque: Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Colúmbia 
  • Donner, Fred M. (1981). The Early Islamic Conquests. Princeton: Princeton University Press. ISBN 0-691-05327-8 
  • Gil, Moshe (1997) [1983]. A History of Palestine, 634–1099. Cambrígia: Imprensa da Universidade de Cambrígia. ISBN 0-521-59984-9 
  • Lammens, H.; Shahid, I. (1986). «Lakhm». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume V: Khe–Mahi. 5. Leida: Brill. pp. 184–185