Tubarão-charuto-dentuço
Tubarão-charuto-dentuço
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| Estado de conservação | |||||||||||||||||||
![]() Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1] | |||||||||||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||||||||||
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| Nome binomial | |||||||||||||||||||
| Isistius plutodus Garrick & Springer, 1964 | |||||||||||||||||||
| Distribuição geográfica | |||||||||||||||||||
![]() Distribuição do tubarão-charuto-dentuço
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O tubarão-charuto-dentuço[2] (Isistius plutodus) é uma espécie rara de tubarão esqualiforme da família Dalatiidae, registrada em profundidades que variam de 60 a 200 metros (200 a 660 pés) em regiões dispersas dos oceanos Atlântico e Pacífico. Como o próprio nome comum indica, essa espécie apresenta semelhança com o tubarão-charuto (Isistius brasiliensis), porém distingue-se por possuir dentes inferiores significativamente maiores.[3] O comprimento máximo conhecido dessa espécie é de 42 centímetros. Sua alimentação baseia-se em arrancar pedaços de carne de animais maiores, como peixes ósseos, outros tubarões e mamíferos marinhos, sendo capaz de realizar mordidas mais amplas do que o seu congênere. Pouco se conhece sobre a história de vida do tubarão-charuto-dentuço. Acredita-se que seja um nadador mais fraco do que o tubarão-charuto e que apresente viviparidade aplacentária, assim como os demais membros de sua família. Essa espécie é ocasionalmente capturada de forma acidental na pesca comercial de arrasto e espinhel, porém não há indícios de que esteja fortemente ameaçada por essas atividades.
Taxonomia
O tubarão-charuto-dentuço foi descrito originalmente pelos cientistas Jack Garrick e Stewart Springer em uma edição de 1964 do periódico científico Copeia. A descrição baseou-se em uma fêmea adulta com 42 cm de comprimento, capturada por meio de uma rede de arrasto de meia-água no Golfo do México, aproximadamente 160 km ao sul de Dauphin Island, no estado do Alabama. O epíteto específico plutodus tem origem nas palavras gregas ploutos ("riqueza" ou "abundância") e odous ("dente").[4] Esta espécie também é conhecida pelos nomes comuns cação-charuto-de-dentes-grandes ou tubarão-charuto-de-dentes-grandes.[5]
Descrição
Apresenta um corpo alongado em formato de charuto, com a cabeça e o focinho extremamente curtos e rombudos. Seus olhos grandes e ovais são posicionados de modo a permitir visão binocular e são seguidos por espiráculos largos e angulados. As narinas, pequenas, possuem em cada lado um lóbulo de pele baixo e pontudo situado na parte frontal. A boca, de orientação transversal, é envolvida por uma prega profunda nos cantos e possui lábios carnudos e suctoriais.[4] As mandíbulas desse tubarão são mais largas e poderosas do que as do tubarão-charuto comum,[6] contendo menos fileiras de dentes — cerca de 29 na mandíbula superior e 19 na inferior. Os dentes superiores são pequenos, estreitos e de bordas lisas, posicionados ereticamente no centro da mandíbula e tornando-se mais inclinados em direção aos cantos.[4] Já os dentes inferiores são enormes, sendo os maiores em proporção ao corpo entre todos os tubarões vivos.[7] Eles têm formato triangular, com bordas finamente serrilhadas e bases retangulares interligadas. Os cinco pares de fendas branquiais são muito pequenos.[4]
As pequenas barbatanas dorsais, de ápices arredondados, estão situadas na parte posterior do corpo, aproximadamente no último terço. A primeira barbatana dorsal origina-se ligeiramente à frente das barbatanas pélvicas, enquanto a segunda dorsal começa logo atrás, medindo quase um terço da altura da primeira. As barbatanas peitorais são pequenas, arredondadas e posicionadas relativamente altas no corpo, logo atrás da quinta fenda branquial. As barbatanas pélvicas são minúsculas e não há barbatana anal. A barbatana caudal é muito curta, com o lobo superior duas vezes mais longo que o inferior e apresentando um entalhe ventral proeminente próximo à ponta. A coloração geral é de um marrom-escuro uniforme, com margens translúcidas nas barbatanas e fotóforos emissores de luz espalhados de forma esparsa na região ventral.[4] Alguns espécimes não apresentavam o “colar” escuro encontrado na garganta do tubarão-charuto comum. No entanto, um exemplar capturado em 2004 nos Açores possuía o colar, assim como outros espécimes recentemente coletados, o que sugere que a ausência desse colar pode ser resultado do processo de preservação.[3][8] O comprimento máximo registrado para essa espécie é de 42 centímetros.
Distribuição geográfica e habitat
Muito mais raro que o tubarão-charuto comum, o tubarão-charuto-dentuço é conhecido a partir de apenas dez espécimes registrados, capturados em poucas localidades amplamente dispersas: ao largo do Alabama, nos Estados Unidos; na Bahia, no Brasil; nos Açores e na região do Saara Ocidental, no Oceano Atlântico; além de áreas próximas a Okinawa e Nova Gales do Sul, no Oceano Pacífico. Essas capturas ocorreram na zona epipelágica, entre 60 e 200 metros (200 a 660 pés) de profundidade, em regiões próximas à costa, situadas sobre plataformas continentais, taludes continentais ou nas bordas de fossas oceânicas que podem atingir até 6,44 quilômetros de profundidade.[1] A raridade dessa espécie pode estar relacionada a uma distribuição geográfica restrita ou, mais provavelmente, ao fato de que o tubarão-charuto-dentuço prefira habitar águas mais profundas.[6]
Biologia e ecologia
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Com base no tamanho reduzido de suas nadadeiras dorsais e caudais, acredita-se que o tubarão-charuto-dentuço seja menos ativo do que seu parente próximo e, de modo geral, um nadador relativamente fraco.[carece de fontes] Grande parte de sua cavidade corporal é ocupada por um enorme fígado repleto de óleo, o que lhe permite manter flutuabilidade neutra na coluna d’água com pouco esforço energético. Diferentemente do tubarão-charuto comum, esta espécie possui visão binocular, característica que pode possibilitar maior precisão ao mirar suas presas.[6] Praticamente nada se sabe sobre sua biologia, mas presume-se que seja vivíparo aplacentário, como outros membros de sua família.[9]
Assim como a espécie mais comum, o tubarão-charuto-dentuço é um ectoparasita que se alimenta arrancando pedaços de carne de animais maiores. Enquanto se teoriza que o tubarão-charuto comum se fixa à superfície da presa e morde com um movimento de torção, produzindo uma ferida circular marcada por sulcos espirais gerados por seus dentes inferiores, o tubarão-charuto-dentuço parece empregar uma mordida mais ampla, que resulta em uma ferida oval maior e alongada — cerca de duas vezes a largura de sua boca — e com sulcos dentários paralelos.[10] Este tubarão é conhecido por morder peixes ósseos, outros tubarões e mamíferos marinhos.[1][6][11] Um estudo realizado na Bahia revelou que essa espécie é responsável por aproximadamente 80% dos ferimentos observados em cetáceos da região. As áreas mais frequentemente atacadas foram o flanco, seguidas pela cabeça e pelo abdômen. Em pelo menos três casos, as mordidas em golfinhos pareceram ter resultado em suas mortes subsequentes por encalhe.[11] Outra espécie identificada como presa na mesma área é o lobo-marinho-de-peito-branco (Arctocephalus tropicalis); ao menos dois casos de juvenis que encalharam fatalmente após serem mordidos também foram registrados.[12]
Interações humanas
Além de possivelmente causar danos a espadartes, agulhões ou a outras espécies de valor comercial, o tubarão-charuto-dentuço não possui importância econômica direta para a pesca comercial.[6] Todos os espécimes conhecidos, com exceção de um único exemplar, foram capturados acidentalmente em redes de arrasto ou palangres utilizados na pesca comercial. No entanto, considerando a baixa frequência dessas capturas e a provável ampla distribuição geográfica da espécie, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou o tubarão-charuto-dentuço como uma espécie “pouco preocupante” em relação ao risco de extinção.[1]
Referências
- ↑ a b c d Kyne, P.M.; Gerber, L.; Sherrill-Mix, S.A. (2015). «Isistius plutodus». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas (em inglês). 2015. doi:10.2305/IUCN.UK.2015-4.RLTS.T60212A3093223.en
. Consultado em 11 de novembro de 2021
- ↑ «Isistius plutodus (tubarão-charuto-dentuço/largetooth cookiecutter)». FAUNA DIGITAL DO RIO GRANDE DO SUL. Consultado em 20 de outubro de 2025
- ↑ a b Petean & Carvalho (2018). «Comparative morphology and systematics of the cookiecutter sharks, genus Isistius Gill (1864) (Chondrichthyes: Squaliformes: Dalatiidae)». PLOS ONE (em inglês). 13 (8). Bibcode:2018PLoSO..1301913D. PMC 6101376
. PMID 30125292. doi:10.1371/journal.pone.0201913
- ↑ a b c d e Garrick, J.A.F.; Springer, S. (31 de dezembro de 1964). «Isistius plutodus, a New Squaloid Shark from the Gulf of Mexico». Copeia (em inglês). 1964 (4): 678–682. JSTOR 1441443. doi:10.2307/1441443
- ↑ «Cação-charuto-de-dentes-grandes (Isistius plutodus)». iNaturalist. Consultado em 30 de março de 2025
- ↑ a b c d e Compagno, L.J.V. (1984). Food and Agricultural Organization, ed. Sharks of the World: An Annotated and Illustrated Catalogue of Shark Species Known to Date (em inglês). Roma: [s.n.] p. 95–96. ISBN 978-92-5-101384-7
- ↑ McGrouther, M. (19 de junho de 2009). Largetooth Cookiecutter Shark, Isistius plutodus Garrick & Springer, 1964. Australian Museum. Recuperado em 24 de setembro de 2009.
- ↑ Zidowitz, H.; Fock, O.; Pusch C.; von Westernhagen, H. (2004). «A first record of Isistius plutodus in the north-eastern Atlantic» (PDF). Journal of Fish Biology (em inglês). 64 (5): 1430–1434. doi:10.1111/j.0022-1112.2004.00382.x
- ↑ Froese, Rainer; Pauly, Daniel (eds.) (2009). "Isistius plutodus" em FishBase. Versão de setembro de 2009.
- ↑ Pérez-Zayas, J.J.; Mignucci-Giannoni, A.A.; Toyos-González, G.M.; Rosario-Delestre, R.J.; Williams, E.H. Jr. (2002). «Incidental predation by a largetooth cookiecutter shark on a Cuvier's beaked whale in Puerto Rico». Aquatic Mammals (em inglês). 28 (3): 308–311
- ↑ a b Souto, L.R.A.; Abrão-Oliveira, J.G.; Nunes, J.A.C.C.; Maia-Nogueira, R.; Sampaio, C.L.S. (Março de 2007). «Analysis of cookiecutter shark Isistius spp. (Squaliformes; Dalatiidae) bites in cetaceans (Mammalia; Cetacea) on the Bahia coast, northeastern Brazil». Biotemas (em inglês). 20 (1): 19–25
- ↑ Souto, L.R.A.; Abrão-Oliveira, J.G.; Maia-Nogueira, R.; Dórea-Reis, L.W. (2008). «Interactions between subantarctic fur seal (Arctocephalus tropicalis) and cookiecutter shark (Isistius plutodus) in the coast of Bahia, north-east of Brazil» (PDF). JMBA2 - Biodiversity Records (em inglês). Consultado em 24 de setembro de 2009. Cópia arquivada (PDF) em 21 de julho de 2011

