Cephaloscyllium

Cephaloscyllium
Ocorrência: Mioceno–Presente[1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Divisão: Selachii
Filo: Chordata
Classe: Chondrichthyes
Subclasse: Elasmobranchii
Ordem: Carcharhiniformes
Família: Scyliorhinidae
Género: Cephaloscyllium
T. N. Gill, 1862
Espécie-tipo
Scyllium laticeps
A. H. A. Duméril, 1853

Cephaloscyllium[2] é um gênero de tubarões-gato, pertencente à família Scyliorhinidae, comumente conhecidos em inglês como swellsharks devido à sua capacidade de inflar o corpo com água ou ar como defesa contra predadores. Esses tubarões lentos e bentônicos são encontrados amplamente nas águas costeiras tropicais e temperadas dos oceanos Índico e Pacífico. Possuem corpos robustos em forma de fuso e cabeças curtas, largas e achatadas. A boca é ampla, contendo muitos dentes pequenos e sem sulcos nos cantos. As duas nadadeiras dorsais estão posicionadas bem para trás no corpo, com a primeira muito maior que a segunda. Diferentes espécies apresentam padrões de coloração variados, com selas, manchas, retículos e/ou pontos. As maiores espécies do gênero podem atingir mais de 1 m de comprimento. Os tubarões do gênero Cephaloscyllium alimentam-se de uma variedade de peixes e invertebrados, e são ovíparos, com as fêmeas produzindo bolsas de sereia em pares. São inofensivos e considerados sem valor comercial.

Taxonomia

O gênero Cephaloscyllium foi proposto pelo ictiólogo norte-americano Theodore Nicholas Gill a partir do grego kephale ("cabeça") e skylion ("cação"), em uma edição de 1862 de Annals of the Lyceum of Natural History of New York.[2][3] No entanto, a maioria dos contemporâneos de Gill, especialmente na Europa, preferia manter os tubarões no gênero Scyllium (um sinônimo de Scyliorhinus). Cephaloscyllium só ganhou ampla aceitação após Samuel Garman publicar "The Plagiostomia" em um volume de 1913 de Memoirs of the Museum of Comparative Zoology, no qual reconheceu três espécies: C. isabellum [en], C. ventriosum e C. umbratile.[2]

Existe uma longa história de confusão taxonômica em relação às espécies de Cephaloscyllium devido a vários fatores, incluindo variação na aparência (particularmente entre filhotes e adultos), a existência de múltiplas espécies não descritas, escassez de descrições científicas detalhadas e materiais-tipo, e o uso de caracteres não confiáveis. Até recentemente, vários autores reconheciam de cinco a oito espécies, além de pelo menos cinco espécies não descritas nas águas australianas e mais no Pacífico centro-oeste e no oceano Índico.[3] Em 2008, estudos significativos resolveram a taxonomia de Cephaloscyllium, com uma revisão do gênero e aumento do número de espécies descritas para 21.[3][4][5]

Descrição

Tubarões da espécie C. ventriosum possuem cabeças largas e achatadas e corpos grossos

Os tubarões do gênero Cephaloscyllium são robustos e em forma de fuso, com o tronco afinando substancialmente até o pedúnculo caudal. A cabeça é curta (constituindo menos de um quinto do comprimento total), larga e achatada. O focinho é muito curto e rombudo, com as narinas precedidas por abas de pele lateralmente alargadas. Os olhos são ovalados horizontalmente ou em fenda e posicionados no alto da cabeça, com pupilas felinas e pálpebras nictitantes rudimentares. Há uma crista larga sob cada olho e um espiráculo [en] atrás. A boca é muito grande e larga, contendo muitos dentes pequenos e multicúspides; os dentes superiores ficam expostos quando a boca está fechada (exceto em C. silasi). Não há sulcos nos cantos da boca.[2]

As nadadeiras peitorais geralmente são grandes e largas, enquanto as nadadeiras pélvicas são pequenas. As duas nadadeiras dorsais estão posicionadas bem para trás no corpo: a primeira nadadeira dorsal origina-se atrás das origens das nadadeiras pélvicas, enquanto a segunda nadadeira dorsal está posicionada aproximadamente oposta à nadadeira anal. A primeira nadadeira dorsal e a nadadeira anal são muito maiores que a segunda nadadeira dorsal. A cauda é curta; a nadadeira caudal é larga com um lobo inferior distinto e uma forte incisura ventral perto da ponta do lobo superior. A pele é espessa e coberta por dentículos dérmicos bem-calcificados. A coloração costuma ser acinzentada ou marrom, com padrões variados que incluem selas, manchas, retículos e/ou pontos.[2] Em várias espécies, os filhotes diferem substancialmente na coloração dos adultos. As espécies de Cephaloscyllium geralmente se dividem em dois grupos de tamanho: espécies anãs incluem C. fasciatum e C. silasi, com menos de 50 cm de comprimento, e espécies grandes incluem C. umbratile e C. ventriosum, que podem exceder 1 m de comprimento.[4]

Distribuição e habitat

Cephaloscyllium está amplamente distribuído nos oceanos Índico e Pacífico, em águas temperadas e tropicais, mas não próximo à linha do equador. A diversidade de tubarões do gênero Cephaloscyllium é maior ao redor da Austrália e no Pacífico centro-oeste, onde diversas espécies endêmicas são encontradas. Os membros mais distantes do gênero são C. sufflans [en] no sudeste da África, C. silasi no sudoeste da Índia, C. umbratile no noroeste do Pacífico e C. ventriosum ao longo da costa oeste da América.[4] Uma hipótese sugere que Cephaloscyllium evoluiu originalmente na Austrália e na Nova Guiné, dispersando-se subsequentemente em uma série de eventos de colonização, chegando, por fim, na África e na América.[4] Espécies de Cephaloscyllium, tubarões bentônicos, são encontradas desde a zona entremarés até profundidades de 670 m em encostas continentais e insulares superiores.[3]

Biologia e ecologia

Membros do gênero Cephaloscyllium são geralmente animais lentos e sedentários com modo de natação anguiliforme (semelhante a enguias).[4] Das espécies cujas dietas foram documentadas, sabe-se que se alimentam de uma ampla variedade de organismos bentônicos, incluindo outros tubarões e raias (elasmobrânquios), peixes ósseos, crustáceos e moluscos.[6] Os tubarões do gênero Cephaloscyllium são talvez mais conhecidos por sua capacidade de se inflar rapidamente engolindo água ou ar quando ameaçados; esse comportamento pode permitir que se encaixem em fendas, tornem-se mais difíceis de engolir e/ou intimidem predadores potenciais. A reprodução é ovípara, com as fêmeas produzindo dois ovos por vez, um em cada oviduto. Os ovos individuais são envolvidos em bolsas de sereia em forma de frasco com tentáculos nos cantos que permitem sua fixação a estruturas subaquáticas.[2] Recentemente, foi documentado que Cephaloscyllium pode gerar novos organismos por partenogênese, um processo natural que permite a reprodução assexuada, sem fertilização.[7]

Filogenia e evolução

Imagem para visualizar as similaridades filogenéticas entre espécies de Cephaloscyllium

Estudos morfológicos e de filogenética molecular mostraram que o parente mais próximo de Cephaloscyllium é Scyliorhinus, e esses dois gêneros e Poroderma [en] formam a subfamília Scyliorhininae, o clado mais basal da ordem Carcharhiniformes.[2][4] Os fósseis confirmados mais antigos de Cephaloscyllium provêm de depósitos do Mioceno (23–5,3 milhões de anos atrás), na Califórnia,[1] embora, com base na taxa de divergência do DNA em tubarões, a linhagem dos tubarões do gênero Cephaloscyllium provavelmente remonte ao Cretáceo (145,5–65,5 milhões de anos atrás).[4]

Espécies

Atualmente, há 17 espécies reconhecidas neste gênero:[2]

Interações com humanos

Os tubarões do gênero Cephaloscyllium são inofensivos para os humanos e geralmente sem valor econômico, mas são suscetíveis de serem capturados como fauna acompanhante nas pescas artesanal e comercial.[4] Várias espécies (ex.: C. umbratile e C. ventriosum) são conhecidas por serem extremamente resistentes, capazes de sobreviver fora da água por períodos prolongados e se adaptando facilmente ao cativeiro.[6]

Referências

  1. a b Williams, G.S. (1999). Neoselachii. A Listing of Fossil sharks and Rays of the World. Consultado em 14 de fevereiro de 2010.
  2. a b c d e f g h Compagno, L.J.V. (2003). Sharks of the order Carcharhiniformes. Blackburn Press. pp. 110–115, 392. ISBN 1-930665-76-8.
  3. a b c d Schaaf-Da Silva, J.A. and D.A. Ebert (8 de setembro de 2008). "A revision of the western North Pacific swellsharks, genus Cephaloscyllium Gill 1862 (Chondrichthyes: Carcharhiniformes: Scyliorhinidae), including descriptions of two new species". Zootaxa 1872: 1–8.
  4. a b c d e f g h Schaaf-Da Silva, J.A. (December 2007). A Taxonomic Revision of the North Pacific Swell Sharks, Genus Cephaloscyllium. M.Sc. Thesis, San José State University.
  5. Last, P.R., W.T. White e J.J. Pogonoski (eds) (2008). Descriptions of new Australian Chondrichthyans. CSIRO Marine and Atmospheric Research Paper No. 022. ISBN 9780192142412.
  6. a b Michael, S.W. (1993). Reef Sharks & Rays of the World. Sea Challengers. pp. 52–53. ISBN 0-930118-18-9.
  7. Feldheim, K. A., et al. "Multiple births by a captive swellshark C ephaloscyllium ventriosum via facultative parthenogenesis." Journal of Fish Biology 90.3 (2017): 1047-1053.